Parnaso

The City in the Sea

Em tempos como estes, é o caso de repetir: The waves have now a redder glow, The hours are breathing faint and low.

Lo! Death has reared himself a throne
In a strange city lying alone
Far down within the dim West,
Where the good and the bad and the worst and the best
Have gone to their eternal rest.
There shrines and palaces and towers
(Time-eaten towers that tremble not!)
Resemble nothing that is ours.
Around, by lifting winds forgot,
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.

No rays from the holy heaven come down
On the long night-time of that town;
But light from out the lurid sea
Streams up the turrets silently-
Gleams up the pinnacles far and free-
Up domes- up spires- up kingly halls-
Up fanes- up Babylon-like walls-
Up shadowy long-forgotten bowers
Of sculptured ivy and stone flowers-
Up many and many a marvellous shrine
Whose wreathed friezes intertwine
The viol, the violet, and the vine.
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.
So blend the turrets and shadows there
That all seem pendulous in air,
While from a proud tower in the town
Death looks gigantically down.

There open fanes and gaping graves
Yawn level with the luminous waves;
But not the riches there that lie
In each idol’s diamond eye-
Not the gaily-jewelled dead
Tempt the waters from their bed;
For no ripples curl, alas!
Along that wilderness of glass-
No swellings tell that winds may be
Upon some far-off happier sea-
No heavings hint that winds have been
On seas less hideously serene.

But lo, a stir is in the air!
The wave- there is a movement there!
As if the towers had thrust aside,
In slightly sinking, the dull tide-
As if their tops had feebly given
A void within the filmy Heaven.
The waves have now a redder glow-
The hours are breathing faint and low-
And when, amid no earthly moans,
Down, down that town shall settle hence,
Hell, rising from a thousand thrones,
Shall do it reverence.

Edgar Allan Poe (1831)

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A Ditadura dos Cabeleireiros

Seu Francisco, o sujeito que corta meu cabelo, sempre me pareceu ser bastante pacato. Mas avisou que me deixaria careca caso eu votasse em Lula. Tranquilizei-o, disse que não havia perigo. E continuou: “essa democracia disfarçada de anarquismo… depois reclamam quando chega a ditadura”. É a ditadura dos cabeleireiros que se aproxima.

Essa tendência que o brasileiro tem de flertar com alternativas autoritárias não é novidade; já há inclusive pesquisas de opinião a esse respeito. Nada mais natural: se não dá certo do jeito que está, que dê certo na base da porrada. Esses malucos são menos perigosos que os que já foram eleitos.

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A Panacéia Austríaca

In a country where the sole employer is the State, opposition means death by slow starvation. The old principle: who does not work shall not eat, has been replaced by a new one: who does not obey shall not eat.

– Leon Trótski

To the Socialists of all parties. É essa a dedicatória (que o autor afirma ser sincera) do livro The Road to Serfdom, do economista austríaco F. A. Hayek (1899-1992). Estamos em 1944 e Hayek pretende mandar uma mensagem a todos os socialistas, principalmente os da Inglaterra: socialismo gera, necessariamente, totalitarismo. Mostrar que o totalitarismo não é consequência funesta e acidental, mas sim desenvolvimento lógico e inescapável dos experimentos socialistas é o objetivo maior desse livro.

Primeiro esclarecimento: Hayek lida principalmente com a então corrente acepção de socialismo restrita à economia, isto é, socialismo para ele significa a tendência de convergir todo a manipulação econômica à figura central do Estado. O entendimento que hoje temos do termo é mais ligado à idéia de welfare state, o desejo de suprimir tanto quanto possível as desigualdades sociais. Segundo acreditavam (ou acreditam) muitos, essa supressão não seria possível sem a intervenção maciça (ou, por abuso de linguagem, planificada) do Estado.

Vale a pena parar um pouco e contemplar a transformação radical por que passaram determinados termos. A economia socialista passou a ser identificada pelo adjetivo planificada, como se o esforço sistemático de planejamento, empreendido em escala individual, fosse completamente estranho às práticas liberais herdadas do século 19. O próprio termo liberal já não pode ser usado sem risco de grande confusão: nos Estados Unidos, o grupo liberal nada tem que ver com a economia… liberal. O exemplo mais extravagante é o da palavra liberdade. John Stuart Mill, quando escreveu seu ensaio On Liberty, tinha em mente valores diametralmente opostos aos dos socialistas do começo do século passado, apesar de estes últimos, também eles, falarem ostensivamente em liberdade. Ora, por que criar novos termos quando se pode simplesmente desvirtuar termos já arraigados, de forma positiva, no imaginário popular? Enquanto J. S. Mill estava preocupado com a liberdade de iniciativa de cada indivíduo, a garantia da possibilidade de cada um desenvolver suas potencialidades sem que uma autoridade arbitrária lhe barre o caminho, os socialistas falam em liberdade no sentido de que o indivíduo não mais terá de se preocupar com questões econômicas: esses e outros “detalhes” ficariam por conta do todo-poderoso governo central.

Isso advém, conclui Hayek, de uma confusão, intencional ou não, entre liberdade e poder. Para nós, é perfeitamente concebível que um indivíduo tenha grande poder em suas mãos e, ao mesmo tempo, esteja em boa medida privado de suas liberdades individuais. Ainda que o plano socialista obtivesse sucesso em sua tentativa de mitigar disparidades sociais, teríamos cidadãos desprovidos da liberdade básica de mudar de emprego, de vez que essa mudança dependeria do interesse e do consentimento do Estado, do plano maior divisado para o bem de todos. Estamos aqui sendo condescendentes e admitindo que esse primeiro ideal, o da supressão das desigualdades, seja possível. Na prática, sabemos que ele não é. A ordenação de toda uma sociedade segundo um plano único exigiria uma hierarquização de valores tão exaustiva (quanto vale a contribuição de pastores em relação à dos operários, ou a dos comerciantes em relação à dos médicos?, como determinar o que é ‘justo’ para cada um?) que jamais poderíamos chegar a algo parecido em comum acordo. Conclusão óbvia: é necessário que uma autoridade coerciva tome as decisões. É essa a liberdade que nos oferecem: a de não termos que tomar decisões, apesar de termos de aceitar as do(s) outro(s).

Dado o caráter central e necessariamente autoritário do governo, muitos argumentam que o comunismo falhou na URSS e o nazismo na Alemanha porque as figuras alçadas ao poder eram inegavelmente desumanas. Ora, apesar de ser essa uma observação bem antiga (já não era novidade em 1944), não são poucos os que ainda acreditam nela. O grosso de nossos livros didáticos de História dá a entender que o destino da União Soviética teria sido completamente diferente caso Lênin não tivesse morrido tão cedo; e Trótski é tão louvado pelo que nunca fez (e que nunca faria) que já mereceu a alcunha de D. Sebastião da esquerda. Até mesmo Edmund Wilson, no To The Finland Station, traça, em parte por falta de informação disponível à época, uma imagem bem positiva de Lênin. Hayek é fulminante:

There are strong reasons for believing that what to us appear the worst features of the existing totalitarian systems are not accidental by-products but phenomena which totalitarianism is certain sooner or later to produce. Just as the democratic statesman who sets out to plan economic life will soon be confronted with the alternative of either assuming dictatorial powers of abandoning his plans, so the totalitarian dictator would soon have to choose between disregard of ordinary morals and failure.

Entende-se, assim, a afirmação de Orwell segundo a qual o desdobramento do comunismo na URSS teria sido essencialmente o mesmo com Lênin, Trótski ou Stálin (ou com qualquer outra pessoa que desejasse continuá-lo). Entende-se também por que Hitler, e não um camarada cheio de boas intenções chegou ao poder na Alemanha. Não houve má sorte: quem aceita levar as consequências do totalitarismo até o fim já abdicou, desde há muito, qualquer senso de moral com o qual possamos nos identificar, ainda que vagamente.

Outro erro bastante comum consiste em distanciar socialismo e nazismo. Mais uma vez, trata-se de erro que persiste até os dias de hoje; vemos aí, como exemplo, o so-called Livro Negro do Capistalismo, que nos faz o favor de confessar sua burrice ao creditar todas as mortes das duas guerras mundiais ao capitalismo. Basta recorrer à opinião dos próprios socialistas (ou coletivistas, ou comunistas, ou nazistas…): à época da primeira grande guerra, não eram poucos os teóricos socialistas que entendiam o conflito como um confronto entre a Alemanha coletivista e a Inglaterra individualista. Se é assim, as mortes são responsabilidade de um lado tanto quanto são do outro. Ninguém menos que Hitler, num discurso de 1941, afirmou que nazismo e comunismo são “essencialmente a mesma coisa”. Outra evidência disso é o fato de que muitos fascistas eram ex-socialistas, incluindo o próprio Mussolini:

Everyone who has watched the growth of these movements in Italy or in Germany has been struck by the number of leading men, from Mussolini downward (and not excluding Laval and Quisling), who began as socialists and ended as Fascists or Nazis. And what is true of the leaders is even more true of the rank and file of the movement. The relative ease with each a young communist could be converted into a Nazi or vice versa was generally known in Germany, best of all to the propagandists of the two parties.

Há fortes motivos para acreditar que o pacto Germano-Soviético de 1939, que todo professorzinho de História adora creditar exclusivamente à conveniência das circunstâncias, reflete um entendimento bastante aprofundado entre os dois lados. A verdade é que nazismo e comunismo são manifestações de um mesmo ideário coletivista, que confia no solapamento das liberdades individuais e na concentração de poder para atingir seus fins, que são, independentemente de quem as lidera, autoritários e deficientes de qualquer norte moral inteligível à civilização que convencionamos chamar ocidental.

Também seria o caso de acabar com o mito de que o liberalismo defenderia um Estado inoperante. Essa idéia é tão arraigada que Meira Penna sentiu a necessidade de nos advertir que o termo socioliberalismo não passa de uma tautologia: a intervenção estatal, desde que controlada de maneira a não invadir a soberania individual, é, sim, prevista e recomendada pelo liberalismo. Naturalmente, Hayek fala disso também. The Road to Serfdom é um dos poucos livros que mereceriam o título de leitura obrigatória em qualquer país. É o tipo de livro que evita toda uma biblioteca de erros.

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Em Busca de Sentido

He who has a why to live can bear with almost any how.
– Nietzsche

Viktor E. Frankl (1905-1997) é mundialmente conhecido como o fundador da chamada Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (teve como predecessores Freud e Adler), em que propugna sua principal criação intelectual, a logoterapia (do grego logos, conhecimento). A logoterapia se opõe à psicanálise de Freud na medida em que esta última se concentra em acontecimentos passados e em fenômenos inconscientes para explicar eventuais distúrbios psicológicos, enquanto que a teoria de Frankl se preocupa principalmente com o futuro; ela reconhece na ausência de uma significação ulterior para nossa existência (que, a rigor, jamais chegará a ser-nos conhecido) a explicação para o chamado “vácuo existencial”, o existential vacuum a que se refere com tanta frequência.

Daí o título de seu livro mais famoso, Man’s Search for Meaning, em que relata, na primeira parte, Experiences in a Concentration Camp, algumas de suas experiências durante o período de três anos em que foi interno de alguns campos, principalmente o de Auschwitz. Frankl acredita piamente que o ser humano, quando submetido a situações extremas de sofrimento e privação, revelar-se-á “um porco ou um santo”, a depender de sua maturidade espiritual. Ora, isso entra em conflito direto com a famosa declaração de Freud:

Let one attempt to expose a number of the most diverse people uniformly to hunger. With the increase of the imperative urge of hunger all individual differences will blur, and in their stead will appear the uniform expression of the one unstilled urge.

A essa asserção, Frankl responde placidamente:

Thank heaven, Sigmund Freud was spared knowing the concentration camps from the inside. His subjects lay on a couch designed in the plush style of Victorian culture, not in the filth of Auschwitz. There, the “individual differences” did not “blur” but, on the contrary, people became more different; people unmasked themselves, both the swine and the saints.

Que dizer? Freud teve a infelicidade de descrever uma situação cuja melhor ilustração prática é o campo de concentração, precisamente a realidade conhecida tão bem por Frankl. Cabe aqui uma observação importante, que apesar de óbvia é esquecida por muitos: a experiência pessoal não é imprescindível para que se faça esse tipo de julgamento. Apenas é necessário que alguém tenha tido a experiência pessoal. A arrogância de certos ‘pensadores engajados’ é tal que, a depender deles, só está qualificado para opinar quem passa seus dias na rua, acompanhando de perto a ‘realidade cruel dos fatos’. Acompanham a realidade tão de perto que, não raro, têm verdadeira aversão aos livros.

Segundo a logoterapia, podemos conferir sentido à nossa existência de três maneiras distintas: (a) através dos resultados de nossos esforços (trabalho), (b) através de uma intensa experiência com algo (beleza, bondade, verdade) ou com alguém (amor) e (c) através do sofrimento. Essas definições exigem algum esclarecimento: o fenômeno indicado no item (b), em sua primeira parte, é exclusivamente introspectivo; ele prescinde de qualquer realização palpável e/ou concreta. Trata-se de uma conquista inteiramente espiritual e pessoal, e por isso mesmo tende a ter uma importância insubstituível. O item (c) diz respeito à postura com que enfrentamos qualquer tipo de sofrimento; se chegamos à conclusão de que o sofrimento, assim como a morte, é parte indossolúvel da vida, convém estar preparado para recebê-lo com dignidade. E isso só será possível se formos capazes de consignar significado a ele. O que não significa dizer, claro está, que o sofrimento seja uma necessidade; sucumbir a um estado de penúria que pode ser evitado não é heroísmo: é preguiça.

A segunda parte do livro, Logotherapy in a Nutshell é uma tentativa de, em poucas páginas, expor os princípios básicos da logoterapia. Apesar de bastante prática, não me parece ter sido boa idéia: ao final das quarenta e poucas páginas, nas quais Frankl inclusive relata alguns casos clínicos, tem-se a impressão de que sua teoria é uma panacéia aplicável a todos os males (a impressão é tão forte que o próprio Frankl nos adverte quanto a ela, quando já é tarde demais). A narrativa da experiência nos campos de concentração, entremeada pelos comentários de cunho psiquiátrico, já é mais que suficiente para esse esforço introdutório. Não deixa de ser curioso que seja ninguém menos que Nietzsche o autor do motto de sua filosofia: aquele que tem um porquê em sua vida pode suportar quase qualquer como.

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A Realidade Moral da Guerra

Escrevi o texto abaixo há algumas semanas. Ele discute um trecho do livro Guerras Justas e Injustas, do Michael Walzer, chamado O Dialógo de Melos. Mais adiante também sao discutidas algumas cartas endossadas por 60 intelectuais norte-americanos (dentre eles Samuel Huntington, Francis Fukuyama e o próprio Walzer) e as respectivas respostas de intelectuais alemães. Não faço a mínima idéia de onde encontrá-las pela Internet, mas o conjunto ficou conhecido como 5 Letters About Just War – A Controversy.

Walzer, multiculturalismo e o vocabulário moral.

Michael Walzer, num esforço bastante louvável para tentar entender a realidade moral da guerra, se serve, para a satisfação de quem lê, de duas figuras que muito têm a dizer a esse respeito: Tucídides e Hobbes. Vale lembrar que a História da Guerra do Peloponeso, apesar de ter sido escrita quase que em paralelo com a própria guerra (431 – 404 a.C.), perdeu muito pouco de seu valor epistemológico; de fato, Tucídides tinha exatamente isso em mente quando escreveu, na parte final do capítulo 22 do livro I de sua História, que “… quem quer que deseje ter uma idéia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em conseqüência de seu conteúdo humano, julgará a minha História útil…”

Crítico severo de Heródoto, Tucídides defende um novo tipo de discurso histórico: não aquele que se compraz em relatar os acontecimentos grandiosos, mas um que procura investigar os fatores que verdadeiramente influenciavam (e influenciam) o homem no processo de tomada de decisões. É exatamente por isso que o ateniense faz questão de dar voz aos protagonistas da guerra, em discursos e exortações que pretendem deixar claro o porquê de cada decisão. Por trás dessas criações literário-filosóficas subsiste o hercúleo esforço de penetrar o coração humano e entrever, ainda que sob grandes restrições, a verdade histórica.

Ora vejam: Walzer chega a sugerir que Tucídides teria despido o discurso dos generais atenienses (já estamos no diálogo de Melos) de qualquer rodeio retórico para que pudéssemos perceber a decadência de seus valores. De fato, Tucídides não era o único a pensar assim. Lembremos que também Sócrates, quando perguntado se personalidades como o grande líder Péricles, o sofista Górgias ou o pensador Anaxágoras (todas eles grandes influências para Tucídides) teriam sido verdadeiramente sábios, limitou-se a responder que não. Não há como negar que Atenas, à época da guerra do Peloponeso, já não é mais a ‘escola de toda a Hélade’, assim como a supunha Péricles em sua famosa oração fúnebre (H.II.35-46).

Nós (assim como alguns atenienses) somos capazes de perceber esse declínio porque, como lembra Walzer nessa que é sua melhor observação em todo o texto, “os atenienses compartilhavam um vocabulário moral, compartilhavam esse vocabulário com o povo de Mitilene e de Melos e, guardadas as diferenças culturais, o compartilham também conosco.” Essa constatação, apesar de irrefutavelmente verdadeira, é bastante perigosa: uma má interpretação sua nos transporta aos domínios do multiculturalismo. Explicaremos isso mais adiante. O fenômeno do multiculturalismo, dada sua complexidade e sua disseminação (principalmente nos Estados Unidos), mereceria um texto à parte; procuraremos, então, fazer uma pequena digressão que se limitará à discussão de alguns pontos-chave.

É sabido que o intelectual tipicamente multiculturalista procura nos alertar em relação à suposta violência com que são tratadas as chamadas ‘minorias culturais’ mundo afora; pensa-se logo em Edward Said e em seu influente livro Orientalism, em que propugna a existência de uma ‘cegueira intelectual’ por parte das elites ocidentais. Segundo Said, temos uma visão distorcida e preconceituosa da cultura oriental em geral e da islâmica em particular. É uma espécie de continuação da filosofia do italiano Antonio Gramsci. John Fonte, em seu artigo Why There is a Culture War, faz um breve resumo:

Power, in Gramsci’s observation, is exercised by privileged groups or classes in two ways: through domination, force, or coercion; and through something called “hegemony,” which means the ideological supremacy of a system of values that supports the class or group interests of the predominant classes or groups. Subordinate groups, he argued, are influenced to internalize the value systems and world views of the privileged groups and, thus, to consent to their own marginalization.

Que não nos enganemos, pois: a filosofia de Gramsci é exatamente o que parece ser, isto é, um marxismo estendido ao campo da ideologia. Um marxismo mais sutil, alguns diriam. O importante é perceber que esse tipo de discurso está sempre à procura de uma vítima, não de uma solução: os negros, os hispânicos, as mulheres etc., devem todos ser incondicionalmente protegidos, ainda que isso signifique uma abdicação temporária dos ideais democráticos que nos são mais caros. Entretanto, há motivos para acreditar que a democracia ocidental não é assim tão flexível; devemos considerar a possibilidade de que, talvez, não tenhamos condição de, como querem os multiculturalistas, ‘receber’ em nosso seio qualquer tipo de discrepância cultural. Já dizia Aristóteles que “não devemos discutir com quem não concorda com os princípios”. Ora, que ‘princípios’ seriam esses? Trata-se de uma espécie de denominador comum necessário para que qualquer discussão tenha um mínimo de sucesso: se ele não existe, a argumentação não passa de perda de tempo; palavras ao vento, blowing in the wind.

Os multiculturalistas se servem da teoria do pluralismo de Isaiah Berlin, que é liberal e individualista, mas na realidade o que fazem é extrapolá-la. Vejamos o que diz a esse respeito Álvaro Delgado-Gal, em seu surpreendentemente elucidativo ensaio sobre o multiculturalismo, La Disciplina de la Libertad:

El multiculturalismo defiende la simultánea validez o deseabilidad de formas de vida recíprocamente irreducibles. Barruntos de esto, aunque sólo barruntos, se aprecian en la tesis berliniana sobre el pluralismo de los valores. Según Isaiah Berlin, por ejemplo, la vida heroica que exalta la Ilíada no es comparable bajo ningún aspecto con la vida de contemplación a que estuvieron consagrados los primeros monjes cristianos. Ni la dedicación a los propios asuntos que pregona Aristipo de Cirene se compadece con el ethos republicano y participativo que pregona Maquiavelo en La primera década de Tito Livio.

O que Delgado-Gal chama de ‘formas de vida recíprocamente irreducibles’ é exatamente a falta de ‘princípios’ em comum de que falava Aristóteles. Está claro que o diálogo continuará sendo, até onde possível, a melhor solução; mas é exatamente em acreditar que ele seja sempre possível que se encontra o grande equívoco multiculturalista.

É com grande satisfação, então, que percebemos o discernimento de Walzer: diz ele, no trecho citado, que devemos “guardar as diferenças culturais”. Daí se depreende que não nos é permitido estender essa lógica ad infinitum, isto é, achar que todos os indivíduos do mundo compartilham um vocabulário moral conosco. Podemos, sim, falar em valores universais (a teoria pluralista berliniana insistia em que isso fosse possível), e o que se observa é que o discurso multiculturalista de deificação da diferença acaba ameaçando a existência dessa possibilidade. Se tanta autonomia for relegada a cada grupo, chegaremos, eventualmente, a um estado de anarquia incipiente, em que cada um de nós estaria autorizado a formular seus próprios valores ‘universais’. Seria uma grande ingenuidade, além de representar uma cegueira em relação ao que a própria história do século XX tem a nos ensinar. Lembremos a célebre frase cunhada por Churchill, em referência ao episódio da Conferência de Munique, 1938, em que Grã-Bretanha (Neville Chamberlain) e França (Édouard Daladier) capitularam ante o nazismo para supostamente assegurar a paz: “Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra. E terão a guerra.” Qualquer semelhança com a atual situação no Irã não é mera coincidência (com a diferença de que, ora vejam, Hitler costumava ter um discurso mais moderado).

Em se tratando de um diálogo em que ambas as partes aceitam um número básico de premissas, o relativismo de Hobbes não é justificável. Como o próprio Walzer faz questão de lembrar, não se pode simplesmente dizer qualquer coisa. Ainda que existam artifícios especificamente engendrados para deturpar essa transparência (pensa-se logo na dialética erística de Schopenhauer, em que o objetivo final é ‘ganhar’ a discussão, e não chegar à verdade), os contendores têm o direito de exigir esclarecimentos exatamente porque há um ‘chão comum’ e, em caso de desonestidade, será possível demonstrá-la e repudiá-la. Justifica-se, assim, o rigor etimológico típico de filósofos e pensadores responsáveis, cientes dos ‘desastres’ que qualquer ambigüidade pode incitar: ainda que a acepção dada ao termo dialética oscile bastante desde Aristóteles, passando por Tomás de Aquino e chegando a Schopenhauer, em cada um deles encontramos um esforço muito grande para que a definição da palavra, assim como eles a entendiam, esteja além de qualquer mal-entendido.

Guerra justa, realismo e relativismo.

O primeiro e mais revoltante costume a ser rechaçado numa discussão que pretenda elucidar a questão da ‘guerra justa’ é o de nivelar por baixo as faltas cometidas por indivíduos, grupos ou nações. Assim como Lula e seus sequazes gostariam de passar a impressão de que governo e oposição ‘são todos iguais’, e de que portanto não faz o menor sentido exigir punições maiores para faltas maiores (porque não há faltas maiores), assim os signatários alemães das cartas que acabamos de ler pretendem igualar, em termos de gravidade, os ataques terroristas ao que eles chamam de ‘fundamentalismo’ norte-americano. Esse é um absurdo que os próprios representantes americanos percebem e que mais tarde será negado na resposta alemã, mas não podemos interpretar de outra forma as palavras que seguem: “There are no universally valid values that allow one to justify one mass murder by another”.

Percebamos que não há o cuidado de estabelecer qualquer diferenciação entre um ‘mass murder’ e outro: somos forçados a concluir que são ambos igualmente condenáveis. Se um deles teve como objetivo deliberado a morte do maior número possível de civis, pouco importa; o que realmente importa é que o contra-ataque norte-americano foi igualmente mortífero. A falta de uma ‘hierarquização do crime’ apropriada dificulta bastante o debate; se não conseguimos convencer uma pessoa de que um crime intencional é mais alarmante que um conjuntural (preceito básico na teoria do direito), não será possível convencê-la de que medidas extremas são necessárias para evitar a recorrência do primeiro tipo de crime.

Os americanos fazem questão de repudiar o realismo analisado por Walzer; para eles, há, sim, a possibilidade de inserir a problemática da guerra na esfera moral. Os alemães, por outro lado, parecem querer evitar essa discussão; preferem sugerir que há alternativas melhores, a velha diplomacia… O vulto de Churchill, com seu sarcasmo e seu charuto, surge novamente para zombar da ingenuidade alemã. Faremos agora uma breve digressão (mais uma), na tentativa de entender essa hesitação renitente e balofa dos intelectuais alemães.

Logo na Conferência de Yalta houve um consenso de que o nazismo havia perpetrado atrocidades inomináveis não somente contra judeus mas contra toda a humanidade. O mesmo não aconteceu com o comunismo: até hoje nos restam “intelectuais” de prestígio (refiro-me a Gabriel García Marquez, amigo pessoal de Fidel Castro, e a José Saramago, entre outros) que insistem em defender a lógica assassina de ditadores os mais truculentos. No Brasil ou em qualquer outro país latino-americano, não raro encontramos jovens completamente ocidentalizados ostentando camisetas de facínoras como Che Guevara. Só recentemente estudos mais completos têm sido feitos em relação a esse incompreensível ‘esquecimento’: podemos citar o Livro Negro do Comunismo, escrito por intelectuais (pasmem!) esquerdistas franceses, além de algumas biografias mais reveladoras de Stálin e de Trótski. Como explicar isso? Por que um mal foi prontamente identificado enquanto o outro, igualmente ou até mais danoso, exatamente porque se estendeu por tanto tempo, continua até os dias que correm a iludir tantas almas? A resposta, é claro, está no discurso humanista e bonzinho por trás de todo o movimento. Mas isso é matéria para um outro texto.

Voltando. A intenção aqui é apontar para o fato de que o ‘discurso’ da vez é o multiculturalista: é ele e nenhum outro que faz com os intelectuais alemães cheguem ao absurdo de dizer que “The inviolability of human dignity applies not only to people in the United States, but also to people in Afghanistan, and even to the Taliban and the al-Qaeda (…)” O ideal de tolerância ocidental chegou a níveis insustentáveis: queremos garantir a dignidade de indivíduos que, além de não ter reivindicações políticas bem definidas, não se constrangem em tirar suas próprias vidas (juntamente com as de muitos outros ‘inimigos’) para que a nossa própria dignidade seja extirpada. Trata-se de comportamento literalmente suicida: fazemos todo o possível para que a barbárie continue em sua cruzada assassina, assistida pelos incansáveis militantes do politicamente correto.

Ouve-se com bastante freqüência o argumento de que os terroristas têm certa razão porque estariam respondendo a anos de opressão e truculência norte-americanas, e que, coitados, têm seus preceitos religiosos sistematicamente vilipendiados pelo consumismo e pelo laicismo ocidental. Além disso, fazem o que fazem pensando na causa dos pobres. É exatamente o que se encontra na seguinte passagem: “Their own inferiority, perceived as unjust, evokes an affective loss of inhibitions, mobilizing a huge potential for reaction, up to the willingness to sacrifice one’s own life, too, in suicide assassinations.” Nada poderia estar mais distante da realidade. Os líderes das facções terroristas islâmicas são extremamente ocidentalizados e, não raro, estudaram nas melhores universidades européias. É o que nos relata Daniel Pipes, especialista no assunto, num ensaio convenientemente intitulado The Western Mind of Radical Islam:

Fat’hi ash-Shiqaqi, a well-educated young Palestinian living in Damascus, recently boasted of his familiarity with European literature. He told an interviewer how he had read and enjoyed Shakespeare, Dostoyevsky, Chekhov, Sartre, and Eliot. He spoke of his particular passion for Sophocles’ Oedipus Rex, a work he read ten times in English translation “and each time wept bitterly.” Such acquaintance with world literature and such exquisite sensibility would not be of note except for two points – that Shiqaqi was, until his assassination in Malta a few weeks ago, an Islamist (or what is frequently called a “fundamentalist” Muslim) and that he headed Islamic Jihad, the arch-terrorist organization that has murdered dozens of Israelis over the last two years.

Não é apenas isso: Pipes prossegue dizendo que a motivação para esses terroristas não é de maneira alguma oriunda de um desrespeito para com a sua religião: ela advém, antes, de um sentimento de incompatibilidade entre os valores que aprenderam a admirar (modernidade, tecnologia e liberdade ocidentais), e os preceitos anacrônicos de sua religião. O alegado desrespeito à religião serve apenas de argumento para incitar a agressividade dos mais crédulos.

E quanto à alegação de que eles fazem tudo isso com a causa dos mais oprimidos em mente? Pois sim, há quem propugne semelhante despautério. Responderemos com outra pergunta: por que indivíduos tão sofisticados não levam todo o conhecimento que acumularam no ocidente para sua terra, em vez de explodir edifícios no outro lado do mundo? Se a intenção fosse realmente ajudar seus conterrâneos, o procedimento não teria sido outro. Não é o que se observa (citando, mais uma vez, Daniel Pipes): “Ramzi Yusuf, the accused mastermind of the World Trade Center bombing, is an electronics engineer and explosives expert with an advanced degree from Great Britain”.

Ao fim e ao cabo, não se pode deixar de creditar a incompreensão alemã ao discurso multiculturalista e relativista reinante no cenário internacional. É esse relativismo tresloucado que os leva a uma tergiversação digna de um iniciante: “Even the Nazi regime and the Hamas assassins declared their actions as a ‘just war'”, como se não tivéssemos plena capacidade de diferençar, utilizando o ‘vocabulário moral comum’ de que falava Walzer, boas intenções de charlatanismo. Chamberlain e Daladier não foram capazes, e o que é pior: os atuais representantes europeus insistem em cometer o mesmo erro.

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Prisioneiros Tarados

A revista Veja desta última semana traz, como reportagem de capa, um levantamento sobre o modus operandi do Primeiro Comando da Capital, o PCC. Um dos “cinco pilares do crime”, segundo a revista, seriam as “leis que atrapalham”. Uma dessas leis realmente chama a atenção: em São Paulo, todos os presos, independentemente do regime a que estão submetidos, podem receber quatro visitas íntimas por mês. Encomendas externas e relações sexuais autorizadas são formas de administrar a tensão dos presídios que soam estranhas em outras culturas. É claro que soam estranhas em outras culturas. A bem da verdade, soam estranhas a quem quer que tenha um pouco de vergonha na cara.

A revista ainda cita o depoimento de Andy Barclay, do Centro Internacional para Estudos de Prisões, da Universidade de Londres, a respeito das medidas adotadas em sua cidade: O contato físico permitido é mínimo. Um abraço, um beijo, pegar na mão. Por que será que o brasileiro tem tanta dificuldade em simplesmente copiar medidas que, comprovadamente, dão certo? Não se trata de adaptá-las à realidade tupiniquim (não, não pedimos tanto); falamos apenas em copiar. Aprendemos desde bebês que a literatura brasileira até o realismo não é digna de nota pois não passa de um transplante da européia. Transplante coisa nenhuma. Se fosse mesmo um transplante, deveríamos ter ao menos versões aguadas de Goethe, Hölderlin, Coleridge ou, para nem mesmo sair do continente americano, Edgar Poe. Ah, se fosse tão fácil!

É claro que não tenho a minima intenção de sugerir que os prisioneiros fiquem à míngua. Não quero sugerir porque isso é óbvio demais para ser sugerido. Que se esbaldem, mas só depois de terem cumprido pena. E depois ainda se espantam quando os europeus (ou até mesmo norte-americanos) nos consideram exóticos e engraçadinhos, encarando-nos com um sorriso complacente, assim como quem contempla um chimpanzé. O brasileiro, por sua vez, ao testemunhar uma nova irrupção de violência nas ruas, deve chegar à conclusão de que os detentos estão muito estressados. Melhor aumentar a frequência das tais visitas íntimas. Nada mais justo: os presos também são brasileiros.

Arquivado em:Miscelânea

Férias e a Volúpia da Ociosidade

Perhaps one of the most important accomplishments of my administration has been minding my own business.

– Calvin Coolidge, trigésimo presidente dos Estados Unidos.

Fiquei de férias hoje. Serão duas semanas do mais completo e obstinado ócio. Isso mesmo: a menos que algo de catastrófico aconteça, pretendo ficar à toa. Já escrevi sobre o quanto as pessoas gostam de que todos saibam que elas são ocupadas. Deviam, como eu, orgulhar-se da vagabundagem estéril e inofensiva.

Sempre desconfiei de pessoas excessivamente empenhadas no que quer que seja, a menos que seja no aprimoramento da própria inteligência. Minto: tenho medo delas. Em especial, tenho medo de quem quer salvar o mundo. Se podem salvar o mundo, podem muito bem destruí-lo. Não tenho a menor obrigação de concordar com o que este ou aquele entende por um mundo salvo. Salvo ou não, condenado ou não às chamas do inferno, ainda prefiro o mundo assim: existindo. Muitos dos grandes salvadores que se nos apresentaram até hoje não demonstraram semelhante escrúpulo.

Vejam a figura do militante político exacerbado, do estudante revolucionário ou do docente doutrinador. Eles estão muito ocupados consigo mesmos para pensar nos outros, apesar de todo o seu trabalho ser singelamente dedicado aos outros. Não gastam um minuto que seja de seus preciosos dias a contemplar as paredes de seus quartos ou a pensar algo perfeitamente inútil. E é por isso que, invariavelmente, são uns canalhas. Só por não ter o hábito de dizer besteiras em público, já contribuí para o bem da humanidade muito mais que todos eles somados. Mereço uma medalha. E quero recebê-la sem que perturbem a letargia do meu sono.

Sim, a verdade é que o mundo seria melhor se não nos preocupássemos tanto uns com os outros. Não sou eu quem diz isso; é Alberto Caeiro. E não me venham dizer que “é só poesia”. É uma constatação da vida real, e verdadeira exatamente porque, na prática, não nos importamos uns com os outros, apesar de morrermos para que todos acreditem nisso. O Mal vem dos hipócritas, dizia Stevenson.

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Mulheres Modernas

A pedidos, faço uma versão contemporânea (no que concerne as imagens, é claro) do post de alguns dias atrás. Antecipo que não tenho a intenção de fazer deste blog uma sucursal do E Deus Criou a Mulher. Falta-me a intenção e, segundo me informam os mais despeitados, falta-me também o bom gosto necessário para tanto. Aos diabos! etc.

 


Samara Felippo

 


Naomi Watts

 


Rachel Weisz

 


Scarlett Johansson

 


Jennifer Connely

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Stevenson e a Natureza Dual do Homem

Com o advento da mecânica quântica, no início do século 20, tornou-se mais ou menos comum estender o conceito de dualidade às relações humanas. Os gurus das chamadas ciências alternativas fizeram-nos o favor de explicar tudo o que há de insólito no mundo através da dualidade partícula-onda, do princípio da incerteza e das equações de Schrödinger. Está claro que não fazem a mínima idéia do que falam. Em verdade, como já chegou a confessar um professor de Física meu, ninguém realmente entende dessas coisas.

Não é de estranhar, então, que Robert Louis Stevenson não seja lido com a mesma seriedade que se costuma dedicar a alguns de seus contemporâneos, como Henry James e Joseph Conrad. Stevenson, com seu The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, continua a já brilhante tradição do fenômeno da dupla personalidade (em suas muitas variações) na literatura em inglês (dois que vieram antes: Frankenstein, de Mary Shalley e o sinistro William Wilson de Edgar Poe; dois que vieram depois: The Picture of Dorian Gray, do Wilde, e o quase desconhecido The Secret Sharer, de Conrad) e acaba legando à posteridade uma história que é amiúde lembrada menos por sua qualidade literária que por seus atributos potencialmente teatrais. Já não são poucas as versões cinematográficas direta ou indiretamente inspiradas na novela de Stevenson e, como já era de se esperar, o sucesso (ou não) de cada um delas depende, more often than not, da capacidade (ou não) que o protagonista tem de transfigurar-se de Jekyll para Hyde e vice-versa.

Seria tolice achar que o objetivo útimo de Stevenson consistia em entreter uma platéia de deslumbrados. A seriedade com que tratava da problemática moral por trás das tais transformações, a recorrência do tema em seus textos menos cênicos e a genuína admiração com que se referia a outras obras da mesma vertente nos leva, sem muita dificuldade, a essa constatação. Em referência ao Crime e Castigo de Dostoievski, diz Stevenson que “it is the greatest book I have read easily in ten years. Henry James could not finish it: all I can say is, it nearly finished me. It was like having an illness.”

Nós todos conhecemos bem a trajetória de Dr. Jekyll; sua vida é um dos lugares-comuns mais caros à psicologia moderna. Trata-se de um sujeito que, vindo de família rica e respeitável, além de ser inteligente e afeito à ciência, esperava nada menos que um futuro brilhante. De fato: como médico, conquistou a confiança dos pacientes e o respeito da sociedade. Nutria, porém, um escrúpulo inexpugnável por sua idoneidade moral: era severo censor de seus próprios desleixos e preferiria qualquer coisa a uma mancha em sua dignidade. Surge, assim, a idéia da repressão, dos impulsos a muito custo mantidos por debaixo da figura impecável do bom médico; surge, finalmente, Mr. Hyde.

Existe, também aqui, a velha disputa interna entre o bem e o mal. A princípio Jekyll controla as aparições de seu colega sem caráter; mas, a partir do momento em que elas se tornam mais frequentes, torna-se mais difícil também desvencilhar-se dele. O temperamento maligno de Hyde começa a predominar, e Jekyll chega à derradeira conclusão de que chegará o dia em que sua própria figura desaparecerá, e em que Hyde poderá dedicar-se ao crime e à destruição sem mais remorsos.

A punição destinada a Jekyll por ter dado liberdade aos seus impulsos mais medonhos foi nada menos que o próprio desaparecimento. É claro que essa tentação não poderia deixar de vir com um invólucro dos mais atraentes, num discurso que deve muito à formação religiosa do autor:

Will you be wise? Will you be guided? Will you suffer me to take this glass in my hand and to go forth from your house without further parley? or has the greed of curiosity too much command of you? Think before you answer, for it shall be done as you decide. As you decide, you shall be left as you were before, and neither richer nor wiser, unless the sense of service rendered to a man in mortal distress may be counted as a kind of riches of the soul. Or, if you shall so prefer to choose, a new province of knowledge and new avenues to fame and power shall be laid open to you, here, in this room, upon the instant; and your sight shall be blasted by a prodigy to stagger the unbelief of Satan. (p. 59)

A passagem parece uma reedição do episódio da tentação da serpente, e quando se fala em tentação tem-se o costume de pensar em desejos sexuais mal contidos. Não é o caso. Stevenson tem o cuidado de não associar crimes dessa natureza à figura de Hyde; realmente, em sua primeira aparição pública, quando ataca uma garotinha na calçada, nada tenta nesse sentido. Stevenson parece inclusive empenhado em dissociar sexo de pecado, o que seria muito comum na mentalidade dos que gostava de chamar prurient fools. Em carta ao jornalista norte-americano John Paul Bocok, Stevenson explica que

The Hypocrite let out the beast Hyde – who is no more sexual than another, but who is the essense of cruelty and malice, and selfishness and cowardice: and these are the diabolic in men – not this poor wish to have a woman, that they make such a cry about.

O verdadeiro mal advém, então, do hipócrita, não do lascivo. Vindo de quem vem, a declaração ganha mais força ainda.

O esforço interno, o confronto dialético entre o bem e o mal ou, ainda, a simples dualidade de caráter aparecerá muitas outras vezes nas histórias de Stevenson. Em The Suicide Club, o príncipe da Bohemia, acostumado às altas regalias de sua posição, tem como divertimento preferido misturar-se à multidão disfarçado de homem comum. Em Markheim, o personagem de mesmo nome é tentado pelo próprio demônio a continuar em sua vida criminosa, mas acaba desistindo. Em A Lodging for the Night, é a vez de ninguém menos que François Villon, poeta francês do século 15 e inveterado bandido, rever (ou fingir que revê) sua conduta nada louvável. A despeito do esforço empreendido pelos luminares modernosos da psicologia e da sociologia, a questão da natureza dual do homem ainda está, felizmente, por ser solucionada.

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A Vulgaridade do Correto

Não há nada mais catastrófico que uma ironia enfiada no lugar errado. Assim como se reconhece facilmente o mau escritor através da má metáfora (conseguir engendrar metáforas que continuam a soar bem depois de muito tempo é privilégio de poucos), reconhece-se o pensador confuso através da ironia despropositada. O indivíduo que se põe a ironizar o que quer que seja é alçado a uma posição extremamente desconfortável (e instável): a de quem não só conhece perfeitamente o assunto em questão, mas tambem prevê o efeito de suas palavras sobre a audiência. Isso acaba obrigando-o a saber até que ponto a audiência conhece o assunto.

Qualquer falha nesse sentido resultará não numa ironia ineficaz (isso não existe), mas numa ironia ridícula. Quem se arvora à posição de zombador deve conseguir pelo menos isso: zombar. Sob pena de ser ele mesmo ridicularizado. Dou alguns exemplos.

Existe uma prática bastante arraigada nos meios bem-pensantes brasileiros que merece nossa atenção: a mania de fazer aspas com os dedos. Quem já teve a infelicidade de frequentar aulas de história no ensino médio sabe do que estou falando. Mas a prática não se resume a um simples aceno aparvalhado; há todo um ritual. O sujeito tem de levantar bastante os braços, arqueando-os de maneira a quase formar uma semi-circunferência, para só então dedilhar o vazio, como se estivesse fazendo cócegas no fulcro de alguma verdade recôndita. É indispensável manter um olhar alheio, quiçá sonolento, dando a entender que aquilo não é novidade alguma; desde há muito uma classe privilegiada de indivíduos (ele incluso) desmascarou o embuste que todo o restante da humanidade insiste em pespegar ao discurso oficial.

Mais ridícula que uma cena dessas só a dança do já amalucado Quincas Borba. Mas isso não é tudo. Essa gente também adora fazer perguntas retóricas. É um trejeito de que não conseguem se desvencilhar, por mais que tentem. Há, é claro, situações em que as perguntas são bem-vindas ou até aconselháveis: quando realmente não se conhece a resposta ou quando se quer enfatizar um aparente contra-senso na argumentação de alguém. O problema é quando se preenchem linhas inteiras com perguntas cujo objetivo único e exclusivo é atestar a suposta ladicine do autor. Perguntam e já vão dando uma risadinha gutural, antes mesmo que consigamos abarcar a idiotice da pergunta em todo seu esplendor.

As risadinhas, o dedilhado no vácuo, o revirar de olhos, o esfregar das mãos, os passos de dança… todos eles concorrem para formar a imagem de um ser odiento, quando não sumariamente pegajoso, que insiste em querer definir o que é ou não é correto. Na minha República, a vulgaridade seria a primeira entidade a ser expulsa.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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