Parnaso

A Primeira Barca

O Auto da Barca do Inferno (1516?) é a primeira das Barcas do português Gil Vicente (1465-1536), precedendo a Barca do Purgatório (1518) e a Barca da Glória (1519). Aqui, acompanhamos as desventuras de um Fidalgo, de um Onzeneiro, de um Parvo, de um Sapateiro, de um Frade, de uma Alcoviteira, de um Judeu, de um Procurador, de um Corregedor e de um Enforcado, sendo todos eles, à exceção do Parvo e do Judeu (que nem pelo Diabo foi aceito), condenados a remar as águas infernais com o Capeta.

Curioso que boa parte deles, malgrado a não pequena patifaria que fizeram em vida, chegam ao “profundo braço de mar, onde estão dous batéis: um deles passa pera a glória, o outro pera o inferno” em que se passam os três autos com a convicção de que seguirão serenamente para o Paraíso. Seja pelo status social (como é o caso do Fidalgo), pelas vantagens financeiras (Onzeneiro), pela autoridade perante a lei (Procurador e Corregedor), pela importância eclesiástica (Frade) ou pelo castigo recebido em vida (Enforcado), entre outros motivos, todos se acreditam merecedores de uma estadia bem confortável no além. Em tempo, todos adentram o batel do Diabo, conformados.

Vão abaixo alguns trechos.

1) Conforma-se o Fidalgo

Fidalgo
Ao inferno toda via,
Inferno há hi [aí] pera mi?
ó triste que em quanto vivi
nunca cri que o hi havia,
tive que era fantesia,
folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.

Venha esta prancha e veremos
esta barca de tristura. (…)

2) O Sapateiro tenta se safar

Sapateiro
Como poderá isso ser
confessado e comungado?

Diabo
E tu morreste excomungado
e não nos quiseste dizer,
esperavas de viver,
calaste dez mil enganos,
tu roubates bem trinta anos
o povo com teu mister.

Embarca eramá pera ti
que há já muito que te espero

Sapateiro
Digo-te que re-não quero.

Diabo
Digo-te que si re-si.

Sapateiro
Quantas missas eu ouvi
não m’hão elas de prestar?

Diabo
Ouvir missa, então roubar
é caminho pera aqui.

3) Discurso de quatro cavaleiros da ordem de Cristo, mortos na África.

Cavaleiros
À barca, à barca segura
guardar da barca perdida
à barca, à barca da vida.

Senhores que trabalhais
pola vida transitória,
memória por Deus memória
deste temeroso cais!
À barca, à barca mortais
porém na vida perdida
se perde a barca da vida.

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A Idéia Fixa em Spengler (2)

O leitor mais incauto inferirá do último post que não gostei do livro de Spengler. Nada poderia estar mais longe da realidade. Um ou outro professor de ciências humanas poderá inchar o peito para declarar, como que de cima dum pedestal, que as idéias estruturais de Spengler estão ‘superadas’. É realmente prodigiosa a capacidade que certas pessoas têm de prever o passado; um passado de, digamos, 88 anos atrás. Mais precisamente: 1918, quando Max Weber declarava que Spengler era a very ingenious and learned dilletant. Depreende-se dessa frase duas coisas: Weber não ligava a mínima importância para a teoria dos ciclos de Spengler, e foi só a muito custo que foi convencido pelos seus estudantes a participar de um debate formal com ele, no inverno de 1919-1920, em Munique. E também que, a despeito desse desprezo, tinha uma admiração nada pequena pelo Declínio. A postura pomposamente dogmática de Spengler ao anunciar sua filosofia da História pode até se tornar algo divertido se lembramos que Spengler era, ora bolas, alemão. Assim como Henrik Ibsen (que não era alemão), talvez ele fizesse questão de anunciar com grande solenidade que “semana que vem tomarei o trem para Munique!”.

Além do estilo propriamente dito, o que há nesse livro que justifique a alcunha de romance da decadência? Como dito anteriormente, o passeio pela História empreendido por Spengler pode até não provar suas teorias – de fato, pode provar até seu contrário ou não provar coisa alguma -, mas continua válido porque não foi distorcido, como seria de se esperar de uma mente ensimesmada com uma idéia fixa. Mesmo que suas conclusões venham a ser consideradas, por consenso, erradas, não há absolutamente nada que impeça que o estudo que o levou a essas conclusões retenha seu valor. Não como evidências de uma tese que já não é mais levada a sério, mas como as observações de alguém que, mesmo se equivocado, é bem mais perspicaz que a média dos filósofos pertencentes à ordem do dia.

O que mais chama a atenção na análise de Spengler são os modelos criados para descrever o estado de espírito do homem em diferentes períodos civilizacionais. A oposição mais explorada é entre o homem atual (Faustian soul), civilização ‘ocidental’, e o homem antigo (Apollinian soul), civilização greco-romana e além. Não à toa: é quando Spengler se sente mais à vontade precisamente porque sabe mais sobre elas. Sua análise da Rússia se resume a breves comentários sobre Dostoievski e Tolstoi. Quanto à já referida oposição, são analisados principalmente os seguintes aspectos: ciência (matemática e física), artes plásticas e música. Assim, enquanto a matemática dos antigos se limitava ao número inteiro (ou mesmo natural), ao finito e ao palpável, a análise (cálculo) dos modernos avançou para o infinito e para o espaço multidimensional. Enquanto a física de Arquimedes lidava com o estático e com o visível, a de Newton tratou da dinâmica, do conceito de força e da novíssima idéia de atuação à distância. Onde estarão os pontos em comum, ou, melhor dizendo, o caráter periódico de paradigmas tão distintos? Pelo menos no que se refere à decadência, Spengler observa que

The sympton of the decline in creative power is the fact that to produce something round and complete the artist now requires to be emancipated from form and proportion. Its most obvious, though not its most significant, manifestation is the taste for the gigantic. Here size is not, as in the Gothic and the Pyramid styles, the expression of inward greatness, but the dissimulation of its absense. This swaggering in specious dimensions is common to all nascent Civilizations – we find it in the Zeus altar of Pergamum, the Helios of Chares called the “Colossus of Rhodes”, the architecture of the Roman Imperial Age, the New Empire work in Egypt, the American skyscraper of today.

Com a ressalva de que civilização, para Spengler, significa o fim do desenvolvimento de uma cultura. Seria, digamos assim, uma cultura petrificada, incapaz de avanços que não passem de um arremedo do que foi produzido durante seu respectivo auge criativo. Assim sendo, e se lembramos que o século 19 foi o século em que cada ramo da cultura procurou extrapolar seus limites naturais (a música de Wagner não pretende ser só música; o marxismo de Marx é quase uma religião, e o darwinismo acaba sendo alçado à posição de uma nova ‘teologia’), fica claro por que Spengler interpreta nossos tempos como tempos de declínio. Na cidade, a manifestação dessa grandiosidade esvaziada de significado se dá através dos arranha-céus e das estradas intermináveis, observação essa que seria repetida por Lewis Mumford anos mais tarde.

Mais interessante ainda é a sugestão de que qualquer forma de pensamento tem seu fundo religioso. Se os antigos se atêm à geometria euclidiana e ao que é distintamente visível, não admira que seus deuses nos apareçam como estátuas; não como entes etéreos e ubíquos, mas como gravuras num livro ou como peças num museu. A idéia que formamos do Deus cristão é diametralmente oposta: não são poucas as querelas sobre a natureza ontológica da divindade ‘faustiana’. Como consequência natural, as estátuas dos antigos, tão certas e tão inquebrantáveis, se dissolvem na pintura a óleo de Rembrandt, na polifonia de Bach, na análise complexa de Cauchy e na relatividade de Einstein. O paralelo é dos mais audaciosos, e não se pode querer transcrever nem sequer um esboço de sua ‘demonstração’ num texto tão curto. O máximo que podemos fazer, a essa altura, é sucumbir ao informalíssimo “faz muito sentido”:

The belief in knowledge that needs no postulates is merely a mark of the immense naiveté of rationalist periods. A theory of natural science is nothing but a historically older dogma in another shape. And the only profit from it is that which life obtains, in the shape of a successful technique, to which theory has provided the key.

Dessa maneira, até algo que nos parece a princípio trivial e intuitivo, como o conceito newtoneano de força, surge como consequência de uma predisposição intelectual bem mais ampla e envolvente. Que houve com os antigos que não a definiram antes, de vez que é algo tão presente e palpável? “Sentimo-la na pele!”, diriam os inconformados. Pois é: depois que ela foi devidamente inventada, passamos a senti-la…

Finalizo com a transcrição de um dos trechos derradeiros, que pretende descrever o esgotamento da aventura cultural ocidental (em termos spenglerianos, o surgimento da civilização ocidental). Apesar de traduzido do alemão para o inglês, mantém uma força expressiva rara mesmo em livros da mais alta literatura. O Romance da Decadência termina mais ou menos assim:

With the formed state having finished its course, high history lays itself down weary to sleep. Man becomes a plant again, adhering to the soil, dumb and enduring. The timeless village and the “eternal” peasant reappear, begetting children and burying seed in Mother Earth – a busy, easily contented swarm, over which the tempest of soldier-emperors passingly blows. In the midst of the land lie the old world-cities, empty receptacles of an extinguished soul, in which a historyless mankind slowly nests itself. Men live from hand to mouth, with petty thrifts and petty fortunes, and endure. Masses are trampled on in the conflicts of the conquerors who contend for the power and the spoil of this world, but the survivors fill up the gaps with a primitive fertility and suffer on. And while in high places there is eternal alternance of victory and defeat, those in the depths pray, pray with that mighty piety of the Second Religiousness that has overcome all doubts forever. There, in the souls, world-peace, the peace of God, the bliss of grey-haired monks and hermits, is become actual – and there alone. It has awakened that depth in the endurance of suffering which the historical man in the thousand years of his development has never known. Only with the end of grand History does holy, still Being reappear. It is a drama noble in its aimlessness, noble and aimless as the course of the stars, the rotation of the earth, and alternance of land and sea, of ice and virgin forest upon its face. We may marvel at it or we may lament it – but so it is.

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Ode ao Vento

Reparem na pretensão do jovem Shelley, que, aos vinte e sete anos de idade (morreria aos trinta), já se queria prophet of mankind. É o paradigma do intelectual secular, surgido no século 18, na tentativa de reformar a realidade com o auxílio (somente) de seu talento enquanto poeta lírico.

Ode to the West Wind (1819)

I

O wild West Wind, thou breath of Autumn’s being,
Thou, from whose unseen presence the leaves dead
Are driven, like ghosts from an enchanter fleeing,

Yellow, and black, and pale, and hectic red,
Pestilence-stricken multitudes: O thou,
Who chariotest to their dark wintry bed

The wingéd seeds, where they lie cold and low,
Each like a corpse within its grave, until
Thine azure sister of the Spring shall blow

Her clarion o’er the dreaming earth, and fill
(Driving sweet buds like flocks to feed in air)
With living hues and odors plain and hill:

Wild Spirit, which art moving everywhere;
Destroyer and preserver; hear, oh, hear!

II

Thou on whose stream, ‘mid the steep sky’s commotion,
Loose clouds like earth’s decaying leaves are shed,
Shook from the tangled boughs of Heaven and Ocean,

Angels of rain and lightning: there are spread
On the blue surface of thine aery surge,
Like the bright hair uplifted from the head

Of some fierce Maenad, even from the dim verge
Of the horizon to the zenith’s height,
The locks of the approaching storm. Thou dirge

Of the dying year, to which this closing night
Will be the dome of a vast sepulchre,
Vaulted with all thy congregated might

Of vapors, from whose solid atmosphere
Black rain, and fire, and hail will burst: oh, hear!

III

Thou who didst waken from his summer dreams
The blue Mediterranean, where he lay,
Lulled by the coil of his crystalline streams,

Beside a pumice isle in Baiae’s bay,
And saw in sleep old palaces and towers
Quivering within the wave’s intenser day,

All overgrown with azure moss and flowers
So sweet, the sense faints picturing them! Thou
For whose path the Atlantic’s level powers

Cleave themselves into chasms, while far below
The sea-blooms and the oozy woods which wear
The sapless foliage of the ocean, know

Thy voice, and suddenly grow gray with fear,
And tremble and despoil themselves: oh, hear!

IV

If I were a dead leaf thou mightest bear;
If I were a swift cloud to fly with thee;
A wave to pant beneath thy power, and share

The impulse of thy strength, only less free
Than thou, O uncontrollable! If even
I were as in my boyhood, and could be

The comrade of thy wanderings over Heaven,
As then, when to outstrip thy skiey speed
Scarce seemed a vision; I would ne’er have striven

As thus with thee in prayer in my sore need.
Oh, lift me as a wave, a leaf, a cloud!
I fall upon the thorns of life! I bleed!

A heavy weight of hours has chained and bowed
One too like thee: tameless, and swift, and proud.

V

Make me thy lyre, even as the forest is:
What if my leaves are falling like its own!
The tumult of thy mighty harmonies

Will take from both a deep, autumnal tone,
Sweet though in sadness. Be thou, Spirit fierce,
My spirit! Be thou me, impetuous one!

Drive my dead thoughts over the universe
Like withered leaves to quicken a new birth!
And, by the incantation of this verse,

Scatter, as from an unextinguished hearth
Ashes and sparks, my words among mankind!
Be through my lips to unawakened earth

The trumpet of a prophecy! O Wind,
If Winter comes, can Spring be far behind?

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

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A Idéia Fixa em Spengler (1)

Não são poucos os que já nos advertiram quanto aos perigos (para nossa saúde física e mental) de uma autêntica idée fixe. Nos casos em que essa obsessão vem acompanhada de uma compleição moralmente enfraquecida, ou mesmo de uma sem muito apreço pela verdade, há invariavelmente consequências desastrosas. A pesquisa da realidade passa a ser pautada por um resultado que é previamente conhecido, seja por intuição ou por epifania: aquilo da realidade que não servir para ratificá-lo será ignorado. É assim, pois, que Marx e Engels, antevendo o colapso da civilização ocidental enquanto capitalista, lançam mão dos meios mais desonestos (deturpação de fontes de pesquisa, utilização de dados desatualizados, mentira pura e simples etc.) para prová-lo na teoria. Evidências conflitantes perdem toda e qualquer credibilidade precisamente por serem conflitantes: toma-se como verdade irrefutável aquilo mesmo que se quer provar.

Oswald Spengler (1880-1936), em seu O Declínio do Ocidente, vê como verdade inexpugnável que a História é cíclica. Não só isso: estaríamos em período de declínio. A demonstração de semelhante proposição, como já era de se esperar, não é das mais simples: exige nada menos que um conhecimento aprofundado da História de todas as civilizações em todos os tempos. Um conhecimento que, de resto, Spengler não tem, nada obstante sua enorme erudição. Felizmente para quem lê, a ‘demonstração’ de Spengler envolve uma análise de tal sorte interessante (apesar de não necessariamente mostrar o que ele gostaria que mostrasse), que a postura mais aconselhável para apreciar seu principal livro é a de não lê-lo literalmente, ou, em outras palavras, ignorar a mania dos ciclos e aproveitar o que há de pontualmente válido. En passant: não é pouca coisa. Assim como Schopenhauer é principalmente admirado por poetas e romancistas, a saga spengleriana já é interpretada por alguns como o grande romance do declínio e do pessimismo.

Se insistimos em lê-lo literalmente, sua tarefa torna-se ainda mais difícil porque, usando suas palavras,

It is this that is lacking to the Western thinker, the very thinker in whom we might have expected to find it – insight into the historically relative character of his data, which are expressions of one specific existence and one only; knowledge of the necessary limits of their validity; the conviction that his “unshakable” truths and “eternal” views are simply true for him and eternal for his world-view; the duty of looking beyond them to find out what the men of other Cultures have with equal certainty evolved out of themselves. That and nothing else will impart completeness to the philosophy of the future, and only through an understanding of the living world shall we understand the symbolism of history. Here there is nothing constant, nothing universal. We must cease to speak of the forms “Thought”, the principles of “Tragedy”, the mission of the “the State”. Universal validity involves always the fallacy of arguing from particular to particular.

A exemplo de J. S. Mill, que reconheceu o caráter idiossincrático da idéia de felicidade, Spengler, ao nos alertar para a falácia de querer que nosso senso-comum seja idêntico ao do resto da humanidade, dificulta tremendamente seu próprio trabalho de síntese histórica – o que não deixa de ser uma demonstração de honestidade. Spengler parte da perspectiva de Goethe: the world becoming, not the world become. Tudo é movimento, força, dinamismo, transformação, em oposição ao estático e ao universal. Spengler admite total liberdade e transformações aparentemente caóticas para logo após tolhê-las na camisa-de-força da história cíclica. Cada civilização (ou cada ser humano) pode, individualmente, representar um mosaico infinito e dinâmico de perspectivas, posturas, crenças etc. mas, a partir do momento em que erguemos nossa mirada para a figura geral, esses mosaicos se congelam e se dispõem num arranjo que corresponde perfeitamente ao ciclo inexorável que toda civilização deve, por força, percorrer.

O lado positivo da idée fixe de Spengler vai num próximo post.

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Ainda a Rebelião

Há mais alguns trechos que merecem ser citados (em realidade há vários outros, mas enfim…) do livro de Ortega. Limito-me àqueles que impressionam pelo caráter atemporal que, de resto, caracteriza boa parte do livro. O fato de a tese central do ‘ensaio’ lidar com uma realidade histórica bem específica só aumenta nosso assombro.

1) Revolução e continuidade

Las revoluciones, tan incontinentes en su prisa, hipócritamente generosa, de proclamar derechos, han violado siempre, hollado y roto, el derecho fundamental del hombre, tan fundamental que es la definición misma de su sustancia: el derecho a la continuidad.
Do Prólogo para franceses

2) Razão cartesiana

Tres siglos de experiencia “racionalista” nos obligan a recapacitar sobre el esplendor y los límites de aquella prodigiosa raison cartesiana. Esa raison es sólo matemática, física, biológica. Sus fabulosos triunfos sobre la naturaleza, superiores a cuanto pudiera soñarse, subrayan tanto más su fracaso ante los asuntos propiamente humanos e invitan a integrarla en otra razón más radical, que es la “razón histórica”.
Do Prólogo para franceses

3) Decadência

La decadencia es, claro está, un concepto comparativo. Se decae de un estado superior hasta un estado inferior. Ahora bien: esta comparación puede hacerse desde los puntos de vista más diferentes y varios que quepa imaginar. Para un fabricante de boquillas de ámbar, el mundo está en decadencia porque ya no se fuma apenas con boquillas de ámbar. Otros puntos de vista serán más respetables que éste, pero, en rigor, no dejan de ser parciales, arbitrarios y externos a la vida misma cuyos quilates se trata precisamente de evaluar. No hay más que un punto de vista justificado y natural: instalarse en esa vida, contemplarla desde dentro y ver si ella se siente a si misma decaída, es decir, menguada, debilitada y insípida.
Do La altura de los tiempos

4) Obliteração intelectual

Pues aunque resultase en definitiva errónea mi opinión, siempre quedaría el hecho de que muchos de esos lectores discrepantes no han pensado cinco minutos sobre tan compleja materia. ¿Cómo van a pensar lo mismo que yo? Pero al creese com derecho a tener una opinión sobre el asunto sin previo esfuerzo para forjárselo, manifestan su ejemplar pertenencia al modo absurdo de ser hombre que he llamado “masa rebelde”. Eso es precisamente tener obliterada, hermética, el alma. En este caso se trataría de hermetismo intelectual. La persona se encuentra con un repertorio de ideas dentro de sí. Decide contentarse con ellas y considerarse intelectualmente completa. Al no echar de menos nada fuera de sí, se instala definitivamente en aquel repertorio. He ahí el mecanismo de la obliteración.
Do Por qué las masas intervienen en todo y por qué sólo intervienen violentamente

5) Cultura e norma

Lo que digo es que no hay cultura donde no hay normas a que nuestros prójimos puedan recurrir. No hay cultura donde no hay principios de lagalidad civil a que apelar. No hay cultura donde no hay acatamiento de ciertas últimas posiciones intelectuales a que referirse en la disputa. No hay cultura cuando no preside a las relaciones económicas un régimen de tráfico bajo el cual ampararse. No hay cultura donde las polémicas estéticas no reconocen la necesidad de justificar la obra de arte. Cuando faltan todas esas cosas, no hay cultura; hay, en el sentido más estricto de la palavra, barbarie. (…) El viajero que llega a un país bárbaro sabe que en aquel territorio no rigen principios a que quepa recurrir. No hay normas bárbaras propriamente. La barbarie es ausencia de normas y de posible apelación.
Do Por qué las masas intervienen en todo y por qué sólo intervienen violentamente

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Escala em Nova York

Agora que o desastre da Gol, que matou 154 passageiros, já foi esclarecido (v. reportagem de Eliane Cantanhêde na Folha aqui) resta-nos apenas aconselhar os passageiros mais assíduos a fazer uma pequena escala em Nova York quando forem viajar pelo Brasil. Gasta-se mais tempo mas a probabilidade de sairmos com vida é bem maior.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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