Parnaso

As Feias

Seguindo o adágio popular, se me não engano russo, de que só se chega à felicidade através da bebida ou da polêmica, resolvi mostrar fotos de algumas mulheres que são geralmente consideradas bonitas mas que não o são.1. Angelina Jolie

Das mulheres que são geralmente consideradas bonitas, Jolie é certamente a mais feia. Não sei o que essa moça fez com os lábios, mas sempre penso numa bexiga murcha quando vejo. Reparem:

2. Cameron Diaz

Já a Diaz só é feia quase sempre. Ela estava bem n’O Máscara, seu melhor filme até hoje. Acho que daria pra explicar as recaídas pelo fato de ela lembrar um pouco a Jolie, ou por só fazer filme chato. Esses métodos arbitrários são infalíveis. Vejam:

3. Natalie Portman

Outra que só é feia quase sempre. O problema é que ela parece sempre estar enjoadinha demais. Não se trata daquele enjôo lúdico, semi-intencional e por isso mesmo charmoso, mas sim daquele que se agrava assim que você o percebe. Notem:

4. Scarlett Johansson

Brincadeirinha!

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Garção!

Anteontem fui a um bar e o garçom nos fez o favor de cobrar 4 chopps em excesso. Pensei em argumentar que em breve serei engenheiro e que não fazia sentido duvidar de meus cálculos aritméticos e confiar nos de teoria de estruturas e dinâmica de aeronaves, mas achei, por motivos óbvios, que não ia pegar bem. Deviam começar a confeccionar diplomas de tabuada.

Como sempre ocorre nessas situações, tentei lembrar algum episódio análogo que me tenha ocorrido no exterior (de preferência nos EUA, pra chatear ainda mais os meus amigos antiamericanos). Eu devia ter uns 10 ou 11 anos e fui jogar fliperama no hotel. Enfiei umas 3 moedas e nada de o jogo começar. Fui reclamar com a moça responsável já meio desconfiado de que ela não acreditaria em mim, mas a moça, que por sinal era bem bonitinha (é sério, não estou tentando florear o causo), não só devolveu minhas três moedas como destravou a máquina, o que significa créditos ilimitados, uma espécie de nec plus ultra! para o imaginário infantil. É claro que só joguei uma vez (pra impressionar a moça, que ficou assistindo com ares maternais), mas isso não vem ao caso agora.

A diferença é que, por lá, a regra é acreditar a menos que haja um bom motivo apontando em sentido contrário; já por aqui a coisa se inverte. Não que o garçom brasileiro esteja errado: se ele decide se arriscar e confiar no cliente, precisa antes parar, reparar, auscultar; verificar se o sujeito está suficientemente sóbrio, ver se ele não tem um porte meio vigarista etc. Ou tem a opção de simplesmente não confiar, como fez meu garçom de anteontem (me recuso a aceitar a possibilidade de que eu tenha um porte vigarista!).

Esse é mais um daqueles pequenos termômetros civilizacionais de que sempre falo. Meus amigos antiamericanos discordam e preferem o jeitinho brasileiro, mesmo quando são eles os diretamente prejudicados (ao menos nisso são coerentes). Eu prefiro pagar apenas o que consumo.

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Pós-Darwinismo

Por que sou ‘pós-darwinista’? Porque eu já fui evolucionista de carteirinha. Hoje eu sou cético da teoria macroevolutiva como verdade científica. Contudo, o meu ceticismo ao ‘dogma central’ do darwinismo não é baseado em relatos da criação de textos sagrados. Foi a séria e conflituosa consideração do debate que vem acontecendo intramuros e nas publicações científicas há muitos anos sobre a insuficiência epistêmica da teoria geral da evolução. Eu fui ateu marxista-leninista, mas hoje não tenho mais fé cega no ateísmo. Eu também não creio mais na interpretação literal dos dogmas aceitos ‘a priori’ de Darwin que são ideologicamente defendidos com unhas e dentes pela Nomenklatura científica, mas foi a Ciência que me deu esta convicção. Aprendi na universidade que quando uma teoria científica não é apoiada pelas evidências, ela deve ser revista ou simplesmente descartada. Sou pós-darwinista já me antecipando a uma iminente e eminente ruptura paradigmática em biologia evolutiva. Chegou a hora de dizer adeus a Darwin.

Link: http://pos-darwinista.blogspot.com/

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A Volta ao Ideal

This is another book about the dissolution of the West. I attempt two things not commonly found in the growing literature of this subject. First, I present an account of that decline based not on analogy but on deduction. It is here the assumption that the world is intelligible and that man is free and that those consequences we are now expiating are the product not of biological or other necessity but of unintelligent choice. Second, I go as far as to propound, if not a whole solution, at least the beginning of one, in the belief that man should not follow a scientific analysis with a plea of moral impotence.

Esse é o primeiro parágrafo do Ideas Have Consequences (1948), clássico do uma vez professor da Universidade de Chicago Richard M. Weaver (1910-1963). Rapidamente ele deixa claro o porquê de o livro ser do nosso interesse: trata-se, é certo, de mais um livro sobre a dissolução do Ocidente, mas somos poupados do constrangimento de ter que fazer vista grossa para teorias mirabolantes sobre o desdobramento de nossa história. O homem é não só considerado livre do determinismo biológico, tão na modinha nos dias que correm, como também de qualquer outro, seja ele econômico, social ou referente aos ciclos da lua. O homem é livre e por isso mesmo deve chegar à conclusão de que suas idéias têm consequências, muitas delas catastróficas.

Está claro que a escolha de abrir mão de determinismos, materialismos, pragmatismos, nominalismos etc. não tem como objetivo maior o conforto do leitor (apesar de o efeito nesse sentido ser, alas, considerável): segundo Weaver todos esses ismos todos são eles mesmos sintomas da dissolução que ele se propõe a descrever. Weaver fala com bastante insistência no sumiço do ‘ideal’ de nossa perspectiva, sendo o sumiço da noção de ‘verdade’ uma consequência meio imediata. E, se não há verdade, tampouco se pode falar em consequências para aqueles que decidem ignorá-la. Nossa tão prezada idéia de responsabilidade individual vai pelos ares.

A princípio pode parecer curioso que Weaver não precise de muito mais que Sócrates, Platão e Aristóteles para responder a altura a todas essas moléstias típicas da modernidade. Autores modernos (leia-se: posteriores ao século 14) são citados muito de passagem, muitas vezes apenas para emprestar um termo engenhoso ou uma frase de efeito. Os preferidos de Weaver são Charles Péguy, José Ortega y Gasset e George Santayana. De resto, somos levados a crer que a maioria dos problemas que, no entender de Weaver, assolam a perspectiva moderna foram convenientemente comentados e elucidados há muitos séculos. Não chega a surpreender, então, que o primeiro conselho de Weaver aos jornalistas seja aprender grego e latim. Qualquer outro caminho nos levaria à embaraçosa posição de ter que lidar com problemas que já nasceram resolvidos. Com as palavras de Santayana, Those who cannot remember the past are condemned to repeat it.

Temos aí um conselho de difícil aceitação entre quem ainda acha que somos tão mais ‘evoluídos’ quanto mais o tempo passa, um credo que de tão firme poderia ser caracterizado como religioso. Se o homem moderno não tem mais fé no sentido tradicional da palavra, certamente tem fé de que nossa razão, por si só, poderá resolver tudo no final das contas. O problema muitas vezes parece ser de memória. Weaver aceita a idéia de Ortega (v. ¿Qué es filosofía?) de que é necessário divisar uma espécie de superação para a oposição idealismo versus realismo, mas adverte que é necessário, primeiro, saber (ou lembrar) o que ambos significam: Our task is much like finding the relationship between faith and reason for an age that does not know the mearning of faith.

O consolo de quem acredita em valores fixos e universais (como Sócrates em oposição ao sofista Protágoras, para quem conhecimento se confundia com percepção individual) é de que não existem momentos históricos mais ou menos propícios para que eles sejam alcançados; basta que se reconheça a necessidade de alcançá-los. O eterno, exatamente por ser eterno, é eterno sob qualquer ponto de vista. Para quem está diante de uma linha infinita paralela ao horizonte, deslocar-se para a esquerda ou para a direita é indiferente. Quando alguém diz que uma volta à aceitação de valores universais representa uma absurdidade por ser impossível ‘fazer voltar a roda do tempo’, estamos ouvindo nada mais que uma confissão da modernidade tal como descrita por Weaver: uma modernidade que se acredita irremediavelmente presa em seu momento histórico ou biológico ou astrológico.

Apesar do rigor com que denuncia as mazelas contemporâneas, a mensagem de Weaver acaba sendo otimista por admitir aquele mínimo de liberdade que, por mais mínimo que seja, é com frequência declarado inexistente. Se é bem verdade que más escolhas devem trazer consequências nada agradáveis, também é verdade que é sempre tempo de optar por algo melhor. É um princípio tao lógico que muitos acharam que não haveria mal algum em esquecê-lo.

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Horatian Ode upon Cromwell’s Return from Ireland

THE forward youth that would appear,
Must now forsake his Muses dear,
Nor in the shadows sing
His numbers languishing.

‘Tis time to leave the books in dust
And oil the unused armour’s rust,
Removing from the wall
The corslet of the hall.

So restless Cromwell could not cease
In the inglorious arts of peace,
But through adventurous war
Urgèd his active star:

And like the three-fork’d lightning, first
Breaking the clouds where it was nurst,
Did thorough his own Side
His fiery way divide:

For ‘tis all one to courage high,
The emulous, or enemy;
And with such, to enclose
Is more than to oppose;

Then burning through the air he went,
And palaces and temples rent;
And Cæsar’s head at last
Did through his laurels blast.

‘Tis madness to resist or blame
The face of angry heaven’s flame;
And if we would speak true,
Much to the Man is due

Who, from his private gardens, where
He lived reservèd and austere,
(As if his highest plot
To plant the bergamot),

Could by industrious valour climb
To ruin the great work of time,
And cast the Kingdoms old
Into another mould;

Though Justice against Fate complain,
And plead the ancient Rights in vain—
But those do hold or break
As men are strong or weak;

Nature, that hateth emptiness,
Allows of penetration less,
And therefore must make room
Where greater spirits come.

What field of all the civil war
Where his were not the deepest scar?
And Hampton shows what part
He had of wiser art,

Where, twining subtle fears with hope,
He wove a net of such a scope
That Charles himself might chase
To Carisbrook’s narrow case,

That thence the Royal actor borne
The tragic scaffold might adorn:
While round the armèd bands
Did clap their bloody hands.

He nothing common did or mean
Upon that memorable scene,
But with his keener eye
The axe’s edge did try;

Nor call’d the Gods, with vulgar spite,
To vindicate his helpless right;
But bow’d his comely head
Down, as upon a bed.

—This was that memorable hour
Which first assured the forcèd power:
So when they did design
The Capitol’s first line,

A Bleeding Head, where they begun,
Did fright the architects to run;
And yet in that the State
Foresaw its happy fate!

And now the Irish are ashamed
To see themselves in one year tamed:
So much one man can do
That does both act and know.

They can affirm his praises best,
And have, though overcome, confest
How good he is, how just
And fit for highest trust.

Nor yet grown stiffer with command,
But still in the Republic’s hand—
How fit he is to sway
That can so well obey!

He to the Commons’ feet presents
A Kingdom for his first year’s rents,
And (what he may) forbears
His fame, to make it theirs:

And has his sword and spoils ungirt
To lay them at the Public’s skirt;
So when the falcon high
Falls heavy from the sky,

She, having kill’d, no more doth search
But on the next green bough to perch,
Where, when he first does lure
The falconer has her sure.

—What may not then our Isle presume
While victory his crest does plume?
What may not others fear
If thus he crowns each year?

As Cæsar he, ere long, to Gaul,
To Italy an Hannibal,
And to all States not free
Shall climacteric be.

The Pict no shelter now shall find
Within his parti-colour’d mind,
But from this valour sad
Shrink underneath the plaid—

Happy, if in the tufted brake
The English hunter him mistake,
Nor lay his hounds in near
The Caledonian deer.

But Thou, the War’s and Fortune’s son,
March indefatigably on;
And for the last effect
Still keep the sword erect:

Besides the force it has to fright
The spirits of the shady night,
The same arts that did gain
A power, must it maintain.

Andrew Marvell (1621-1678)

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O Anjo Anunciador

— Ouve, Maria, a nossa
(não, não te assustes!) é uma luminosa
tarefa: retecer
o pequeno clarão que abandonaram,
o lume que anda oculto pela treva!
Porque irás conceber!
Porque a mão, desejosa
e tosca, que O tentara
reter, ainda que leve,
desfez-se ao toque, assim como uma vez
tocado o sopro se desfaz a avara,
a dura contração do peito ansiado…

Mas a haste, o jasmim despetalado,
é tudo o que ainda resta
dos canteiros do céu aqui na terra,
que um seco vento cresta
e uma longa agonia dilacera.
No entanto a morte há de morrer se tu quiseres,
ó gota concebida
bendita entre as mulheres
para que houvesse vida
outra vez, e nascesse desse fundo
obscuro do mundo,
o ninho incompreensível do teu ventre.

Não, não toques ainda
nem a fímbria do manto nem o centro
do mistério que anima a tua túnica:
aguarda, ó muito séria, a ave mansa
e recebe em teu corpo de criança
a Verônica única,
a enxurrada de pétalas te abrindo.

Em tumulto reunidas,
as cores da perdida Primavera
vão retornar, virão
numa enchente de asas, aluvião,
púrpura, sempre-viva, nascitura
estranheza do amor da criatura,
constelação descendo ao rosto teu:
é Ele, é O que reúne o coração
e o grande anel da esfera,
o fogo, a língua ardendo, o incêndio vivo,
a coluna de luz, o capitel que se perdeu…
Que eu

venho anunciar apenas a um esquivo,
humílimo veludo, a frágil chama
que há de crescer em ti, que hás de ser cama
ao parto do Perfeito, e hás de ser cântaro
e fonte e ânfora e água,
hás de ser lago
em que as sombras se afogam, que naufragam
no imenso, ó jovem branca como um lenço;
hás de conter a lágrima
do Infinito, o Seu vulto
e os tumultos da luz na travessia
entre a dádiva, a perda e a renúncia:
quando de um certo dia
cheio de luz amarga

em que serás enfim a sombra esguia
que O deu à luz e que O assistiu morrer…
Atravessa, ó Maria,
os abismos do ser,
ouve este estranho anúncio
e deixa-te invadir para colher,
mais fundo que a razão
e o corpo, o sopro cálido, o prenúncio
da mais viva alegria:
entreabre-te ao clarão
da visita suave,
mas terrível, terrível, deixa a ave
do imenso sacrifício te ofender.

Ó pétala intocada,
hás de sofrer
intensa madrugada
e num lago de luz como afogada
hás de durar suspensa
entre a graça imortal e a dor imensa.

Mas canta, canta agora
como a fonte borbulha, como a agulha
atravessa o bordado,
canta como essa luz pousa ao teu lado
e te penetra e tece a nova aurora,
a nova Primavera e a tessitura
do ramo que obedece e se oferece
para o mistério e pela criatura.

Canta a alucinação,
o toque enfim possível dessa mão
que há de colher para perder e ter
o infinito que nasce do deserto
e a semente que morre se socorre
tudo o que no estertor tentava ser.

Canta a canção do lírio e do alecrim,
essa canção que és e que na treva,
na escuridão da carne, andava perto
da imensidade que te invade. E assim
como o imenso te ampara,
ó voz tão clara
que consolas e elevas,
vem, desperta,
matriz da eternidade e d’O sem-fim,
ó mãe de Deus, canta e roga por mim

Bruno Tolentino (1940-2007)

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Senhores e Escravos

Genealogia da Moral, conhecido por tratar na forma de três dissertações de alguns dos temas preferidos de Friedrich Nietzsche (1844-1900), começa abordando a já famosa oposição entre a moral dos senhores e a dos escravos:

A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” — e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores — este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si — é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto — sua ação é no fundo reação.

A descrição é bem justa, e Ortega y Gasset parece ecoá-la mais tarde quando observa que todo movimento ‘anti-‘ não passa de um retrocesso, uma tentativa de meramente voltar, sem qualquer tipo de assimilação, à época em que o que queremos destruir ainda não existia. Para quem a vontade de poder, esse princípio tão misterioso quanto energético, representa a essência mesmo do ser humano, não poderia haver heresia mais grave que abdicar da ação em troca de uma simples reação. Não nos deve surpreender o fato de Nietzsche considerá-los, então, nada menos que doentes, a ponto de comprometer até mesmo o ar que respiram. A aparente obsessão de Nietzsche por toda sorte de doenças e distúrbios mentais é representativa disso.

A oposição fica mais clara com um exemplo fornecido pelo próprio Nietzsche: aves de rapina que se alimentam de ovelhinhas. Pode-se até entender o protesto das ovelhas (apesar de que, se seus protestos fossem ouvidos, quem estaria em apuros seriam as aves, o que significa dizer que as ovelhas querem nada mais que uma transferência de desgraças), mas o curioso é observar como a moral dos derrotados surge a partir dessa posição desconfortável. Na mentalidade das ovelhas, os decanos da moral são elas mesmas, que não precisam se alimentar de outras ovelhas para sobreviver. O “não-eu”, tudo que não é oprimido e devorado, aves de rapina e qualquer outra coisa que se distancie da posição de ‘ovelha’, é automaticamente associado ao moralmente desprezível e abjeto. A moral das ovelhas não se define a partir do que elas são, mas do que elas não são: aves de rapina.

Através dos séculos, a responsabilidade de manter o que se entende por moral e de tentar responder às questões de maior escopo passou do ‘doutor em filosofia’ (o modelo do rei filósofo de Platão) para o gentleman e, mais recentemente, para o homem especializado. O que se percebe nessa sucessão é uma gradativa diminuição na crença em valores fixos, eternos. O doutor em filosofia discutia a vida enquanto vontade divina, quando Deus ainda ocupava, indiscutivelmente, o centro de qualquer consideração moral; o gentleman já vive numa sociedade secularizada, mas ainda tem condições de lançar mão de princípios com um mínimo de autoridade universal (liberdade, honra ou o que for); já o especilista não dispõe de nenhuma matriz do que poderia chamar ‘verdade’: ele segue objetivamente suas descobertas. Já não há mais verdade, há apenas fatos.

Pois bem, o que Nietzsche procura fazer é questionar o valor da ‘verdade’. Exaspera-o a constatação de que tanto o monge protestante quanto o cientista e o ateu partem de um mesmo pressuposto: o de que é preciso a todo custo chegar à verdade, já que seu valor, enquanto tal, é indiscutível e essencial. O ‘vencedor’, o ‘senhor’ de Nietzsche é aquele que portanto não é acometido por problemas de consciência, o que Paulo César de Souza traduziu como consciência. Se não há uma verdade capaz de nos fazer ver que estamos terrivelmente errados (essa possibilidade não existe para quem segue sua genuína e original vontade de poder), realmente não faz muito sentido perder tempo com mortificações típicas de um culpado. O peso na consciência, para Nietzsche, não passa de uma autoflagelação insana, uma radical negação da própria vida, uma doença aparentemente incurável.

Daí que o modelo cristão, que para mim representa a atitude do ‘senhor’, pareça-lhe a mais genuína encarnação do ‘escravo’:

… e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor esta submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão. Falam também do ‘amor aos inimigos’ — e suam ao falar disso.

E, como consequência da ausência de ‘verdade’:

Falar de justo e injusto em si carece de qualquer sentido; em si, ofender, violentar, explorar, destruir não pode naturalmente ser algo “injusto”, na medida em que essencialmente, isto é, em suas funções básicas, a vida atua ofendendo, violentando, explorando, destruindo, não podendo sequer ser concebida sem esse caráter.

Temos aí bastante food for thought, como diriam os gringos: quantos Nietzsches seriam necessários para acabar de vez com a influência paralisante e opressora da má consciência? Parece que o processo já está em andamento.

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Bizarro Burke

Passados 250 anos, alguma das explicações que o Burke apresenta pra alegações até bem naturais (como a de que a idéia da escuridão está diretamente relacionada ao sublime) rendem uma leitura divertida. Em dado momento, ele tenta atribuir parte do efeito que o escuro pode produzir em nós à dor física:

It may be worth while to examine, (sic) how darkness can operate in such a manner as to cause pain. It is observable, that still as we recede from the light, nature has so contrived it, that the pupil is enlarged by the retiring of the iris, in proportion to our recess. Now instead of declining from it but a little, suppose that we withdraw entirely from the light; it is reasonable to think, that the contraction of the radial fibres of the iris is proportionably greater; and that this part may by great darkness come to be so contracted, as to strain the nerves that compose it beyond their natural tone; and by this means to produce a painful sensation.

Mas meu trecho preferido diz respeito à doçura. Burke parece convencido de que substâncias doces devem sua sensação agradável ao paladar à forma arredondada do retículo cristalino dos grãos de açúcar, que assim poderiam deslizar languidamente sobre as papilas da língua. Vejam:

Suppose that to this water or oil were added a certain quantity of a specific salt, which had a power of putting the nervous papillae of the tongue into a gentle vibratory motion; as suppose sugar dissolved in it. The smoothness of the oil, and the vibratory power of the salt, cause the sense we call sweetness. In all sweet bodies, sugar, or a substance very little different from sugar, is constantly found; every species of salt examined by the microscope has its own distinct, regular, invariable form. That of nitre is a pointed oblong; that of sea salt an exact cube; that of sugar a perfect globe. If you have tried how smooth globular bodies, as the marbles with which boys amuse themselves, have affected the touch when they are rolled backward and forward and over one another, you will easily conceive how sweetness, which consists in a salt of such nature, affects the taste; for a single globe, (though somewhat pleasant to the feeling) yet by the regularity of its form, and the somewhat too sudden deviation of its parts from a right line, it is nothing near so pleasant to the touch as several globes, where the hand gently rises to one and falls to another; and this pleasure is greatly increased if the globes are in motion, and sliding over one another; for this soft variety prevents that weariness, which the uniform disposition of the several globes would otherwise produce.

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O Belo e o Sublime

Outro dia reparei em algo que ainda agora considero genial: existe uma tácita superioridade do salgado em relação ao doce. Esse é o tipo da coisa de que poucos, acredito, discordariam, apesar de não se sentir a necessidade de expressá-lo claramente. A vontade de doce pode até ser mais forte e repentina, mas também passa mais rápido e a saciedade a ela relacionada lembra uma espécie de enjôo. A vontade de doce é instável, volúvel, passageira. Não é à toa que representa o maior deleite de muitas moças.

Pois bem, essa ‘superioridade’ que eu percebi, se aceitamos a distinção proposta por Edmund Burke em seu A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful, está relacionada à idéia do sublime, não da beleza. De fato, Burke chega a concluir, depois de muito divagar sobre os pontos de união de nossos sentidos, que a doçura é a beleza do paladar. Da mesma maneira podemos dizer com muita propriedade que um belo pedaço de picanha bovina, e não um brigadeiro, é sublime. É claro que há quem diga que o brigadeiro pode ser sublime, mas isso não passa de uma variante da veadagem contemporânea (convém reparar, aliás, na maneira sub-reptícia com que o vocábulo ‘sublime’ foi sequestrado por esse pessoal). Sublime, para nós, está associado ao grandioso, ao estupeficante, àquilo capaz de nos deixar num estado de (é esse o termo que Burke usa com mais insistência) astonishment.

Se a intenção é diferençar o belo do sublime, algumas dicotomias se apresentam logo como bastante úteis: o sublime traz a idéia de grandioso (no sentido de dimensões generosas mesmo) assim como a beleza se aproxima mais do pequeno (alguém duvida que um gatinho perderia boa parte de sua beleza se tivesse dois metros de altura?). Se o belo desperta em nós impulsos amorosos, o sublime é muito mais provavelmente capaz de produzir um misto de assombro, medo e até mesmo dor.

Burke se distingue da maioria dos que se dedicaram a esse tópico por atribuir uma importância marginal à razão humana. Considere-se como exemplo o prazer que sentimos ao presenciar qualquer tipo de desastre ou calamidade ou sofrimento. Esse prazer é inegável e existe desde sempre, ou não seríamos capazes de explicar o sucesso de espetáculos de gladiadores, de touradas, das tragédias grega e elizabetana, ou até mesmo de filmes trágicos de recentemente. A primeira resposta que nossa razão procura dar consiste em lembrar que só nos divertimos com o sofrimento que é sabidamente fictício (touradas e gladiadores já contrariam esse argumento). Mas basta lembrar a maneira com que acompanhamos a história para perceber que as coisas não são bem assim: batalhas e morticínios históricos ganham um colorido todo especial exatamente por sabermos que eles de fato ocorreram. O assassínio de Júlio César seria um episódio bem menos interessante caso não passasse de ficção. Até mesmo quando passamos a acontecimentos puramente mitológicos ainda entretemos alguma esperança de realidade, a menos que alguém acredite que seja completamente impossível haver um fundo real para mitos como os de Medéia ou Saturno.

A próxima justificativa é menos edificante e consiste em dizer que nos divertimos porque aquele sofrimento não pode ser nosso. É claro que se minha própria mãe me matasse eu não teria condições de subtrair qualquer tipo de prazer do mito de Medéia (já que eu estaria morto), mas não me parece lícito atribuir essa distância a qualquer impressão que eu tenha do mito em si. Muito pelo contrário, é mais natural supor que a morte perderia gradativamente todo e qualquer interesse (e, como consequência, seu caráter sublime) para mim se minha natureza fosse alheia a ela, isto é, se eu fosse imortal. Para Burke, todas essas construções tardias da razão procuram mascarar um processo que se dá antes que qualquer arrazoado tenha tempo de ser produzido:

Chuse a day to represent the most sublime and affecting tragedy we have; appoint the most favourite actors; spare no cost upon the scenes and decorations; unite the greatest efforts of poetry, painting and music; and when you have collected your audience, just at the moment when their minds are erect with expectation, let it be reported that a state criminal of high rank is on the point of being executed in the adjoining square; in a moment the emptiness of the theatre would demonstrate the comparative weakness of the imitative arts, and proclaim the triumph of the real sympathy.

Parece não lhe ocorrer que esse predomínio das paixões (no caso anterior, o da ‘simpatia’, esse interesse mórbido que temos pela vida, e morte, de nossos semelhantes) antes de qualquer intervenção da razão torna impossível o projeto a que ele mesmo se propõe, o qual consiste em nada menos que estabelecer, através da razão, um itinerário de nossas paixões. Burke parece se dar conta disso antes mesmo do término de seu inquérito, quando se contenta com apontar de maneira inequívoca as diferenças entre o belo e o sublime, termos que até hoje, e principalmente hoje, costumam ser usados como sinônimos por muitos.

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A Boa Nova

Há dois mil anos, o homem tem algo radicalmente novo, que não chega a possuir de todo e sim por partes, com desamor, abandonos, infidelidades; algo que está perante nós como algo que é preciso conquistar. Algo, não se esqueça, que está diante de nossa liberdade sem forçá-la: a perspectiva cristã.

Durante as aulinhas de religião no colégio eu ouvia, com muita frequência, a expressão ‘boa nova’ em referência à novidade cristã no mundo. É bem compreensível que um menino de 10 anos (mais interessado em jogar bola ou jogar giz nos outros) não veja muito de especificamente ‘bom’ nisso, mas que ele também não veja nada de ‘novo’ é prova de como o cristianismo ainda é parte integrante de mentalidades que se querem secularizadas. O que era radicalmente novo é hoje habitual e óbvio, universal.

Assim como Hayek dizia que os confortos gerados pelo liberalismo minaram sua própria existência (a partir de questionamentos que só se tornaram possíveis graças, é claro, ao liberalismo), assim também o homem moderno aprendeu a absorver uma herança cristã no momento mesmo em que se esforça para difamá-la e para declarar-se completamente independente dela. Seria ocioso repetir aqui as evidências da presença religiosa em comunidades supostamente secularizadas; são resquícios que teimam em não desaparecer, ainda que já tenham perdido boa parte de seu significado original. Se não fosse de nosso feitio achar que toda a história da humanidade representa uma via ascendente cuja culminância é nosso próprio umbigo, essa heróica sobrevivência do ideário religioso significaria algo mais que a simples inércia dos velhos hábitos.

Falando do cristianismo em particular, é bem-vindo o esforço do filósofo espanhol Julián Marías (1914-2005) no sentido de refrescar nossas memórias quanto à perspectiva cristã tradicional. Nesse livrinho, A Perspectiva Cristã, um de seus últimos (favor evitar a edição brasileira), Marías se concentra no que há de radicalmente novo, revolucionário mesmo, na doutrina cristã.

Nada do que há de originalíssimo no cristianismo nos aparecerá como tal se não estivermos dispostos a imaginar o mundo sem sua contribuição, o que já é tarefa bem difícil desde há muito. Sabemos que não se encontra no monoteísmo essa grande novidade; o judaísmo está aí para provar que a idéia de um criador único não era nova. Mas, quanto à ‘substância’ desse criador:

Desde o Gênese já era Criador, mas agora não só não haverá pluralidade de nomes como também “Deus” será um nome próprio, um nome pessoal. Além de Criador, é Pai, Pai comum de todos os homens; a unicidade de Deus e sua paternidade são correspondentes à fraternidade de todos os homens por serem filhos de Deus, não apenas “semelhantes”, mas irmãos, sem distinção nem privilégio.

Como sói acontecer, a princípio pode parecer que não há nada de muito novo aqui. A necessidade e o ‘bem’ inerente a uma convivência harmoniosa adviria da circunstância inarredável de sermos ‘semelhantes’, não havendo, portanto, a necessidade de chegarmos ao ponto de nos enxergar como ‘irmãos’. Ocorre que por mais que se queira mostrar nossa semelhança do ponto de visto biológico (ou qualquer outro), o fato é que são as nossas diferenças as que sempre ficam em primeiro plano. Nossa história é um imenso catálogo de conflitos que não puderam ser evitados a despeito de nossa tão alardeada similitude. A noção que hoje temos de respeito à vida alheia, por mais trivial e of course que possa parecer, não tem outra origem senão a constatação de que somos algo mais que seres com grande semelhança física e, de quando em vez, comportamental.

Tudo isso é de fato muito novo, e radical. Tão mais radical porque o status de irmão, de criatura do mesmo criador, é conferido a todo e qualquer ser humano, não apenas aos ‘fiéis’. E não haveria como ser diferente, já que qualquer desvio representaria nada menos que um supremo desrespeito à diversidade que, se estamos de acordo com a perspectiva cristã, tem uma origem única, a nossa mesma origem. Chegamos à primeira grande consequência prática da novidade cristã: a vida humana passa a ser sagrada.

É bastante comum ouvirmos falar da intransigência da Igreja ou de qualquer posicionamento que se diga religioso. Chega-se ao ponto de estabelecer uma relação de sinonímia entre religião e inflexibilidade, intransigência, negacionismo ou anacronismo. Se é verdade que isso se verifica aqui e ali, seria o caso de apelar para a autoridade do cristianismo como aliado, visto que nada poderia ter o direito de abominar esse estado de coisas mais que o cristianismo:

A idéia de uma perfeição inexequível, mas ao mesmo tempo “proposta” como alvo e meta desejáveis, a esperança de um conhecimento pleno de Deus, prometido na outra vida mas mencionado como algo que se pode e deve tentar – credo ut intelligam, fides quaerens intellectum -, é uma atitude que mobiliza o homem para buscar, tantar, indagar, ensaiar. A sucessão incessante de estilos artísticos, formas literárias, sistemas intelectuais, formas políticas, pode ser interpretada como uma das consequências da perspectiva cristã.

O grifo acima – buscar, tentar, indagar, ensaiar – é meu e deixa claro a perfeita concordância (mais, a rigorosa indissolubilidade) entre ciência e religião. Esse princípio também destrói de vez qualquer das alegações propostas no parágrafo anterior; muito pelo contrário, não nos deve admirar o fato de a ciência, as artes e as instituições políticas terem se desenvolvido com vigor especial nas regiões afetadas direta ou indiretamente pelo cristianismo. Qualquer restrição a essa liberdade criativa, ainda que perpetrada sob os auspícios de um discurso cristão (como não deixou de ocorrer), é nada menos uma infidelidade à perspectiva original. Chegamos, então, à segunda grande consequência prática do cristianismo: a necessidade de (e a liberdade para) um processo de aperfeiçoamento – ou de evolução, se quiserem – que não termina nunca.

A própria condição de criatura (com as palavras de Marías: uma empresa, um processo em andamento, um ser imperfeito no sentido etimológico da palavra) conferida ao ser humano já pressupõe a necessidade da melhoria e do refinamento, mudanças cuja plenitude será alcançada num outro mundo.

Resta falar da terceira e última grande contribuição prática do cristianismo: a noção de responsabilidade pessoal. Isso é consequência direta da idéia de um Deus pessoal e infinito: sendo pessoal e infinito, o amor divino chega a nós pessoalmente, instâncias individuais ainda que imperfeitas, e não a um grupo amorfo qualquer. É comum de nossa parte querer conferir um caráter puramente moral à noção de pecado, mas ele corresponde, dentro da perspectiva cristã, a uma quebra de acordo, acordo firmado entre seres inteligentes. É bem verdade que à medida que se vai descartando a idéia do pecado, introduz-se uma atenuação da consciência moral: imaginar que essa consciência possa ter origem em conceitos tardios e largamente manipuláveis como ‘liberdade’, ‘democracia’, ‘igualdade’ é, quando pouco, excessivamente problemático.

Caráter sacro da vida humana; liberdade para explorar e melhorar; responsabilidade pessoal. Isso tudo soa familiar? Somos todos cristãos, ateus e agnósticos inclusive.

Arquivado em:Filosofia, Religião

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"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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