Parnaso

Praia

Final de semana na praia. Naturalmente, não na praia acima, que a rigor não existe. Mas aproveito a oportunidade para confessar-me fascinado pelo mar, apesar de vê-lo somente em intervalos cada vez mais distantes entre si. Esse fascínio chega a mim através de figuras como Conrad, Coleridge, Melville e Poe e permanece, insisto, intacto. Como todo sujeito sem imaginação e com um mínimo de bom senso (assim espero), não me aventuro a expor uma versão propriamente minha dessa atração. Há alguns anos, frequentei um curso de literatura chamado A Sea of Words, onde se lia desde Coleridge até… não lembro o nome, mas o que importa é que é péssimo. Muito já foi dito sobre as armadilhas, para o escritor, da narrativa erótica. Um pequeno descuido e já passamos para campo do ridículo. Troquem a mulher (ou o que quer que sirva nos dias que correm) pelo mar e adentramos uma seara não menos perigosa, da qual, aliás, já foram vítimas o nosso Carpeaux (que obviamente não era nenhum mestre do estilo mas que nada obstante não era dado a escorregões), Stephen Crane e, em alguns raros momentos, o próprio Conrad. Faço o favor de partir para algo que nada tem que ver com descuidos, a saber, um trecho da Rime of the Ancient Mariner, do Coleridge, em que o Albatroz dá início a sua singela vingança (a íntegra pode ser encontrada com facilidade na web):

And the Albatross begins to be avenged.

Water, water, every where,
And all the boards did shrink;
Water, water, every where,
Nor any drop to drink.

The very deep did rot: O Christ!
That ever this should be!
Yea, slimy things did crawl with legs
Upon the slimy sea.

About, about, in reel and rout
The death-fires danced at night;
The water, like a witch’s oils,
Burnt green, and blue and white.

(…)

And some in dreams assuréd were
Of the Spirit that plagued us so;
Nine fathom deep he had followed us
From the land of mist and snow.

And every tongue, through utter drought,
Was withered at the root;
We could not speak, no more than if
We had been choked with soot.

(…)

Ah! well a-day! what evil looks
Had I from old and young!
Instead of the cross, the Albatross
About my neck was hung.

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Civilização e Barbárie

Se decidimos adotar a representação esquemática sugerida por A. C. Bradley – em seu Shakespearean Tragedy (1904) – para o herói das tragédias de Shakespeare, encontraremos em Otelo um representente típico. Primeiro temos a apresentação, o delineamento do caráter do herói: no caso do mouro de Veneza, conhecemos um combatente de coragem e de compleição moral impecável. Mesmo quando sugerem que teria empregado algum tipo de feitiçaria (em cujos efeitos mágicos o mouro, como sabemos, acreditava) para conquistar os amores de Desdêmona, Otelo mantém-se circunspecto e prova sua inocência sem maiores dificuldades. Sua suposta firmeza de caráter (tida como breathtaking por um crítico) dá o tom do primeiro ato, passado ainda em Veneza.

O segundo estágio apontado por Bradley é, evidentemente, o conflito central, the heart of the matter. É nesse estágio que o herói costuma experimentar uma antítese de si mesmo: Otelo, inicialmente sereno e dono de si, dá vazão a um comportamento irascível e destrambelhado; chega a ter um ataque epiléptico na frente de Iago e a esbofetear a mulher em público. Maynard Mack, no ensaio The Jacobean Shakespeare, lembra que esse expediente é recorrente na tragédia shakespeareana. Assim Lear, de início a própria imagem da autoridade e da resiliência, perde completamente a compostura (e boa parte da sanidade), mais tarde, por ter de enfrentar, praticamente sozinho, uma tempestade. Assim também Hamlet, apresentado como dono de the courtier’s, soldier’s, scholar’s, eye, tongue, sword, terá sua posição sensivelmente comprometida até o final da peça. Essa transição se dá paralelamente a um deslocamento geográfico (que, segundo lembra Mack, também é comum em outras tragédias): da cidade-modelo Veneza para a virulenta Chipre, acoçada, e é por isso que Otelo vai para lá, por um ataque turco. Mack comenta:

Furthermore, though it would be foolish to assign to any of the journeys in Shakespeare’s tragedies a precise symbolic meaning, several of them have vaguely symbolic overtones – serving as surrogates either for what can never be exhibited on the stage, as the mysterious processes, leading to psychic change, which cannot be articulated into speech, even soliloquy, without losing their formless instinctive character; or for the processes of self-discovery, the learning processes – a function journeys fulfill in many of the world’s best known stories (the Aeneid, the Divine Comedy, Tom Jones, etc.)

A grande verdade é que a crítica shakespeareana chegou ao ponto de querer encontrar uma correspondência simbólica até para o mais inexpressivo clown. Nada mais natural. Convém, então, escolher as que mais nos interessam (evidências textuais, é sempre bom lembrar, não atrapalham). Em se tratanto de Othello, a oposição Veneza/Chipre ou, se quisermos extrapolá-la, de vez que Chipre está sendo atacada mas ainda se encontra sob controle, Veneza/Império turco parece carregar mais que um simples vague symbolic overtone. Dá-nos impressão disso a Veneza tal como descrita nos inícios da peça. Brabantio, pai de Desdêmona, ao receber a notícia (uma das artimanhas do Iago) de que estava a ser assaltado, demorou, com razão, a acreditar:

What tell’st thou me of robbing? This is Venice;
My house is not a grange [isolated house].

Mais característica ainda é a descrição que Otelo dá, também no primeiro ato, de suas peripécias mundo afora. São tão variadas e amedrontadoras que, além de chamar a atenção de Desdêmona para as bravuras do mouro, fazem-nos o favor de descrever bem como é a vida fora de “Veneza”:

Wherein I spoke of most disastrous chances,
Of moving accidents by flood and field,
Of hairbreadth scapes i’ th’ imminent deadly breach,
Or being taken by the insolent foe
And sold to slavery, of my redemption thence
And portance [manner of acting] in my travel’s history,
Wherein of anters [caves] vast and deserts idle,
Rough quarries, rocks, and hills whose heads touch heaven,
It was my hint to speak. Such was my process.
And of the Cannibals that each other eat,
The Anthropophagi, and men whose heads
Grew beneath their shoulders. (…)

A ida de Otelo para Chipre, corresponde, então, ao início do segundo estágio apontado por Bradley. É claro que a mudança geográfica faz-se acompanhar por uma mudança ‘psicológica’ no mouro. Enquanto Iago e Desdêmona permanecem fiéis ao modelo apresentado no início da peça (o primeiro com suas tramas diabólicas e a segunda com sua bondade), Otelo gradativamente sucumbe às maquinações de seu ancient. O desfecho é nosso velho conhecido e, quando Otelo ensaia adentrar o terceiro estágio descrito por Bradley, Desdêmona já está morta. Esse terceiro estágio se configura como uma tentativa de regresso ao modelo inicial, ainda que ele custe, como é o caso em questão, a vida de três ou cinco inocentes. Ao reconhecer seu erro, Otelo se compara aos bárbaros por ele combatidos há não muito:

(…) Then you must speak
Of one that loved not wisely, but too well;
Of one not easily jealous, but, being wrought,
Perplexed in the extreme; of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe; (…)

Eis que sua própria profecia se cumpriu (But I do love thee! And when I love thee not, / Chaos is come again): trocou a civilização pela barbárie e por isso preferiu morrer.

Arquivado em:Poesia

A Sociologia da Igreja

We intend, rather, to establish whether and to what extent religious influences have in fact been partially responsible for the qualitative shaping and the quantitative expansion of that “spirit” across the world, and what concrete aspects of capitalism culture originate from them.

Essa pequena síntese já nos deixa entender que a tese central do The Protestant Ethic and the “Spirit” of Capitalism, clássico do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), nem sequer aborda a questão do surgimento do capitalismo enquanto forma de organização econômica. Weber lembra repetidas vezes que o capitalismo se estende até os recantos mais longínquos de nossa memória histórica. Egito e Babilônia já o conheciam, e seria uma tremenda estupidez negar a natureza essencialmente capitalista dos grandes centros comerciais italianos durante o período renascentista. Como se vê, o objetivo de Weber é bem mais estreito, mas nem por isso muito menos complicado: ele pretende traçar as origens do “espírito capitalista” tal como será abundantemente definido ao longo de seus ensaios. Assim como qualquer termo empregado ad hoc (segundo o próprio autor) para descrever uma realidade histórica complexa, o “espírito capitalista” não pode ser definido de maneira definitiva; trata-se de um paradigma, um “modelo ideal”, que só poderá ser compreendido integralmente ao final da investigação.

Weber cita Benjamin Franklin na tentativa de ilustrar o tal “espírito”. Este se refere à sistematização e a otimização de nosso trabalho, como se reconhecêssemos nele uma vocação divina. A grande novidade se refere ao fundo ético presente nessa postura: de fato, não seria muito difícil encontrar, muito antes da reforma protestante, exemplos que se encaixam perfeitamente nesse modelo, com a diferença, alas!, de que esses exemplos eram impulsionados por motivos que nem de longe correspondem a nossa área de interesse. Explica-se: o desejo desenfreado por acúmulo de dinheiro e riquezas em geral, obtido possivelmente através da disciplina no trabalho, também existe desde que o homem é homem. O surgimento de um novo estilo de vida que entende essa racionalização de esforços não como meio de suprir demandas utilitaristas (na acepção mais vil do termo), mas como uma necessidade, um norte ético e um fim em si mesmo, é, segundo argumenta Weber, a própria encarnação do “espírito capitalista” em nosso cotidiano. As implicações da implementação desse espírito na esfera econômica dispensa comentários; cumpre investigar, então, suas origens.

É mais ou menos óbvio que o capitalismo, tal como hoje se apresenta, dispensa motivos religiosos para explicar seu funcionamento. Isso não significa, claro está, que o tal “espírito” revolucionário descrito por Weber não tenha raízes religiosas. Weber enxerga no calvinismo (e nas seitas por ele influenciadas) os preceitos dogmáticos que, uma vez em contato com o mundo secularizado, teriam contribuído para o desenvolvimento do “espírito”. O significado corrente da palavra alemã Beruf (“calling”, “vocação”, “chamado”) remonta à tradução, sob a responsabilidade de Lutero, da Bíblia. Nada obstante, a teoria da predestinação (que, como veremos, tem uma relação íntima com o “espírito”), é essencialmente calvinista. Segundo nos conta Calvino, Deus, do alto de sua glória, decide de antemão quem são os “escolhidos” e quem são os “danados”. Seria de uma puerilidade tipicamente humana supor que nossos atos nesse mundo poderiam influenciar a decisão divina, que, precisamente por ser divina e anterior a nossa existência, não pode de maneira alguma ser alterada, ainda que paremos de fumar e salvemos um mico-leão dourado por dia. A mente contemporânea provavelmente reagiria a esse terrível determinismo com um to hell with it, mas, numa época em que a salvação da alma tinha uma importância maior que a do futebol nos dias que correm, eram poucos os que ousariam ser tão relaxados a respeito.

Que escolha resta ao calvinista extremado, que se sabe com o destino inalienavelmente selado antes mesmo de sair das fraldas? A primeira consequência parece ser um sentimento exasperante de solidão: se é verdade que ainda vale a máxima latina “não há salvação fora da igreja”, sabe-se também que esse preceito adquiriu, com o calvinismo, um viés negativo: de fato, não há salvação fora da igreja, mas nada garante que dentro dela será diferente. O fiel pode, no máximo, certificar-se de que é um dos escolhidos (assim como Calvino estava certo de que o era) através de uma total submissão a sua “vocação”. Todos os nossos esforços aqui na Terra não seriam suficientes para demover Deus de sua posição original (sabemos que a mera sugestão é absurda), mas é de se esperar que os escolhidos ajam como tais, isto é, que façam de suas vidas o melhor proveito possível. Do ponto de vista econômico, isso significa sucesso contínuo e inquebrantável, sem pausas para a fruição mundana (altamente condenável) das vantagens conquistadas. Agora entendemos bem por que o rufião antigo ou o usurário medieval nada têm que ver com o “espírito” na acepção dada por Weber.

Weber evita qualquer juízo de valor referente ao corpus dogmático por ele analisado; restringe-se apenas às implicações concretas, para o comportamento humano, do surgimento desse novíssimo “espírito”. Ainda assim, saúda-nos com o julgamento proferido por John Milton acerca do Deus calvinista: May I go to hell, but such a God will never compel my respect. O leitor mandrião pode respirar aliviado: ainda que vá para o inferno, certamente irá com numerosa companhia.

Resta comentar o conceito de innerworldly asceticism (em oposição ao otherworldly asceticism), constantemente empregado por Weber para descrever o “novo” capitalista. Ele observa que

If one should wish to apply these concepts, however, then apart from the observations already made, a number of others, which readily present themselves, could even suggest that the supposed antithesis between “unworldliness”, “asceticism”, and religious piety, on the one hand, and participation in capitalist commerce, on the other hand, might in fact amount to an inner affinity.

É precisamente esse o paradoxo desenvolvido pelo dogma calvinista: o mesmo asceticismo que com os monges católicos servia de mote para uma abstração do mundo material é, agora, transplantado para o mundo secularizado na forma de uma meticulosidade inarredável no cumprimento do “destino” ou “vocação” de cada um. É o que Weber chama de asceticismo protestante. A necessidade de “testar-se a si mesmo” através do trabalho duro e disciplinado que a reforma protestante (liderada pelo calvinismo) incutiu em seus seguidores representa, conclui Weber, fator determinante (mas não único, e esse é um ponto enfatizado à exaustão) para o desenvolvimento do estilo de vida responsável pela propulsão econômica de regiões como a atual Holanda, Inglaterra, sul da França e, last but not least, Estados Unidos. David Landes, numa tentativa crua mas não inexata de resumir a contribuição de Weber para a sociologia da religião, afirma que Max Weber was right. If we learn anything from the history of economic development, it is that culture makes almost all the difference.

Arquivado em:Economia, História, Religião, Sociologia

Fanny

“Fanny,” Baltimore Saturday Visiter, May 18, 1833

The dying swan by northern lakes
Sing’s [Sings] its wild death song, sweet and clear,
And as the solemn music breaks
O’er hill and glen dissolves in air;
Thus musical thy soft voice came,
Thus trembled on thy tongue my name.

Like sunburst through the ebon cloud,
Which veils the solemn midnight sky,
Piercing cold evening’s sable shroud,
Thus came the first glance of that eye;
But like the adamantine rock,
My spirit met and braved the shock.

Let memory the boy recall
Who laid his heart upon thy shrine,
When far away his footsteps fall,
Think that he deem’d thy charms divine;
A victim on love’s alter [altar] slain,
By witching eyes which looked disdain.

Tamerlane

Arquivado em:Poesia

Algum Cinema

1. Scoop, Woody Allen

Sabe-se de antemão que vale a pena ver o filme por dous motivos: participam dele o próprio Woody Allen e sua mais nova protégée Scarlett Johansson. Allen continua engraçado e Johansson continua… nós todos sabemos o quê. Afora isso, o filme certamente não é dos mais marcantes, e os conselheiros Acácio de plantão estranharão, não sem boa dose de legitimidade, algumas saídas mais excêntricas do roteiro. Exemplos: um milionário que não estranha (pelo contrário, acha divertidíssimo) o fato de sua namorada ser uma impostora que lhe espiona a vida e que, bem mais tarde, ao tentar afogá-la (por outros motivos, claro), não espera para certificar-se de que ela, bem, se afoga. It’s all in good fun, diriam os mais relaxados.

2. A Good Year, Ridley Scott

Mais um para os relaxados, ou pelo menos para os que gostariam de relaxar numa vinícola no interior da França. Max Skinner (Russell Crowe) é um banker de sucesso forçado a fazer uma visitinha a terras francesas para dar cabo dos bens de seu recém-falecido tio. O frenesi da vida de um capitalista quase inescrupuloso dá lugar, gradativamente, ao sossego do campo, do vinho e (não exatamente sossego, mas vá lá) das francesas. Destaque para o nome da musa do filme: Fanny Chenal (Marion Cotillard). Lembram-se da Fanny de Edgar Poe?

3. El Laberinto del Fauno, Guillermo del Toro

O filme de del Toro tem recebido elogios entusiásticos graças à força imagética das alusões bíblicas e das referências mitológicas e ao aspecto gráfico em geral. Como lição de história, porém, não vale nem o tempo que gastamos ao discuti-lo. Paralelamente à aventura da garota Sofia, acompanhamos os esforços de um capitão fascista (padrasto da menina) que se esforça para exterminar os últimos resquícios de resistência comunista num vilarejo espanhol, em 1944. O procedimento é nosso velho conhecido: algumas demonstrações de crueldade gratuita por parte do capitão para já ir atiçando nossos ânimos; algumas declarações racistas para certificarmo-nos de que se trata de um verdadeiro canalha (grande novidade!). A partir daí já estamos preparadíssimos para ver com bons olhos a idílica resistência comunista, apesar de ela ser irresponsavelmente suicida. Tanto melhor que seja suicida: esse tipo de heroísmo sem pé nem cabeça tende a fascinar bravos e covardes alike. Temos aqui mais uma bela ilustração da máxima, escrita por não sei quem, segundo a qual algumas verdades parciais são mais obscurantistas que a mais completa escuridão. É desagradável ter de repetir isso tantas vezes, mas um filme assume uma responsabilidade tremenda ao nos mostrar apenas um dos lados (além de entrar para o hall dos filmes politicamente delinquentes). O tratamento que geralmente se dá à guerra civil espanhola é sintomático desse mal.

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Férias e a Volúpia da Ociosidade (Reprise)

De volta ao conforto (e ao calor) do lar, de férias. Pretendo continuar contribuindo para a manutenção da paz mundial permanecendo calado quando não me pedem a opinião.

Arquivado em:Miscelânea

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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