Parnaso

Duas Histórias (1)

Inauguro com esse post um ramo do conhecimento chamado ‘história comparada’. Se é mesmo verdade que, como Aristóteles dizia, ‘História é o que o historiador faz’, passemos a comparar duas delas: a primeira é de responsabilidade conjunta de Cláudio Vincentino e Gianpaolo Dorigo, autores do História Para o Ensino Médio – História Geral e do Brasil, que utilizei durante todo o ensino médio; a segunda é a de Paul Johnson, em seu Modern Times – The World From the Twenties to the Nineties. O primeiro tema escolhido é a Revolução Russa.

Na versão tupiniquim a mendacidade começa logo no primeiro parágrafo, num quadrinho chamado Para Pensar Historicamente:

Inicialmente comparada à Revolução Francesa, por caracterizar uma libertação do país dos grilhões absolutistas, adaptando-se às exigências sociais e políticas do século XX, a Revolução Russa, a nosso ver, não teve paralelo histórico. Diferentemente do que aconteceu na Revulução de 1789, não foi a burguesia russa que assumiu o poder. Foram os líderes do proletariado, que comandaram o processo revolucionário, forçando uma ruptura social e política inédita (…). A partir disso, podemos nos fazer algumas perguntas: a transformação revolucionária teria sido insuficiente? Permaneceram estruturas e comportamentos incompatíveis com os anseios revolucionários? O colapso da União Soviética teria decorrido do que foi feito ou do que deixou de ser feito durante o processo revolucionário?

Bom, não vou comentar o tom de melancolia contida, principalmente nas últimas três perguntas, com o fato de a Revolução não ter obtido sucesso a longo prazo. Cabe realmente saber se, como a dupla sugere, a Revolução teria ‘adaptado’ o país às ‘exigências’ sociais e políticas do século XX e se foram realmente os líderes do proletariado que comandaram o processo revolucionário. Em tempo: em se tratando de livros de história de ensino médio, revolução é sinônimo de adaptação (não pode haver adaptação que se dê por outros métodos), e as tais ‘exigências’, essas entidades quase sobrenaturais, provêm diretamente do determinismo histórico de Marx. Antes de tentar responder a essas perguntas, sigamos adiante com a versão brasileira.

Num trecho referente ao governo de Lenin, ficamos sabendo que

As mudanças nas estruturas tradicionais de poder, entretando, ativaram a oposição dos mencheviques e czaristas (que passaram a ser chamados de russos brancos). Apoiados pelas potências aliadas, receosas da propagação da revolução de caráter popular pelo mundo, as duas facções mergulharam o país numa sangrenta guerra civil (…).

Surgem, aqui, mais duas questões: a Revolução tinha mesmo caráter popular? E, mesmo que tivesse, foram os mencheviques e czaristas, essas duas facções malvadas, os responsáveis pela guerra civil sangrenta? Outro detalhe é que a polícia política revolucionária, a Tcheca, criada ainda sob os auspícios de Lenin, só vem a ser mencionada na seção referente a Stalin. Falando na seção de Stalin, a única imagem que o livro traz nessa parte é uma foto do metrô de Moscou, com a seguinte caption: “Foi durante o segundo plano quinquenal, que visava (sic) acelerar o desenvolvimento, que se construiu o metrô de Moscou.”

Passemos para a versão de Johnson. Quanto às alegações de que a Revolução teve, desde o início, um caráter popular, Johnson observa sobre Lenin:

He had no real power-base in Russia. He had never sought to create one. He had concentrated exclusively on building up a small organization of intellectual and sub-intellectual desperadoes, which he could completely dominate. It had no following at all among the peasants. It had a few adherents among the unskilled workers. Lenin’s intransigence had driven all the ablest socialists into the Menshevik camp.

O fato de Lenin, por puro oportunismo (já que não tinha apoio popular), ter criado o slogan ‘todo poder aos sovietes’ parece ter sido evidência suficiente, para a dupla brasileira, de que o proletariado de fato dirigiu o processo revolucionário. A realidade é que o processo de tomada de decisões, na medida em que isso ia se tornando possível, ficou a cargo de um reduzido grupo de desperadoes. A Revolução foi de fato levada a cabo por camponeses, que já eram em número de 103,2 milhões em 1913, contra no máximo 15 milhões de membros do ‘proletariado’ (na acepção mais larga do termo). A advertência de Engels segundo a qual a pior coisa que pode acontecer a um líder revolucionário é chegar ao poder quando as condições para a Revolução ainda não estão ‘maduras’ não parece ter diminuído a pressa de Lenin.

Resta saber de onde surgiu a violência. A dupla tupiniquim dá a entender que mencheviques e czaristas começaram a lambança, mas, para a nossa surpresa, o próprio Lenin parece discordar dessa visão:

Believing, as he did, that violence was an essential element in the Revolution, Lenin never quailed before the need to employ terror. From the French Revolution he could quote Robespierre: ‘The attribute of popular government in revolution is at one and the same time virtue and terror, virtue without which terror is fatal, terror without which virtue is impotent. The terror is nothing but justice, prompt, severe, inflexible; it is thus an emanation of virtue.’

Por algum motivo que escapa ao nosso entendimento, Vicentino e Dorigo também se esquecem de mencionar os crimes praticados pela Tcheca, antes mesmo que Stalin chegasse ao poder. Os ‘grilhões’ absolutistas, por outro lado, são pintados com tintas macabras. Não se sabe o porquê, já que

The Tsar’s secret police, the Okhrana, had numbered 15 000, which made it by far the largest body of its kind in the old world. By contrast, the Cheka, within three years of its establishment, had a strenght of 250 000 full-time agents. Its activities were on a correspondingly ample scale. While the last Tsars had executed an average of seventeen a year (for all crimes), by 1918-19 [ou seja, sob Lenin] the Cheka was averaging 1 000 executions a month for political offences alone.

Aqui termina o nosso primeiro exercício de ‘história comparada’. Como diria o Cobrador de Rubem Fonseca: só rindo.

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Uma Cruzada às Avessas

Falando em Olavo de Carvalho, ele esteve envolvido em duas das investidas contra religião mais tresloucadas que vi nos últimos tempos: a primeira, de Janer Cristaldo, já tem um tempinho, e a de Rodrigo Constantino é tema dos artigos mais recentes do Olavo, apesar de a discussão (se é que se pode chamá-la assim) ter começado no Orkut, na comunidade do próprio Olavo.

O que mais chamou minha atenção nesses episódios anti-religiosos (ou, mais especificamente, anticristãos) é a homogeneidade dos ‘argumentos’: raramente a Inquisição não é pintada como a entidade mais sanguinária do período medieval, raramente os maiores líderes religiosos não são porcos gananciosos e enganadores, interessados apenas em fama e riquezas materiais, e propugnadores de toda sorte de autoritarismos e restrições às liberdades do indivíduo. Para finalizar, como prova cabal de que qualquer forma de religião institucionalizada é mesmo coisa para idiotas retrógrados, produz-se uma listinha de ilustres ateus cujos destaques são invariavelmente Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre, dois dos maiores mistificadores do século passado. Qualquer semelhança com seu próprio comportamento aos 15 anos de idade não é mera coincidência.

As deturpações reproduzidas acima podem, a princípio, ser corrigidas com informações em sua forma mais bruta: contra a acusação de que os tribunais inquisitoriais eram cruéis, podemos lembrar que os civis eram-no mais ainda; contra a assunção de que líderes religiosos são necessariamente facinorosos, rápidos esboços biográficos demonstram que não só isso não é verdade como que a impudicícia moral é muito mais abundante entre autoridades seculares; em oposição à listinha de ateus, podemos produzir outra (para ficar só com cristãos) contendo os nomes de Dante, Tomás de Aquino, Newton, Leibniz, Bach, Dostoievski e Carpeaux.

Mas, como é claro, chegar à simples conclusão de que a religião não é um embuste global, supratemporal e maquiavélico não é suficiente, apesar de até isso ser difícil nos dias que correm. Mesmo os ditos ‘tolerantes’ não admitem que os ‘crentes’ creiam publicamente, isto é, que elevem suas convicções à forma de um estilo de vida (a não ser que esse estilo se confunda com o estilo secular vigente): religião deve ser coisa particular, quase secreta, praticada na forma de uma oraçãozinha na hora de dormir, a portas trancadas. O que não puder ser observado em laboratórios deve imediatamente ser retirado de qualquer argumentação dita ‘racional’; o que não puder ser reduzido a uma simples relação de causa e efeito é por força delírio pessoal ou superstição: a temível pseudociência. Ocorre que essa exigência é tão opressora quanto determinar que um marxista só fale de materialismo dialético na cama, ou que um kantiano só fale de Razão (ou que um hegeliano só fale de História ou que um voltaireano só fale de bom senso) quando estiver num mood fantasioso e/ou lírico. A existência da História de Hegel é tão evidente quanto a de um Deus na forma de um icosaedro.

É essa exigência absurda que está por trás da obsessão que todo bom ateu demonstra ao exigir uma ‘demonstração’ da existência de Deus. A demonstração vai entre aspas porque ela está além de qualquer ponderação filosófica (que ele supõe ser impossível ou mera divagação por se tratar de um assunto tão ‘abstrato’ e ‘pessoal’): o sujeito quer nada menos que a foto de um velho barbado, vestido numa túnica, passeando de estrela em estrela ou dando uma corridinha nos anéis de saturno. Ou, como na aquarela de William Blake acima, dando uma de onipotente. A palavra incompatibilidade (assim como a incompatibilidade entre ciências humanas e exatas que vimos no post sobre Berlin) não poderia ter melhor emprego que esse: um mecanicista, ainda fascinado com os bloquinhos de Newton, tentando entender metafísica.

Arquivado em:Filosofia, Religião

O Antiolavismo

Quem já teve a oportunidade de conhecer um adolescente fascinado por Olavo de Carvalho sabe como o ‘olavete’ típico pode ser bem chato. A fascinação é justificável (até certa idade, claro): o Olavo representaria aquele guru que expõe e desmistifica a burrice reinante no meio acadêmico, nas conversas com amigos e na cultura, principalmente a nacional, em geral. O sentimento de minoria é particularmente atraente; forma-se um grupo seleto que, por esforço próprio e contra a corrente, consegue enxergar mais longe que a média.

Esse sentimento (a princípio saudável) de pertencer a um pequeno grupo, aliado a uma propensão ao exagero e a uma confiança excessiva em esqueminhas preestabelecidos, degenera no que se conhece por aí pelo apelido carinhoso de olavete. Por incrível que pareça, o próprio Olavo é muito mais modesto e agradável que seus sequazes mais entusiasmados. Se os olavetes servem para alguma coisa, é para pintar o retrato de um possível Olavo de daqui a vinte anos: intransigente e gagá. O verdadeiro olavete se debate com a senilidade antes dos 20 anos.

Mas o olavete é só isso: um deslumbrado. Já o antiolavete convicto, numa escalada que faz jus ao prefixo anti-, chega a níveis estarrecedores de incapacitação mental. A primeira e principal característica do antiolavete é padecer do mesmo mal que tanto denuncia: com uma obsessão que espantaria o próprio Olavo, ele enxerga olavetes em qualquer buraco. Reinaldo Azevedo, Friedrich Hayek, Milton Friedman (aquele que implantou a ditadura no Chile!) e Russell Kirk, ninguém escapa. O antiolavismo é o avesso do avesso, a caricatura da caricatura: o futuro do antiolavismo é o olavismo.

Há uns tempos escrevi sobre piadas mal contadas e metáforas mal escritas: é sempre constrangedor. Quanto maior a pretensão, maior o constrangimento. O antiolavete se supõe o contrapeso ideal à ‘insânia’ olaviana; enxergando olavetes em qualquer árvore ele pretende, com sua sensatez inesgotável, colocar o mundo de volta em sua devida órbita. Ele é moderno, descolado: está a anos-luz à frente dos moralismos de um Reinaldo Azevedo; não se deixa enganar pela crença tresloucada de Hayek no livre mercado; não admite debate com economistas golpistas e autoritários como Friedman e não vê diferenças entre Kirk e um fascista. Refutar o Olavo? Para quê? A burrice do Olavão é arquievidente; só nos resta rir. É sempre desagradável ter de sentir vergonha pelos outros. Os antiolavetes têm um grande débito de vergonha.

Quem mais sofre com isso tudo é a Igreja, ou melhor, qualquer forma de religião institucionalizada. Infelizmente para ela, o Olavo já a defendeu com veemência em vários textos e, como sabemos, isso já é motivo para que as antiolavetes se assanhem. Mas esse é um problema ainda mais grave. Fica para o próximo post.

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Um Homem em Silêncio

Pegando o embalo do post anterior, achei que seria boa idéia dar um exemplo de uma personalidade tipicamente silenciosa. John Calvin Coolidge (1872-1933) foi o trigésimo presidente dos EUA (1923-29) e até hoje é visto com maus olhos pela historiografia oficial americana. Apesar de a jazz age ter sido um período de progresso vertiginoso para os americanos (os anos 50 é a única outra época que consegue competir em termos de entusiasmo), até recentemente muitos viam a frieza de Coolidge – e seu laissez-faire – como responsável pela crise de 29. Como se sabe, a realidade é bem mais complicada, e já há quem argumente que o intervencionismo de seus sucessores (Hoover e Roosevelt) prolongou uma crise que, como a de 1920, poderia ter desaparecido em um ano.

Pode-se dizer tranquilamente que Coolidge foi o presidente mais consistente na história dos EUA: ao deixar o cargo, avaliou que Perhaps one of the most important accomplishments of my administration has been minding my own business. Realmente, o discurso de Coolidge parece ter sido o último suspiro genuinamente laissez-faire na história da humanidade: um suspiro, diga-se, que às vezes dá a impressão de ser gostosamente preguiçoso, mas que é consequência de uma ‘filosofia’ muito bem pensada e definida. A verdade é que, como Eisenhower algumas décadas mais tarde, Coolidge gostava de dar a impressão de que era pouco sofisticado ou até ingênuo.

Detestava comprar a crédito. Aprendeu na loja do pai que quem não tem dinheiro (vivo) não deveria se meter a fazer compras. Quando os termos do tratado de Versailles forçaram a Alemanha a quitar suas dívidas com a Inglaterra, que por sua vez devia aos EUA, que por sua vez emprestaram aos alemães para que eles tivessem condições de pagar os ingleses (num processo cíclico que ficou mundialmente famoso pela sua inutilidade), Coolidge justificou a pressa com um lacônico They hired the money, didn’t they?

Ficou nacionalmente conhecido em 1919 ao esmagar a greve da polícia de Boston: There is no right to strike against the public safety by anybody, anywhere, anytime. Alguns anos mais tarde foi eleito presidente com os slogans Law and Order, Keep Cool with Coolidge, Coolidge or Chaos e The chief business of the american people is business. Não chega a surpreender que seu apelido (de que gostava muito) tenha sido Silent Cal. Na campanha de 1924, notou: I don’t recall any candidate for president that ever injured himself very much by not talking. Também é conhecido por observar que The things I never say never get me into trouble. Em sua autobiografia, confessou que a regra que segue com mais veemência consists in never doing anything that someone else can do for you.

Em agosto de 1927, Coolidge chamou 30 jornalistas para a Casa Branca e, depois de avisar que The line forms on the left, entregou para cada um deles um pequeno papel em que se lia I do not choose to run for president in 1928. Essa decisão não deixa de ser estranha: a essa altura, Coolidge ainda era querido por todos. A verdade é que ele sabia, como qualquer outra pessoa suficientemente informada à época, que o progresso não poderia continuar para sempre. Cal says there’s a depression coming, nas palavras de Grace, sua esposa. O próprio Coolidge complementa: I know how to save money. All my training has been in that direction. The country is in a sound financial condition. Perhaps the time has come when we ought to spend money. I do not feel I am qualified to do that.

Limitado? Pode até ser. Mas muitas das lições de Coolidge ainda merecem ser repetidas:

Government cannot relieve from toil. The normal must take care of themselves. Self-government means self-support… Ultimately, property rights and personal rights are the same thing… The prime element in the value of all property is the knowledge that its peaceful enjoyment will be publicly defended. Without this legal and public defence the value of your tall buildings would shrink to the price of the waterfront of old Carthage or corner-lots in ancient Babylon… History reveals no civilized people among whom there was not a highly educated class and large aggregations of wealth. Large profits means large payrolls. Inspiration has always come from above.

Arquivado em:História

Um Post em Silêncio

Entusiasmado com a constatação de que três das quatro coisas que mais afligem minha paciência estão de alguma maneira relacionadas com o barulho (são elas: pessoas com mastigação barulhenta, qualquer tipo de barulho enquanto durmo e o barulho do telefone), resolvi escrever sobre o silêncio. Até o quarto membro da minha listinha, o calor, tem sua relação com a falta de silêncio: o pesquisador norte-americano William J. Shaffor, da Princeton University, mostrou recentemente que a agitação das partículas de ar (provocada pelo aumento excessivo da temperatura) num ambiente suficientemente pequeno e cuidadosamente vedado leva a colisões intermoleculares de uma intensidade tal que podem ser percebidas pelo ouvido humano.

Mas o silêncio tem uma história comprida e tortuosa, e muito me admira que ainda não tenham escrito (até onde eu saiba) uma História Universal do Silêncio. Como todo conceito excessivamente simples, o de silêncio pode assumir desdobramentos os mais variados e até mesmo contraditórios. Bem sei que essa última frase nada significa sem exemplos. Tomemos o capítulo LV das Memórias Póstumas, O Velho Diálogo de Adão e Eva:

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . .

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .?

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ?

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

Outro exemplo bem conhecido, e que segue a mesma linha, pode ser encontrado no Anna Karenina de Tolstói, no momento em que Levin e Kitty finalmente se reconciliam:

‘Here,’ he said, and wrote the initial letters: w, y, a, m: t, c, b, d, i, m, n, o, t? These letters meant: ‘When you answered me: “that cannot be”, dit it mean never or then?’ There was no likelihood that she would be able to understand this complex phrase, but he watched her with such a look as if his life depended on her understanding these words.

She glanced at him seriously, then leaned her knitted brow on her hand and began to read. Occasionally she glanced at him, asking with her glance: ‘Is this what I think?’

‘I understand,’ she said, blushing. (…)

‘Well, here, read this. I’ll tell you what I would wish. Would wish very much!’ She wrote the initial letters: t, y, c, f, a, f, w, h. It meant: ‘that you could forgive and forget what happened’.

He seized the chalk with his tense, trembling fingers and, breaking it, wrote the initial letters of the following: ‘I have nothing to forgive and forget, I have never stopped loving you.’

Nesses dois casos fica claro que o silêncio (ou a ausência de palavras, ou a ausência da necessidade de representá-las) dá conta de um entendimento ulterior, uma união especial que prescinde de qualquer elaboração linguística para fazer-se inteligível. Ora, ocorre que o silêncio pode vir a representar algo diametralmente oposto: o reconhecimento de que não há como estabelecer qualquer tipo satisfatório de comunicação. É mais ou menos disso que Italo Calvino reclama em sua palestra Exatidão:

A linguagem me parece sempre usada de modo aproximativo, casual, descuidado, e isso me causa intolerável repúdio. Que não vejam nessa reação minha um sinal de intolerância para com o próximo: sinto um repúdio ainda maior quando me ouço a mim mesmo. Por isso procuro falar o mínimo possível, e se prefiro escrever é que, escrevendo, posso emendar cada frase tantas vezes quanto ache necessário para chegar, não digo a me sentir satisfeito com minhas palavras, mas pelo menos a eliminar as razões de insatisfação de que me posso dar conta. A literatura – quero dizer, aquela que responde a essas exigências – é a Terra Prometida em que a linguagem se torna aquilo que na verdade deveria ser.

Feliz ou infelizmente, essa constatação pode ter contornos bem mais trágicos: o que em Calvino é apenas um repúdio contra o desleixo com que é tratada a linguagem, em outras mentes mais radicais pode adquirir a forma de um ultimatum contra qualquer possibilidade de comunicação humana. É a impressão que se depreende do manjadíssimo O Grito, do norueguês Edvard Munch:

Qualquer um percebe que o ‘grito’ só tem seu efeito marcante exatamente porque não podemos ouvi-lo: como diria Ortega, a moeda falsa circula apoiada pela moeda verdadeira. E, nesse caso como em muitos outros, a moeda verdadeira é o silêncio.

Em se tratando do efeito contrapontístico (mesmo na acepção não-musical do termo) do silêncio, pensa-se logo em música. O silêncio pode ser empregado numa inversão repentina ou num lânguido crescendo, e não chega a admirar que tenham surgido ocasiões para utilizações mais inovadoras do herói desse post: o compositor John Cage, por exemplo, resolveu ‘compor’ uma piece que consiste em quatro minutos e trinta e três segundos do mais inveterado silêncio. Quando perguntaram a respeito da importância do silêncio em sua obra, Cage limitou-se a responder que Until I die there will be sounds. And they will continue following my death. As for silence, there’s a countdown to its extinction. A música popular brasileira também faz uso sublime do silêncio. Por exemplo, nos intervalos entre uma e outra música.

Na primeira imagem, Harpócrates, o deus helênico do silêncio.

Arquivado em:Música, Miscelânea, Prosa

Deuses Malvados

Algo que nos impressiona em Apocalypto é o morticínio levado a cabo para aplacar a sede dos deuses maias. Realmente, o filme mostra umas 5 ou 6 cabeças rolando a escadaria principal de um zigurate antes que os deuses, nas palavras do próprio chefe de cerimônias (v. foto), se dêem por satisfeitos. É um choque principalmente para aqueles que, submersos na produção historiográfica do século 20, ainda vêem as civilizações ameríndeas como compostas de astrônomos delicados e arquitetos metidos a artistas.

Nesse sentido, Mel Gibson nos faz um grande favor ao deixar os colonizadores europeus totalmente de fora, o que por si só já pareceria um absurdo para um filme que se propõe a mostrar a civilização maia em decadência. Não há dúvidas de que há muito o que dizer sobre a violência dos conquistadores espanhóis: alguns dos relatos são de revirar o estômago. Mas a prática de sacrificar seres humanos em rituais religiosos, como se sabe, é algo bem distante do modus operandi cristão.

É claro que tanta selvageria não teria como não deixar sua marca nas manifestações artísticas dessas civilizações. No filme mesmo os prisioneiros de guerra, a caminho da execução, podem ver os painéis de pedra em que outros prisioneiros como eles são degolados e empalados, e têm seus corações arrancados ainda em vida. Há sangue por toda parte. Os deuses têm sede.

Paul Johnson, no capítulo de sua História da Arte (Art: A New History) que trata da Espanha, observa que

A fierce European detestation of human sacrifice went right back to the Romans, and had been steadily reinforced by Christian teaching. It took many forms in the Americas but one in particular made the flesh of the Spanish creep. From about 1200 BC right up to the conquest, a religious ritual game had been played, with a rubber ball, in which the players of the losing team were decapitated by the other side. In the Leiden Museum there are pottery figures showing players grasping knives and trophies in the form of heads, and decapitating losing players. Stone relief panels and stone steles tell the same gruesome story.

Gibson, em Apocalypto, escolheu um ‘jogo’ mais popular, em que os prisioneiros correm enquanto os demais testam a pontaria com pedras, lanças e flechas.

As cenas de violência são realmente muitas, mas, se querem mesmo saber, não me pareceram exageradas. A verdade é que, no ambiente em que estamos, a violência exagerada parece brotar naturalmente, e por isso mesmo deixa de ser exagerada. Um jaguar mastigando a cabeça de um índio ou uma flecha atravessando a nuca (até sair pela boca) de outro não me parecem de maneira alguma desconectados com o fanatismo sanguinário que permeia boa parte do filme.

E finalmente, respondendo a um comentário que já ouvi mais de uma vez – como poderia o filme retratar a decadência da civilização maia se mais da metade dele se ocupa em mostrar a perseguição de um único índio? – eu diria que, não havendo decadência, não haveria perseguição. Aliás, isso é algo que o filme faz questão de deixar explicíto desde o início: a decomposição começa internamente.

Arquivado em:Cinema, Miscelânea

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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