Parnaso

Por um Natal sem direitos

Natal e os chamados direitos humanos aparecem com frequência na mesma frase: todos têm direito a um Natal feliz, sem fome, sem frio etc. Fiquei pensando: por quanto tempo a humanidade pôde passar o Natal sem ouvir falar em direitos humanos? A Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, é de 1948. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, dos facinorosos franceses, é de 1789. A Declaração de Independência dos EUA é de 1776 e a Carta de Direitos inglesa é de 1689. Acho que não seria exagero concluir, então, que por pelo menos 1500 anos (dC) a idéia de que o ser humano já nasce com direito a isso ou àquilo soaria estranha aos ouvidos mais benevolentes. E, nada obstante, foi nesse período que inventaram o hospital e a universidade pública.

Acho que poucas coisas comprometem mais a felicidade que o pretenso direito à felicidade. Se me aparecem com um papel garantindo o meu direito à felicidade irrestrita, qualquer existência aquém de um paraíso na Terra vai me parecer uma tremenda usurpação. Os americanos foram mais modestos (e mais felizes) ao garantir apenas o direito à procura da felicidade, que aliás pode ser tão medonha quanto se queira.

A mania de garantir direitos a torto e a direito cairia por terra se se dessem ao trabalho de analisar o problema pelo outro lado, o dos deveres. Se eu tenho direito à felicidade, alguem tem o dever de concretizá-la e, fora o meu anjo da guarda, nunca ouvi falar de semelhante cargo. Pior que a impraticabilidade da idéia são as doses cavalares de ressentimento que ela inspira, o ressentimento que Nietzsche quis imputar justamente àqueles que se opunham a ela, os que inventaram a caridade não por dever (no sentido legal), mas por princípio.

Desejo um bom Natal a todos: não que vocês tenham direito a um bom Natal, mas porque desejo que assim seja.

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Arquivado em:História, Religião

Ainda o Cristaldo ou A compartimentalização da inteligência

O Janer Cristaldo chega a níveis de idiotia que eu mesmo julgava improváveis. Ele se refere ao Reinaldo Azevedo como ‘recórter tucanopapista hidrófobo’ desde a polêmica da tradução do texto papal sobre a condição do divorciado dentro da Igreja Católica. A birra dessa vez (procure os textos no blog, aqui) é com um texto que Azevedo escreveu, para a última Veja, ‘tecendo loas ao stalinista’ Graciliano Ramos.

Confundir vida e obra de um autor é suficientemente constrangedor até pra quem não se diz jornalista. Cristaldo não é burro a esse ponto, e quem já leu dois ou três de seus textos (os que não tratam de religião!) sabe disso. Mas, alas, quando ele deixa de tratar de política e passa a tratar de religião, é como se Pelé deixasse de jogar pra comentar futebol, ou como se Stephen Hawking deixasse a física de lado pra bater uma bola (não que Cristaldo seja tão bom cronista político assim; o que vale é o contraste). Até aí nada de muito estranho; poderíamos supor bloqueio mental ou algo do tipo. O problema é que, quando se trata de religião, o bloqueio mental é generalizado.

Mas e daí?, esses últimos posts são sobre Graciliano Ramos, não sobre religião. Ocorre que o Cristaldo não consegue mais deixar o Azevedo em paz depois que o Azevedo defendeu o papa. Reitero: não fosse o fatídico episódio papal, Cristaldo continuaria mantendo o silêncio de sempre em relação ao colunista de Veja.

A compartimentalização da inteligência (alguém já deve ter inventado um termo melhor pra isso) é a capacidade que alguns têm de alocar zero de inteligência pra algumas áreas do conhecimento. Especialização não é bem sinônimo porque o especialista não precisar ignorar o complementar de sua especialização. Também não se trata de inépcia congênita: ninguém ficaria irritado com um sujeito que nasceu com péssimo senso de orientação, péssima visão espacial ou dificuldade pra decorar regras de ortografia; lida-se com essas dificuldades desapaixonadamente, como quem fecha um buraco num muro ou uma cárie num dente.

Por outro lado, que fazer de alguém que discorre razoavelmente sobre história e/ou política e/ou economia e/ou filosofia e desata a repetir asneiras quando o assunto é religião? Não são áreas tão desconexas assim; o bloqueio mental é antes psicológico que congênito. Pode ser também um preconceito elevado a teoria, um grão de ignorância que se aloja desgraçadamente no cérebro do indivíduo e que é pouco a pouco recoberto por camadas de desinformação, obtusidade e arrogância até se tornar um tumor purulento e malcheiroso. A imagem é nojenta: a realidade retratada também.

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Nota adicional sobre Capitu

Diogo Mainardi fala da série Capitu em sua última coluna. Alguns trechos:

Nada nele recorda o “Dom Casmurro” de Machado de Assis, apesar de reproduzir diálogos do romance. Na série, Bentinho aparece estranhamente caracterizado como Dick Vigarista, do desenho animado Corrida Maluca: nas roupas, no bigode, na magreza, no temperamento e, acima de tudo, na canastrice do ator que desempenha seu papel. Qual é o melhor candidato a Muttley? O agregado José Dias. (…) A série Capitu tem um aspecto circense. É Machado de Assis encenado por Orlando Orfei. É Bentinho imitando Arrelia no picadeiro de Fausto Silva: “Como vai, como vai, vai, vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem”. Luiz Fernando Carvalho usa uma linguagem grotesca, afetada, espalhafatosa, cheia de contorcionismos e de malabarismos.

A coisa é mesmo heterodoxa. Mainardi esqueceu de mencionar que deram um jeito de enfiar versões de músicas do Pink Floyd e do Black Sabbath (!) na trilha sonora, que o cabelo do Bentinho jovem tem estatura digna de um black power, nada obstante ele ser branco e seminarista, e que o sujeito que interpreta José Dias, logo o alinhadíssimo José Dias, tem um jeito marcadamente afeminado. Vi tudo isso num só episódio.

Eu chutaria que a racionalização da patifaria como um todo é a dificuldade de adaptar obras do Machado. O brasileiro tende a associar criatividade e festa intimamente; se uma obra é mesmo muito criativa e sobrevive aos tempos, é necessário uma adaptação que desmonte todos os padrões cênicos usuais, de preferência com muita dança, algazarra e cores espalhafatosas. No episódio que vi, Escobar não parava de dançar. O que significa isso?

Parece que é ou isso ou adaptações mornas, como as que fizeram do Memórias Póstumas e do Primo Basílio. Todos querem um pouco da glória da pouca literatura em língua portuguesa que deu certo, mas boa inspiração apenas não opera milagres. Talvez precisemos de um temperamento um pouco menos brasileiro.

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Finalmente a Economia

Reparei outro dia que nunca escrevi sobre a economia chamada real. Segundo consta, a economia real trata não de abstrações generalizantes, sistemas de idéias etc., mas dos resultados que afetam a vida do cidadão comum. A princípio a distinção parece meio absurda: um sistema de idéias, caso aceito e implementado, é exatamente o que vai cedo ou tarde afetar a vida do cidadão comum. Outros restringem o termo mais ainda, dando a entender que economia real trata apenas das operações econômicas mais básicas, como compra de roupas e/ou alimentados, excluíndo entidades mais complexas (bancos, governos) e suas atividades. Vou usar o termo como sinônimo de práxis econômica, aquilo que os agentes econômicos (incluo bancos etc.) efetivamente fazem, a despeito das idéias que julgam ou dizem seguir — nos casos em que julgam ou dizem seguir alguma idéia.

Só fui me dar conta da utilidade dessa distinção muito recentemente. Aconteceu quando começaram a me perguntar se quem trabalha em banco necessariamente venera Hayek e Friedman, se é costume colocar bustos de von Mises ou de Adam Smith nas salas de reuniões e por aí vai. ‘Eles preferem a escola austríaca ou a de Chicago?’ Às primeiras perguntas, respondo sempre que não, que o pessoal prefere o Benjamin Franklin, mas só porque ele aparece na cédula de 100 dólares. À última, respondo que nenhuma das duas, não por haver objeções palpáveis, mas porque ninguém se deu ao trabalho de conhecê-las direito. São esquerdistas, então? Também não, apenas não se preocupam com a economia que não é a real (a escolha do termo é particularmente feliz porque a economia que não é a real é tratada como irreal mesmo, tema para conversa em botecos ou para contos de fadas).

Acho que nada é menos conclusivo em termos de posicionamento no espectro político do que questões puramente econômicas. Ou melhor: nada deveria ser menos conclusivo. Isso porque economia pode até não se resumir a matemática (a inclusão de fatores psicológicos, porém, vai por sua conta e risco), mas os números num balanço ou num fluxo de caixa são tão números quanto os que vão numa hipotenusa ou num polinômio. O que quero dizer, se ainda não ficou claro, é: quando os números estão ruins e existe inteligência e disposição, dá-se um jeito, seja você um rothbardiano, keynesiano ou stalinista. Se o stalinista executa alguns dissidentes no processo e dá um jeito de coletar pra si mesmo todos os benefícios já é outra história. Aos que acham que simplifico a coisa indevidamente, basta lembrar que von Mises provou a impraticabilidade do sistema de precificação socialista com argumentos puramente matemáticos: caso fosse possível (nao é) escrever todas as equações diferenciais que regem o preço de uma banana, não seria possível resolvê-las, nem com os supercomputadores de hoje. Daí que não se possa estabelecer o preço do que quer que seja sem transformar a economia num jogo de cartas marcadas (para beneficiar nós sabemos quem).

O parágrafo anterior deve ser suficiente pra explicar o meu desinteresse pela economia dita real. A problemática sempre me pareceu operacional demais (ainda que complexa demais, como de fato é) pra que me fosse possível fazer algum comentário além do óbvio ululante. Se a crise secou o crédito interbancário, seca também o crédito para as empresas que tomam recursos dos bancos. O banco deixa de emprestar não porque o CFO é rothbardiano, keynesiano ou stalinista, mas porque não tem outra opção (a menos que esteja disposto a quebrar).

Não estou em condições de julgar se a distância entre as esferas da economia (a real e a ‘irreal’) é benéfica ou não para o universo daqueles que apenas querem ganhar a vida no mercado. O que me parece claro é que ela explica pelo menos em parte a completa estupefação diante da crise daqueles que em tese estão na posição de explicá-la*. Se a economia é, ou deveria ser, inútil para nos posicionar em qualquer tipo de espectro ideológico, ela, ou a clivagem que existe dentro dela, serve ao menos pra ilustrar a nossa tendência de achar que idéias não têm consequências (foi preciso que alguém escrevesse um livro com esse nome, for Christ’s sake). Não vejo abuso de terminologia em associar a crença de que idéias têm consequências ao conservadorismo, mais precisamente à convicção de que o papel impresso tem outra serventia que não a monetária.

* Conversando com o sócio de uma empresa de gestão financeira, ainda outro dia, tive a felicidade de descobrir que o ‘modelo do Estado não-invervencionista caiu por terra com essa crise’. Como um modelo que está fora de vigência há quase um século pôde cair por terra agora é matéria a ser decifrada por sábios de uma geração vindoura.

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Machado de Assis, um Brasileiro

Eu andava com idéias de escrever sobre o mau português que se fala no Brasil quando chegou até mim uma entrevista que o Napoleão Mendes de Almeida, o afamado gramático, concedeu à Veja em 1993 (leia aqui). Nela ele diz que a TV talvez seja o maior difusor do português torto que conhecemos tão bem. Fato é que, hoje, a TV já não pode fazer muita coisa: falar em português correto é mais constrangedor que gaguejar ou lançar generosos perdigotos por aí.

Vi ontem um episódio da série Capitu, baseada no Dom Casmurro de Machado. Os diálogos simplesmente não soam naturais, assim como não soam naturais os diálogos de todas as outras obras baseadas em livros do Machado, ou em qualquer outro livro da época. Todas essas adaptações estão fadadas ao fracasso imediato porque o brasileiro admite como absurda a possibilidade de ouvir um discurso com pronomes devidamente posicionados. Mas e daí, fazer o quê? A culpa é dos atores que se esforçaram (imagina-se o quanto) pra decorar as linhas?

O problema é que o abismo entre o português falado e o escrito é, mesmo hoje, intransponível. Tome o mais idiota dos adolescentes norte-americanos e ficará claro que o inglês falado (incluindo os usuais abusos: like, you know…) não está tão distante do inglês acadêmico. A estrutura das frases ao menos é a mesma; os solecismos mais comuns, os de ortografia, são obviamente imperceptíveis na linguagem oral. Já ao falante brasileiro ficam proibidas construções tão banais quanto ‘eu a vi’ ou ‘segurei-lhe a mão’, sob pena de um olhar mais ou menos enviesado.

Enquanto no inglês identifica-se a linguagem formal principalmente pela riqueza vocabular e pela correção ortográfica, identifica-se o mesmo em português por construções meramente corretas. Mesóclise, então, nem pensar, apesar de ser bem sabido que ela é às vezes insubstituível (não fosse, gente como Graciliano Ramos não a usaria). Regência correta de termos menos recorrentes já é luxo descabido, demonstração quase certa de arrogância.

E é assim que os personagens de nosso maior escritor (quando aparecem fora de seus livros) não nos parecem apenas diferentes, como seria natural esperar de gente que morreu há mais de um século, e que é como os personagens de Dickens ou Conrad devem parecer ao inglês hodierno. Eles nem sequer parecem brasileiros e, se realmente o foram, o certo é que há uma grande catástrofe nos separando.

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Estilo

Fico imaginando sobre o que eu escreveria caso tivesse de escrever toda semana, ou todo dia (provavelmente já fiz isso por alguns curtos períodos, mas nunca por obrigação). As alternativas mais batidas não são muito atraentes. São elas, que eu saiba: repisar piadas/tiradas que sabidamente funcionaram um dia, invertendo essa ou aquela circunstância; comentar notícias de jornal, com o cuidado de mostrar que cada notícia é evidência adicional de uma tese maior sua enunciada desde há muito; comentar notícias de jornal. O problema das notícias de jornal é que em geral tratam de gente desinteressante e, pior, gente viva (ou recém-matada).

É preciso muito talento pra falar com interesse do que se pode ver aqui e agora. Uma ilha que eu possa ver e visitar pode até ser bem bonita, mas provavelmente não voa ou é povoada por cavalos inteligentes como nos contos de Gulliver. Já vi tempestades fortes, mas nunca uma com efeitos magnetotemporais como no conto de Edgar Poe. A mania moderna de devassar tudo até os mínimos detalhes, discriminando e contabilizando tudo, parece tornar o ofício de escrever mais difícil. Ainda bem que não vivo disso.

Se eu vivesse disso, e considerando que não tenho talento para discorrer agradavelmente sobre coisas banais (quem não se lembra das escarradeiras floridas de Nelson Rodrigues?), recorreria àquelas pequenas excentricidades que ainda dão laivos de pessoalidade ao texto; algo que eu pudesse sacar da algibeira assim que me faltasse assunto melhor. Poderia ser um terceiro mamilo, um parente filiado ao PC do B ou o hábito de usar tênis all-star. Nenhum defeito é tão constrangedor quando você é o primeiro a confessá-lo.

Não é nem necessário que seja defeito; pode ser também uma virtude inútil, um conhecimento desnecessário. Há quem estude vinhos, quem aprenda a fazer sushi. Eu resolvi estudar ciências exatas. Está claro que as ciências exatas estão longe de ser inúteis (o mundo seria bem menos miserável se todos dominassem as quatro operações), mas são para mim, pelo menos tudo aquilo que me chegou depois do primeiro semestre da faculdade. Resolvi estudar o assunto como quem aprende a fazer sushi. Deu certo: acabei gostando.

Agora, alem de saber um pouco sobre a radiação Hawking e entender a demonstração que o vigésimo presidente dos Estados Unidos, James Garfield, propôs para o teorema de Pitágoras, posso rir da cara dos embusteiros. Rir de embusteiros, e denunciá-los devidamente, parece ser um dos maiores bônus de aprofundar-se em qualquer área do conhecimento. Projeções econômicas que precisam ser adaptadas diariamente e que desprezam solenemente variáveis importantes são motivo de risada pra quem estudou cálculo. Simulações da atmosfera que desprezam o efeito das nuvens pra ‘provar’ o aquecimento global são motivo de risada pra quem estudou transferência de calor.

Eis aí: já que não podemos mais rir de bruxas e gnomos, riamos de nós mesmos.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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