Parnaso

Senhores e Escravos

Genealogia da Moral, conhecido por tratar na forma de três dissertações de alguns dos temas preferidos de Friedrich Nietzsche (1844-1900), começa abordando a já famosa oposição entre a moral dos senhores e a dos escravos:
A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” — e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores — este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si — é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto — sua ação é no fundo reação.

A descrição é bem justa, e Ortega y Gasset parece ecoá-la mais tarde quando observa que todo movimento ‘anti-‘ não passa de um retrocesso, uma tentativa de meramente voltar, sem qualquer tipo de assimilação, à época em que o que queremos destruir ainda não existia. Para quem a vontade de poder, esse princípio tão misterioso quanto energético, representa a essência mesmo do ser humano, não poderia haver heresia mais grave que abdicar da ação em troca de uma simples reação. Não nos deve surpreender o fato de Nietzsche considerá-los, então, nada menos que doentes, a ponto de comprometer até mesmo o ar que respiram. A aparente obsessão de Nietzsche por toda sorte de doenças e distúrbios mentais é representativa disso.

A oposição fica mais clara com um exemplo fornecido pelo próprio Nietzsche: aves de rapina que se alimentam de ovelhinhas. Pode-se até entender o protesto das ovelhas (apesar de que, se seus protestos fossem ouvidos, quem estaria em apuros seriam as aves, o que significa dizer que as ovelhas querem nada mais que uma transferência de desgraças), mas o curioso é observar como a moral dos derrotados surge a partir dessa posição desconfortável. Na mentalidade das ovelhas, os decanos da moral são elas mesmas, que não precisam se alimentar de outras ovelhas para sobreviver. O “não-eu”, tudo que não é oprimido e devorado, aves de rapina e qualquer outra coisa que se distancie da posição de ‘ovelha’, é automaticamente associado ao moralmente desprezível e abjeto. A moral das ovelhas não se define a partir do que elas são, mas do que elas não são: aves de rapina.

Através dos séculos, a responsabilidade de manter o que se entende por moral e de tentar responder às questões de maior escopo passou do ‘doutor em filosofia’ (o modelo do rei filósofo de Platão) para o gentleman e, mais recentemente, para o homem especializado. O que se percebe nessa sucessão é uma gradativa diminuição na crença em valores fixos, eternos. O doutor em filosofia discutia a vida enquanto vontade divina, quando Deus ainda ocupava, indiscutivelmente, o centro de qualquer consideração moral; o gentleman já vive numa sociedade secularizada, mas ainda tem condições de lançar mão de princípios com um mínimo de autoridade universal (liberdade, honra ou o que for); já o especilista não dispõe de nenhuma matriz do que poderia chamar ‘verdade': ele segue objetivamente suas descobertas. Já não há mais verdade, há apenas fatos.

Pois bem, o que Nietzsche procura fazer é questionar o valor da ‘verdade’. Exaspera-o a constatação de que tanto o monge protestante quanto o cientista e o ateu partem de um mesmo pressuposto: o de que é preciso a todo custo chegar à verdade, já que seu valor, enquanto tal, é indiscutível e essencial. O ‘vencedor’, o ‘senhor’ de Nietzsche é aquele que portanto não é acometido por problemas de consciência, o que Paulo César de Souza traduziu como consciência. Se não há uma verdade capaz de nos fazer ver que estamos terrivelmente errados (essa possibilidade não existe para quem segue sua genuína e original vontade de poder), realmente não faz muito sentido perder tempo com mortificações típicas de um culpado. O peso na consciência, para Nietzsche, não passa de uma autoflagelação insana, uma radical negação da própria vida, uma doença aparentemente incurável.

Daí que o modelo cristão, que para mim representa a atitude do ‘senhor’, pareça-lhe a mais genuína encarnação do ‘escravo':

… e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade'; a baixeza medrosa, em ‘humildade'; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor esta submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão. Falam também do ‘amor aos inimigos’ — e suam ao falar disso.

E, como consequência da ausência de ‘verdade':

Falar de justo e injusto em si carece de qualquer sentido; em si, ofender, violentar, explorar, destruir não pode naturalmente ser algo “injusto”, na medida em que essencialmente, isto é, em suas funções básicas, a vida atua ofendendo, violentando, explorando, destruindo, não podendo sequer ser concebida sem esse caráter.

Temos aí bastante food for thought, como diriam os gringos: quantos Nietzsches seriam necessários para acabar de vez com a influência paralisante e opressora da má consciência? Parece que o processo já está em andamento.

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