Parnaso

Rousseau ou A Criança Mimada

O volume Intellectuals do historiador, jornalista, ex-pintor etc. britânico Paul Johnson reúne esboços biográficos das figuras pivotais da intelectualidade ocidental a partir do século 18. O livro tem por objetivo investigar o lado mais íntimo desses que se arvoraram à posição de líderes espirituais e de reformadores da ética e da moral. Johnson observa que, com o declínio generalizado das instituições religiosas no século 18, surge a figura do intelectual secular: aquele que supõe encontrar em si mesmo todos os pressupostos necessários para servir de mentor da humanidade. Essa liderança extravasa os limites do meramente intelectual; envereda também pelos caminhos tortuosos do comportamento íntimo. Cumpre saber, então, se esses novos gurus têm credibilidade para tanto.

O primeiro capítulo é dedicado a ninguém menos que Jean-Jacques Rousseau, o queridinho oficial do Iluminismo europeu. A sequência de depoimentos perturbadores acerca de Rousseau é tão massiva que o leitor não pode deixar de se perguntar por que diabos ainda se discute seus escritos políticos (todos eles tingidos de um proto-socialismo que hoje em dia não ilude nem pastores de ovelhas), quando seria bem mais interessante e recompensador ater-se a seu comportamento privado.

Rousseau acreditava ser a própria encarnação da generosidade, da ética e das boas maneiras. Sendo isso uma verdade que todos deveriam forçosamente aceitar, algo conhecido a priori, ele se sentia à vontade para afirmar que I have things in my heart which absolve me from being good-mannered. Essa petulância toda não poderia ter outro desfecho que não querelas intermináveis com quem quer que lhe disputasse a posição de guardião da verdade. Johnson observa que

He quarreled, ferociously and usually permanently, with virtually everyone with whom he had close dealings, and especially those who befriended him; and it is impossible to study the painful and repetitive tale of these rows without reaching the conclusion that he was a mentally sick man.

A sugestão de um desequilíbrio mental causa certo estranhamento a princípio, mas só a princípio. Todas as características de uma mente perturbada vão sendo cuidadosamente reveladas, incluída entre elas a velha mania de perseguição. Acompanhemos o que dizia Rousseau sobre seus supostos perseguidores (uma trama internacional na qual qualquer um poderia estar envolvido):

They will build me an impenetrable edifice of darkness. They will bury me alive in a coffin… If I travel, everything will be prearranged to control me wherever I go. The word will be given to passengers, coachmen, innkeepers… Such horror of me will be spread on my road that at each step I take, at everything I see, my heart will be lacerated.

Da mesma maneira podemos interpretar sua obsessão com a própria saúde que, de resto, era bem melhor do que fazia crer. Rousseau via a si mesmo como um órfão indefeso (é certo que perdeu a mãe muito cedo, mas suas relações com o pai não eram das mais amistosas), enviado ao mundo para nos livrar da influência putrefata do dinheiro e da ganância, e que por isso mesmo não deveria nem poderia ser contrariado. Esse alto ideal só poderia ser atingido com uma submissão completa do homem frente ao Estado, que cuidaria de nossos interesses mais ‘sórdidos’. Esses laivos autoritários (e totalitários) não são menos pronunciados em seu discurso pessoal. Ao tentar se esquivar das muitas acusasões que lhe eram imputadas, teve tranqulidade suficiente para dizer que

I have said the truth. If anyone knows facts contrary to what I have just said, even if they were proved a thousand times, they are lies and impostures… [whoever] examines with his own eyes my nature, my character, morals, inclinations, pleasures, habits, and can believe me to be a dishonest man, is himself a man who deserves to be strangled.

Semelhante imprecação nos força a entrever o que esse homem seria capaz de aprontar na eventualidade de ser alçado ao poder por um regime revolucionário. Esse comportamento tipicamente infantil, infelizmente, não era só palavrório. Sua incapacidade de manter compromissos e de assumir qualquer tipo de responsabilidade o levou a abandonar todos os seus cinco filhos num orfanato cujo índice de mortandade era sabidamente (inclusive por ele mesmo) altíssimo.

O egoísmo e a mania de grandeza que lhe eram característicos poderiam ter sido fatais se não fosse seu talento como orador, polemista e escritor popular. Esses traços tão detestáveis de seu caráter, que de ordinário serviriam para decretar seu fracasso enquanto figura pública, acabaram sendo ratificados e exacerbados pelos aduladores de plantão e pelos endinheirados que, envergonhados com sua própria superioridade financeira, sentiam a necessidade de apadrinhar o primeiro ‘intelectual’ que lhes aparecesse. Daí que Jean-Jacques Rousseau, que não mereceria ser mentor intelectual nem da lavanderia lá de casa, tenha se transformado nessa figura monstruosamente influente e hipnótica.

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Arquivado em:História, Miscelânea

The Second Coming


Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats (1865-1939)

Arquivado em:Poesia

A Memória de Ortega y Gasset

El verdadero tesoro del hombre es el tesoro de sus errores, la larga experiencia vital decantada gota a gota en milenios. Por eso Nietzsche define al hombre superior como el ser de “la más larga memoria”.

A definição dada por Ortega y Gasset, em seu La Rebelión de las Masas, ao termo massa ou, mais especificamente, ao homem-massa, sempre foi tema de muita discussão. Como se já não bastasse a novidade do fenômeno propriamente dito (a rebelião das ditas massas), há sempre uma certa dificuldade em precisar se este ou aquele indivíduo é também um homem-massa. Pergunta que caberia ao leitor: “serei eu, também, um homem-massa?”

O trecho epigrafado, retirado do Prólogo para franceses, parece permitir uma decisão mais rápida. O homem-massa de Ortega é o oposto do homem superior de Nietzshe; não se trata, pois, de uma distinção calcada em classes sociais, mas sim numa violenta falta de memória. O homem-massa pode ser motorisa de ônibus, torneiro mecânico, cardiologista ou físico de plasmas. Ele pode contribuir para o avanço mesmo do que há de mais abstruso e inacessível na tecnologia de ponta. Em que consiste, então, o cientista desmemoriado?

Antes mesmo de saber precisamente o que essa ‘amnésia’ significa, cabe notar que a definição de homem-massa, tal como vista até aqui, já impede que se fale em decadência assim como queria Spengler. O homem-massa de Ortega chega à civilização em que está inserido como o bebê chega ao mundo: nos primeiros momentos, o menor detalhe já é motivo para alumbramento; quando não lhe satisfazem as exigências, põe-se a chorar freneticamente; quando decide agir, fá-lo atabalhoadamente e com violência, sem evitar perigos conhecedíssimos e outros tantos que poderiam ser inferidos. Daí a propensão natural do homem-massa à revolução, à rebelião. Quem desconhece o que lhe antecedeu não tem por que ser escrupuloso no ato de destruí-lo.

Fica claro daí que o que se propõe não é um declínio, processo esse que, por mais degenerativo e incaracterístico que seja, mantém-se sempre ligado, como num contínuo, a tudo quanto veio antes, incluído aí o auge mesmo da cultura ou civilização em questão. O homem-massa, por outro lado, promove uma ruptura radical e irremediável; ele está só no mundo como um primitivo, alheio a qualquer tipo de tradição.

Se a perspectiva de uma sociedade dominada pelas tais massas deve necessariamente incluir um total desapreço pelas culturas anteriores, no âmbito individual esse desprezo pelo passado se transforma num desprezo pelo vizinho. Note-se que o homem-massa, tendo relegado o que lhe antecedeu a um plano de menor importância, interpretará o prestígio que porventura lhe for concedido como uma autorização para extravasar sua autoridade específica (a esta altura bastante limitada) e invadir arrogantemente a dos outros. A resposta que o homem-massa encontra em si mesmo já é mais que suficiente; não se lhe afigura necessário consultar quem quer que seja: fazê-lo seria sinal de subserviência, de uma muito detestada servidão. É exatamente o contrário do que se encontra na noção que Ortega tem de nobreza:

No le sabe su vida si no la hace consistir en servicio a algo trascendente. Por eso no estima como una opresión la necesidad de servir. Cuando esta, por azar, le falta, siente desasosiego y inventa nuevas normas más difíciles, más exigentes, que le opriman. Esto es la vida como disciplina – la vida noble. La nobleza se define por la exigencia, por las obligaciones, no por los derechos.

Reparem que só citei definições negativas do homem-massa – o que ele não é. Por mais extensiva que seja a descrição que Ortega faz do homem-massa, essa parece ser a maneira mais fácil de identificá-lo num texto curto: opondo a sua memória à do Ortega, opondo ele mesmo ao homem superior de Nietzsche, opondo sua ‘liberdade’ à ‘servidão’ dos nobres.

Arquivado em:Filosofia, Sociologia

Adendo

Estava eu lendo o The Decline of the West, do Oswald Spengler (de que falarei num dos próximos posts), quando encontrei a seguinte passagem, que serve de adendo ou confirmação ao que se disse no post sobre indução:

Nature-laws are forms of the known in which an aggregate of individual cases are brought together as a unit of higher degree. Living Time is ignored – that is, it does not matter whether, when or how often the case arises, for the question is not of chronological sequence but of mathematical consequence. But in the consciousness that no power in the world can shake this calculation lies our will to command over Nature. That is Faustian. It is only from this standpoint that miracles appear as breaches of the laws of Nature. Magian man saw in them merely the exercise of a power that was not common to all, not in any way a contradiction of the laws of Nature. And Classical man, according to Protagoras, was only the measure and not the creator of things – a view that unconsciously forgoes all conquest of Nature through the discovery and application of laws.

Arquivado em:Filosofia

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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