Parnaso

A Força Irresistível da Lógica

Numa palestra (chamada Individualism: True and False) dada na University College de Dublin, em 17 de dezembro de 1945, F. A. Hayek, constrangido com o mal emprego do termo ‘individualismo’, resolveu estabelecer uma divisória definitiva entre o que ele entendia por individualismos ‘verdadeiro’ e ‘falso’. Uma das características que facilitariam essa distinção seria o credo, por parte dos falsos individualistas, no predomínio absoluto da razão humana no processo de construção da nossa cultura política. Os verdadeiros individualistas (Hayek refere-se principalmente a Edmund Burke e Alexis de Tocqueville), por outro lado, reconhecem que muito desse processo advém de tendências fora do controle e até incompreensíveis para um indivíduo isolado num determinado período histórico. O verdadeiro individualismo, então, não é aquele que atribui ao indivíduo um conhecimento transcendental das consequências de suas próprias atitudes, mas apenas aquele que acredita ser o indivíduo o mais indicado para aproximar-se desse conhecimento, quando e se ele for possível.

A princípio pode parecer estranho (principalmente para o estudante brasileiro, intoxicado desde muito cedo com odes à Ilustração) que logo um economista se posicione contra o monopólio da razão. Não é que Hayek não goste da razão ou que prefira deixar tudo ao deus-dará; apenas gostaria de impor-lhe os limites cabíveis e, diga-se, inescapáveis. Ele argumenta que o individualismo racionalista — de um Rousseau, por exemplo — tende apenas a práticas socialistas já que, se existe mesmo um método racional indiscutível para organizar nossas vidas, alguém vai ter de ser ‘escolhido’ para divisá-lo e aplicá-lo à revelia das inevitáveis discordâncias. Nesse sentido, o racionalismo é nada mais que um convite à revolução, que parte do pressuposto de que alguém suficientemente inteligente e ‘racional’ seria capaz de transformar dum só golpe todas as nossas instituições.

Tendo isso em mente, não fica muito difícil entender por que o triunfo da razão humana se manifesta com clareza exemplar nos movimentos totalitários do século passado, desbancando até os tão exaltados avanços científicos e tecnológicos. Hannah Arendt (1906-1975) não cansa de enfatizá-lo em sua genealogia do totalitarismo, The Origins of Totalitarianism. É curioso que figuras como Hitler e Stalin, sobre quem tanto já foi escrito, ainda figurem no imaginário popular como ditadores intempestivos e dados a mudanças repentinas de planos; seriam mentes imprevisíveis, irracionais, tresloucadas. Parece que as picuinhas domiciliares ganharam mais atenção que os vastos e meticulosos planos de dominação, engendrados e avançados com uma coerência somente encontrável em tratados de lógica:

According to Stalin, neither the idea nor the oratory but “the irresistible force of logic thoroughly overpowered Lenin’s audience.” The power, which Marx thought was born when the idea seized the masses, was discovered to reside, not in the idea itself, but in its logical process which “like a mighty tentacle seizes you on all sides as in a vise and from whose grip you are powerless to tear youself away; you must either surrender or make up your mind to utter defeat.”

A capacidade de criar um mundo fictício e coerente em si mesmo nada tem de irracionalismo; muito pelo contrário, a abstração necessária para compor entes lógicos sem que eles existam no mundo sensível é um exercício de razão pura; aqui não há conhecimento empírico para nos auxiliar. Triângulos perfeitos não existem nem nunca existiram, mas ninguém nega a razoabilidade das definições de ângulo interno, comprimento de lado etc. e das consequências que daí advêm. Os mais incrédulos poderiam perguntar: como justificar logicamente a necessidade que o Partido tinha de acusar e punir inocentes que muitas vezes podiam provar a própria inocência? Certamente, dirão, temos aí um exemplo de vontade de poder desenfreada, uma paranóia injustificável em termos racionais. Também é comum, pra reforçar esse argumento, citar algumas esquisitices dos últimos anos de Stalin, como mandar um bedel provar sua comida por medo de envenenamento ou achar que havia algum gás letal entrando pelas frestas de seu escritório. Ou talvez o processo seja um pouco mais calculado, como sugerido por Arendt:

We are all agreed on the premise that history is a struggle of classes and on the role of the party in its conduct. You know therefore that, historically speaking, the party is always right (in the words of Trotsky: “We can only be right with and by the party, for history has provided no other way of being in the right.”). At this historical moment, that is in accordance with the law of history, certain crimes are due to be commited which the Party, knowing the law of history, must punish. For these crimes, the Party needs criminals; it may be that the party, though knowing the crimes, does not quite know the criminals; more important than to be sure about the criminals is to punish the crimes, because without such punishment, History will not be advanced but may even be hindered in its course. You, therefore, either have commited the crimes or have been called by the party to play the role of the criminal — in either case, you have objectively become an enemy of the Party. If you don’t confess, you cease to help History through the Party, and have become a real enemy.

Não chega a surpreender, então, que membros da SS mantivessem lealdade irrestrita ao Reich mesmo quando descobriam que eram, por algum motivo, inimigos do Reich. Não faria sentido — não seria lógico — questionar a autoridade do Partido simplesmente porque circunstâncias históricas os colocaram do lado dos adversários. O encadeamento lógico do comportamento totalitário é tão rigoroso que não se pode escapar de um mundo de finalismos: todo passo, todo gesto ou palavra tem um objetivo final grandioso, o nec plus ultra da condição humana na Terra. Todos eles são inteligíveis e seu impacto pode ser cuidadosamente aferido graças à superior inteligência do novo homem. Heinrich Himmler, chefe da SS, “quite aptly defined the SS member as the new type of man who under no circumstances will ever do ‘a thing for its own sake'”.

Hitler, Lenin, Stalin etc., esses prodígios da lógica, acabaram ficando conhecidos por terem um raciocínio lógico pouco desenvolvido, essa que para os racionalistas é a maior das desgraças. De qualquer maneira eles devem ser lembrados como testemunhos do que a razão humana é capaz de alcançar (ou destruir). Nesse ponto acho que estamos todos de acordo: não é pouca coisa.

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O Óbvio Ululante

Quando Milton Friedman (1912-2006) escreveu, com o auxílio de sua mulher Rose, Capitalism and Freedom (1962), ainda havia nos EUA quem duvidasse seriamente da capacidade que o mercado privado tem de dinamizar a economia mundial. No prefácio para a edição de 1982 do livro, com Ronald Reagan eleito presidente no ano anterior, já se podia falar em uma mudança generalizada de mentalidade. No prefácio para a edição de 2002, Friedman já podia declarar sem muita falsa modéstia que suas idéias libertárias, tão violentamente combatidas em 62, tinham ascendido ao nível de teoria oficial.

Friedman costumava dizer que o colapso da URSS em particular e do bloco comunista em geral fez mais que qualquer livro seu para desiludir os adeptos da economia planificada. O fato é que, apesar de hoje a economia coletivista não merecer crédito de ninguém (à exceção de Fidel Castro, Hugo Chávez e uns outros tantos luminares da inteligência mundial), a intervenção estatal na economia dos EUA ainda chega a quase 40% (contra uns 15% antes da WWII) do PIB. Como dizia o próprio Friedman, a batalha intelectual pode até ter sido ganha, mas, na prática, o paternalismo estatal ainda é uma realidade com poucas chances de ser transformada.

O livro parte do pressuposto da escola austríaca de economia (principalmente Hayek, que é citado com frequência), repetido aqui no Brasil por Roberto Campos, de que não pode haver liberdade política sem liberdade econômica. O caminho inverso, liberdade econômica sem liberdade política, é até possível (dá-nos exemplo disso a China), apesar de que a influência da primeira tende a forçar a segunda.

É nesse sentido que Friedman vê com muita desconfiança qualquer intervenção do governo na economia. Num balanço de vantagens e desvantagens da atuação estatal num determinado setor, a primeira desvantagem, anterior a qualquer consideração mais específica, é a tendência que a concentração de poder tem de limitar a liberdade individual. Ele subscrevia e repetia com entusiasmo o saying de Lord Acton que vai ao lado, Power tends to corrupt and absolute power corrupts absolutely. A limitação à liberdade individual não se restringe, porém, ao plano econômico, apesar de ser essa a consequência mais visível e imediata. Quando o governo determina que, digamos, o trigo só pode ser vendido a determinado preço, costuma-se considerar apenas a exclusão da possibilidade que as partes interessadas tinham de negociar o trigo a um preço que lhes fosse conveniente. Ocorre que o recrudescimento do poder estatal é cumulativo e ganha impulso com novas conquistas, além de ser de difícil reversão: basta ver a resistência que figuras adeptas do laissez-faire, como Reagan, tiveram de enfrentar para diminuir minimamente a presença estatal na economia.

Tudo o que vai acima, mesmo que muitas vezes ignorado na prática, é hoje considerado o óbvio ululante no meio acadêmico. Dados o conhecimento empírico e a perspectiva histórica hoje disponíveis, nem adolescentes têm como justificar o desconhecimento da impraticabilidade da economia planificada. Mas Friedman defende a retirada da presença estatal mesmo em situações que muitos liberais a considerariam natural, como na regulamentação de diferentes profissões (até a do médico!) e no controle das drogas.

Desde já antecipo que, mesmo como admirador, não vejo muito sentido em aceitar sem maiores cuidados a visão que Friedman tinha a respeito de questões não integralmente ligadas à economia. Digo isso porque essa costuma ser a postura diante de um ancião de 94 anos que já acertou tanto. Em 2002, na cerimônia em que Friedman recebeu a Medal of Freedom, o presidente Bush — brincando, é claro — observou que Rose é a única pessoa que sabemos ter ganhado uma discussão com seu marido.

Sem dúvida que há argumentos econômicos favoráveis à legalização das drogas (o principal deles é a dificuldade básica que os governos de hoje e sempre têm de fazer valer as leis), mas a questão envolve fatores morais e culturais que ultrapassam o escopo meramente econômico. Quando confrontado com duas situações que se lhe afiguram economicamente equivalentes, Friedman opta de imediato por aquela que não envolva a presença estatal. Trata-se da inegavelmente necessária política do mal menor. A intenção, nesse como em qualquer outro caso, é sem dúvida boa, mas corre o risco de enveredar pelo extremo oposto do caminho que ele mesmo denunciou em 62:

A outra ameaça é bem mais sutil. É a ameaça interna vinda de homens de boas intenções e de boa vontade que nos desejam reformar. Impacientes com a lentidão da persuasão e do exemplo para levar às grandes reformas sociais que imaginam, estão ansiosos para usar o poder do Estado a fim de alcançar seus fins e confiantes em sua capacidade de fazê-lo. Entretanto, se subirem ao poder, não conseguirão realizar seus fins imediatos e, além disso, produzirão um estado coletivo diante do qual recuarão horrorizados e do qual serão as primeiras vítimas. A concentração do poder não é tornada inofensiva pelas boas intenções de quem a estabelece.

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O Neo-Iluminista Merquior

O entusiasmo com que se lê José Guilherme Merquior (1941-1991) pela primeira vez é bem compreensível entre nós: raramente encontramos, hoje, outros nomes que se aproximem dele em termos de honestidade intelectual, inteligência e erudição. Atualmente é lembrado como simples polemista ou como ‘aquele sujeito que escrevia discursos para o Collor’, como se o emprego de ghost-writers por parte de políticos fosse algo novo ou degradante.

Merquior combateu com a elegância e a paciência de sempre alguns dos maiores mitos do século 20: marxismo, freudismo e formalismo (tanto literário como filosófico), sendo este último um tema recorrente de seus derradeiros anos. Já falei aqui sobre o De Praga a Paris, de 1986, acerto de contas dele com os estruturalismos e pós-estruturalismos franceses. Como não poderia deixar de ser, foi devidamente perseguido por isso, e hoje vários de seus livros nem sequer são editados, obrigando o leitor interessado a peregrinações ao sebo mais próximo.

A evolução do pensamento de Merquior fica mais clara no volume Crítica, que reúne ensaios do período 1964-1989. Enquanto alguns ídolos da juventude são gradualmente superados (principalmente Heidegger e Lucáks), cresce, cada vez mais conspícua, uma fé um tanto ou quanto misteriosa no progresso e na primazia da razão. Merquior declara-se neo-iluminista e mal consegue disfarçar (se é que tenta disfarçar) a antipatia por poetas que, reconhecidamente grandes, nutrem uma visão pessimista da modernidade. E é assim que chega a considerar o ‘reacionário’ T. S. Eliot apenas um grande poeta menor.

Se me permitem alguns exercícios de psicologia barata, diria ser perfeitamente natural a crescente aversão de Merquior ao esoterismo tipicamente moderno. Além do formalismo estético, argumenta ele, esse esoterismo leva invariavelmente a uma condenação em bloco da sociedade tecno-liberal moderna. É esse modernismo que condena a priori a modernidade que irrita Merquior mais que qualquer outra coisa. Não surpreendentemente, afasta-se dos ‘obscurantismos’ da filosofia de Heidegger, da literatura ‘abissal’ de Joyce e do simbolismo de Mallarmé. Eu dizia que essa aversão é natural por Merquior ter convivido tão de perto, e por tanto tempo, com o estruturalismo francês da década de 60. Para alguém que leu tudo que há pra ler de Derrida, Foucault, Deleuze, Lyotard et caterva e ainda conseguiu escapar de uma congestão cerebral, é apenas lógico esperar uma extrema sensibilidade a charlatanices linguísticas e a irracionalismos cabeça-de-vento.

Ocorre que, ao denunciar mui devidamente esse irracioanlismo tresloucado, Merquior parte num átimo para uma defesa da razão iluminista como elemento restaurador. Além da palavra ‘razão’, ‘progresso’ é uma das que se repetem com mais insistência em seus ensaios. Não deixa de ser curioso que o implacável crítico do marxismo, o ‘ópio dos intelectuais’ nas palavras de seu professor e amigo Raymond Aron, se deixe levar por vaguidades como ‘marcha da civilização’ ou ‘inexorável progresso histórico’. Em As Idéias e as Formas, lemos:

Esta delirante culpabilização da racionalidade científica e do progresso histórico — que mal difere, queira ou não Adorno, dos anátemas oraculares do irracionalismo de direita, em Jung ou Heidegger, por exemplo — aponta para uma curiosa patologia do humanismo. Entre a Renascença e a Ilustração, entre Leonardo e Goethe, o humanismo ocidental era, basicamente, inclusivo: uma ideologia que incorporava o progresso social e intelectual, a Reforma, a ciência, a revolução burguesa. Em constraste com isso, muito humanismo moderno se fez excludente: repele o mundo que o cerca, excomunga as massas e a civilização.

A acusação de humanismo excludente estaria perfeitamente justificada caso estivesse dirigida a sanguessugas da modernidade à Foucault, que se nutrem de seus mais caros pressupostos apenas para condená-la com um nojinho incontido. Merquior, porém, acaba se revelando um inveterado otimista, cético de qualquer crítica sistemática dirigida contra sua querida modernidade. O ceticismo propugnado por ele, indispensável até certo ponto, atinge um paroxismo que o impede de enxergar outra coisa senão negativismo no catolicismo (a religião positiva por excelência) de T. S. Eliot ou no ‘reacionarismo’ de Irving Babbitt. Aliás, qualquer consideração um pouco mais demorada sobre temas transcendentais corre o risco de receber a solene desaprovação racionalista de nosso neo-iluminista.

No fim das contas a impressão que temos é que — apesar de ter lidado de frente, e denunciado com tanto brilhantismo, o que há de mais desprezível na intelectualidade ocidental moderna — Merquior acreditava numa redenção iminente graças ao inevitável triunfo da razão humana. Em homenagem aos dez anos da morte de Merquior, seu amigo José Mário Pereira escreveu um emocionante depoimento (leia aqui) em que é citado um episódio que me parece emblemático da passagem de seu amigo por esse mundo:

Curiosamente, sempre que saíamos do escritório do advogado, então na Praça Pio X, Merquior pedia para irmos até a igreja da Candelária. Postava-se a admirar o interior, fazendo comentários estéticos, e nunca falava em religião ou fé.

Merquior entrou na Igreja e entendeu tudo o que lá havia para ser entendido, menos as questões relacionadas a religião ou fé. A fé dele, a fé no progresso, não permitiu que ele visse que a ameaça dos que querem destruir sua Igreja é real e premente.

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Salmo no. 3

Eu te proclamo grande, admirável,
Não porque fizeste o sol para presidir o dia
E as estrelas para presidirem a noite;
Não porque fizeste a terra e tudo que se contém nela,
Frutos do campo, flores, cinemas e locomotivas;
Não porque fizeste o mar e tudo que se contém nele,
Seus animais, suas plantas, seus submarinos, suas sereias:
Eu te proclamo grande e admirável eternamente
Porque te fazes minúsculo na eucaristia,
Tanto assim que qualquer um, mesmo frágil, te contém.

Murilo Mendes (1901-1975)

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Mais Cinema, Menos Hitchcock

Três outras recomendações:

1. Sunset Blvd. (Crepúsculo dos Deuses) – 1950, Dir. Billy Wilder

O roteirista Joe Gillis (William Holden) foi tentar a sorte em Hollywood e está prestes a perder o carro e o apartamento por causa das dívidas acumuladas. Fugindo de seus credores, acaba furando o pneu e entrando inadvertidamente na driveway de uma musa do cinema mudo, hoje esquecida: Norma Desmond (Gloria Swanson). Gillis descobre que a ex-estrela, além de meio maluca (e milionária), pretende voltar às telas com um roteiro de Salomé escrito e interpretado por ela mesma. O roteiro, claro está, é um desastre, mas Gillis, precisando do dinheiro, promete editá-lo e tentar a sorte em algum estúdio. Norma se apaixona por Gillis e Gillis se apaixona pelo dinheiro de Norma, situação que os mantém juntos por algum tempo. A obsessão de Norma por si mesma (há fotos dela espalhadas por toda a casa, e o novo casal assiste sempre aos mesmos filmes — os filmes dela, é claro) a impede de enxergar que, em verdade, já foi esquecida pelos fãs desde há muito. As cartas que ainda recebia eram escritas por ninguém menos que seu fiel mordomo, o sinistro Max von Mayerling (Erich von Stroheim). Max, com seus cuidados igualmente obsessivos, é o verdadeiro responsável pela sobrevivência da ilusão de grandeza de Norma.

O crescendo obsessivo de Norma é uma das sequências mais geniais que já vi no cinema. Quando descobre que Gillis tem encontros periódicos com Betty (Nancy Olson), resolve confrontá-lo e Gillis, ciente da patifaria que anda fazendo (Betty era também comprometida), decide voltar para sua pequena cidade em Ohio. Norma, desesperada, dispara três vezes e Gillis mergulha, já morto, na piscina que sempre quis ter por mérito próprio. Na imagem que vai acima, policiais e jornalistas já chegaram à sua mansão para apurar o assassínio. Norma, com a ajuda do sempre fiel Max e das luzes e câmeras, acredita estar num estúdio outra vez, interpretando a famigerada Salomé. Desce a escadaria convicta de que a cena é real, a despeito dos muitos que estão recostados na balaustrada. Se não pôde pedir a cabeça do amante é porque ele já estava morto na piscina.

2. A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) – 1951, Dir. Elia Kazan

Baseado na peça homônima de Tennessee Williams, esse é um dos primeiros filmes do Marlon Brando, que aqui interpreta o embrutecido Stanley Kowalski. O filme começa com a chegada de Blanche (Vivien Leigh) — irmã de Stella (Kim Hunter), mulher de Stanley — à casa dos Kowalski. Desde muito cedo Stanley desconfia que há algo de estranho por trás da pose de dondoca da quase quarentona Blanche. Afetando pureza e old-fashioned ideals, descobrimos em tempo que ela era dada às mais escandalosas libertinagens em sua cidade, de onde teve de ‘fugir’ por já estar mal falada. Quando Stanley descobre tudo e destrói a possibilidade de Blanche casar-se com seu amigo Mitch (Karl Malden), a coitada perde de vez o juízo: acaba acreditando nas próprias mentiras e fica à espera de um milionário imaginário, antigo admirador seu, quando em realidade quem chega é a enfermeira do hospício.

Não se sabe ao certo por que Blanche tomou o caminho da vadiagem. No filme, menciona sempre a morte de um grande amor da juventude — refere-se a ele simplesmente por the boy –, que teria se suicidado por conta de uma ‘fraqueza’ não explicada. Informam-que, na peça de Williams, há a sugestão de que o amorzinho de Blanche estava mais pra girl que pra boy: seria homossexual. Esse detalhe teria sido barrado do filme por conta da censura. Com ou sem censura, o fato é que a origem das perturbações de Blanche parece ser muito mais de ordem moral que afetiva.

3. The Good, The Bad & The Ugly (Três Homens em Conflito) – 1966, Dir. Sergio Leone

O que há de mais admirável em westerns (além da capacidade que todos parecem ter de acender fósforos nos locais mais inusitados, como sola do sapato, na própria mão ou em árvores) é a impressão de que, por mais longe que estejamos da ‘civilização’, há sempre uma espécie de lei a que se pode recorrer. Coloquemos três bandidos sanguinários — Blondie, the Good (Clint Eastwood); Angel Eyes (Lee Van Cleef), the Bad e Tuco (Eli Wallach), the Ugly — em busca de um tesouro enterrado — US$ 200 mil, uma fortuna incalculável pra época da guerra civil americana — e ainda assim podemos esperar aquele cavalheirismo de uma época em que até a morte exigia certa cortesia. As cenas finais do filme devem seu ar de solenidade precisamente a isso. Se a lei não pode chegar até eles, eles carregam consigo a lei que criaram.

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Cine Hitchcock

Depois de assistir a três filmes do Hitchcock quase em sequência, preciso me desintoxicar um pouco falando deles:

1. Rope (Festim Diabólico) – 1948

Que eu tenha visto, esse é o único filme do Hitchcock em que se procura dar alguma justificativa ideológica ao assassinato. Os jovens Brendan e Philip (John Dall e Farley Granger), inspirados pelo velho professor Rupert Cadell (James Stewart), resolvem matar o colega David por se acreditarem intelectualmente superiores e, portanto, parte integrante do grupo seleto de luminares para quem o assassínio não é crime, mas um ‘privilégio’. Pra se certificarem de sua inteligência superior, resolvem dar uma festa (os pais e a namorada de David são convidados) no apartamento onde o crime foi cometido — o corpo se encontra no baú sobre o qual o jantar é servido. O pedantismo exultante de Brendan é de tal maneira pronunciado que Rubert começa a desconfiar, e as expressões faciais de Stewart, nesses momentos de desconfiança, são aproveitadas como de costume, numa espécie de dress rehearsal para o Rear Window de 1954. A reação de Rubert ao descobrir tudo é a do intelectual minimamente honesto que finalmente tem de enfrentar o horror de suas crias ideológicas: uma espécie de epifania que jamais aconteceria não fosse a insistência com que o mundo real interfere no mundo das idéias. É pena que, como sói acontecer, foi preciso que uma desgraça abrisse o caminho em direção à verdade.

2. Dial M For Murder (?) – 1954

Aqui já estamos de volta ao tipo de crime mais comum em Hitchcock: o passional. Como diria o Chief Inspector Hubbard (John Williams), may God protect us from the gifted amateur! Ao descobrir que sua mulher Margot (Grace Kelly) tinha encontros amorosos com Mark Halliday (Robert Cummings), Tony Wendice (Ray Milland) resolve arquitetar, com a ajuda — forçada — de seu ex-colega de faculdade Swann (Anthony Dawson), o ‘assassinato perfeito’. Esse filme foi claramente ressuscitado no A Perfect Murder, versão moderninha com Michael Douglas e Gwyneth Paltrow. Diferentemente do personagem de Douglas, a engenhosidade de Wendice é tamanha que fica difícil não bancar o advogado do diabo, ainda que isso signifique sacrificar o pescocinho da Grace Kelly. Principalmente porque os assassinos de Hitchcock costumavam aceitar como verdadeiros gentlemen a derrota quando a percebiam inevitável: geralmente com um gole de uísque. Oferecendo um trago para os seus algozes, é claro.

3. Vertigo (Um Corpo que Cai) – 1958

Stewart (Det. ‘Scottie’ Ferguson) está de volta, dessa vez ao lado de Kim Novak (no papel da possuída Madeleine Elster), para interpretar um detetive com acrofobia graças a uma perseguição que acabou com um seu colega caindo de um prédio de vários andares. Scottie resolve se aposentar depois do acidente, mas um antigo conhecido (Gavin Elster, por Tom Helmore) lhe pede que siga sua esposa Madeleine em suas estranhas peregrinações. Segundo Gavin, Madeleine ‘recebia’ periodicamente o espírito de uma misteriosa tataravó que cometera suicídio ao ser abandonada pelo marido. Scottie, ora vejam, acaba se apaixonando por Madaleine, que em verdade não era Madaleine: Scottie se envolveu com uma moça fisicamente idêntica a ela, contratada por Gavin para que ele pudesse assassinar sua mulher e dar ao caso aparências de suicídio — inclusive com o testemunho de Scottie, que não pôde subir a torre (de onde Madeleine teria se jogado, quando em realidade foi empurrada) em função de sua acrofobia. Após a morte de Madeleine, Scottie encontra casualmente Judy Barton, comparsa de Gavin e sósia da finada, a mulher que ele de fato tinha perseguido nos últimos dias. A temática de espelhos, já recorrente no filme, ganha um aspecto ao sinistro quando Scottie insiste em que Judy se vista exatamente como Madeleine. A obsessão de Scottie em recriar eventos chega a tal ponto que, ao descobrir tudo, força Judy a subir a mesma torre de onde Madeleine teria se jogado, apenas pra perceber, contra a própria vontade, que tudo se repetiria com perfeição: inclusive a queda. E o ciclo se fecha outra vez.

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Vovô Smith

Se Mao, Lenin, Stalin, Fidel e Che são devidamente louvados em livros de história distribuídos pelo MEC, há também aqueles que conseguiram, nesses mesmos livros, fama de vilão. O principal deles é Adam Smith (1723-1790), ainda hoje tido como um economista frio e calculista, despreocupado com desigualdades sociais e com a ralé em geral. Não admira que seu The Theory of Moral Sentiments seja hoje pouco comentado, sendo desconhecido até de muitos leitores do seu irmão mais famoso The Wealth of Nations.

Na realidade Smith deixou bem claro que ambos os livros fazem parte de um mesmo projeto: não há possibilidade de convivência e diálogo, ou, em particular, de uma existência econômica, se não há uma moral comum para regulá-la. A notoriedade do Wealth em detrimento do Theory parece hoje bem natural; enquanto um se consagrou pela perspicácia e pelo testemunho favorável da história, os conselhos do outro já parecem obsoletos e exagerados, quando não ingenuamente benevolentes. Vejam como exemplo as primeiras linhas do livro, que tanto assustaram Theodore Dalrymple pela sua incompatibilidade com a realidade atual:

How selfish soever man may be supposed, there are evidently some principles in his nature, which interest him in the fortune of others, and render their happiness necessary to him, though he derives nothing from it, except the pleasure of seeing it.

Smith dizia isso, em suas próprias palavras, in spite of the depravity of our times. Que diria ele de nossos tempos, dois séculos e meio depois da primeira publicação de seu livro, quando essa constatação inicial parece não só improvável mas um tanto ridícula? A inversão é tediosamente previsível: o século 20, irritado com os empecilhos de uma ‘moral caduca’ como a de Smith, resolve responsabilizar o próprio Smith pelos desastres decorrentes da inobservância dos preceitos morais propugnados pelo, é claro, Smith. Em meios um pouco mais sofisticados, onde a obra do sujeito é ao menos conhecida, faz-se necessário um certo malabarismo retórico e dialético. No Brasil, interpreta-se a famosa ‘mão invisível’ como uma desculpa para a irresponsabilidade social e a coisa fica por isso mesmo.

No trecho citado acima, assim como em vários outros, fica claro que Smith se refere àqueles que, digamos, ainda não aderiram ao ‘liberou geral’, que ainda não têm vergonha de acreditar em coisas como a moral cristã ou simplesmente na possibilidade de uma convivência digna e respeitosa. É fato que isso já passou a representar uma excentricidade para muitos. É preciso recorrer a baluartes da reflexão moral, como o Lord Jim de Joseph Conrad, para encontrar ilustrações dignas do trecho abaixo:

The violator of the more sacred laws of justice can never reflect on the sentiments which mankind must entertain with regard to him, without feeling all the agonies of shame, and horrour, and consternation. When his passion is gratified, and he begins coolly to reflect on his past conduct, he can enter into none of the motives which influenced it. They appear now as detestable to him as they did always to other people. By sympathising with the hatred and abhorrence which other men must entertain for him, he becomes in some measure the object of his own hatred and abhorrence. The situation of the person, who suffered by his injustice, now calls upon his pity. He is grieved at the thought of it; regrets the unhappy effects of his own conduct, and feels at the same time that they have rendered him the proper object of the resentment and indignation of mankind, and of what is the natural consequence of resentment, vengeance and punishment. The thought of this perpetually haunts him, and fills him with terrour and amazement. He dares no longer look society in the face, but imagines himself, as it were, rejected, and thrown out from the affections of all mankind. He cannot hope for the consolation of sympathy in this his greatest and most dreadful distress. The remembrance of his crimes has shut out all fellow feeling with him from the hearts of his fellow creatures. The sentiments which they entertain with regard to him, are the very thing which he is most afraid of. Every thing seems hostile, and he would be glad to fly to some inhospitable desert, where he might never more behold the face of a human creature, nor read in the countenance of mankind the condemnation of his crimes. But solitude is still more dreadful than society. His own thoughts can present him with nothing but what is black, unfortunate, and disastrous, the melancholy forebodings of incomprehensible misery and ruin. The horrour of solitude drives him back into society, and he comes again into the presence of mankind, astronished to appear before them loaded with shame and distracted with fear, in order to supplicate some little protection from the countenance of those very judges, who he knows have already all unanimously condemned him. Such is the nature of that sentiment, which is properly caled remorse; of all the sentiments which can enter the human breast the most dreadful. It is made up of shame from the sense of the impropriety of past conduct; of grief for the effects of it; of pity for those who suffer by it; and of the dread and terrour of punishment from the consciousness of the justly provoked resentment of all rational creatures.

O tom é sempre o de um avô afetuoso preocupado com a formação moral de seus netos. Mas vivemos numa sociedade jovem, e os conselhos do vovô Smith parecem estar sendo deixados para uma geração um pouco mais obediente.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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