Parnaso

Paranoia Darwiniensis

Há alguns assuntos que são verdadeiros destruidores de reputações: penso principalmente em aquecimento global e darwinismo. A essa altura, dos textos escritos sobre esses assuntos, 90% são bobagens e 9,9% obviedades. Só de vislumbrar os termos num artigo já tenho vontade de bocejar (se você descobriu uma espécie de formiga africana que confirma espetacularmente a teoria darwiniana, ótimo; se descobriu outra que a refuta com espetáculo comparável, ótimo também). Foi assim que me arrastei pelas páginas do excelente Darwinian Fairytales — Selfish Genes, Errors of Heredity, and Other Fables of Evolution, do filósofo australiano David Stove. Em vários momentos o livro se aproxima perigosamente (e Stove é o primeiro a reconhecê-lo) dos 9,9% mencionados acima. A verdade é que, não fosse a condição patológica referida no título desse post, livros como o de Stove não precisariam ser escritos.

Mas isso é dizer pouco: não fossem os cacoetes mentais X e Y, os livros A, B, C etc. também não precisariam ter sido escritos. O fato, por mais melancólico que seja reconhecê-lo, é que os cacoetes existem e prosperam num ritmo nada menos que estupefaciente. Não vou nem comentar os mais famosos (e antigos), cuja origem remonta ao próprio Darwin (ou, antes dele, Malthus), como a idéia de que uma população cresce indefinidamente se não lhe são impostas restrições de alimentação, ou aquela outra, mais absurda ainda, segundo a qual qualquer traço que não contribui para a propagação da espécie será dizimado cedo ou tarde. Não se pode argumentar ‘contra’ isso, pode-se apenas observar que a realidade, a humana pelo menos, nem se aproxima do modelo proposto. Essas idéias são tão ridículas que se você resolver apresentá-las a algum darwinista (isto é, alguém que se julga darwinista), a resposta mais provável será ‘ah, Darwin não acreditava nisso realmente‘, ou ‘ah, ninguém realmente acredita nisso’, o que nos obriga a colher citações do tipo Every single (!) organic being around us may be said to be striving to the utmost to increase in numbers ou [W]e may feel sure that any (!) variation in the least degree (!) injurious would be rigidly destroyed, ambas do A Origem das Espécies. Deixei o erro mais grotesco para o final: segundo Darwin, a seleção natural e a luta pela sobrevivência são de tal maneira furiosas que of the many individuals of any species (!) which are periodically born, but a small number can survive (também do Origem). Darwin teria mudado de idéia se tivesse visitado a maternidade do hospital mais próximo.

Nosso puppet-darwinista, perturbado com a evidência textual, passaria então para a próxima resposta-padrão, que consiste em dizer que Darwin acertou no geral e errou nos detalhes, e que os darwinistas atuais corrigiram oportunamente os deslizes do barbudo. Não só isso não é verdade como é o oposto da verdade: neodarwinistas, sociobiólogos etc. não se contentam com ratificar a ortodoxia darwiniana; insistem em extrapolá-la. As diferenças estão basicamente no nível de detalhamento: com as contribuições mendelianas à genética foi possível colocar os genes na jogada. Se antes era a sobrevivência e a reprodução da espécie, ou de um indivíduo da espécie, que guiavam a seleção natural, agora é a sobrevivência e a ‘reprodução’ dos genes que levam a responsabilidade. Nasce aí o gene egoísta de Richard Dawkins (que na realidade, segundo nos informa Stove, é idéia original de G. C. Williams).

Emprestei o livro para um colega no intervalo da aula e, lidas 25 páginas, o sujeito me volta com um ‘o autor é ignorante demais’, ignorante na acepção de brutal. Realmente Stove é implacável, e parece ter um prazer especial em espedaçar as teorias de Dawkins. Quem quer que leia um esboço da teoria do gene egoísta reconhece de imediato que se trata de um símile, que Dawkins não poderia acreditar que um gene possa ser dotado de atributos como inteligência, egoísmo etc. Nosso senso comum funciona perfeitamente aí; de fato, Dawkins afirma expressamente que se trata apenas de uma terminologia mais prática. Mas, a menos que Stove tenha forjado as citações que pinçou do The Selfish Gene, não há como acreditar nisso. Nós nos esforçamos para emprestar alguma sanidade ao Dawkins, mas o danado não colabora. Vejam só o que ele nos diz: [W]e are… robot-vehicles blindly programed to preserve the selfish molecules known as genes; [W]e are manipulated to ensure the survival of [our] genes; [T]he fundamental truth [is] that an organism is a tool of DNA; [L]iving organisms exist for the benefit of DNA. Edward Wilson, que de tanto observar insetos ficou tão maluco quanto Dawkins, afirma que [T]he individual organism is only the vehicle [of genes], part of an elaborate device to preserve and spread them… The organism is only DNA’s way of making more DNA.

Pergunta simples: seria possível manipular seres humanos sem ser mais inteligentes que eles? Eu manipulo furadeiras, lápis, latinhas de Coca-Cola etc. e, apesar de minhas evidentes limitações, não hesitaria em dizer que sou mais inteligente que todas essas coisas. Parece claro que, se Wilson e Dawkins estão certos, os genes não só são egoístas (na acepção usual da palavra) como são mais inteligentes que seres humanos! E nós achando que macacos e golfinhos eram os que mais se aproximavam, hem?

Stove declara logo no prefácio que não é religioso (e que não é cristão por considerar o cristianismo incompreensível, o que é apenas parcialmente verdadeiro). Como bom polemista que era, deve ter cansado de debater o assunto com gente até bem mais inteligente que Dawkins; não admira, então, que saiba reconhecer uma natureza religiosa assim que a encontra. O nono capítulo, ou ensaio, de seu livro é chamado A New Religion, a religião de Richard Dawkins e dos sociobiólogos em geral (segundo consta, a teoria do gene egoísta é consenso entre eles). Não é monoteísta porque os genes são muitos, mas ao menos são invisíveis como o Deus cristão. O impulso de resposibilizar uma entidade de inteligência infinitamente superior pelo andamento das coisas terrenas, algo que imaginávamos só ocorrer em algumas religiões, é traço característico também desses novos darwinistas, sociobiólogos ou darwinistas aloprados. O capítulo seria com muita probabilidade o melhor do livro, não fosse o sugestão, ainda que velada, de que a absurdidade desses últimos atesta absurdidade nas religiões de fato. A única desvantagem de uma boa imagem é que ela pode nos levar longe demais.

O livro de Stove não é de filosofia, a despeito da tag Philosophy/Sciense em seu verso. Em vez de falar em precedência ontológica pra rejeitar a idéia de que o gene pode ser mais inteligente que o humano, Stove se limita a uma argumentação que não exige muito da imaginação do mais ávido materialista. Trata-se do já bem familiar exercício de confrontar teoria e realidade física. Menos divertido, mas mais que suficiente.

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Arquivado em:Filosofia, Religião

Ceticismo Juvenil

Somos particularmente burros durante a adolescência porque não chegamos a saber muito sobre coisa alguma, mas já deixamos de não saber nada. Esse pouco de conhecimento é a perdição de muita gente; alguns permanecem adolescentes até morrer. É natural ocorrer de esse pouco de conhecimento incluir o fato de que é possível, com mais ou menos habilidade, mentir, enganar, lubibriar. Trata-se de mecanismo de defesa tão poderoso quanto perigoso: se sabemos pouco sobre algo e não queremos ser enganados, basta duvidar. Nasce assim o ceticismo juvenil, que duvida de tudo menos do ceticismo em si.

Não se costuma tentar justificar filosoficamente o ceticismo; aceitam-no de bom grado porque é cômodo e porque nos livra do estigma de ‘crédulo’ ou ‘ingênuo’ (nada mais constrangedor!). O exemplo disso na política brasileira é evidente: ‘todo político é ladrão’ porque é difícil verificar quem não é ladrão em meio a tantos ladrões. Essa preguiça mental é adulada por gente até inteligente como o Diogo Mainardi, ainda que ele o faça por motivos humorísticos. Só se pode levar a sério um cético que duvida do próprio ceticismo, já que não existe motivo concebível (além da comodidade, claro) para tirá-lo da jogada.

É durante a adolescência que várias verdades carregadas candidamente desde a infância são questionadas pela primeira vez. Isso não seria ruim se não fôssemos tão preguiçosos e não optássemos pela saída mais fácil: duvidar. Não chega a impressionar que quem é ateu decide ser ateu por essa época, mas quem dirá que 16 é a idade ideal pra esse tipo de decisão? 25 também não é, mas aos 25 não se tem a metade da convicção de alguém de 16.

Poderia haver combinação mais burra que preguiça e convicção? Quem levaria a sério alguém que duvida veementemente da natureza ondulatória da luz sem nunca ter estudado eletromagnetismo? Esse princípio de autoridade, tão óbvio quanto saudável, inexiste fora da área de exatas sabe-se lá por quê. Tanto que quem é de exatas (e isso inclui desde a faculdade de engenharia até a Royal Society) se sente perfeitamente capacitado pra debater o sexo dos anjos. Acho que quando Tomás de Aquino disse que há dois caminhos para a verdade, o da razão e o da fé, ele quis dizer que a ignorância pode, sim, ser uma benção (e não num sentido pejorativo): certamente a intuição metafísica de qualquer empregada doméstica é melhor que a do Edward Wilson, ainda que elas não saibam o que é um cromossomo ou intuição metafísica.

Fico imaginando como seria um tempo em que a ciência não fosse a única esperança de credibilidade intelectual. Joãozinho interpelaria uma roda de amigos com a resolução de uma equação diferencial parcial pelo método da separação das variáveis e seria zombado porque, ora vejam, aquilo estava em completo desacordo com as lições dos sábios escolásticos. Ainda que reconhecendo o absurdo, eu poderia chamar o Joãozinho de lado e, dando-lhe um tapinha nas costas, perguntar: ‘viu como é bom?’

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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