Parnaso

Exercício de Tradução (1)

A idéia é traduzir o seguinte parágrafo, o primeiro do livro The Sun Also Rises do Hemingway:

Robert Cohn was once middleweight boxing champion of Princeton. Do not think that I am very much impressed by that as a boxing title, but it meant a lot to Cohn. He cared nothing for boxing, in fact he disliked it, but he learned it painfully and thoroughly to counteract the feeling of inferiority and shyness he had felt on being treated as a Jew at Princeton. There was a certain inner comfort in knowing he could knock down anybody who was snooty to him, although, being a very shy and a thoroughly nice boy, he never fought except in the gym. He was Spider Kelly’s star pupil. Spider Kelly taught all his young gentlemen to box like featherweights, no matter whether they weighed one hundred and five or two hundred and five pounds. But it seemed to fit Cohn. He was really very fast. He was so good that Spider promptly overmatched him and got his nose permanently flattened. This increased Cohn’s distaste for boxing, but it gave him a certain satisfaction of some strange sort, and it certainly improved his nose. In his last year at Princeton he read too much and took to wearing spectacles. I never met any one of his class who remembered him. They did not even remember that he was middleweight boxing champion.

Ninguém teria muita dificuldade em entender esse parágrafo, mesmo tendo estudado inglês superficialmente. Vejamos o que acontece na tradução:

Robert Cohn já foi campeão dos pesos médios de Princeton. Não pense que isso me impressiona muito como um título de boxe, mas significava muito para Cohn. Ele não ligava importância ao boxe, na realidade nem mesmo gostava de boxe, mas aprendeu a lutar com afinco e dedicação para contrabalançar o sentimento de inferioridade e timidez que sentiu por ser tratado como judeu em Princeton. Havia um certo conforto interior em saber que ele podia derrubar quem o tratasse com arrogância, apesar de que, por ser um garoto muito tímido e de conduta impecável, ele nunca lutou fora do ginásio. Ele era o melhor pupilo de Spider Kelly. Spider Kelly ensinava todos os seus jovens lutadores a lutar como pesos pena, não importando se eles pesavam cento e cinco ou duzentos e cinco pounds. Mas pareceu dar certo com Cohn. Ele era realmente muito rápido. Ele era tão bom que Spider não hesitou em arrumar-lhe um adversário de categoria superior, o que lhe custou um nariz permanentemente achatado. Isso aumentou o desgosto de Cohn pelo boxe, mas deu a ele uma certa satisfação estranhamente indefinida, e seu nariz ficou realmente melhor. No seu último ano em Princeton ele leu demais e começou a usar óculos. Eu nunca conheci ninguém de sua turma que se lembrasse dele. Eles não lembravam nem que ele foi compeão dos pesos médios.

Não sei se isso é perceptível para quem lê, mas traduzir esse trecho foi, para mim, mais difícil que traduzir trechos de Charles Dickens, de Edgar Poe e, pasmem, de Henry James. Isso vai ser sempre verdade se vocabulário não representar um problema para o tradutor. Não conheço a tradução para o português do The Sun Also Rises, mas li a do The Old Man and the Sea, publicada pela Bertrand Brasil. Um desastre porque não foge de expressões como a thoroughly nice boy que, se traduzidas literalmente, parecem ter sido escritas por uma criança. O Velho e o Mar, da Bertrand Brasil, parece ter sido escrito por uma criança.

Hemingway também é conhecido por usar bem o recurso do diálogo. Aqui o problema não parece ser menor. Por exemplo, como traduzir o último diálogo do The Sun…, um dos desfechos mais emocionantes que já li? Aqui está:

“Oh, Jake,” Brett said, “we could have had such a damned good time together.”
“Yes,” I said. “Isn’t it pretty to think so?”

P.S.: Jake, o narrador do livro, é impotente devido a um ferimento de guerra.

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A Cidade de Lewis Mumford

Não é por acaso, pois, que mais de uma cidade histórica alcançou seu ponto culminante no diálogo que resume sua experiência total da vida. No Livro de Jó, vê-se Jerusalém; em Platão, Sófocles e Eurípedes, Atenas; em Shakespeare e Marlowe, Dekker e Webster, a Londres elisabetana. Num sentido, o diálogo dramático é, ao mesmo tempo, o símbolo mais pleno e a justificação final da vida na cidade. Pela mesma razão, o símbolo mais relevante do fracasso da cidade, na sua própria inexistência como personalidade social, é a ausência do diálogo – não necessariamente o silêncio, mas igualmente o som ruidoso de um coro que pronuncia as mesmas palavras, num conformismo acuado embora complacente. O silêncio de uma cidade morta tem mais dignidade que os vocalismos de uma comunidade que não conhece nem o retiro nem a oposição dialética, nem a observação irônica nem a disparidade estimulante, nem um conflito inteligente nem uma resolução moral ativa. Semelhante drama está destinado a ter um fatal último ato.

Essa me parece ser a caracterização de cidade mais interessante dentre as muitas propostas por Lewis Mumford em seu The City in History: Its Origins, Its Transformations and Its Prospects [Edição brasileira da Martins Fontes, A Cidade na História, traduzida por Neil R. da Silva], livro de 1961. A imagem de um drama urbano vem por acasião da descrição da cidade antiga, mais precisamente da pólis grega, na qual, segundo argumenta Mumford, o ideal da cidade teria se desenvolvido grandemente, a despeito de suas falhas.

Se nas primeiras páginas Mumford se dedica a tentar esclarecer os processos orgânicos que teriam dado origem à cidade primitiva (e, nesse sentido, opõe-se a algumas idéias falaciosas, como a de que a guerra é tão antiga quanto qualquer ajuntamento humano), é só a partir da discussão da antiguidade oriental, e, principalmente, da pólis grega, que ele começa a delinear seu modelo de cidade ideal. Da pólis grega (refere-se principalmente a Atenas), absorve a noção do cidadão ciente de sua invididualidade e que, por isso mesmo, é capaz de “dialogar” e tomar parte na “oposição dialética” da vida urbana; um avanço radical, portanto, em relação à massa amorfa de trabalhadores egípcios ou mesopotâmicos, submetidos aos desvarios de um monarca convenientemente deificado. Também chama a atenção para a necessidade de limitar o crescimento urbano, de vez que essa hipertrofia ameaça sacrificar a própria função da cidade: o intercâmbio social, assim como a manutenção (e, preferivelmente, a ampliação) do legado cultural herdado.

Desse pequeno sumário já se percebe que uma crítica às idéias de Platão concernentes à cidade estava por vir. O pensador ateniense, ao sugerir que a cidade fosse dividida em três partes (os governantes, representados por sábios e filósofos que teriam bastante tempo livre para exercer suas funções eminentemente intelectuais; os soldados, que cuidariam da defesa da cidade; e os trabalhadores rurais, responsáveis pela alimentação de toda a população) excluiu a possibilidade de um ambiente que foi responsável pelo surgimento de cidadãos como ele próprio. Uma comunidade assim petrificada, em que cada componente deve limitar-se a fazer, durante toda sua existência, apenas aquilo a que foi designado ao nascer, representa realmente um empecilho à criatividade e ao dinamismo social. Ademais – e essa é uma observação de Aristóteles, seu discípulo -, seria necessário um território do tamanho de Alexandria para que um terço da população pudesse alimentar a si próprio e aos dois terços restantes. Vale lembrar que, apesar das muitas objeções, Mumford reconhece na cidade teórica de Platão (mais tarde refinada por Aristóteles) alguns dos aspectos quintessenciais ao desenvolvimento sadio do tecido urbano: o deliberado controle do crescimento e a implementação, ainda que incipiente, de medidas sanitárias.

O reductio ad absurdum dos erros gregos referentes ao planejamento de um crescimento ordenado será perpetrado pelos romanos, representados pela capital Roma. Aqui, a primeira impressão que se tem (e já li esse comentário pela Internet) é que Mumford é um verdadeiro detrator da civilização romana. Em verdade, se tomarmos o cuidado de limitar essa detração ao âmbito físico do desenvolvimento citadino, ele não deixa de sê-lo. É em Roma que vemos florescer os aspectos que, segundo parece, mais contrariam a idéia que Mumford faz de um ambiente urbano harmonioso. Em páginas cuja severidade das críticas só será igualada na descrição da cidade industrial moderna, Mumford promove um verdadeiro desfile das aberrações testemunhadas pelos habitantes menos privilegiados de Roma. Numa época em que as instalações sanitárias raramente chegavam ao segundo andar das edificações, a paisagem urbana era invariavelmente infestada por excrementos jogados a esmo, além de toda sorte de lixo, até que alguém se desse ao trabalho de recolher toda a porcaria para utilizar como fertilizante no campo. Os corpos dos mortos eram jogados em valas, abertas de improviso (e dificilmente fechadas) paralelamente às ruas, por falta de, vejam só, espaço. Os conjuntos habitacionais, apinhados e pessimamente construídos – desabamentos não eram incomuns -, representavam risco de vida constante aos que não tinham mais onde morar.

Semelhante drama, pelo menos para Roma, esteve de fato destinado a um fatal último ato, como bem sabemos. Não deixa de ser curioso que o crescente temor gerado pelas muitas invasões do período tenha gerado um meio, posto que artificial, de impedir o crescimento desenfreado das cidades: a muralha. A cidade medievel é cercada por uma quantidade tão vasta de falsas impressões (propugnadas levianamento pelos que vieram depois) que, mesmo com algum conhecimento prévio, não há como não considerar essa seção a mais impressionante de todo o livro. Mumford não só desmente o grosso dessas impressões; frequentemente aponta um caminho diametralmente oposto, a começar pelo próprio advento do ajuntamento urbano medieval:

A necessidade política de se criarem cidades surgiu primeiro que a necessidade econômica. Nos humildes começos das novas cidades da Idade Média, as considerações de ordem militar sempre foram capitais. Um governante (…) construía rudes fortalezas e estimulava seus súditos a nelas residirem, para que pudessem assumir a responsabilidade da sua defesa permanente.

Esse núcleo urbano inicial se desenvolveria razoavelmente bem antes mesmo que as novas necessidades econômicas impulsionassem a ‘revolução’ urbana e comercial do século XI. Mumford destaca ainda o papel das guildas (que mais tarde dariam origem às universidades) na manutenção de um ambiente humano afeito às interações sociais indispensáveis a qualquer cidade. Até mesmo as renitentes acusações referentes à higiene medieval são postas em perspectiva:

Acentuo a persistência rural na cidade medieval por causa da falsa imagem contrária que por muito tempo se impôs como uma idéia fixa, quase por demais firmemente irracional para ser removida pela apresentação da prova real. As pessoas ainda confundem a decadência cumulativa, que preencheu os espaços verdes, com a estrutura original, que era aberta e sólida. Enquanto esses espaços abertos permaneceram, os rudes dispositivos sanitários da pequena cidade medieval não foram necessariamente tão ofensivos quanto eram pintados. Queixas como as feitas pelos Frades Predicantes, em Beziers, 1345, por causa dos maus odores saídos de um curtume, dificilmente teriam sido feitas se os maus odores fossem constantes universais.

Em tempo: Mumford se revela, realmente, um grande defensor da cidade medieval, principalmente quando esta é contrastada com a que se lhe seguiu. Afirma que “As contradições da vida medieval eram de menor importância, comparadas com aquelas que encerramos em nosso próprio peito.” A importância de um contato mais direto com o meio rural e da existência de amplos espaços abertos para jardins e parques vai ser enfatizada à exaustão até o fim do livro. Os capítulos seguintes, que tratam das cidades modernas (a Coketown – termo cunhado por Charles Dickens em seu Hard Times – ou cidade industrial dos séculos XVII e XVIII e a Megalópolis dos séculos XIX e XX) chegam a ser tediosos. As repreensões, sempre inexoráveis, se estendem por mais de cem páginas, e não chega a ser surpreendente que se compare essa parte do livro ao The Condition of the Working Class in England, de Engels; de fato, Mumford não é menos obstinado que o alemão.

Essas críticas são não raro tidas como exageradas e infundadas; Mumford não se abstém de usar termos como “caos padronizado”, “devastação urbana”, “devoradores de espaço” ou “galinheiro” para se referir à cidade e a seus componentes, mas convém indagar se já não estaríamos por demais habituados ao tal caos padronizado para realmente perceber a realidade dessas advertências. Basta perceber que não nos incomoda tanto permanecer horas consecutivas em ambientes fechados, iluminados artificialmente, nem tampouco o barulho ensurdecedor das cidades ou até mesmo de shopping centers (ou de algumas bibliotecas). A verdade é que Mumford escreve terrivelmente bem – impressão que persiste mesmo no texto traduzido -, e sabe usar essa habilidade para pintar um quadro sinistro do mundo contemporâneo, valendo-se inclusive das contribuições de Huxley e Orwell. Diz ele do homem “pós-histórico”:

Uma das antigas prerrogativas dos deuses era criar o homem da sua própria carne, como Atum, ou à sua própria imagem, como Javé. Quando o clero científico acreditado for um pouco mais além, com as suas atividades atuais, o novo homúnculo em tamanho natural também será processado: já se podem ver modelos antecipatórios em nossas galerias de arte. Parecerá ele admiravelmente semelhante a um homem ataviado num “traje espacial”: externamente, um enorme inseto cheio de escamas. Mas a face interior será incapaz de expressão, tão incapaz como a de um cadáver: e quem saberá perceber a diferença?

O que não significa que não admita a possibilidade de melhoras. Mumford aponta as Cidades-Jardim de Ebenezer Howard (cidades de tamanho limitado, cercadas por um cinturão verde e com zoneamento cuidadosamente planejado, mantendo estreito contato com as áreas rurais adjacentes) como um modelo a ser seguido. O sucesso dessas cidades na europa atestam a sua factibilidade. Vale lembrar, também, que as críticas de Mumford não são digiridas ao capitalismo em particular: os processos destrutivos da cidade, acredita ele, são inerentes à própria cidade, e não à ideologia que a governa.

Ao final da leitura, tem-se a impressão de que, pelo menos para Lewis Mumford, o conselho de Cândido – “devemos cultivar nosso jardim” – não é tão metafórico assim.

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A Desfiguração da Verdade

Numa das muitas polêmicas em que Gustavo Corção esteve envolvido, ele protesta contra a publicação de artigos (no Jornal do Brasil, então sob a responsabilidade de Alberto Dines, e no ano seguinte, 1968, na revista Manchete) que, segundo ele, desfiguravam a imagem do Natal e de Jesus Cristo. Os artigos propalavam uma nova doutrina segundo a qual Jesus estaria limitado ao âmbito humano, revelando apenas características de um líder excepcional. Há o particular de ambos os artigos terem sido publicados no período de Natal. Não é minha intenção aqui procurar saber quem tinha razão (apesar de que uma rápida leitura de toda a polêmica não nos deixa dúvidas quanto a isso), mas sim lamentar a obstinação com que certos indíviduos, quando se vêem irremediavelmente sem argumentos, desfiguram, de maneira tão cínica quanto possível, a verdade evidente dos fatos. Aqui temos Corção, em seu artigo-protesto:

E aqui, muito a contragosto, assinalo uma estranha coincidência: em ambas as publicações, a do “Jornal do Brasil” do ano passado e a de “Manchete” deste ano, há responsabilidade de um ou mais judeus. E eu lhes pergunto: por que nos provocam, a nós que os recebemos de braços abertos quando outros povos e outros governos os perseguiam? E antes que me apontem como anti-semita eu venho lembrar os títulos de amizade publicados em meu livro Dez Anos, e sou forçado a dizer que tenho hoje meu nome em cem árvores piedosamente plantadas em terras de Israel por uma judia que assim fez questão de provar sua amizade. Por que nos provocam? Por que nos injuriam? 

Não chega a surpreender que Corção tenha antecipado a acusação de anti-semita; conhecia muito bem a leviandade daqueles com quem estava lidando. Faz-se necessário, nesse contexto, escrever como se apenas crianças estivessem a ler: se fazemos um comentário como o de Corção, não nos bastará um passado completamente isento de implicações anti-semitas, tampouco relações de genuína amizade com judeus; será necessário enumerar tediosamente as provas que já estavam disponíveis a quem quer que tivesse um mínimo de interesse em conhecê-las. Não obstante, alguns dias após a publicação do artigo-protesto de Corção n’O Globo (10-01-1969), publicam-se, entre outras, as seguintes linhas num editoral do Jornal do Brasil:

De repente surgiu no Brasil uma voz odiosa, desenterrando fantasmas do capítulo mais negro da história da humanidade, que parecia estar definitivamente sepultado com as cinzas de Belsen, de Auschwitz, de Dachau, de Treblinka. Trata-se do estilo amargo e bilioso do Sr. Gustavo Corção, que resolveu levantar nas terras de nossa democracia racial a bandeira cruel e desumana do anti-semitismo. 

Que fazer com essa acusação, refutada antes mesmo de ter tido a chance de existir? Repetir os mesmos argumentos enumerados anteriormente? Corção repete-os e enumera alguns outros, dentre os quais está o seu conhecimento de que o povo judeu é, antes de mais, privilegiado:

“Deus dará a cada segundo suas obras… tribulações e angústias aos homens que praticam o mal, primeiro ao Judeu e em seguida ao Gentio; glória, honra e paz a quem faz o bem, primeiro ao Judeu e depois ao Gentio”. Eis aí o sobrenatural privilégio desse povo de cuja ruína nos veio a maior riqueza (Rm 11, 12). 

Na resposta a esse seu segundo artigo, Corção é acusado de, vejam só, anti-semita. Oscar Wilde perguntaria: Are they crazy, or only pretending to be? Essa pergunta é uma versão moderna da conclusão a que poderíamos chegar através da lógica aristotélica apenas: ou eles não conhecem a regra do jogo (isto é, não sabem do que estão falando) ou estão intencionalmente tentando nos enganar (no caso, os leitores).

Clique aqui para ler a polêmica.

Esse é apenas um exemplo em muitos. Até eu já fui vítima dessa burrice voluntária (ou não tão voluntária assim). Ano passado, na universidade em que estudo, atrevi-me a sugerir que o bom aluno tem mais credibilidade que o mau aluno (refiro-me ao desempenho acadêmico). Acabei sendo convidado a resolver a questão “na porrada”. Quem me conhece sabe que minha compleição franzina não me permite condescender a tais aventuras, mas insisto em explicar melhor a situação.

Certa feita, um mau aluno desatou a esbravejar reprimendas, censuras e considerações as mais arrogantes. Observei serenamente que havia ali um certo descompasso entre discurso e atitude, já que, como sabemos, não se tratava do que se costuma chamar aluno exemplar. Fui, naturalmente, acusado de fascista. Além de um singelo convite às porradas, minha insinuação rendeu um artigo no jornalzinho dos alunos (acho que posso pular a parte dos erros gramaticais), no qual se dizia que, a depender de mim, apenas os alunos com notas excelentes poderiam abrir a boca. Que isso era uma verdadeira ameaça a uma instituição tradicional, respeitadora da liberdade de expressão de seus alunos, não restava a menor dúvida. Só não fiquei com medo de ter minha casa incendiada porque o incidente das charges dinamarquesas ainda não havia ocorrido.

Reconhece-se logo esse tipo de gente. São eles que começam uma frase com um “Desculpe minha ignorância, mas…”, na esperança de parecem grandiosamente modestos e descolados, ao mesmo tempo que ignoram o fato básico de que ignorância é o que menos se pode desculpar numa discussão. Seria o mesmo que dizer: “Sei que minha opinião é um completo absurdo, mas, por favor, concorde comigo.” Não, não concordo. Nem desculpo.

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Declínio e Queda do Beijo Ocidental

É curioso o fenômeno do beijo (na boca) atual. A obsolescência do termo beijo para descrever esse típico cumprimento dos casais de hoje deve ficar evidente ao observarmos os outros tipos de beijo: ninguém abre a boca, numa tentativa desesperada de – é o que me parece – abarcar o crânio de um indivíduo ao dar-lhe um beijo no rosto. Similarmente, não costumamos tentar lamber e engolir os dedos de cuja mão estamos a beijar, pelo menos quando estamos em público. De tal maneira que o beijo na boca, na acepção atual, é um adorno social dos mais peculiares, para não dizer dos mais estarrecedores.

Trata-se de prática bastante difundida; as pessoas já andam com a boca entreaberta, com filetes de saliva a escorrer pelos cantos; sedentos. A língua já perdeu toda sua privacidade, de vez que raramente se encontra dentro da boca. Não deixa de ser divertido observar casais que, plenamente conscientes da singularidade do ritual do beijo, refestelam-se da melhor maneira possível numa parede qualquer e, com um ar altivo de quem está fazendo um grande bem a humanidade, dão início a um processo de transferência de fluidos que só vem a ter fim quando não se sabe mais de quem é cada língua.

Pergunto a mim mesmo se o beijo tradicional foi dispensado por um processo de eliminação crítica ou por mero desconhecimento de sua existência. Ciente de que a segunda opção está mais próxima da realidade, antecipo-me e mando uma foto de James Stewart com Grace Kelly, os quais, apesar de não arriscarem um deslocamento de mandíbula durante o beijo, não parecem menos satisfeitos.

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Huntington no Primeira Leitura

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

Fábio Santos, em textos de 6 e 8 de fevereiro, procura refutar a tese mais famosa do cientista político norte-americano Samuel P. Huntington, segundo a qual a fonte primordial de conflitos em potencial no mundo contemporâneo é de ordem cultural, ou, como ele procura definir, de ordem civilizacional. O problema da crítica de Santos parece residir numa interpretação demasiado literal da expressão clash of civilizations. Afirma ele que “A noção de uma guerra de civilizações, por outro lado, pode levar ao encastelamento das sociedades ocidentais — algo já perceptível em certas reações européias à agitação de imigrantes muçulmanos.”

A noção de uma guerra de civilizações pode, sem dúvida, levar a essa noção de encastelamento, mas não é isso que Huntington sugere. O entendimento do termo choque não deveria ficar confinado ao campo bélico, de maneira que a presente polêmica das charges dinamarquesas já poderia ser encarada como uma espécie de choque. Huntington tampouco ignora que fundamentalismo não é regra no mundo islâmico (seria um erro grosseiro para alguém bem informado), antecipando, ele próprio, ainda que indiretamente, a sugestão de Fábio Santos: “A luta contra o fundamentalismo, como bem defendem os neoconservadores norte-americanos, deve ser uma batalha de valores levada para dentro das sociedades islâmicas e seus Estados nacionais.”

O emprego dessa classificação civilizacional, leva, realmente, a certa confusão entre nação e civilização; trata-se do ônus da simplificação, previsto e discutido pelo próprio autor no início do livro. Outra consequência disso é insuflar “um certo ‘sentimento cruzadista’ — a noção de que há um ‘nós’ e um ‘eles’ inconciliáveis.” Isso é bem verdade, mas não estaria esse sentimento cruzadista mais próximo da realidade do que Santos gostaria de acreditar? Obviamente, não podemos perder de vista a possibilidade de uma convivência pacífica, mas são copiosos os exemplos, muitos deles citados por Huntington, em que as diferenças culturais, se não levam a conflitos de fato, impedem qualquer aproximação, realçando a noção de “nós” e “eles”. [Isso é particularmente perceptível nas relações com as nações asiáticas.] Não são poucos os americanos que, apesar de nunca terem tido contato direto com muçulmanos, fazem questão de manter a distância. Digo isso por experiência própria.

Engraçado como esse impressão vem ser confirmada, no dia 7, por um artigo do Reinaldo Azevedo: “Ocidentais não podem desenhar o profeta em terras islâmicas? Já começa a ser um problema também nosso, embora ninguém seja obrigado a viver sob um céu que não o proteja: melhor correr.” Além disso, Fábio Santos parece querer diminuir a reação islâmica; com certeza, o mundo deles não está em chamas, como querem acreditar muito, mas, se apenas 200 participam de uma passeata, muitos outros aquiescem à violência de casa mesmo. Também não seria exagero presumir que muitos outros ainda, apesar de repudiarem a violência, acham que a falta dos jornais europeus foi mais grave que a depredação em massa. E isso é anadmissível para “nós”.

Assim como Fábio Santos enfatiza o “choque” dentro da civilização islâmica, Reinaldo Azevedo teme o “choque” dentro da civilização ocidental, aludindo aos versos de T. S. Eliot com muita propriedade:

O choque é interno; está entre nós. Os que toleram a baderna islâmica e voltam a sua língua e a sua pena contra a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa estão promovendo a mais perigosa das guerras culturais: contra a democracia e seus valores. Os bárbaros já chegaram. Estão no poder. Estão na mídia e na academia dizendo que a civilização que construímos não presta. Preferem flertar com a ditadura islâmica em nome da tolerância. Morremos. Sem estrondo, com suspiros de multiculturalismo banal e conformista.

E não será significativo que Huntington tenha reservado uma seção do último capítulo de seu livro (que não cito por ter esquecido meu exemplar em São Paulo) à descaracterização, de origens internas, dos Estados Unidos? Insiste ele no perigo que os famigerados multiculturalistas ou “orientalistas” representam para a preservação de valores tipicamente ocidentais, os quais correm o risco de ser solapados por essa tolerância descaradamente suicida. Achar que Huntington ignora isso é simplificar a simplificação.

Arquivado em:Política

Cony

Prometi a mim mesmo que não comentaria o caso das charges dinamarquesas; não porque ache que a situação não mereça um comentário, mas porque já há bastantes depoimentos (bem melhores que qualquer possível tentativa minha) esclarecedores a respeito. São declarações como a de Carlos Heitor Cony (citarei alguns trechos mais abaixo) que tornam a situação particularmente detestável.

Digo que seria preferível ter uma embaixada brasileira qualquer reduzida a escombros (assim como Bakunin queria reduzir a Europa a escombros) a ter de ouvir, de alguém que supostamente representa o pensamento liberal brasileiro, tanta besteira. Diz ele: “A liberdade de expressão tem mão e contramão.” Que significa isto? Que chargistas maliciosos devem ser combatidos com reações incendiárias? Talvez eu deva tocar fogo na casa de Cony, já que me senti ofendido por essa declaração. Mais adiante ele diz que “Os manuais da Redação de quase todo o mundo proíbem ofensas a raças e religiões indistintamente, incluindo-se na proibição seus símbolos mais sagrados.” E daí? Manuais da Redação também “proíbem” expressões “clichê” como “coisa”, “cada vez mais” et al.

Não satisfeito, Cony lança mão de uma comparação luminar:

Uma charge com a Menininha do Gantois praticando atos sexuais com a imagem de Ogum seria intolerável para o bom gosto e para os milhões de adeptos das seitas afro-brasileiras, haveria o diabo se alguma coisa parecida fosse publicada entre nós.

Esse tipo de charge não existiria porque não faz o menor sentido; a graça das charges está em guardar alguma semelhança com situações reais, assim como é real a relação que existe, hoje principalmente, entre o islamismo e a violência. Ainda assim, tenho uma leve impressão de que a charge acéfala de Cony, mesmo se publicada, não levaria a depredações públicas.

Há mais:

Muhammad, para os muçulmanos, é mais do que um profeta, é um pai. O cristianismo diferenciou-se do judaísmo por substituir Javé (ou Adonai) pelo Pai Nosso. Deus (que os ortodoxos judeus grafam D”us em sinal de respeito) foi substituído pela função e figura de um pai. A liberdade de expressão dá direito de ofender ou ridicularizar o pai ou a mãe de quem quer que seja?

Limito-me a dizer que mal posso esperar pelo dia em que serei pai: a partir desse dia, serei legalmente protegido contra qualquer zombaria. Insistirei com meu(s) filho(s) para que, quando se referirem a mim, o façam através de expressões mais carinhosas como papá ou painho, de maneira a salvaguardar ainda mais minha imunidade a qualquer tipo de crítica mais ácida.

E, para fechar:

A defesa histérica e incondicional da liberdade de expressão é, no fundo, a expressão de um corporativismo da mídia, que, em alguns casos, mascara a truculência e, em outros, a burrice.

Não deixa de ser curioso que alguém que se diz tão injustiçado pela censura venha agora com teorias conspiratórias, aventando um suposto corporativismo. A “histeria” da mídia não mascara a burrice e a truculência; desmascara-as. Desmascara a burrice e a truculência do Cony.

Arquivado em:Política, Religião

A História Mal Contada

Ter lido o The Wealth and Poverty of Nations em português (Editora Campus) foi um grande erro. Não há necessidade de recorrer ao original para desqualificar a tradução de Álvaro Cabral; somos, então, levados a crer que, caso o fizéssemos, maiores surpresas (desagradáveis) seriam descobertas. Há passagens cujo significado preciso ignoro até hoje, como “Os bons e engenhosos trabalhadores eram a inveja de seus vizinhos (…)” (pp. 333), provavelmente querendo significar que os trabalhadores eram motivo de inveja para seus vizinhos. Há também falhas gramaticais, como a velha mania de aglutinar preposição e sujeito de oração: “Henry Ford deu prioridade às longas séries e persistiu no uso de tecnologicas muito depois delas já terem ficado obsoletas.” (pp. 542), ou mesmo falta de concordância: “Escalonadas atrás dos líderes e seguidores – na acepção daqueles que os seguem na mesma velocidade ou estão prestes a eliminar o atraso – encontra-se a grande maioria dos povos do mundo.” (pp. 554)

A escolha da palavra indígena para traduzir Indian (habitante da Índia) também é, no mínimo, duvidosa.

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A História Bem Contada (2)

… As causas da riqueza e pobreza de nações – eis o formidável objetivo de todas as investigações em economia política. [Malthus a Ricardo, carta de 26 de janeiro de 1817]

David S. Landes, professor de história e economia política na Universidade de Harvard, tenta chegar a esse objetivo, ou responder a essa pergunta (Por que algumas [nações] são tão ricas e outras são tão pobres?) através da História em seu livro The Wealth and Poverty of Nations. Afirma ter escolhido a História como ferramenta por temperamento, mas difícil seria imaginar um método que prescinda da formação histórica das atuais nações.

De início, Landes fala da influência geográfica no temperamento humano. Conclusão: não se chega a grandes idéias na barraca da praia, e eu não poderia concordar mais. [À exceção da sugestão de criar latinhas de cerveja de 250 ml, o calor infernal daqui de Fortaleza nunca suscitou um pensamento digno de menção. Ainda assim, seria uma melhoria muito limitada: estou certo de que os esquimós não se interessariam pela novidade. É bastante característica a lassidão que literalmente toma conta de mim quando o calor é excessivo; a própria caminhada que me leva da cama ao chuveiro representa uma São Silvestre particular.]

Dando sequência, Landes se ocupa em desmistificar alguns vícios que se cristalizaram na historiografia moderna, sendo o primeiro deles, naturalmente, o da “Idade das Trevas”. Já são muitos os estudos que desmentem esse mito (alguns deles de um detalhismo notável) e Landes, ciente disso e mais preocupado com o progresso material da humanidade, dá-se por satisfeito após citar algumas das evoluções tecnológicas do período: a roda d’água, os óculos, o relógio mecânico, a imprensa e o advento da pólvora. Ninguém ignora a importância desses fatores na concentração de esforços que levaria à Revolução Industrial, mas o fato de dois deles terem sido desenvolvidos na China (a imprensa e o uso da pólvora) acaba levantando uma questão de difícil resposta: o porquê de a China não ter sido capaz de fomentar (ou, em algumas ocasiões, de não ter sequer conseguido evitar retrocessos) seu temperamento inegavelmente inventivo. Landes lança mão de várias conjecturas, mas a questão permanece, pelo menos parcialmente, em aberto.

Daí às Grandes Navegações é um pulo, e aprendemos por que o pioneirismo de Portugal (encabeçado pelos esforcos sistemáticos do Infante D. Henrique) e de Espanha é eventualmente substituído pela liderança setentrional. Particularmente curiosa é a apatia com que aqueles mesmos que se despediam do poder viram essa transição:

(…) a nação espanhola possui hoje a maior fortuna e a maior renda de todos os países cristãos. Mas o amor ao luxo e aos confortos da civilização dominou os espanhóis, e raramente encontramos alguém dessa nação que se dedique ao comércio ou viaje ao estrangeiro a fim de comerciar, como fazem as outras nações cristãs, os holandeses, ingleses, franceses, genoveses e seus semelhantes. Também as artes mecânicas e os ofícios manuais praticados pelas classes mais baixas e as pessoas comuns são desprezados por esta nação, que se considera superior às outras nações cristãs. A maioria dos que praticam essas artes e ofícios sao franceses que afluem à Espanha em busca de trabalho e em pouco tempo amealham grandes fortunas.

Essa indiferença para com o comércio e para com a infância da industrialização custou-lhes muito, assim como custou aos chineses que, apesar de terem se interessado pelo relógio mecânico europeu, se fecharam à qualquer intromissão ocidental, temerosos de que o cristianismo viesse a destruir irremediavelmente seus próprios preceitos culturais. A intransigência do Império Celeste, ao achar que se encontravam no centro do Universo e que nada perderiam se desdenhassem os europeus, é o correspondente chinês da indiferença e da apatia reinantes em Portugal e Espanha. Isso explica, em boa medida, o porquê de a Revolução Industrial ter ocorrido onde ocorreu (questão discutida no capítulo Por que a Europa? Por que entâo?), além de simplificar consideravelmente a discussão do futuro das colônias norte-americanas, de um lado (Inglaterra e França), e latino-americanas, do outro (Portugal e Espanha).

Os japoneses, diz-nos Landes, são um caso especial. Apesar de terem, também eles, se fechado ao Ocidente em determinado momento de sua história, souberam absorver o que se lhes afigurou, desde o início, indispensável. Não só absorveram como eventualmente aperfeiçoaram o conhecimento trazido da Europa; trata-se, portanto, de uma intransigência esclarecida: apesar de nunca duvidarem de sua própria superioridade (mesmo nos momentos em que as evidências apontavam em sentido oposto), foram sensatos o suficiente para saber ouvir os estrangeiros na época em que eles ainda tinham muito o que dizer. É claro que todo esse esclarecimento nem sempre foi a norma da casa, o que leva Landes a dizer que o elevado sentimento de orgulho nacional japonês tanto foi responsável pelo seu invejável desenvolvimento econômico atual quanto pelas suas maiores agruras no passado.

Aqui, ainda, convém refutar um outro mito (que subsiste tacitamente, mas nem por isso com menos firmeza), dessa vez relativo ao processo de industrialização japonês: o de que sua Revolução Industrial ter-se-ia dado com condições de trabalho razoáveis para os “operários”, idéia provavelmente respaldada pela própria resiliência nipônica:

Porque o trabalhador doméstico japonês era capaz e estava disposto a enfrentar horas e horas de trabalho extorsivo, monótono e excruciante que teriam feito a mais dócil e pacífica fiandeira ou fabricante de alfinetes inglesa cair em espasmos de rebelião.

Isto é: “Em termos comparativos, o Japão precipitou-se num capitalismo selvagem, desenfreado. Como na Inglaterra, mas de um modo mais acentuado, a indústria caseira já era palco de vergonhosa exploração.”

Landes prossegue ainda por muitas páginas em sua cruzada por respostas e, se não chega a respostas definitivas, é menos por falta de empenho que pela enorme complexidade da tarefa.

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Tempos Modernos

O jovem hodierno, no afã de ter seu status social efetivamente ratificado como cool, procura ser, às vezes desesperadamente:

1. Ecologicamente Consciente: Engraçado como, num repente, tornou-se obrigatório gostar de animais, ainda que façamos questão de mantê-los a uma distância considerável. São todos muito bonitinhos; compramos coalas de pelúcia, tamanduás de pelúcia, ornitorrincos de pelúcia; assistimos à Marcha dos Pinguins… enfim, trata-se de verdadeira brutalidade não advogar sua causa, assim como é inconcebível não se divertir com um cachorro lambendo nossa cara, esse último método considerado por muitos o mais singelo dos despertadores. Surgem também os vegetarianos engajados (e há toda uma variedade deles, dependendo da ideologia), que nos olham com um ar de novidade estupefata quando pedimos um bife, como se comer peixe cru ou tomates secos fosse uma invenção muito mais antiga.

2. Extremamente Ocupado: Confesso que não conheço ninguém que não seja extremamente ocupado. Não que eu conheça muita gente, mas a variedade é considerável: estudantes (das mais diferentes estirpes), professores, administradores, voluntários de alguma ONG, advogados, arquitetos, cachaceiros, desempregados etc. Todos eles organizaram seus afazeres de tal maneira que não sobra tempo para nada e, o que é mais curioso, todos eles fazem questão que eu (e o mundo) saiba muito bem disso. Seja porque precisam responder aos seus scraps no Orkut ou porque se comprometeram a participar de uma passeata pela preservação das tartarugas marinhas, o tempo é sempre uma realidade opressora para essas pessoas. Isso tudo me leva à inescapável conclusão de que sou o sujeito mais desocupado desse mundo: nunca me falta tempo para fazer o que realmente quero e, se acontece de eu adiar algum compromisso importante, eu mesmo sou o primeiro a me convencer de que foi menos por falta de tempo que por preguiça ou por alguma lógica convenientemente engendrada para me levar à conclusão de que o adiamento era, afinal, a melhor opção.

3. Tolerante e Eclético: As duas coisas acabam por se confundir nesse contexto. Numa conversa minimamente séria, é dificílimo ouvir comentários do tipo “eu detesto isto ou aquilo” simplesmente porque uma pessoa séria não se deve deixar levar por impressões tão arrebatadoras. Hoje em dia tudo é aceitável e até potencialmente bom se nos conseguirmos despir, claro está, de preconceitos. Não gostou desse disco? Tente outro dia, provavelmente ainda não chegou sua hora: esse disco realmente pressupõe um estado de espírito bem peculiar. E aquele livro, diz-me você que é uma porcaria? Não, não, impossível: falta-lhe simplesmente uma maior identificação com o autor, o que, nem preciso dizer, não é culpa dele.

Vejamos o que José Guilherme Merquior tem a dizer sobre o assunto:

Mas a verdade é que, enquanto a tolerância frente à multiplicidade de posições e correntes ideológicas é um inestimável valor social, a indulgência indiscriminada face a teorias e interpretações é uma autêntica abdicação intelectual. [Tarefas da crítica liberal]

Nem é preciso dizer que essa tolerância desenfreada acaba por distorcer a própria crítica literária, e aqui, obviamente, não me refiro apenas aos jovens. A primeira consequência disso é o gradativo sumiço da crítica deliciosamente parcial (Impartiality is a pompous name for indifference, which is an elegant name for ignorance, no dizer de G. K. Chesterton), em que a intromissão de aspectos pessoais – a qual, se efetuada com o devido cuidado, só tende a enriquecer a crítica – ainda era lícita. O crítico genuinamente entusiasmado tornou-se, assim, uma espécie em extinção, e agonizará sozinho até que deixemos os golfinhos um pouco de lado. (Harold Bloom, quando fala em Shakespeare, é uma das poucas exceções que conheço.)

A segunda consequência, ainda mais desastrosa, é o nivelamento de opiniões de que fala Merquior no mesmo Tarefas da crítica liberal. Limito-me a citá-lo novamente porque não há nada a acrescentar:

O humanistazinho que vem nos dizer que a obra de Kafka é “polissêmica” e que, “portanto”, cada uma de suas contraditórias interpretações é “tão válida quanto a outra” não é um tolerante simpaticão – é um pobre de espírito ou um medroso mental, alguém incapaz de cumprir uma das mais nobres entre as aspirações humanas: a de procurar a verdade. Ninguém, é certo, pode ser legitimamente considerado “dono da verdade” – exceto a própria realidade, o princípio perfeitamente objetivo do conhecimento do real. Não levar isso em conta é confundir liberdade crítica com licença relativista. A obra de Kafka é sem dúvida polissêmica e até ambígua; mas seus níveis de sentido são suficientemente hierarquizados para que uns valham mais que os outros e algumas de suas “leituras” são, simplesmente, falsas – desmentidas pela verdade do texto e do seu contexto cultural. Portanto, todas as interpretações não se equivalem.

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A História Bem Contada (1)

Sinto muita saudade do meu professor de História Americana, o simpático Mr. Hyde (sim, ele gostava de Robert Louis Stevenson). Além de engraçadíssimo – sempre esticava o braço num ângulo de aproximadamente 45 graus com a horizontal, de punho cerrado e olhar compenetrado, quando se entusiasmava com algo -, era um inexorável defensor da História bem contada, isto é, da História bem escrita. Seus primeiros comentários sobre o livro-texto que seria usado durante aquele ano foram de natureza estilística, e surpreendi-o, mais de uma vez, a escrever cuidadosamente um beautifully written ao lado de alguma passagem do livro que julgava merecedora, assim como fazia em nossas provas, quando surgia a (rara) ocasião.

Tenho certeza de que os critérios de avaliação de Mr. Hyde causariam grande comoção no Brasil. Primeiro porque suas provas não guardam qualquer semelhaça com os grandes exames nacionais (os equivalentes americanos do vestibular) – o que é bastante incomum até mesmo nos Estados Unidos -, e também porque exigem do aluno o que nem a um professor de produção textual brasileiro seria lícito exigir: uma clareza que transcenda a correção formal e/ou histórica, e que deveria ser inerente a qualquer texto escrito. Nos vestibulares, não se pode diferenciar o aluno que tem uma redação canhestra daquele que se expressa com um mínimo de desenvoltura, justamente porque elegância [o grifo indica um desprezo nauseabundo], dizem, não se configura como aspecto gramatical, ortográfico ou qualquer outro passível de avaliação objetiva. Realmente, só posso imaginar o desastre que teríamos se exigíssemos qualquer tipo de análise minimamente subjetiva do professor brasileiro.

Aviso desde já que não se trata de terrorismo criativo; obviamente não era necessário ser particularmente eloquente ou estar num dia inspirado para obter boas notas. Se um desses acidentes (cuja ocorrência não se pode impor nem mesmo a alguém de considerável inteligência) viesse a ocorrer, tanto melhor: certamente o mérito seria apreciado e recompensado. O que não pode faltar, dizia Mr. Hyde, é uma espécie de honestidade intrínseca que, aliada ao conhecimento e retletida no texto, acaba por livrar esse último de qualquer agente deturpador da verdade histórica, seja ele de caráter estilístico ou ideológico. Resta apenas a História; bem escrita, bem contada.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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