Parnaso

El Túnel: XXXVI

Thomas Mann estava certo ao descrever o romance (ou melhor, a novela) El Túnel, do argentino Ernesto Sabato, como impressionante. Aí vai um dos capítulos mais impressionantes:

Fue una espera interminable. No sé cuánto tiempo pasó en los relojes, de ese tiempo anónimo y universal de los relojes, que es ajeno a nuestros sentimientos, a nuestros destinos, a la formación o al derrumbe de un amor, a la espera de una muerte. Pero de mi propio tiempo fue una cantidad inmensa y complicada, lleno de cosas y vueltas atrás, un río oscuro y tumultuoso a veces, y a veces extrañamente calmo y casi mar inmóvil y perpetuo donde María y yo estábamos frente a frente contemplándonos estáticamente, y otras veces volvía a ser río y nos arrastraba como en un sueño a tiempos de infancia y yo la veía correr desenfrenadamente en su caballo, con los cabellos al viento y los ojos alucinados, y yo me me veía en mi pueblo del sur, en mi pieza de enfermo, con la cara pegada al vidrio de la ventana, mirando la nieve con ojos también alucinados. Y era como si los dos hubiéramos estado viviendo pasadizos o túneles paralelos, sin saber que íbamos el uno al lado del otro, como almas semejantes en tiempos semejantes, para encontrarnos al fin de esos pasadizos, delante de una escena pintada por mí como clave destinada a ella sola, como un secreto anuncio de que ya estaba yo allí y que los pasadizos se habían por fin unido y que la hora del encuentro había llegado.

¡La hora del encuentro había llegado! Pero ¿realmente los pasadizos se habían unido y nuestras almas se habían comunicado? ¡Qué estúpida ilusión mía había sido todo esto! No, los pasadizos seguían paralelos como antes, aunque ahora el muro que los separaba fuera como un muro de vidrio y yo pudiese verla a María como una figura silenciosa e intocable… No, ni siquiera ese muro era siempre así: a veces volvía a ser piedra negra y entonces yo no sabía qué pasaba del otro lado, qué era de ella en esos intervalos anónimos, qué extraños sucesos acontecían; y hasta pensaba que en esos momentos su rostro cambiaba y que una mueca de burla lo deformaba y que quizá había risas cruzadas con otro y que toda la historia de los pasadizos era una ridícula invención o creencia mía y que en todo caso había un solo túnel, oscuro y solitario: el mío, el túnel en que había transcurrido mi infancia, mi juventud, toda mi vida. Y en uno de esos trozos transparentes del muro de piedra yo había visto a esta muchacha y había creído ingenuamente que venía por otro túnel paralelo al mío, cuando en realidad pertenecía al ancho mundo, al mundo sin límites de los que no viven en túneles; y quizá se había acercado por curiosidad a una de mis extrañas ventanas y había entrevisto el espectáculo de mi insalvable soledad, o le había intrigado el lenguaje mudo, la clave de mi quadro. Y entonces, mientras yo avanzaba siempre por mi pasadizo, ella vivía afuera, esa vida curiosa y absurda en que hay bailes y fiestas y alegría y frivolidad. Y a veces sucedía que cuando yo pasaba frente a una de mis ventanas ella estaba esperándome muda y ansiosa (¿por qué esperándome? ¿y por qué muda y ansiosa?); pero a veces sucedía que ella no llegaba a tiempo o se olvidaba de este pobre ser encajonado, y entonces yo, con la cara apretada contra el muro de vidrio, la veía a lo lejos sonreír o bailar despreocupadamente o, lo que era peor, no la veía en absoluto y la imaginaba en lugares inaccesibles o torpes. Y entonces sentía que mi destino era infinitamente más solitario que lo había imaginado.

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Mill (2): Utilitarianism

Partindo do princípio utilitário segundo o qual a Felicidade é o objetivo ulterior de nossa existência, coube a Mill, no ensaio Utilitarianism, reformular a idéia que formamos dessa felicidade. Sua idéia difere da tradicional (lê-se da de Jeremy Bentham) em três aspectos: (1) a felicidade adquire um aspecto mais ativo; ela advém principalmente daquilo que realizamos, nosso trabalho e nossas conquistas; (2) a felicidade é idiossincrática, isto é, admitem-se peculiaridades que não necessariamente concorrem para a felicidade de um indivíduo, mas que podem concorrer para a de um outro; (3) as circunstâncias mais relevantes para a obtenção da felicidade são de ordem pessoal, o que constitui a própria tese do On Liberty.

Quem leu o post sobre Viktor Frankl lembrará que (1) é um dos meios citados através dos quais podemos chegar a um sentido. (2) é encarado pelo leitor moderno como uma obviedade, mas não custa lembrar que mesmo reconhecendo a pluralidade do fenômeno da felicidade, Mill acreditava, assim como o fazia Aristóteles, que existe uma, digamos, hierarquia dos prazeres. Mill é axiomático ao afirmar que os prazeres de caráter intelectual são superiores em relação aos demais. Não temos aqui, como talvez quisessem os mais modernosos, liberdade total e irrestrita: It is better to be a human being dissatisfied than a pig satisfied; better to be Socrates dissatisfied than a fool satisfied. Em (3) se verifica a suspeita de que, contrariamente ao que diziam muitos de seus críticos, Mill era um pensador consistente e até bastante sistemático (suspeita que ganha força quando se lê outros de seus ensaios), chegando a níveis de ambição inobserváveis em intelectuais desconexos e intempestivos.

Mill parece tentar divisar nada menos que uma Religião Universal. Sugere que a moral cristã, sem o auxílio de aquisições seculares, não é suficiente para a formação do caráter ideal. Apesar de estar disposto a preencher essa e outras lacunas, persiste a velha dificuldade que assombra todo e qualquer utilitarista: a questão da ‘medição’ dos prazeres. Ainda que uma classificação bastante ampla seja às vezes possível (como a dos prazeres intelectuais versus o resto, se estivermos realmente dispostos a aceitá-la), qualquer tentativa mais específica não deve esperar muito sucesso. É forçoso reconhecer que a concessão feita em (2) dificulta ainda mais a situação; se talvez chegamos a uma descrição mais fiel da realidade, simultaneamente torna-se mais difícil sua análise: algo como o equivalente do Princípio da Incerteza nas ciências sociais.

Seria conveniente desmistificar o preconceito referente ao termo utilitarismo segundo o qual esse ramo do pensamento apregoa práticas nada menos que egoístas, aliadas ao também famigerado individualismo. Nada tenho contra preconceitos, apenas advirto que esse tem origem numa simples deturpação da termionologia. Utilitarismo não é ‘ser feliz’ e dane-se o resto:

The utilitarian morality does recognize in human beings the power of sacrificing their own greatest good for the good of others. It only refuses to admit that the sacrifice is itself a good. A sacrifice which does not increase, or tend to increase, the sum total of happiness, it considers wasted.

Mais uma vez as palavras soam familiares: Frankl falava do sofrimento como maneira de obter a felicidade, dado que esse sofrimento tivesse um significado. A diferença é que, sem o termo utilitarismo, a idéia nos parece mais simpática.

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Mill (1): On Liberty

The object of this Essay is to assert one very simple principle, as entitled to govern absolutely the dealings of society with the individual in the way of compulsion and control, whether the means used be physical force in the form of legal penalties, or the moral coercion of public opinion. That principle is, that the sole end for which mankind are warranted, individually or collectively, in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection.

O objetivo de John Stuart Mill (1806-73) ao escrever esse que se tornou seu ensaio mais famoso, On Liberty, era estabelecer um critério que não somente regulasse as relações entre indivíduo e sociedade, mas que também fosse simples, isto é, um princípio cuja aplicação simples e direta fosse capaz de solucionar qualquer dúvida relativa à interferência do coletivo na esfera individual. Um projeto assim tão ambicioso, ainda que empreendido por uma inteligência prodigiosa como a de Mill, estava fadado a falhar.

Realmente, o que se observa é que o critério proposto por Mill nada tem de simples. Primeiro, ele supõe que cada indivíduo, quando restrito ao âmbito pessoal, aquele que não exerce influência direta sobre quem quer que seja além do próprio indivíduo, tem o direito de cultivar livremente suas idiossincrasias. Difícil precisar os limites dessa “esfera” íntima; há quem argumente que ela nem sequer existe, visto que, a menos que se trate de um recluso, qualquer ação sua pode vir a ter um impacto sobre alguém, ainda que esse impacto não seja mais que um bom ou mal exemplo.

Adiante: sabemos que a interferência do coletivo sobre o individual pode ser justificada com base no argumento de que, no caso em questão, essa interferência evitaria danos a terceiros. Acontece que a interferência pode ser ela própria mais danosa que os males supostamente evitados. É-nos facilmente concebível uma situação em que o estímulo às liberdades pessoais de alguém (por exemplo, a liberdade de abrir um negócio) tem influência marcadamente negativa sobre as interesses de outros (por exemplo, da concorrência). Isso não significa que o Estado deve intervir, suprimindo ou limitando a liberdade de mercado. Se por acaso chegamos à conclusão de que, dada uma situação qualquer, algum tipo de intervenção faz-se necessária, é porque a força das circunstâncias nos fez ver que o mal advindo desse desrespeito à individualidade é mais que contrabalançado pelo benefício final alcançado.

Percebe-se logo que a aplicação desse princípio depende diretamente de longos processos de deliberação, em que devem pesar as especificidades de cada caso, e cujo fim é sempre a escolha, não raro dificílima, do mal menor. Esse é um problema intrínseco à filosofia utilitarista, sobre a qual Mill também escreve: se o objetivo maior de nossa existência é a Felicidade, como determinar os meios mais aconselháveis para a sua obtenção?, ou, questão análoga, como comparar diferentes prazeres? Vale lembrar que Mill vê o respeito à individualidade como condição necessária para se chegar à Felicidade (um dos capítulos do ensaio é chamado Of Individuality, as One of the Elements of Well-Being), motivo mais que suficiente para conferir especial seriedade à decisão de infringi-la.

Boa parte dessas dificuldades foram previstas e até comentadas pelo próprio Mill. Suas perguntas,

What, then, is the rightful limit to the sovereignty of the individual over himself? Where does the authority of society begin? How much of human life should be assigned to individuality, and how much to society?,

feliz ou infelizmente, continuam sem resposta definitiva. Mais uma vez, o pragmático triunfa sobre o paradigmático.

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Mosca Tsé-Tsé

Fui picado pela famosa mosca tsé-tsé. Só dormi esses dias. ZZzz.

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Nossa Imparcialidade

Os antigos representavam a Justiça como uma entidade cega. Note-se: cega, não burra. A noção correta de imparcialidade é exatamente essa: a implementação rigorosa de um regulamento cujas consequências não nos são previsíveis, isto é, qualquer um pode estar certo ou errado, qualquer um pode ser inocente ou culpado. A menos, é claro, que haja motivos palpáveis para a deturpação desse equilíbrio.

Ninguém nega a diferença entre homicídio doloso e culposo; não há qualquer traço de parcialidade na iniciativa de tratar um dos casos com mais severidade. Em geral, a mídia brasileira parece pensar diferente. O esforço para parecer imparcial é tão grande que se procura igualar tudo e todos perante a análise do jornalista; qualquer juízo de valor referente ao posicionamento moral dos envolvidos é heresia das mais cabeludas. Essa imparcialidade bonachã e risonha não exclui ninguém: terroristas, assassinos, estupradores etc. Uma temeridade condená-los; é preciso ouvi-los, devem ter tido seus motivos. Na década de 80 deviam ser crianças sofridas.

Quando nos afastamos do campo do Direito, essa obsessão pela imparcialidade passa a ser nada menos que burrice, uma abdicação intelectual total e irrestrita. John Stuart Mill, no ensaio Utilitarianism:

Impartiality, however, does not seem to be regarded as a duty in itself, but rather as instrumental to some other duty; for it is admitted that favour and preference are not always censurable, and indeed the cases in which they are condemned are rather the exception than the rule. A person would be more likely to be blamed than applauded for giving his family and friends no superiority in good offices over strangers, when he could do so without violating any other duty; and no one thinks it unjust to seek one person in preference to another as a friend, connection, or companion.

Outros tempos, outra gente. Depois escrevo sobre o Mill. Ando meio adoentado.

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A França de Burke

A França dos revolucionários é bem conhecida, assim como todos os altíssimos ideais que teriam, supostamente, posto um fim ao ancien régime e dado início a uma era de igualdade e esclarecimento político. A França de Edmund Burke já é um tanto diferente e, talvez por isso mesmo, menos conhecida, apesar de guardar com a realidade (a realidade de até então, 1790, e também a dos anos seguintes) uma similitude assombrosa. Conor Cruise O’Brien, estudioso (também irlandês) autor da introdução de 80 páginas ao volume das Reflections on the Revolution in France da Penguin, afirma que, até hoje, é erro comum entre undergraduates achar que Burke teria escrito seu livro depois de a última cabeça antipática aos ideais revolucionárias ter rolado. Muito pelo contrário, foi publicado em novembro de 1790, período relativamente calmo, quando o Terror e as deliberações facinorosas de Robespierre e congêneres ainda estavam por acontecer.

Há, em primeiro lugar, especulações quanto aos motivos da fúria de Burke: muitos vêem inconsistência no fato de ele ter sido favorável à revolução norte-americana e opositor obstinado da francesa. Outros, como Marx (em nota no seu O Capital), achavam que Burke buscava apenas defender o interesse da ordem estabelecida na Inglaterra, da qual era membro relativamente ilustre. Essa suspeita foi avivada quando passou a receber um estipêndio anual graças ao seu livro, mas O’Brien mostra, sem muita dificuldade, que essas e outras acusações são infundadas. Uma leitura mais detida mostra que o discurso (e a virulência) de Burke ataca não só as novidades francesas, mas, de certa maneira, também algumas das mais sólidas convicções britânicas, o que levou Mary Wollstonecraft a afirmar que, se tivesse nascido sob as circunstâncias convenientes, ele teria sido um modelo de revolucionário!

Há quem diga, também, que as imprecações de Burke são mais consequência de uma natureza imaginativa e exagerada que de uma real apreciação dos fatos. Ora, está claro que ele não ignorava a importância de procedimentos tipicamente panfletários; há momentos, acreditava ele, em que moderação no discurso é exatamente o que o adversário mais deseja:

The calm mode of Enquiry would be a very temperate method of our losing our Object; and a very certain mode of finding no calmness on the side of our adversary. Our being mobbish is our only chance for his being reasonable.

Tampouco seria muito sensato creditar todo o esforço de Burke a uma tática cuidadosamente planejada. Aborrecia-o principalmente os ingleses que flertavam abertamente com a idéia de importar as novas idéias do continente, concentrados em especial na Revolution Society; de tal maneira que seu Reflections é antes uma defesa da constituição inglesa que um ataque às excentricidades francesas, apesar de ambos os fins serem, muitas vezes, perseguidos simultaneamente.

Revoltava-o acima de tudo a tranquilidade com que os revolucionários se arvoraram à posição de destruir toda uma tradição política construída até então, ignorando solenemente todo e qualquer ensinamento que pudesse ser aduzido do legado de seus ancestrais (People will not look forward to posterity, who never look back to their ancesters). Parece fazer parte de nosso senso comum exigir que esse tipo de confiança venha acompanhada de nada menos que a mais brilhante inteligência – já que pretende sustentar-se exclusivamente por si mesma -, sob o risco de passar por capricho de gente presunçosa e amalucada. Burke, cujo motto, tão insistentemente lembrado, é mudar para preservar, mal pode esconder sua aversão ante a facilidade com que muitos franceses viraram as costas para o passado. Se é certo que na coroa francesa havia muito a ser corrigido, há um salto lógico que deixaria Aristóteles tonto em supor que só se poderia corrigi-la através de sua total destruição, com o agravante de querer suplantá-la com instituições igualmente ou até mais arbitrárias que as que acabaram de ser rechaçadas. Burke contrapõe esse comportamento destrambelhado à idéia que faz do governo inglês:

Our political system is placed in a just correspondence and symmetry with the order of the world, and with the mode of existence decreed to a permanent body composed of transitory parts; wherein, by the disposition of a stupendous wisdom, moulding together the great mysterious incorporation of the human race, the whole, at one time, is never old, or middle-aged, or young, but in a condition of unchangeable constancy, moves on through the varied tenour of perpetual decay, fall, renovation, and progression. Thus, by preserving the method of nature in the conduct of the state, in what we improve we are never wholly new; in what we retain we are never wholly obsolete.

Depois de fazer uma análise geral do temperamento revolucionário, Burke prossegue mostrando que, diferentemente do que se esperava (dada a arrogância com que ascenderam), os novos detentores do poder estão longe da idealidade que prometeram trazer. Seja por ignorância (para Burke, essa era a hipótese menos provável), fanatismo ou má-fé, o certo é que os procedimentos da Assembléia Nacional fizeram pouco pelo bem e muito pelo mal do povo francês: há análises detalhadas das medidas tomadas pela assembléia em áreas tão variadas como as finanças, a economia especulativa (Burke previu que a desapropriação das terras da Igreja transformaria a França num paraíso dos especuladores), a hierarquização administrativa e as forças armadas (Burke previu, dessa vez com uma precisão assombrosa, que a ausência de uma autoridade fixa levaria à ascensão de uma figura suficientemente inteligente e carismática que, aproveitando-se da fragilidade política do país, dominaria não só as forças armadas como toda a nação: Napoleão chegou ao poder dois anos depois de sua morte), e as poucas vantagens que delas admite advir lhe parecem meramente conjunturais. Está claro que, quando se destrói todo um governo, destrói-se também o que havia de ruim nele. Infelizmente, isso não é algo de que possamos nos gabar, principalmente quando, juntamente com os erros, encontramos, nos escombros do que já foi derrubado, o próprio mecanismo que possibilitaria a supressão desses erros sem que se fizesse necessária a destruição total.

É possível, aqui também, encontrar as contradições típicas de todo governo que pretende representar os interesses populares. No post sobre Chesterton (Chesterton que, aliás, deve muitas de suas tiradas em defesa ao conservadorismo a Burke), cito uma passagem que se refere rigorosamente à mesma idéia aqui tratada por Burke:

You will smile here at the consistency of those democratists, who, when they are not on their guard, treat the humbler part of the community with the greatest contempt, whilst, at the same time, they pretend to make them the depositories of all power.

E, se na época em que o livro foi publicado muitos se sentiram impelidos a achar que Burke exagerava em suas acusações, os acontecimentos dos anos seguintes desmentiram-nos com grande eloquência. É curioso observar (e isso é perceptível graças às notas explanatórias) que muitos dos primeiros defensores da revolução atacados por Burke foram mais tarde guilhotinados. Ora, se foi esse o tratamento dispensado àqueles que concordavam com o breviário insurrecional (pelo menos em sua versão mais moderada), o que dizer daqueles que foram doudos a ponto de declarar-se sumariamente avessos a ele? Burke declarou-se sumariamente avesso, mas porque havia alguns quilômetros de água entre ele e a costa francesa. Graças a essa distância, pudemos herdar, sem maiores prejuízos para o seu pescoço, o registro de seu ideal de homem político:

A disposition to preserve, and an ability to improve, taken together, would be my standard of a statesman. Every thing else is vulgar in the conception, perilous in the execution.

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A Vida e a Vida

Foi-se o tempo em que nos referíamos às Virtudes com letras maiúsculas. O que rege o homem moderno nao é mais a Honra, a Compaixão, a Verdade ou o Amor, mas a honra, a compaixão, a verdade e o amor. Pelo menos é o que dizem.

É bem que verdade que, paralelamente a isso, a vida tornou-se mais valiosa. Como dizia num outro post, preocupamo-nos mais uns com os outros. Morremos, talvez, mais, mas por melhores motivos: pelo bem da humanidade, não por um tabefe na cara; pela salvação dos tamanduás-bandeira, não por uma dívida que não podemos pagar. Valorizamos tanto a vida que achamos natural tornarmo-nos canibais na falta de comida.

Vivia-se menos quando a vida era realmente importante.

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Emily

There’s a certain Slant of Light (258)
Emily Dickinson (~1861)

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons –
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes –

Heavenly Hurt, it gives us –
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are –

None may teach it – Any –
‘Tis the Seal Despair –
An imperial affliction
Sent us of the air –

When it comes, the Landscape listens –
Shadows – hold their breath –
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death –

Italo Calvino, em sua palestra Leveza, esqueceu-se de mencionar essa célebre composição de peso (a idéia dos sinos de uma catedral, apesar de que, segundo consta, Dickinson nunca esteve numa) e leveza (a luz de uma tarde de inverno). Alguns editores inclusive substituíram Heft por weight.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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