Parnaso

Brasil vs. Brasil

O tenente-coronel da FAB Marcos Pontes – o brasileiro que custou ao governo brasileiro US$ 10 milhões para ir ao espaço e plantar um fofíssimo pé-de-feijão – resolveu visitar o ITA, onde se formou em Engenharia Aeronáutica há 12 anos, para falar aos alunos da graduação e a algumas autoridades militares. Foi laureado com uma placa, que lhe foi entregue por um aluno do 2° ano fundamental, em que se lê: “Uma homenagem e o reconhecimento ao iteano da Turma 93 (Engenharia Aeronáutica), primeiro Astronauta Brasileiro, pelo grandioso feito de elevar ainda mais alto a bandeira do Brasil.” É realmente lamentável que o astronauta não tenha podido, como o fez Santos Dumont, custear suas próprias extravagâncias: felizmente, há o contribuinte para substitui-lo nessa incumbência.

O atual diretor do CTA (Centro Técnico Aeroespacial, órgão ao qual o ITA é subordinado), asseverou que não entende a insatisfação gerada pelo desperdício, visto que “o caso do mensalão foi pior que o do astronauta.” Se tudo que for ‘melhor’ que o mensalão passar a ser permitido (quiçá louvável), estaremos dando permissão para o brasileiro viver numa sempiterna patifaria. Não que ele precise dessa permissão, é claro; apenas observo que a coonestação vinda de cima é um emblema do nosso tempo.

A própria palestra do austronauta deixa transparecer uma característica intrinsecamente brasileira: a volúpia da ladinice. Pontes fez questão de salientar os “truques” e os “atalhos” de que lançou mão para obter sucesso na fase de preparação. Gostaria de deixar claro, desde já, que se trata de sujeito simpático e que não duvido de suas qualificações profissionais; ainda assim, não deixa de ser curioso que ele tenha sentido a necessidade de repetir a velha retórica da “lei do menor esforço” (para o delírio da platéia). No ambiente acadêmico é a mesma coisa: mais respeitável não é aquele que obtém os melhores resultados, mas sim o que não se esforça e ainda assim angaria resultados razoáveis. Qualquer esforço sistemático e desinteressado é sinônimo de alienação e motivo para chacotas. O mundo é dos espertos.

Marcos Pontes foi esperto. Transformou-se em herói nacional do dia para a noite, papeou em tempo real com o presidente Lula (vide matéria na Primeira Leitura de maio) e dá palestras (em que conta algumas anedotas desinteressantes e sucumbe à idiotia pseudonacionalista) por pequenas fortunas apiece. Muito bem. Ainda assim, duvido que chegue aos dez milhões.

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Uma Lúgubre Inciência

Plato thought nature but a spume that plays
Upon a paradigm of things.

– Yeats

De Praga a Paris é um “acerto de contas” de José Guilherme Merquior com o estruturalismo (e não uma biografia do Milan Kundera, como o bem-humorado autor faz questão de lembrar), movimento intelectual que se desenvolveu grandemente na França enquanto Merquior estudava lá (Collège de France, década de 60), sob a tutela de ninguém menos que o próprio Cl. Lévi-Strauss, hoje quase centenário. O brasileiro pretende assumir a postura de historiador das idéias, para quem o juízo de valor aparece apenas quando inevitável. Desde muito cedo, porém, Merquior parece profundamento incomodado com alguns aspectos do estruturalismo, mormente no campo da crítica literária (vide o ensaio Alguns problemas da crítica estruturalista, no volume A astúcia da mímese), de tal maneira que essa pretendida imparcialidade, felizmente para quem lê, tende a desaparecer. Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata do pós-estruturalismo em geral e do desconstrucionismo (Derrida) em particular.

Com a didática que lhe é costumeira, Merquior põe-se a investigar as origens mesmas do movimento estruturalista, encontrando-as no círculo de Praga de 1930 (daí o título do livro), encabeçado principalmente por Roman Jakobson e Jan Murakovski, ou, antes, no próprio Curso de linguística geral de Ferdinand de Saussure. Para entender o porquê de o estruturalismo ter-se manifestado mais naturalmente no campo da linguística, basta ter em mente a noção de estrutura subjacente a todo o movimento:

Estrutura, no seu sentido matemático, significa um conjunto de relações abstratas definidas de modo formal e subentende um modelo válido para vários conteúdos diferentes, sendo estes ditos isomórficos exatamente porque compartilham a mesma estrutura.

Ora, desde já se percebe o perigo atrelado à tentativa de estender o estruturalismo às demais ciências naturais e humanas: o objetivo último é nada menos que o universal. Merquior mostra, intencionalmente ou não, que por mais ambiciosa que tenha sido a empreitada de cunho estrutural – seja na antropologia de Lévi-Strauss, na crítica de Roland Barthes ou na psicanálise de Jacques Lacan – seu valor cognitivo se apresenta muito mais como uma interpretação alternativa para o fenômeno humano que como uma rede-paradigma, passível de abarcar todo o observável e de prever todo o porvir.

A tara estruturalóide veio a comprometer a visão crítica do próprio Jakobson: em sua obra mais madura, mostra-se adepto do que chama “poesia da gramática”, hipotése segundo a qual qualquer efeito poético pode (e deve) ser explicado em termos gramaticais, isto é, só se pode atingir o poético através de uma conjunção de fatores linguísticos – tempos verbais convenientemente escolhidos, determinada disposição de termos numa oração etc. Na verdade – diz Merquior e o senso comum -, um poema pode conter peculiaridades linguísticas que em nada contribuem para seu valor literário final, bem como destacar-se do ponto de visto literário sem que haja um mísero detalhe digno de nota em sua estrutura:

Do fato de que a literatura é feita de linguagem não se conclui que o significado literário (muito menos o valor) seja algo reduzível à linguagem. Meu carro é feito de metal, vidro e borracha; mas nunca passaria pela minha cabeça dizer que é “sobre” borracha, vidro ou metal; é “sobre” transporte.

Muito mais lamentável que esse reducionismo grosseiro é o desperdício de insights que poderiam ser dedicados a uma visão mais abrangente do fenômeno literário (como a de Murakivski). Afinal, uma coisa é certa: a defesa de uma hipotése tão estreita como a de Jakobson exige uma perspicácia e uma força criativa descomunais. Como nos sairíamos se tentássemos, em cada nuance de um texto, entrever suas supostas origens linguísticas? Como no caso de Levi-Strauss e Barthes, um talento fora do comum acaba levando o estudioso a lugares que o invidíduo ordinário evitaria com reverente desconfiança. A impressão que nos fica é que o movimento estruturalista foi conduzido por homens que não desconfiaram, ou não desconfiaram o bastante, de sua própria inteligência.

Se o primeiro passo para o recrudescimento da idéia estruturalista foi dado pelo círculo de Praga, coube ao francês Claude Lévi-Strauss introduzi-la no terreno da antropologia. Assim como entende Merquior, esse seria o estágio “responsável” do estruturalismo, e isso advém do fato de Lévi-Strauss parecer estar ciente, ele mesmo, das limitações da idéia estrutural. Apesar de nunca tê-lo dito explicitamente, o francês não se mostra particularmente refratário à argumentação de que, afinal, o estruturalismo não pôde alcançar tudo aquilo a que se propôs alcançar. Não obstante, seria absurdo supor que, frustradas as grandiloquentes metas iniciais, os estudos por ele realizados são desprovidos de qualquer valor epistemológico; muito pelo contrário: se não puderam elucidar o paradigma central (se é que ele existe) das relações humanas, nada impede que deixem entrever porções consideráveis dessa totalidade.

A passagem do estruturalismo para a crítica literária já não foi tão “responsável”, tendência que veio a se agravar a partir da fase final da obra de Roland Barthes. Se o estudo desse último sobre a tragédia de Racine merece entusiásticos elogios de Merquior, o mesmo não se pode dizer de S/Z, estudo (de duzentas páginas) sobre uma novela de Balzac (Sarrasine, de trinta páginas), em que a extrapolação da idéia estruturalista parece bem visível. Lançando mão de uma terminologia no mínimo abstrusa, a obsessão com a idéia de uma estrutura normativa leva-o a interpretações no mínimo forçadas, como a de achar que um aspecto central da novela tem de, necessariamente, ecoar em todos os demais nichos narrativos. Se o personagem principal é homossexual, os filhos da empregada doméstica de seu vizinho também deverão ter uma relação ao menos dúbia com o homossexualismo. Esse encadeamento paradigmático de relações tolhe os personagens de maneira a evitar que eles sejam o que deveriam ser: seres humanos. A tendência estruturalóide em Barthes fica evidente a partir da inversão – que remonta à “poesia da gramática” de Jakobson – da clássica distinção feita por Saussure: para Barthes, a semiologia é um ramo da linguística, e não o contrário.

Não chega a surpreender que o estruturalismo tenha sido aceito com um incontido regozijo nos departamentos de Letras mundo afora: finalmente o estudioso da literatura poderia tratá-la com a autoridade cabível a um cientista. O estudo do texto pelo texto, ignorando solenemente o contexto histórico e cultural em que se encontra inscrito, aliado a um apelo tresloucado ao jargão indecifrável, relegou os não-especialistas à posição de meros espectadores, enquanto os gurus da nova ciência desfilavam com a empáfia incontestável do obscurantismo. Merquior cita uma pequena passagem de Lacan sobre a imagem no espelho:

O fato é que a forma total do corpo pela qual o sujeito antecipa numa miragem a maturação da sua força é dada a ele apenas enquanto Gestalt, ou seja, numa exterioridade na qual esta forma é certamente mais constituinte do que constituída, mas na qual ela lhe aparece acima de tudo num tamanho contrastante que a fixa e numa simetria que a inverte, em contraste com os movimentos turbulentos que o sujeito sente animá-lo.

Antecipo meus parabéns a quem conseguir entendê-la.

Finalmente, o desconstrucionismo de Jacques Derrida: sabemos que se trata de uma apostasia, mas não sabemos se se trata de um pós-estruturalismo ou de um antiestruturalismo. Há argumentos que defendam ambas as possibilidades, mas o certo é que, ao levar a independência do significante (proposta por Platão e ratificada por Saussure) ao infinito e além, Derrida decretou o que gostaríamos de chamar a anarquia do significante: inútil achar que podemos deduzir seu significado, seja qual for a circunstância textual. “A primeira coisa liberada pelo movimento da Liberação do Significante é o direito a um filosofar desvairado.” Apesar de o desconstrucionismo advogar uma suposta ‘reconstrução’ do texto, ela em nada, ao que parece, alivia a impotência do leitor ou estudioso ante a irrevogável imperscrutabilidade dos signos. Restam-nos as imposições oraculares de um Derrida ou de um Foucault, mestres de uma ciência que, por ter abdicado qualquer resquício de rigor e de inteligibilidade, mereceu o nefando epíteto ‘uma lúgubre inciência’.

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Neil Young

Vamos derrubar o presidente
Vamos derrubar o presidente por mentir
E por levar o país à guerra
Abusando do poder que lhe demos
E mandando nosso dinheiro para o buraco
Ele é o homem que contratou os criminosos
As sombras que se escondem por trás das portas fechadas da Casa Branca
E distorcem os fatos para justificar suas novas histórias
Sobre por que temos de mandar nossos homens para a guerra

Vamos derrubar o presidente por espionar
Os cidadãos dentro de suas casas
Quebrando todas as leis do país
Grampeando nossos computadores e telefones
E se a Al Qaeda explodisse as represas
Será que Nova Orleans estaria mais segura?

É com esse banho de singeleza que o cantor e compositor Neil Young pretende propugnar o impeachment do presidente George W. Bush, na canção entitulada (qualquer semelhança com Ramones não é mera coincidência) Let’s Impeach the President. O mais estarrecedor é que o colunista da Veja, Sérgio Martins, tem o desplante de dizer que “O trunfo do roqueiro é que ele é um dos poucos que sabem protestar sem aborrecer.” Resta saber de que salas de tortura Martins aduziu seus padrões de aborrecimento.

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Infância

Volto a Graciliano Ramos depois de uns quatro anos, dessa vez para ler Infância, memórias que vão desde as mais remotas recordações da meninice até o esboço dos primeiros escritos literários. Álvaro Lins – e nao só ele – costumava dizer que esse é o texto mais bem acabado de Graciliano. Confesso que não consigo perceber com facilidade essa gradação, principalmente quando o referencial são textos que, para mim, sempre representaram o supra-sumo do bem escrito: Angústia e S. Bernardo.

Nada obstante, não duvido que ela exista (a confirmação disso requereria uma releitura do resto da obra), de vez que essas memórias, ou fragmentos de memórias, protagonizadas pelo menino Graciliano, servem de guia para o entendimento da visão de Graciliano Ramos, o escritor. Toda sua obra parece remontar ao hercúleo esforço de entender o mundo, e isso se mostra com uma obviedade ululante na constante estupefação do menino ante as novidades que se lhe apresentam. Nada mais natural, então, que o surgimento dessa espécie de cartilha: uma exposição minuciosa das ferramentas que lhe possibilitaram construir toda uma literatura, na esperança, talvez, de que o leitor, armado dessas informações, pudesse acompanhá-lo ou auxiliá-lo na investigação.

Impossível não lembrar, por ocasião do episódio narrado no capítulo Um incêndio, de um dos tais novelistas russos (en passant: devia ser um de seus preferidos): Tchekhov. No conto Um acontecimento, deste último, a indignação infantil perante a indiferença generalizada dos adultos é a mesma. No caso de Graciliano, os filhotes devorados são substituídos por uma negra que morre num incêndio, por ter tentado salvar uma imagem de Nossa Senhora. Ao narrar o acontecimento e a impressão medonha que lhe infligira a visão do cadáver desmembrado e deformado, o menino obtém dos adultos não mais que um assentimento desinteressado: “Não me puniram, quiseram transformar aquele horror num fato ordinário.”

É da percepção do supostamente ordinário que surge o aspirante a escritor. Sente dificuldades tremendas ao tentar ler o barão de Macaúbas: não por não ter jeito para a leitura, como não se cansa de supor, mas por perceber, entre ele e o barão, incompatibilidades literárias irreconciliáveis, antes mesmo, quem sabe, de saber o que seria uma incompatibilidade. Somos levados a acreditar nisso por uma confissão que surge logo no início do volume:

Legou-me [meu avô] talvez a vocação absurda para as coisas inúteis. (…) Gastamos uma eternidade no arranjo de ninharias, que se combinam, resultam na obra tormentosa e falha. (…) Trabalhador caprichoso e honesto, procurou os seus caminhos e executou urupemas fortes, seguras. Provavelmente não gostavam delas: prefeririam vê-las tradicionais e corriqueiras, enfeitadas e frágeis. O autor, insensível à crítica, perseverou nas urupemas rijas e sóbrias, não porque as estimasse, mas porque eram o meio de expressão que lhe parecia mais razoável.

O neto fez o mesmo: perseverou em suas ninharias, insensível à crítica. As ninharias eventualmente se combinaram em romances, resultando numa obra que dificilmente poderíamos considerar falha, ainda que tormentosa. Nessa busca diária por tudo que é rijo e sóbrio, inútil ou não, surgia um escritor. Depois de Machado de Assis, o maior que o Brasil já teve.

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Um Prefácio a Ser Escrito

Folheando (mais uma) antologia de contos da Lygia Fagundes Telles, vou, naturalmente, direto ao prefácio. Ali ouvimos falar de como foi difícil reuni-los, de como o processo de seleção é árduo e penoso. Num repente o mais completo pavor inunda minh’alma: penso ter lido que os contos lhe são caros como filhos. Felizmente o presságio não se verifica.

Quem já tentou escrever o que quer que seja, mormente ficção, conhece bem a relação conflituosa entre autor e obra. Nunca se está satisfeito com o resultado etc. Todos sabemos disso. A necessidade de externar essa angústia em prefácios abstrusos e reticentes me parece uma excelente ilustração do contato entre modéstia e vaidade.

Telles é uma vítima conjuntural, talvez nem se dê conta disso. Não ocorre o mesmo com Clarice Lispector. Penso logo em suas entrevistas, em que gostava de imprimir longos e embaraçosos silêncios. Penso também que nunca se chegou a níveis comparáveis de pernosticismo. Há James Joyce, dirão. Mas James Joyce era de uma simplicidade desconcertante ao confessar-nos suas intenções: desejava ser analisado anos, gerações afora. Singelíssimo desejo, que pode ser negado com igual singeleza, assim como fez Carpeaux: “Não, senhor. Tenho mais que fazer.”

Lispector, por outro lado, insiste num rococó psicológico destrambelhado; tenciona macular o mais inocente dos silêncios. Sou, como é sabido, um inconteste defensor do silêncio. Mas me refiro ao silêncio que se opõe à gritaria, não ao que lhe presta louvores mal disfarçados. Refiro-me ao silêncio que, talvez ingenuamente, procura ordenar e entender, não ao que se desdobra em convite à tergiversação gratuita.

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Dialética Erística

A edição brasileira (Topbooks) de Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão, de Arthur Schopenhauer, é mais um livro do Olavo de Carvalho que do próprio Schopenhauer. Comentado à exaustão, tem-se a impressão de que, ao lê-lo, estamos a tentar resolver um problema com sua solução (ou pelo menos uma de suas soluções) já em mãos. Aos que já estão familiarizados com a idéia schopenhaueriana de dialética, a leitura desse volume é boa idéia. Os que preferirem algum tempo sozinhos com a obra antes de conhecer a opinião de outrem devem recorrer ou à edição espanhola (El Arte de Tener Razón, preparada por Dionísio Garzón), ou ao texto em inglês, The Art of Controversy, disponível aqui.

Os comentários do Olavo são bastante úteis quando procuram ilustrar, com exemplos atuais, os estratagemas descritos por Schopenhauer. Percebe-se com facilidade, mesmo quando não há exemplos, que muitos dos estratagemas ainda são largamente empregados, ainda que inconscientemente. Vale lembrar que apesar de a dialética ser, para o alemão, a lógica das aparências, isto é, a ‘arte’ de vencer um debate (não importanto, portanto, a legitimidade de nossos argumentos), muitos dos estrategemas podem ser usados, eventualmente, para defender idéias verdadeiras. De onde segue que é perigoso acusar alguém de empregar o artifício número tal de Schopenhauer, como se isso implicasse, de imediato, o charlatanismo do contendor. Muitas vezes, trata-se antes de debilidade lógica que de má intenção.

Nesse sentido a dialética (de Schopenhauer) se distancia bastante da sofística aristotélica, em que os argumentos a serem defendidos são necessariamente falsos. O tratado inteiro pretende ser uma ‘continuação’ de Aristóteles (Schopenhauer afirma que o Estagirita não definira dialética com suficiente rigor); para este último, porém, a dialética não fica restrita à discussão ou ao debate: ela seria, também, uma lógica investigativa, em que o intuito maior é chegar à verdade, e não fazer com que os outros acreditem nisso. É exatamente essa a questão que o Olavo aborda com mais frequência em seus comentários.

Cumpre entender, então, o porquê de Schopenhauer ter distorcido a acepção aristotélica de dialética (as consequências ulteriores dessa decisão na filosofia do alemão também são discutidas no comentário). Ora, como bom opositor de Hegel, resolveu atacá-lo também, e principalmente, pelo flanco dialético. A idéia de que a dialética necessariamente representa uma argumentação capciosa, em que a verdade aparece apenas circunstancialmente, parece advir da certeza de que a filosofia de Hegel não passava de um embuste:

If I were to say that the so-called philosophy of this fellow Hegel is a colossal piece of mystification which will yet provide posterity with an inexhaustible theme for laughter at our times, that it is a pseudo-philosophy paralyzing all mental powers, stifling all real thinking, and, by the most outrageous misuse of language, putting in its place the hollowest, most senseless, thoughtless, and, as is confirmed by its success, most stupefying verbiage, I should be quite right.

Seja como for, fica sua Dialética Erística, guia útil para os que queiram prevenir-se contra a desonestidade intelectual, tão comum nos dias que correm.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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