Parnaso

Gogol, O Progressista

Um dos passatempos prediletos da crítica dita progressista é incrementar suas hostes com nomes muito ou pouco notórios. Nikolai Gogol (1809-1852) não poderia ficar de fora. Terminei de ler seu Almas Mortas recentemente e fui informado (o informante pediu para não ser identificado) de que esse romance (ou novela, ou poema, como queria o próprio autor) não passa de uma crítica ao antigo sistema de servidão russo. Ora, meu informante não precisava ter ficado tão acanhado: uma rápida passagem pelo Google deixa patente que essa ‘interpretação’ não é das mais desconhecidas; de fato, já atingiu o nível de ‘palpite seguro’, aquele tipo de comentário que sempre pode ser feito em mesas-redondas sem que se corra o risco de passar vergonha. Na maioria das vezes são inofensivos e dispensam maiores explicações, mas esse não parece ser o caso com Gogol. Mais uma vez, somos forçados a não só discordar como a enxergar o contrário, ainda que sob os uivos recriminadores dos progressistas de plantão. “Esses revisionistas”, dirão eles, cuspindo pro lado, “insistem em… revisar.”

O livro trata de Tchitchikov (na tradução americana), uma raposa muito ladina. Ele chega à cidade provincial de N. com o atípico desejo de comprar, ou conseguir de qualquer outra maneira, ‘almas mortas’, isto é, servos que morreram desde o último censo. O motivo desse desejo só será descoberto para o leitor muito mais tarde, mas fica sabido que um servo morto permanece oficialmente vivo até que se realize um novo censo, que ocorria a cada dez anos. Os donos das almas tinham o direito de hipotecá-las a 200 rublos a unidade, de vez que, como responsáveis, também tinham de pagar impostos por elas. Tchithikov viu assim uma oportunidade de acumular capital para algum empreendimento futuro. Desde já fica claro que, seja lá o que for, Almas Mortas é antes uma crítica à ineficiência e à burocracia estatal da Rússia czarista a uma rejeição da servidão como um todo.

Isso fica claro desde muito cedo, e dá-nos confirmação a própria figura do cocheiro de Tchitchikov, Selifan, que tinha por hábito conduzir embriagado (de bebida ou de sono ou de ambos) e foi responsável direto de dois acidentes. Os servos em geral são apresentados de maneira bem negativa; são sempre preguiçosos e espertalhões, quando não calham ser desonestos. Parecem requerer vigilância constante de seus senhores e em nenhum momento demonstram autonomia suficiente para cuidar de si mesmos:

Why, that is really strange,” said Platonov. “Why is it in Russia that if you don’t sharply look after the peasant he becomes a drunkard and good-for-nothing?

Pouco mais adiante, é dado a Murazov, provavelmente a voz mais lúcida em todo o texto, dizer:

Indeed it is not hard to incite a man who is really ill treated. But the fact is that reforms ought not to begin from below. It’s a bad business when men come to blows: there never will be any sense from that – it’s a gain to none but the thieves. You are a clever man, you will look about you, you will find out where a man is really suffering from the fault of others, and where from his own restless character, and afterwards you will tell me all about it.

Ora, contra escravidão, servidão, massacre sumário de criancinhas e congêneres todo mundo é. Resta saber se faz sentido incluir Gogol num grupo de tresloucados que gostaria de ver o fim da servidão de qualquer maneira, a qualquer custo. Não faz. Essa mania de querer monopolizar a bondade, uma bondade que só é digna de ser assim chamada se se adequa aos padrões ‘progressistas’ atuais, não deveria enganar ninguém. Certamente não vai enganar quem souber ler direito.

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Arquivado em:Política, Prosa

Questãozinha

Três prisioneiros são informados pelo carcereiro (que não mente) que um deles foi escolhido aleatoriamente para ser executado, e que os outros dois serão liberados. Privadamente, o prisioneiro A pergunta ao carcereiro qual de seus colegas será liberado, argumentando que essa informação é irrelevante desde que se conhece que ao menos um dos dois será liberado. O carcereiro recusa-se a responder tal questão pois se A conhecesse qual de seus companheiros será liberado, a sua própria probabilidade de ser executado passaria de 1/3 para 1/2 pois seria um dos dois prisioneiros restantes. O que você pensa sobre o argumento do carcereiro?

Bom, a resolução formal, apesar de simples, exige conhecimentos de probabilidade condicional. A argumentação do carcereiro está errada porque a probabilidade de A ser executado continua sendo 1/3, como de início, e a do que não for liberado da dupla (B ou C) passa a ser 2/3. Uma maneira de “enxergar” isso: B e C respondiam, inicialmente, por 2/3 de probabilidade de execução. Uma vez que se sabe que um deles será liberado, a ‘contribuição’ de probabilidade desse um passará para o outro da dupla.

Arquivado em:Matemática

Meira Penna Sobre Spengler

O indignação de Meira Penna, nesse trecho, chega a ser engraçada, mas o trecho da salada russa parece bem justo:

Assim também nos surpreende que a mesma terra terra de Leibniz, Kant, Humboldt, Schopenhauer, Husserl e Wittgenstein haja gerado um pensador tão temerariamente extravagante quanto Spengler. Que falta de bom senso! E, simultaneamente, que espantosa pretensão! Poder-se-ia dizer o mesmo de Hegel e de todos os filósofos do idealismo romântico. Faltam-lhes senso comum, senso de equilíbrio, senso crítico. Faltam-lhes a clareza e a lógica cartesiana. Parece-nos que as aberrações da política na primeira metade do século [20] correspondem às aberrações do intelecto no período anterior. Não sabemos se o prazer desses cavalheiros era simplesmente escandalizar-nos, embasbacar-nos com o destempero de suas teorias (pour épater le bourgeois!) ou se verdadeiramente nelas acreditavam! Trata-se de uma surpreendente salada russa de intuições profundas e revoltantes extravagâncias. Como em Wagner: acordes de uma sublime melodia que nos transportam para além da realidade, num mundo supraterreno de pura e beatífica sonoridade – e, de repente, o estardalhaço de trombetas de uma banda do corpo de bombeiros de espantosa vulgaridade.

Arquivado em:Filosofia, Política

Sobre Homens e Macacos

A primeira impressão que qualquer debate mais acirrado entre criacionistas e evolucionistas nos dá é a de que boa parte da discussão seria desnecessária se o cientista atual não fosse tão dado a extrapolações fáceis. A especialização exagerada, o recrudescimento das hostes dos ‘especialistas sem coração’ de Weber, faz com que muitos, numa tentativa heróica (e arrogante) de resguardar o ideal do homem renascentista, opinem a torto e a direito sobre assuntos com os quais têm pouca familiaridade. Ao mesmo tempo em que a especialização cresce, o especialista se revolta e pretende analisar tudo quanto lhe aparece pela frente com suas muito particulares anteninhas. Se a média dos darwinistas tivesse sido tão cuidadosa quanto o próprio Darwin, o estrago teria sido bem menor.

No Polemos – Um Análise Crítica do Darwinismo, José Oswaldo de Meira Penna (1917-) discute não o aspecto biológico, mas as consequências ‘ideológicas, sociais, políticas e filosóficas’ da obra de Darwin. O motivo é simples: são essas consequências o que realmente nos interessa, além de que a análise do aspecto estritamente biológico da coisa exigiria um conhecimento específico fora de nosso alcance. Enquanto a ratificação (ou não) da teoria biológica resultaria em apenas mais um enigma solucionado, sem muitas implicações diretas em nossas vidas, o molde ideológico que decorre de semelhante linha de raciocínio pode infestar, de maneira decisiva, as mais diversas áreas do conhecimento. Seria bobagem negar a idéia de evolução como um todo; há evidências arqueológicas suficientes para tornar a hipótese mais que plausível. Daí a aceitar a ‘seleção natural’, a seleção de mutações genéticas geradas, veja-se, ao acaso, há um longo caminho.

Deve-se perceber desde já a circularidade do ‘enunciado’ da seleção natural. Se enunciamos a seleção natural como a sobrevivência do mais apto, é natural surgir a pergunta: como verificar que os que sobreviveram são, de fato, os mais aptos? Ao que responderão: são os mais aptos porque, ora bolas, sobreviveram. Trocando um pouco as palavras, poderíamos igualmente ficar com um ‘aquele que sobreviver sobreviverá’. A impossibilidade de ‘testar’ esse tipo de enunciado nos remete diretamente a Popper e a seu critério de falseabilidade, o qual, uma vez aceito, realmente destrói qualquer aspiração científica que o enunciado pudesse ter.

Pois mais que se reconheça e que se admire a idéia de evolução, ela parece incapaz de explicar dois momentos de particular interesse para qualquer mente especulativa: o da origem da vida, o surgimento da forma unicelular mais simples, e o do surgimento da ‘consciência’ humana, diretamente ligada a idéias de moral, ética, amor ou qualquer coisa comparavelmente complexa. O discurso darwinista pretende amenizar essa dificuldade lançando mão de vastos períodos de tempo, como se a lentidão do processo diminuísse suas complicações: ‘é certo que o homem evoluiu do macaco, mas isso levou milhões e milhões de anos’. A intenção parece ser eximir-se de qualquer elucidação adicional, de vez que ‘tudo’ pode acontecer em milhões e milhões de anos. Ora, se eu tivesse que pintar um Rembrandt com a habilidade que tenho hoje, não vejo por que me sairia melhor se pudesse dar milhões e milhões de pinceladas infinitesimais.

Em relação ao segundo momento, lembramos que desde muito cedo Darwin sentiu-se compelido a enfiar a questão da moral na panacéia seletiva:

Uma tribo, incluindo muitos membros que, por possuírem em alto grau o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e simpatia, sempre estivessem prontos para se ajudar mutuamente e se sacrificar para o bem comum, seria vitoriosa sobre a maior parte das outras tribos – e isso seria seleção natural. Em todas as épocas, no mundo, tribos sobrepujaram outras tribos; e como a moral é um elemento importante de seu sucesso, os padrões de moralidade e o número de homens bem aquinhoados assim tenderão por toda a parte a crescer e elevar-se.

O trecho acima já parece contradizer a idéia corrente segundo a qual a seleção natural pressupõe um ambiente hostil de concorrência desenfreada e egoísta. Não é muito difícil imaginar uma situação em que considerações de ordem ética dificultam nossa própria sobrevivência: numa guerra, a restrição à morte de civis pode ser decisiva para o desfecho do conflito, enquanto que num outro lado, onde não há qualquer escrúpulo nesse sentido, o esforço de guerra poderá ser bem mais eficiente e finalmente vitorioso. Conclui-se sem muita dificuldade que a idéia de seleção natural é usada para explicar elementos mutuamente contraditórios: o egoísmo e o altruísmo, o escrúpulo moral e a barbárie.

O livro de Meira Penna é dedicado ao biólogo norte-americano Edward Wilson, professor em Harvard. Wilson é um dos que pretendem explicar o sentimento altruísta a partir da seleção natural, e é ao comentar esse particular que Meira Penna desabafa: “Creio que Wilson, além de estudar biologia, deveria estudar um pouco a lógica de Aristóteles.” E, infelizmente, a impressão que temos ao conhecer um pouco mais do pensamento de biológos da linha de Wilson, que reduzem toda a problemática humana a um zigzag genético, é a de que eles ignoram por completo esse tipo de raciocínio lógico:

Falsa é a crença em verdades morais extrasomáticas e numa barreira absoluta entre o que é e o que deve ser. As premissas morais relacionam-se apenas com nossa natureza física e são o resultado de uma história genética idiossincrática.

Como conclusão, respodemos afirmativamente à pergunta de Meira Penna:

A biologia não deveria, porventura, limitar-se à descrição do comportamento dos animais e das plantas, sem avançar em explicações antropocêntricas suscetíveis de se tornarem “irrefutáveis”, no sentido de Popper, e, por conseguinte, não científicas? A teoria da evolução seria neste caso uma simples história da vida no planeta. O darwinismo seria uma história natural, simplesmente, e não uma teoria científica.

Arquivado em:Filosofia, Sociologia

Oração

CCLXXXVI. My Heart Leaps Up When I Behold

William Wordsworth (1770-1850)

MY heart leaps up when I behold
A rainbow in the sky:
So was it when my life began,
So is it now I am a man,
So be it when I shall grow old
Or let me die!
The child is father of the man:
And I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

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Profissão: Baderneiro

Na madrugada do dia 28 de março de 2007 estudantes africanos que residem na Casa dos Estudantes da Universidade de Brasília sofreram atentado homicida e racista de outros estudantes da comunidade.

É com a mensagem acima, sem vírgulas mesmo, que começa o vídeo-documentário, de alguns alunos raivosos da UnB, em que se denuncia um ataque ‘homicida e racista’ contra estudantes africanos. O curioso é que já se parte do pressuposto que o ataque foi racista mesmo, de tal maneira que parece desnecessário fornecer qualquer detalhe sobre o incidente, quem são os suspeitos, que animosidades passadas poderiam ter culminado no atentado etc. No final das contas, o motivo parece ter sido um desentendimento pessoal, música alta demais que incomodou um vizinho. Mas os manifestantes, nota-se logo, não estão interessados nessas picuinhas: querem protestar, gritar, exigir pedidos formais de desculpas sabe-se lá de quem, perturbar o reitor e simplesmente acabar com a paz de quem estiver por perto. Tudo isso, claro está, com muito barulho.

Reinaldo Azevedo, num post a respeito, aponta o surgimento de uma nova profissão: o africano. Trata-se de uma subdivisão de outra mais ampla, o baderneiro profissional. Esse pessoal passa o tempo a protestar, e faz questão de escancarar sua natureza violenta. Da musiquinha ao fundo, logo no início do vídeo (veja aqui): Temos que atacar, formemos nossa guerrilha, vamos arrebentar. Se o restante do mundo os oprimisse tanto quanto eles supõem (ou dizem supor), não haveria tempo para mais nada; seríamos todos opressores full-time. É uma mania de perseguição que chega às raias do patológico. Como convencer um lunático de que o mundo não foi concebido para destruí-lo?

O nec plus ultra do vídeo é o depoimento de um estudante africano que diz estar lá há mais de dez anos. Não se sabe ao certo o propósito de enfatizar tão larga experiência estudantil: talvez recordar o Trofimov, da O pomar de cerejas de Tchekhov, o eterno estudante. Talvez para dar alguma credibilidade à afirmação de que ‘O atentado foi um ato isolado, mas tem contexto nacional’. Também não se sabe como algo pode ser simultaneamente isolado e contextualizado, mas o sujeito parece convencido de que ataques racistas são corriqueiros no Brasil. Fica, porém, uma dúvida cruel: por que diabos ele está lá há mais de dez anos? Nove anos já são suficientes para que um ser humano normal passe por uma graduação (de 5 anos), mestrado e doutorado. Somos forçados a concluir que ele continua lá por gosto, o que não deixa de ser estranho, de vez que ele garante que um estudante negro não pode nem sequer se dirigir do refeitório ao dormitório da UnB tranquilamente; correria o risco premente de ser espancado por uma horda de racistas malvados. Fora isso, teríamos de apelar para a hipótese desesperada de que o sujeito permanece lá porque gosta mesmo é de protestar. É o fetiche do oprimido em sua forma mais espetacular e asquerosa.

O alvo principal das manifestações é o reitor Timothy Mulholland. O coitado aparece completamente estupefato; não parece acreditar que tem a tarefa ingrata de dirigir uma instituição infestada com tantos arruaceiros. Quando candidamente pede ao cinegrafista que se identifique, lemos uma caption com os dizeres ‘O reitor tenta intimidar a produção’. É em momentos como esse que se percebe a inutilidade (e a impossibilidade) de qualquer tipo de diálogo. Aristóteles aconselhava não discutir com quem não concorda com os ‘princípios’. Um desses princípios consiste em saber enxergar onde se encontra a intimidação: num indivíduo que, sob a égide da Constituição, quer saber o nome de quem o filma, ou numa multidão com cartazes, pandeiros e reco-recos, que pula e se esgoela num auditório universitário. Se essa gente representar uma amostra significativa do meio estudantil brasileiro, já estamos muito além de qualquer salvação. Só nos resta chamar a polícia.

Arquivado em:Miscelânea

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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