Parnaso

Lorrain e Keats

O poema de John Keats (1795-1821) abaixo, Ode to a Nightingale, é inspirado na pintura de Claude Lorrain (1600-1682) acima, Landscape with Psyche at the Palace of Cupid. O palácio é descrito como tendo magic casements, opening on the foam / Of perilous seas, in faery lands forlorn. O poema também tem outras linhas bem famosas como tender is the night e Now more than ever seems it rich to die.

night·in·gale
–noun
any of several small, Old World, migratory birds of the thrush family, esp. Luscinia megarhynchos, of Europe, noted for the melodious song of the male, given chiefly at night during the breeding season.

1.

My heart aches, and a drowsy numbness pains
My sense, as though of hemlock I had drunk,
Or emptied some dull opiate to the drains
One minute past, and Lethe-wards had sunk :
‘Tis not through envy of thy happy lot,
But being too happy in thine happiness, –
That thou, light winged Dryad of the trees,
In some melodious plot
Of beechen green, and shadows numberless,
Singest of summer in full-throated ease.

2.

O for a draught of vintage! that hath been
Cool’d a long age in the deep-delved earth,
Tasting of Flora and the country green,
Dance, and Provençal song, and sunburnt mirth!
O for a beaker full of the warm South,
Full of the true, the blushful Hippocrene,
With beaded bubbles winking at the brim,
And purple-stained mouth;
That I might drink, and leave the world unseen,
And with thee fade away into the forest dim:

3.

Fade far away, dissolve, and quite forget
What thou among the leaves hast never known,
The weariness, the fever, and the fret
Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few. sad, last grey hairs,
Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
Where but to think is to be full of sorrow
And leaden-eyed despairs,
Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
Or new Love pine at them beyond to-morrow.

4.

Away! away! for I will fly to thee,
Not charioted by Bacchus and his pards,
But on the viewless wings of Poesy,
Though the dull brain perplexes and retards:
Already with thee! tender is the night,
And haply the Queen-Moon is on her throne,
Cluster’d around by all her starry Fays;
But here there is no light,
Save what from heaven is with the breezes blown
Through verdurous glooms and winding mossy ways.

5.

I cannot see what flowers are at my feet,
Nor what soft incense hangs upon the boughs,
But, in embalmed darkness, guess each sweet
Wherewith the seasonable month endows
The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
White hawthorn, and the pastoral eglantine;
Fast fading violets cover’d up in leaves;
And mid-May’s eldest child,
The coming musk-rose, full of dewy wine,
The murmurous haunt of flies on summer eve.

6.

Darkling I listen; and, for many a time
I have been half in love with easeful Death,
Call’d him soft names in many a mused rhyme,
To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
To cease upon the midnight with no pain,
While thou art pouring forth thy soul abroad
In such an ecstasy!
Still wouldst thou sing, and I have ears in vain –
To thy high requiem become a sod.

7.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
She stood in tears amid the alien corn;
The same that oft-times hath
Charm’d magic casements, opening on the foam
Of perilous seas, in faery lands forlorn.

8.

Forlorn! the very word is like a bell
To toll me back from thee to my sole self!
Adieu! the fancy cannot cheat so well
As she is fam’d to do, deceiving elf.
Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
Past the near meadows, over the still stream,
Up the hill-side; and now ‘tis buried deep
In the next valley-glades:
Was it a vision, or a waking dream?
Fled is that music: – Do I wake or sleep?

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Felicidade Hoje e Ontem

Olhando pela milésima vez o álbum de fotos de meus avós, chego à conclusão de que as pessoas eram mais felizes naqueles tempos. Se não sentiam necessidade de sorrir para a câmera é porque eram mais felizes. Reparem no exemplo abaixo, uma fotografia de 1922, em que minha bisavó (esquerda) traz um tio-avô meu no colo:

Até mesmo as crianças, cientes de que se trata de um registro para a posteridade, preferem manter um ar sombrio e austero. Devem saber que o sorriso, afinal de contas, é um estado facial anômalo: um sem-número de músculos e porções de pele se rexendo e contorcendo para chegar a um estágio final caótico e instável. Quem já observou um número razoável de fotos dessa época sabe que o padrão se repete inclusive em ocasiões festivas. Abaixo temos um outro exemplo, alguns anos mais recente, de um casamento realizado em Messejana, cidade natal do José de Alencar. Minha avó está sentada, à direita.

Reparem que nem mesmo o sujeito erguendo o chapéu sente a necessidade de sorrir. Bons tempos esses em que o império da felicidade compulsória ainda não tinha invadido nossas fotografias.

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Babel

Babel é o mais novo filme do mexicano Alejando González Iñárritu e, assim como seus dois predecessores mais conhecidos, 21 Grams e Amores Perros, não justifica o desperdício de duas horas de nossas vidas. Pensando bem, talvez o 21 Grams justifique, mas nesse caso o mérito é todo da Naomi Watts. Vamos ao que interessa.

Babel segue o mesmo caminho de seus irmãos mais velhos: acompanhamos o desenrolar de 4 linhas narrativas aparentemente desconexas que, cedo ou tarde, se encontram. A diferença é que agora o esquema é internacional; temos um casal norte-americano em Marrocos, uma adolescente japonesa no Japão, uma mexicana, imigrante clandestina, na Califórnia etc. A intenção desse artifício, se me é permitido repetir o óbvio, é mostrar uma espécie de união misteriosa entre os seres humanos; ilustrar questões edificantes como a existência ou não de coincidências ou de um destino inescapável, a influência que pequenas decisões podem ter em nossas vidas etc. Com esse último filme temos um toque de ‘universalidade’ (não por acaso, as manifestações artísticas que menos me agradam são as que não sabem velar esse objetivo): agora os efeitos de cada atitude atravessam fronteiras e chegam rapidamente ao outro lado do mundo; observamos a reação de pessoas as mais diferentes ante o sofrimento inevitável. A intenção parece ser nada menos que um tratado sobre o comportamento humano.

Perguntei a alguns conhecidos por que tinham gostado do filme e invariavelmente ouvi coisas do tipo: ‘é tudo muito real, muito plausível’. Minha sensação é exatamente a mesma: presenciei uma colagem de eventos que, ligados por uma ou outra coincidência, poderiam muito bem ter acontecido. Mas e daí? Passa-me logo pela cabeça o que alguns críticos de Mel Gibson, por ocasião do lancamento de Apocalypto, disseram sobre o diretor-galã: é um sádico, viciado em violência gratuita. Ainda não vi o filme e não sei se concordo (é provável que não), mas digo o mesmo de Iñárritu, trocando apenas o fetiche: o mexicano é viciado em sofrimento humano, de preferência um sofrimento que se dê da maneira mais tosca e constrangedora possível. Se vierem a lançar um caixa comemorativa com DVD’s dele, sugiro que ponham na capa uma foto daquela cena de Babel em que a empregada mexicana, perdida num deserto, faminta e com areia até a testa, aos tropeços num vestido já todo rasgado, pede, com berros que logo se misturavam às lágrimas, a atenção da patrulha policial que acaba de passar.

Se essa cena já parece suficientemente desagradável, é com pesar que anuncio que há várias outras não menos degradantes, daquelas que nos forçam a perguntar: ‘ele realmente tinha que mostrar isso?’. Desde já antecipo que nada tenho contra cenas violentas e/ou potencialmente repulsivas desde que sirvam, é claro, a um objetivo maior (feita a concessão, deve-se reconhecer que certas escolhas podem continuar sendo esteticamente deploráveis). E esse objetivo maior inexiste nos filmes de Iñárritu, a menos que o sadismo aqui apontado ecoe na pobre alma de quem lhe assiste.

A Babel de Iñárritu é o simétrico oposto da do Gênesis: no filme todos já começam falando línguas diferentes e terminam numa mesma massa amorfa de sofrimento prolongado e excruciante e sem significado. A ira divina nunca foi tão avassaladora. Principalmente para quem vai ao cinema.

A ilustração acima é A Confusão das Línguas, de Gustave Doré.

Arquivado em:Cinema

A Origem da Tragédia Berliniana

No ensaio que abre o volume The Proper Study of Mankind, intitulado The Pursuit of the Ideal, Isaiah Berlin (1909-1997) declara que

At a certain stage in my reading, I naturally met with the principal works of Machiavelli. They made a deep and lasting impression upon me, and shook my earlier faith. I derived from them not the most obvious teachings – on how to acquire and retain political power (…) – but something else.

Que outros ensinamentos não tão óbvios seriam esses? A que exatamente ele se refere com earlier faith? A resposta será dada com mais detalhes no ensaio The Originality of Machiavelli, em que Berlin chama nossa atenção para a distinção básica proposta por Maquiavel, a distinção entre o tipo romano e o tipo cristão. Maquiavel desde sempre deixa claro que prefere um Estado nos moldes da República Romana ou do início do Império, e não vê como virtudes tipicamente cristãs – humildade, aceitação do sofrimento, esperança de uma vida eterna após a morte – possam levar o homem a esse ideal. A despeito do grande desacordo existente entre os comentadores do pensador florentino, parece existir um consenso quanto a esse ponto em específico: Maquiavel em nenhum momento tenta nos convencer de que valores cristãos são ‘inferiores’ ou de qualquer maneira repreensíveis a priori (apesar de ele ainda ser tido por muitos como um anti-cristão exacerbado); apenas acredita que eles são incompatíveis com uma determinada organização social, uma organização (forte e estável) que ele deseja e acredita ser possível ver reestabelecida entre os seus.

Berlin não demora a apontar o caráter revolucionário dessa suposta incompatibilidade: desde (pelo menos) Platão estávamos – e de certa maneira estamos até hoje – acostumados a pensar em termos de um ideal único, um fim glorioso em que culminaria toda cogitação verdadeiramente ‘inteligente’ ou ‘lógica’ ou ‘racional’. Admite-se inclusive a possibilidade de que não é dado ao ser humano alcançar esse fim, mas isso não implica sua não-existência. Voltaire afirma que o governo ideal será divisado univocamente por quem quer que se dê ao trabalho de analisar a questão com suficiente cuidado e racionalidade (o seu famoso bom senso), e Comte se pergunta por que deveríamos aceitar dissidências (ou heresias) em questões políticas se não as aceitamos na Física ou na Matemática. Temos aí a origem da tragédia berliniana: Maquiavel parte a rocha da conhecimento, inicialmente maciça e aparentemente indestrutível, em dois pedaços mutuamente incompatíveis:

If what Machiavelli believed is true, this undermines one major assumption of Western thought: namely that somewhere in the past of the future, in this world or the next, in the church or the laboratory, in the speculations of the metaphysician or the findings of the social scientist, or in the uncorrupted heart of the simple good man, there is to be found the final solution of the question of how men should live. If this is false, the idea of the sole true, objective, universal human ideal crumbles. The very search for it becomes not merely Utopian in practice, but conceptually incoherent.

Cada metade da rocha deu origem a muitas outras, obviamente menores e ainda mais diferentes entre si – mas esse, é claro, não foi um passo empreendido por Maquiavel. É ao comentar a obra do alemão Johann Herder (1744-1803), no Herder and the Enlightenment, que Berlin fala pela primeira vez em pluralismo. Uma consequência de ordem prática desse pluralismo é que, se reconhecemos que não há somente um objetivo final legítimo, há uma brutal divisão de esforços. É natural supor dedicação exclusiva e inquebrantável a um ideal que sabemos verdadeiro e único: por ele sacrificaríamos até nossas próprias vidas. Mas eis que Berlin (ou, antes dele, Giambattista Vico e Johann Herder) distingue uma profusão de alternativas igualmente plausíveis e que não raro são tragicamente incompatíveis entre si. O próprio John Stuart Mill admitia que devemos restringir a liberdade individual dos cidadãos (através das leis) para que não descambemos numa sociedade incapaz de garantir qualquer liberdade, por mais sufocada que seja. Troca-se um pouco de liberdade pela possibilidade de viver pacificamente em sociedade, e o nobre ideal de liberdade nem por isso passa a ser menos nobre.

Em vez de esforço exclusivo na perseguição de um único fim, o que Herder propõe é a existência de perspectivas culturais incomensuráveis. Incomensuráveis, mas não imperscrutáveis, e é exatamente nesse particular que Vico, Herder e Berlin se distanciam do relativismo (tal como o termo é empregado hoje em dia). A esse respeito Berlin não poderia mais claro:

‘I prefer coffee, you prefer champagne. We have different tastes. There is no more to be said.’ That is relativism. But Herder’s view, and Vico’s, is not that: it is what I should describe as pluralism – that is, the conception that there are many different ends that men may seek and still be fully rational, fully men, capable of understanding each other and sympathising and deriving light from each other, as we derive it from reading Plato or the novels of medieval Japan – worlds, outlooks, very remote from our own.

O esforço não é mais exclusivo, mas de maneira alguma diminui: muito pelo contrário, sabemos por experiência própria que poucas coisas são mais difíceis que penetrar os recessos mais íntimos de qualquer cultura que nos seja distante. Se queremos compreender o povo egípcio, os costumes egípcios ou a arte egípcia, precisamos primeiro entender – ainda que superficialmente, e ainda que ela nos pareça, hoje, particularmente repulsiva – a mentalidade egípcia como um todo. A tragédia berliniana não se cansa de refrescar nossa memória quanto às dificuldades inerentes a esse processo, mas, diferentemente do relativismo ou do multiculturalismo, ao menos admite a possibilidade de persegui-lo com um mínimo de sucesso. Acusar Berlin de relativismo (algo longe de ser incomum) não é, então, apenas uma falha circunstancial: trata-se de negar o fundamento mais básico da doutrina pela qual ele é mais conhecido. Se somos capazes de entender e derive light de culturas tão diferentes da nossa é porque há algo em comum entre todas elas. De fato, ainda somos todos humanos.

Arquivado em:Filosofia, História

Futebol: Praia do Futuro, Fortaleza, Ceará

– Macho: caralho, macho! Toca essa bola!

Chego a um campo de terra batida, na praia do futuro. O pessoal que está de fora nem me cumprimenta (os que estão jogando muito menos) apesar de todos me conhecerem. Vão logo dizendo que vou ter de tirar par ou ímpar com o outro sujeito que acaba de chegar; eles vão jogar, chegaram há mais tempo. O sujeito que chegou comigo não aceita, argumenta que os outros já jogaram hoje e que por isso devem ceder a vez. Muita discussão e xingamentos. Chega-se a um acordo quando a partida anterior já tinha acabado há mais de cinco minutos; os que vão saindo do campo incrementam a gritaria.

– Porra, começa logo isso!

Não começam porque há discussão pra ver quem começa com a bola. O goleiro do time adversário avisa que nosso time está completamente irregular; é forte demais. Possidônio e Carlinhos (vulgo “Carlin”) no mesmo time é palhaçada. Avisa ainda que eles devem começar com a bola porque estão sem camisa. Eu interrompo e digo que, sendo esse o problema, nós poderíamos tirar as nossas. Erro fatal: eles têm precedência porque tiraram primeiro. No mundo particular do futebol, quem faz algo primeiro adquire uma autoridade tacitamente interdita.

– Manda aquele filho da puta ligar o resto das luzes! Tá todo mundo pagando!

Um moleque de uns 12 anos tinha ido na chave de força e apagado algumas luzes, provavelmente a mando do dono, pra economizar energia. Mal o jogo começa e já estão discutindo porque o nosso goleiro pegou um recuo de bola com a mão. “Arriégua, isso aqui agora é a Fifa, é?”, mas não tem jeito: o Jorginho, do outro time, gosta de seguir as regras à risca. Enquanto isso o Joaquim, notório encrenqueiro, começa a insultar, de fora do campo, a mãe de um de nossos atacantes:

– Ei, Mário, como é mesmo que a mãe do Dudu ri? Ah, ah, ah? Muito escrota aquela velha…

Nosso time faz um gol e a partida tem de ser interrompida por mais uns cinco minutos porque ninguém se candidata a substituir o goleiro. “Eu avisei que era o último a ir pro gol”, “Avisou porra nenhuma”, “Aproveita e vai tu, é bom que não atrapalha o time”. O pessoal que está de fora começa a ficar indócil e a avisar que os dez minutos já se passaram. Olho pro meu relógio e vejo que ainda faltam três. O jogo termina empatado e surge novo desentendimento: saem os dois times ou batemos pênaltis?

– Macho, esse pessoal não se entende nunca.

Hora de ir embora. Juvenal vai logo avisando que não vai pagar porque só jogou duas partidas: “Não joguei quase nada!”, “Quem manda ser ruim? São só 4 reais…”, “Só tenho dois”. Juvenal abre a carteira e faz um esforço danado pra esconder a nota de dez reais. Mais cinco minutos de convencimento e ele aceita pagar o resto: “Nem tinha visto esse dinheiro aqui…”. O pessoal começa a se afastar. Alguns conhecidos, que não me viam há anos, percebem minha presença e acenam com a cabeça. Mas a regra é evitar cumprimentos desnecessários.

– Eu não vou apagar essa luz! O último a sair que apague.

Arquivado em:Miscelânea

Let the Bells Ring

Let the Bells Ring – Nick Cave & the Bad Seeds

C’mon, kind Sir, let’s walk outside
And breathe the autumn air
See the many that have lived and died
See the unending golden stair
See all of us that have come behind
Clutching at your hem
All the way from Arkansas
To your sweet and last amen

Let the bells ring
He is the real thing
Let the bells ring
He is the real, real thing

Take this deafening thunder down
Take this bread and take this wine
Your passing is not what we mourn
But the world you left behind
Well, do not breathe, nor make a sound
And behold your might work
That towers over the uncaring ground
Of a lesser, darker world

Let the bells ring
He is the real thing
Let the bells ring
He is the real, real thing

There are those of us not fit to tie
The laces of your shoes
Must remain behind to testify
Through an elementary blues
So, let’s walk outside, the hour is late
Through your crumbs and scattered shells
Where the awed and the mediocre wait
Barely fit to ring the bells

Let the bells ring
He is the real thing
Let the bells ring
He is the real, real thing

Arquivado em:Música

A Mania do Moderno

Se deixamos de lado qualquer mentalidade imediatista (no sentido nada pejorativo do termo), noções de ‘atualidade’ e ‘modernidade’ perdem boa parte de seu significado, graças, em boa medida, ao uso desregrado que se faz dos termos. Dizer que uma obra de ficção é ‘moderna’ ou ‘atual’ já quase equivale a dizer que ela é ‘boa’. Ensaístas e resenhistas fazem das tripas coração para encontrar um argumento que lhes permita coroar a obra sob análise com o famigerado ‘moderno’. Maquiavel é moderno. Shakespeare é moderno. Racine é moderno. Bernard Shaw é moderno. Brecht é moderno. Alguém seria capaz do prodígio de indicar um dramaturgo que, sendo excelente à sua maneira, consiga escapar do rótulo ‘moderno’ (isto é, minimamente atual) na sua acepção mais ampla? Isso parece ser impossível porque a acepção de ‘moderno’, hoje, é tão ampla quanto se queira.

Certamente esses autores (e quaisquer outros dignos de nota) são modernos no sentido de que têm sempre algo pertinente a nos dizer; conselhos e impressões e julgamentos que, por mais estranhos que nos pareçam, ainda preservam um tom em comum com nossas próprias convicções. Se seus motivos nos fossem completamente ininteligíveis, simplesmente não os leríamos: jogaríamos a obra de Shakespeare no lixo e equipararíamos Otelo a um cão raivoso, indigno de qualquer simpatia. Mas entender isso como modernidade é esvaziar a palavra de seu significado.

Mais que o óbito de uma palavra, essa mania parece representar um fascínio nosso por tudo que se propõe a ser modernoso: lemos em livros didáticos que esse autor se desfez das ‘amarras do passado’ e que aquele outro se livrou das ‘correntes da convenção’ como se as tais amarras e convenções fossem necessariamente contrárias à natureza humana. A liberalidade que hoje nos entusiasma será, no seu devido tempo, também desafiada por radicais que não raro defendem valores que, para os radicais da geração passada, eram considerados reacionários. All’s well that changes well.

Arquivado em:Miscelânea

A Idéia Científica

And, whenever obsession by a given pattern causes a given writer to interpret the facts too artificially, to fill the gaps in his knowledge too smoothly, without sufficient regard to the empirical evidence, other historians will instinctively perceive that some kind of violence is being done to the facts, that the relation between evidence and interpretation is in some way abnormal; and that this is so not because there is doubt about the facts, but because there is an obsessive pattern at work.

Como ilustração de uma idéia rigorosamente científica, pede-se demonstrar que a raiz quadrada de 2 é um número irracional. Qualquer dançarina de forró, sabendo o que é um número racional, percebe intuitivamente que raiz de 2 (ou de 3, 5, 6, 7, 8, 10 etc.), é um número irracional: afinal, como escolher dois números naturais e primos entre si m e n tais que m/n = 21/2 ? Se é a escolha desses dois números que nos parece difícil, tudo indica que devemos partir precisamente desse resultado e, através de um reductio ad absurdum, chegar à conclusão de que o número é com efeito irracional. Então:

1) Supomos que raiz de 2 é racional, isto é, 21/2 = m/n, com m e n naturais e primos entre si (isto é, m e n não têm fatores comuns).

2) Multiplicando por n e elevando ambos os lados da equação ao quadrado, chegamos a 2n2 = m2. O termo da esquerda é par porque contém o fator 2, e o da direita tambem o é porque é igual ao da esquerda. Se m2 é par, m também é (essa proposição pode ser facilmente demonstrada, mas é bem intuitiva) e, portanto, m pode ser expresso na forma m = 2k, k natural.

3) Substituindo m = 2k na equação de (2), chegamos a 2n2 = 4k2, isto é, n2 = 2k2. Pela mesma argumentação de (2) concluimos que n é par.

4) Chegamos a um absurdo: m e n são pares (têm pelo menos um fator 2 em comum), apesar da restrição inicial segundo a qual eles deveriam ser primos entre si. O erro está necessariamente na suposição de que raiz de 2 é racional, o que não nos deixa outra saída além de concluir que raiz de 2 é irracional.

A argumentação acima é um exemplo clássico do determinismo inerente ao raciocício matemático. O que não é racional é irracional; na eventualidade de um resultado inesperado (ou simplesmente incoerente), sabemos exatamente onde se encontra o erro. O matemático parte de um resultado conhecido e, respeitando algumas regras internas, prossegue freneticamente, com um solene desprezo por tudo que não diz respeito ao universo matemático: a fome dos camponeses chineses e o derretimento das calotas polares lhe são, com muita razão, indiferentes. Por mais que haja dúvidas, sabemos com um mínimo de precisão onde se encontram as explicações, caso elas existam. Até no momento de reconhecer seu próprio fracasso a matemática é avassaladora: o seguinte teorema prova que não existem soluções para essa equação, aquele outro deixa patente que não há primitivas para aquela função. Em suma: trata-se de um universo maciço (ainda que não possamos ver, hoje, todas as partes) e coeso e independente, e não chega a surpreender que queiram estender essa exuberância formal e inclusiva a outras áreas do conhecimento.

Isaiah Berlin, num dos ensaios do The Proper Study of Mankind (de que falarei mais diretamente em outros posts), aponta essas e outras peculiaridades do campo das ciências naturais numa tentativa de mostrar a inconsistência subjacente à idéia de estender o rigor determinístico da matemática às ciências sociais ou humanas. Figuras da importância de Hegel, Comte, Taine, Spengler etc. julgaram entrever o elo que ligaria esses dois ramos tão distintos do conhecimento. Aplicações diretas dessa suposição levam invariavelmente a resultados bem caricatos: há pouco falávamos de Weber e, se o alemão aceitasse semelhante idéia, seríamos obrigados a ler conclusões do tipo ‘João converteu-se ao Calvinismo e, portanto, é hoje um capitalismo milionário’, ou ‘José continua pobre e letárgico porque sofre de alguma grave moléstia mental, de vez que se converteu ao Calvinismo há tempos.’

Mais surpreendente que o fato de não poucas pessoas entenderem a história como uma ciência exata é o esforço imaginativo que muitos despenderam na tentativa de demonstrar essa visão. Já vimos, com Spengler, o quanto a ‘demonstração’ de uma tese que nos parece despropositada (ou até ridícula) pode ser interessante por motivos completamente alheios à tese propriamente dita. Que mentes tão iluminadas tenham se dedicado com tanto afinco a idéias tão anti-empíricas e carentes, muitas vezes, de qualquer consistência interna, parece ser consequência de uma confiança excessiva na própria inteligência. O homem ordinário simplesmente desistiria no meio do caminho e atribuiria os resultados absurdos a alguma inconsistência que ele mesmo não é capaz de discernir. Spengler e congêneres, na tentativa de divisar uma ciência única e totalizante, acabam adotando a postura do matemático: fecham-se num universo que eles supõem completo e coeso e nem sequer se constrangem com as excentricidades que lhe aparecem, dado que elas sejam consequência da aplicação rigorosa de alguns poucos preceitos axiomáticos. Não lhes ocorre que até mesmo Euclides desconfiava de seus postulados.

Arquivado em:Filosofia, Matemática

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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