Parnaso

Em Má Companhia

A autoridade, ou a falta dela, é um dos atalhos mentais mais úteis que conheço. É claro que ninguém deve defender a pena de morte apenas porque Tomás de Aquino a defendia ou porque Mano Brown a repudia, mas ambas as constatações, ainda que isoladas, deveriam nos fazer desconfiar que há algo de interessante nela. Tudo bem que desconfiança apenas não é suficiente pra mudar de idéia, mas não deixa de ser necessária.

Vejam a situação do rock: eu mesmo gosto de muito rock antigo, mas depois que você vai a um show e se vê cercado de trogloditas imundos e vestidos de preto não há como não concluir que há algo de errado com o rock. Seria muito implausível supor que esse séquito bizarro é obra do acaso, que não há nada na essência do rock que nos leve diretamente a tanta bizarrice. E não adianta pensar ‘poxa, por que eles não agem, pensam e se vestem decentemente como eu?’. Você que é a exceção. Você está errado.

Fiquei com vontade de ler o The Closing of the American Mind, do Allan Bloom, por causa de seus comentários sobre o rock, apesar de eles ocuparem poucas páginas do livro. Mais uma vez parti do princípio da autoridade: se tanto rockeiro chiou é porque ele devia estar certo. Lido o livro, concluo que estava mesmo. Adianto desde já que sou analfabeto em teoria musical (ao que tudo indica Bloom também era) e que isso é irrelevante nas críticas que seguem.

Falei críticas mas na realidade são todas facetas de uma mesma: o rock como gratificação imediata. O rockeiro está tão acostumado à satisfação imediata do ímpeto musical que geralmente se perde ou tem preguiça de acompanhar ‘peças’ com mais de 10 minutos. Se o clímax demora a chegar, perguntam logo: ‘a música não vai começar?’. Já falei aqui do sujeito que gritou ‘Toca Raul!’ no show do Jethro Tull enquanto eles executavam uma versão mais longa e ‘clássica’ (com violinos) de Aqualung.

Bloom observa que nunca antes a música esteve tão presente na vida do jovem; não é incomum ouvirmos declarações do tipo ‘música é a minha vida etc.’ E no entando essa música a que eles se referem é bem restrita, para não dizer rock/blues/jazz apenas. Isso fica fácil de verificar, pelo menos pra mim, quando vejo que conheço mais música clássica (e conheço pouca) do que alguns colegas que conhecem rudimentos de teoria musical e que sabem tocar até mais de um instrumento. A noção corrente é a de que música realmente boa é imediatamente reconhecível como tal; qualquer esforço envolvido significa falha na música, não nossa. Bloom reparou que geralmente era ele quem apresentava Mozart aos seus estudantes fascinados por música.

Qual a relação, então, entre o rock e seus seguidores sinistros? Platão dizia que a música anima os impulsos mais bárbaros no ser humano; sendo assim, parece natural que a música seja tão mais ‘bárbara’ quanto menos tentar disciplinar esses impulsos. Já o rock pode ser definido como a ausência mesma de qualquer disciplina: uivos e grunhidos são aceitáveis caso se coadunem com o ritmo. O costume não é musicar a letra, é letrificar, de maneira inteligível ou não, a música:

Rock music provides premature ecstasy and, in this respect, is like the drugs with which it is allied. It artificially induces the exaltation naturally attached to the completion of the greatest endeavors — victory in a just war, consummated love, artistic creation, religious devotion and discovery of the truth. Without effort, without talent, without virtue, without exercise of the faculties, anyone and everyone is accorded the equal right to the enjoyment of their fruits.

Rockeiros mundo afora: estamos em má companhia. E isso pode significar mais do que parece.

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Resposta Cristã (2): O Caso Galileu

Quando pedimos exemplos da ‘histórica’ oposição entre Igreja e ciência, é comum ouvirmos dois nomes: Giordano Bruno (1548-1600) e Galileu Galilei (1564-1642). Ainda que tivéssemos aí dois exemplos legítimos, já seria difícil explicar como uma oposição que se verifica apenas duas vezes pode ser histórica. Com o primeiro não será necessário perder muito tempo: Bruno foi condenado por questões teológicas (uma delas é que Bruno negava a divindade de Jesus Cristo), e não por defender o sistema heliocêntrico. Ainda que se conclua que sua condenação foi injusta, ela nada teve que ver com ciência. Já Galileu foi condenado a prisão domiciliar por um período e morreu com quase 78 anos, de causa naturais. Em que consistiu a ‘perseguição’ cristã nesse caso?

Tanto Dinesh D’Souza, no What’s So Great About Christianity, quanto o Thomas E. Woods, no How the Cacholic Church Built Western Civilization, discutem detalhadamente a questão. Ao contrário do que todos imaginam, o trabalho de Galileu foi recebido com entusiasmo e admiração por autoridades da Igreja. De fato, astrônomos jesuítas confirmaram, via telescópio, as descobertas de Galileu. Após visitar Roma, onde foi recebido pelo papa Paulo V em pessoa, escreveu a um amigo: “I have been received and shown favor by many illustrious cardinals, prelates, and princes of this city.” Quando em 1612 Galileu defendeu pela primeira vez, por escrito, o sistema de Copérnico, recebeu cartas de congratulação do cardeal Maffeo Barberini, futuro papa Urbano VIII.

Ocorre que as evidências então disponíveis, apesar de apontarem para o sistema de Copérnico como melhor hipótese (melhor nesse caso significa mais simples, mais elegante), não permitiam uma conclusão definitiva. A Igreja não se opôs à exposição das novas idéias contanto que fossem apresentadas como o que realmente eram: hipóteses plausíveis, não fato consumado. Galileu não só acreditava que o sistema heliocêntrico tal como apresentado por ele era literalmente verdadeiro como fez questão de expô-lo nesses termos. Nesse processo acabou cometendo erros hoje considerados risíveis, como explicar o fenômeno das marés pelo movimento da Terra (quando em realidade é a Lua a responsável). Galileu tampouco conseguia responder à objeção geocêntrica segundo a qual, caso a Terra se movesse ao redor do sol, a paralaxe ficaria evidente em nossas observações das estrelas.

Todo o caso parece ficar reduzido a uma afobação intelectual por parte de Galileu. É como se Einstein declarasse que a velocidade da luz é sempre a mesma e constante e ponto final, e negasse que na realidade trata-se de uma hipótese necessária pra Teoria da Relatividade. Aliás, a Teoria da Relatividade conforma-se aos fatos assim como o sistema de Copérnico o faz, com a diferença de que nem sequer há uma teoria rival que se lhe aproxime em testabilidade empírica (o heliocentrismo, por outro lado, tinha o geocentrismo como oponente, que, apesar de menos prático, explicava através de combinações de epiciclos cada vez mais complicadas os movimentos dos astros). Ainda assim, qualquer professorzinho de ensino médio sabe que não se pode conferir caráter factual à hipótese da velocidade da luz.

E quanto à alegação de que o heliocentrismo contradiz trechos bíblicos? Cardeal e um dos trinta e três doutores da Igreja, Roberto Bellarmino (1542-1621) declarou na época:

If there were a real proof that the sun is in the center of the universe, that the earth is in the third heaven, and that the sun does not go around the earth but the earth round the sun, then we should have to proceed with great circumspection in explaining passages of Scripture which appear to teach the contrary, and rather admit that we did not understand them than declare an opinion to be false which is proved to be true. But as for myself, I shall not believe that there are such proofs until they are shown to me.

Eis que, curiosamente, o exemplo de conduta cientificamente idônea vem de um cardeal e não de Galileu. Tomás de Aquino já advertira alguns séculos antes que caso fique provado que uma interpretação bíblica contradiz a natureza, o erro está, obviamente, na interpretação. A verdade da Escritura é inviolável, mas não se pode dizer o mesmo das interpretações que dela aferimos.

Em 1624, mesmo após desobedecer a recomendação da Igreja de tratar o heliocentrismo apenas como hipótese, Galileu foi novamente recebido em Roma, dessa vez pelo próprio Urbano VIII, de quem recebeu duas medalhas por mérito científico. “Urban VIII told the astronomer that the Church had never declared Copernicanism to be heretical, and that the Church would never do so.” Galileu insistiu no mesmo erro em 1632, quando publicou um diálogo ridicularizando o geocentrismo (que era apoiado, até sua morte em 1601, pelo ainda célebre astrônomo Tycho Brahe). Só então a Igreja o proibiu de escrever sobre heliocentrismo.

A versão corrente segundo a qual Galileu teria sido torturado após enfrentar, sem sucesso, a intransigência ignara de autoridades eclesiásticas não passa de uma piada de mau gosto, como se vê. Os inimigos da Igreja parecem estar sempre incomodados com tanto ‘revisionismo’. Alas, o revisionismo só se faz necessário quando antes dele houve muito distorcionismo.

Arquivado em:Física, História, Religião

Resposta Cristã (1)

O lado positivo, se é que pode ser considerado assim, da onda de livros ateístas publicados recentemente é a resposta cristã a ela associada. Felizmente nem todo cristão é um liberal christian; há aqueles que ainda se dignam a defender a ortodoxia. Dinesh D’Souza (1961-), um indiano naturalizado americano, destaca-se entre eles por falar bem (Daniel Dennett foi pisoteado no debate na Tufts College, onde ensina; cheguei a ficar com pena do velhinho. Vejam no Youtube.) e por responder aos ‘novos ateus’ valendo-se apenas da lógica e de evidências científicas. Christopher Hitchens, apesar de ser mais articulado que o Dennett, também apanhou feio (ver aqui). Richard Dawkins, talvez na que tenha sido a decisão mais prudente de sua vida, não aceitou debater com Paul Johnson; é razoável que também não aceite possíveis convites do D’Souza.

O que impressiona em D’Souza é sua capacidade de vencer os dois ‘lados’ dos debates: o lado propriamente intelectual, em que se analisa a lógica dos argumentos, a precisão dos dados etc., e o lado ‘popular’, em que se analisa somente a impressão deixada sobre o público. A verdade é que ele já parte em desvantagem dupla: não só o público é a priori hostil ao argumento religioso como, provavelmente uma variante do mesmo problema, está despreparado para recebê-lo, mesmo quando não há hostilidade de fato. É preciso lançar mão de analogias, paralelos engraçadinhos e coisas do tipo pra compensar a falta de imaginação metafísica dos ouvintes. Por exemplo, quando D’Souza repete o argumento da contingência para a existência de Deus (algo que leitores de Aristóteles, Tomás de Aquino e Leibniz recebem com naturalidade) e surge a clássica pergunta ‘mas quem criou Deus?’, é preciso ilustrar a situação com algo mais ‘palpável’: a criação literária. Dostoievski, argumenta D’Souza, está num plano existencial distinto do de seus personagens; as regras que valem pra esses últimos não valem pra ele e por aí vai.

Está claro que desse processo acabam surgindo generalizações um tanto apressadas ou simplificações indevidas, mas nada que se distancie da caricaturização inevitável em qualquer debate. O mesmo não se pode dizer de Dennett, que diz ser a religião culpada pelas atrocidades stalinistas porque, ora vejam, Stalin considerava-se a si mesmo um ‘deus’ (concluo daí que se ele se considerasse um grande industrial a culpa passaria a ser do capitalismo). Apesar de nem todos os novos ateus se expressarem com estupidez tão desabrida, é essa em essência a resposta que dão às observações sobre o comunismo. O What’s So Great About Christianity, último livro do D’Souza, serve como espécie de compilação das respostas que tem dado a Hitchens, Dawkins, Dennett, Harris & cia. Gostaria de recordar aqui uma em particular.

Ela diz respeito ao argumento ontológico a favor da existência de Deus, sugerido pela primeira vez por Anselmo de Cantuária (1033-1109), escolástico italiano. Partindo da definição de que Deus é ‘aquilo que não pode concebivelmente ser superado’ e admitindo que a existência de fato é superior à existência apenas no mundo das idéias, Santo Anselmo declarou que a existência de Deus segue de sua própria definição. Ora, se Deus não existisse, ‘aquilo que não pode concebivelmente ser superado’ seria apenas uma idéia, e assim seria possível conceber algo superior: a idéia concretizada. A definição fica contradita; por absurdo, fica provado que Deus deve forçosamente existir. A questão aqui não consiste em aceitar ou não o argumento de Santo Anselmo (ele já recebeu boas críticas), mas sim observar a que nível de delinquência interpretativa chegou Christopher Hitchens ao tentar refutá-lo. ‘Se perguntássemos a uma criança num livro de contos de fadas por que ela acredita em dragões’, declara Hitchens, ‘ela responderia que pode imaginar dragões, de onde segue que eles devem existir’. Mas Anselmo não provou que qualquer coisa imaginável existe, bolas! Ele provou que ‘aquilo que não pode concebivelmente ser superado’, e não qualquer outra coisa, existe necessariamente.

No exemplo acima fica clara a hipocrisia dos que, partindo de uma proposta racionalista, pretendem contestar a razoabilidade da religião. Se Hitchens, Dawkins e Dennett dizem utilizar apenas a razão, e ainda não a desenvolveram a ponto de conseguir diferençar Stalin de Deus ou de entender uma premissa lógica simples, o que lhes resta? Se não a tivessem rechaçado tão pomposamente, restaria a graça divina.

Nos próximos posts falo sobre o caso Galileu, o antagonismo entre ciência e religião e outros absurdos correlatos.

Arquivado em:Religião

Há o Almoço

Espanta-me a frequência com que tento imaginar o gosto da comida dos livros que leio. Pouco importa o nível de sofisticação: lembro ter fantasiado com o café da manhã dos retirantes de The Grapes of Wrath (café amargo em caneca surrada de alumínio, pão recém-cozido com manteiga etc.; as frutas da California me parecem deliciosas até hoje, apesar de eu não gostar muito de frutas) tanto quanto com os jantares suntuosos de Jacinto (lagosta, vinho caro, peixe da Dalmácia etc.) em A Cidade e as Serras. Realmente são muitas as referências a comida nesse último livro; em algum momento o narrador diz ser a vontade de almoçar a mais longeva das paixões. E é.

Todos se lembram de como Bentinho jantou bem logo após receber notícia da morte do ‘filho’. Come-se bem em velórios nos EUA; fui a um e a comida estava ótima. Em rituais expiatórios, quando a situação não é crítica e não há necessidade de sacrificar a mais bela virgem ou algo do tipo, oferece-se comida aos deuses. Parece que nem eles deixam de se animar com a perspectiva do almoço. Falando nisso, o mortal pagão podia conseguir a imortalidade comendo ambrosia.

É curioso, então, que algo tão simples quanto comer carne seja encarado com desconfiança justamente numa época que se quer tão liberal. Parece que comer carne vermelha, mal passada e com aquela velha gordurinha, é aviltante para o corpo humano, mas ser sodomizado nem tanto. Algo que foi observado por todos os críticos da onda vegetariana é que, à medida que se procura alçar o animal ao nível moral do homem, resiste-se toscamente à tentação de rebaixar o homem ao nível atual do animal. É como no princípio dos vasos comunicantes, quando não há mais diferença de pressão entre os ramos: o nível mais alto desde e o mais baixo sobe para um nível intermediário. Eis aí uma conclusão insofismável: o fim do churrasco é sintoma de decadência moral.

Mais que um preconceito contra o consumo de carne, o vegetariano radical (desconheço a nomenclatura, façam-me o favor) parece se opor ao ato mesmo de comer. Quando o fazem — até porque, ainda que não pareça, também sentem fome — ficam encolhidos, como que dizendo “desculpem, é necessário, mas vejam que estou fazendo direitinho”. Todos eles se opõem a redes como McDonald’s e Burger King with a vengeance porque, além de serem nojentas, entronizam bem o espírito capitalista.

Um colega que acaba de retornar do interior de Nevada se diz assustado com a obesidade mórbida de muita gente de lá. Alguns são tão gordos que se deslocam em carrinhos motorizados, providos, é claro, de um espaço no painel para a bandeja do self-service. O fato de eles existirem não me assusta, já que a gula é tão velha quanto o homem; assusta o fato de eu já ter motivos para admirar-lhes a coragem.

Arquivado em:Miscelânea

Exercício de Tradução (2)

Já ia esquecendo que tinha feito um primeiro. Foi há mais de dois anos (ler aqui). Minha idéia, então, era a de escolher um trecho simples que pudesse apresentar dificuldades ao tradutor; dessa vez, a ênfase é no vocabulário. Além disso, inverto o sentido, que agora é do português para o inglês. Trata-se de uma das muitas passagens descritivas do excelente A Cidade e as Serras, do Eça. Vejam o original:

Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grande zaigualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, dum verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apatecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante… Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira das veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados… Todo um cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando: — ou mais estreiros, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas…

Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:

— Que beleza!

Abaixo a tradução:

With what brilliance and copious inspiration composed it the divine Artist who also made the hills, and took so much care of them, and so richly adorned them, in this well-beloved Portugal of His! Its grandness equalled its grace. Toward the valleys, imponently deep, descended stands of trees, whose canopies were so big and round, so freshly green, that the stands resembled soft moss where it would be just as well to fall and roll on. From the slopes, disdainful of the rocky trails, wide foliages stretched out its lovely canopies, whose fragrance was shaken up by the light flutter of the birds. Through the secular walls, that sustain the land while girded by the creepers, thick tortuous roots, entangled with more creepers, broke out. In all the tract of land, from each chasm, wild flowers budded. White rocks, by the hillsides, spreaded out the solid nudity of its polished womb through the wind and through the sun; others, dressed up in carrageen moss and blooming silvae, advanced like stems of adorned galleys; and, from between those that heaped up in the summits, some cottage that stood there, all crooked and wasted, peeked through the bleak openings, below the dishevelled, scarce verdure that the wind sowed upon its roof. Everywhere the whispering water, the fertilizing water… Nimble little creeks escaped, laughing with pebbles, from between the paws of the mare and the donkey; thick hasty rivulets leaped with uproar from stone to stone; files straight and glittering like silver ropes tremulated and sparkled from the height of the gorges; and many a fountain, placed alongside the by-paths, sprang forth through a pipe, benevolently, awaiting men and cattle… Often times the whole of a hilltop was harvested, where an ancient, lonely oak tree dominated as if its lord and guardian. On greenish platforms stood the fragrant orange orchards. Pathways of loosened flagstones surrounded full meadows where sheep and cows grazed: — or, being narrower, crammed in between walls, penetrated below thick grapevine foliages, in shades of repose and freshness. We then climbed some village by-street, ten or twelve hovels, hidden between fig trees, where the white and fragrant smoke from the sweetsops, escaping home through the cracked tile, hovered and vanished. On the remote hillocks, above the thoughtful darkness of the pine trees, appeared little white churches. The pure and fine air penetrated the soul, and upon the soul it mirrored joyfulness and strength. A dispersed jingle of cattle bells died out in the distance…

Jacinto ahead, mounted on his grey mare, would murmur:

— How grand!

Sugestões/correções são bem-vindas.

Arquivado em:Prosa

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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