Parnaso

Nietzsche, um filósofo visceral

É sempre uma satisfação resgatar expressões em desuso ou em mau uso: Nietzsche foi, principalmente no Ecce Homo, espécie de introdução geral para sua própria obra escrita poucos meses antes de ele enlouquecer, um filósofo visceral. Segundo consta, esse livrinho teria sido, em 1908, tema de uma das reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, na casa de Freud. Freud teria dito que o livro não poderia ser desconsiderado como produto da insânia porque ainda há nele o domínio da forma, e acrescento que, em verdade, o conteúdo também é coerente com o que Nietzsche vinha escrevendo até então. O mais curioso é que Freud se limitava a discutir o ‘caso Nietzsche’, e não suas idéias, porque, dada a semelhança entre as invenstigações psicanalíticas e as do filósofo, seria interessante preservar a ‘independência de espírito’. Freud chegou a dizer que a riqueza das obras de Nietzsche era tamanha que o impedia de ler mais de meia página (!?) de seus livros, mas cumpre advertir que o artifício de evitar leituras para preservar a pureza de espírito foi, até onde eu saiba, enunciado pela primeira vez pelo próprio Nietzsche. No Ecce Homo já lemos:

Apenas meus olhos puseram fim à bibliofagia, leia-se “filologia”: estava salvo dos livros, nada mais li durante anos — o maior benefício que me concedi! — Aquele Eu mais ao fundo, quase enterrado, quase emudecido sob a constante imposição de ouvir outros Eus (– isto significa ler!), despertou lentamente, tímida e hesitantemente — mas enfim voltou a falar.

Os indícios de loucura são perceptíveis não em incoerências de forma ou de conteúdo, mas nos arroubos de imodéstia e na obsessão pela saúde, digamos, intestinal. Justiça seja feita mais uma vez: não há nada aqui que já não tenha sido anunciado em obras anteriores, apenas agora os ânimos estão exacerbados. Os conselhos dietéticos são, diga-se, uma diversão à parte:

Uma refeição forte é mais fácil de digerir do que uma demasiado ligeira. Que o estômago entre inteiro em atividade, primeira condição para uma boa digestão. Deve-se conhecer o tamanho do próprio estômago. (…) Nada entre as refeições, nenhum café: café obscurece. Chá, somente de manhã benéfico. Pouco, porém vigoroso: é prejudicial e debilitante por todo o dia quando fraco demais, mesmo que por um mínimo. (…) Ficar sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras.

Devo confessar que simpatizo bastante com a hipótese de uma relação estreita entre dieta (e clima) e disposição intelectual (“o clima alemão em si já é suficiente para desencorajar vísceras fortes, de disposição heróica inclusive (…) Paris, a Provença, Florença, Jerusalém, Atenas — esses nomes provam algo: o gênio é condicionado pelo ar seco, pelo céu puro”), apesar de não ir tão longe quando Nietzsche gostaria. Se Nietzsche já tinha deixado claro que noções como ‘pecado’, ‘alma’, ‘compaixão’ etc. são invenções perniciosas de espíritos ressentidos, de espíritos que dizem ‘Não’, ficamos sabendo no Ecce Homo que a dieta e o clima substituem-nas como as únicas coisas que de fato importam em nossas vidas.

Quem já leu o The Abolition of Man, do C. S. Lewis, deve achar esse detalhe bem sugestivo. Nele, Lewis argumenta que a tentativa de produzir juízos de valor sem o auxílio de um código absoluto, inquestionável etc., isto é, amparado apenas no Instinto, ou na Utilidade, ou em algo que o valha, é um exercício fútil porque, cedo ou tarde, o sujeito acaba tendo de se amparar em algo que ele negava de início, a saber, um princípio inquestionável. Por exemplo, quem acredita que preservar a espécie não passa de um instinto, tem de explicar porque devemos obedecer a esse instinto e não ao seu antípoda, o de destruir a espécie. Se dizemos que um instinto é melhor, ou superior, ou mais profundo, ou mais urgente, que outro, já partimos para um juízo de valor que não é em si instintivo. Nietzsche não comete esse erro porque ele não deseja estabelecer uma nova valoração; ele gostaria de suspender toda noção prévia de valor. Devemos admitir que essa proposta ao menos não é auto-contraditória.

Lewis lida com essa proposta, apesar de não se referir explicitamente a Nietzsche, ao falar da suspenção total de valores. Se não podemos apelar a princípios absolutos, conhecidos de todos (princípios que não admitem dedução lógica), só nos resta apelar à vontade arbitrária de quem quer que esteja em posição de arbitrar, os quais formam o grupo que Lewis chama the Conditioners. O conditioner de Lewis é o super-homem de Nietzsche: o sujeito para quem noções clássicas como bem e mal perderam o significado porque ele mesmo tem liberdade de definir o que é bom e mau. O que está sob julgamento não pode ser também juiz. Apesar de isso ser aparentemente a liberdade suprema, resta a pergunta: o que condiciona os condicionadores? Lewis responde:

By the logic of their position they must just take their impulses as they come, from chance. And Chance here means Nature. It is from heredity, digestion, the weather, and the association of ideas, that the motives of the Conditioners will spring.

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Mais poesia brasileira

Desta vez com Cecilia Meireles, uma grata redescoberta. Romanceiro da Inconfidência deve ter surpreendido os contemporâneos pela forma relativamente comportada — os ‘romances’, 84 neste romanceiro, são feitos em redondilhas (versos de 5 ou 7 silábas) com rimas nos versos pares. A forma medieval cabe bem: a temática épico-lírica é o de que Meireles precisava para narrar uma sublevação que, em tese ao menos, foi também épica (em se tratando de história brasileira, sabemos que não é bem assim). A declamação dessas composições era usualmente acompanhada por instrumentos musicais, daí a necessidade da rima.
O tema apequena o livro, é claro, mas está longe de estragá-lo. O que há de épico no alferes Tiradentes é não tanto sua coragem, que não chego a questionar, quanto sua precipitação. Quando a derrota já está certa, o poeta nem sequer pode lamentar a força do adversário, condição necessária para um embate honesto: lamenta (ou deveria lamentar) o despreparo e a mesquinharia do grupo de revoltosos. Não à toa meus romances preferidos nada têm que ver com o enredo em si. Vamos a um deles:

Romance LXXIV ou Da Rainha Prisioneira 

Ai, a filha da Marianinha!
Ai, a neta do Rei D. João!
– suave princesa de maõs postas,
resplandecente de oração…
Que lindas letras desenhava
a sua delicada mão:
grandes verticais majestosas,
curvas de tanta mansidão!
MARIA – nome de esperança,
MARIA – nome de perdão,
– a melancólica princesa
livre de toda ostentação,
que há de subir a um trono amargo,
como todos os tronos são!

A que crescera entre as intrigas
de validos, nobres, criados,
a que conversara com os santos,
a que detestara os pecados!
A que soube de tanto sangue,
por engenhos de altos estrados,
quando a nobreza sucumbia,
nos fidalgos esquartejados!
A que vira o pasmo do povo
e a estupefação dos soldados…

A que, amarrada em seus protestos,
pusera silenciosos brados
em grandes lágrimas abertas
nos olhos, para o céu voltados…

A que um dia fora aclamada,
envolta em vestes lampejantes,
onde o que não fosse ouro e prata
era de flores de brilhantes…
A que de olhos tristes mirara
paisagens, miltidões, semblantes,
sentindo a turba alucinada,
em vãos transportes delirantes,
sabendo que reis e reinados
são sempre penosos instantes…
A que em missal e crucifixo
a mão pusara, e aos circunstantes
fizera ouvir seu juramento,
sob estandartes palpitantes!

A que mandara abrir masmorras,
a que desprendera correntes,
a que escutara os condenados
e libertara os inocentes;
a que aos sofredores antigos
levava consolos urgentes;
a que salvava os desvalidos,
a que socorria os doentes;
a que dava a comer aos pobres
com suas mãos clementes;
a que chorava pelas culpas
de seus mortos impenitentes,
e suplicava a Deus piedade
para seus ilustres parentes!…

A que se preservara isenta
sobre os desencontros humanos:
sem soldados e sem navios,
entre os irados soberanos
de Espanha, de França e Inglaterra
e os rebeldes americanos
– com os olhos além deste mundo,
nessa evasão de meridianos
que não compreendem os ministros
– e muito menos os tiranos –
de quem vê na terra a falência
de todos os mortais enganos…
A que achava, no ódio, o pecado.
A que achava, na guerra, os danos…

A que tentara erguer-se a esferas
de Arte, de Ciência e Pensamento…
A que ao serviço de seu povo
dedicara cada momento…
A que se acreditara livre
de qualquer decreto sangrento…
– quando os horizontes moviam
grandes ondas de roxo vento;
– quando em cada livro se abriam
outras leis e outro ensinamento;
– quando o tempo da realeza,
em súbito baque violento,
desabava das guilhotinas,
sobre um grosso mar de tormento.

Ei-la, sem pai, marido, filhos,
confessor, – ninguém – acordada
em seu Palácio, à densa noite
erguendo voz desesperada,
perguntando pelo seus mortos,
pela sua ardente morada…
Ei-la a sentir o Inferno vivo,
a família toda abrasada,
e os Demônios com rubros garfos,
esperando a sua chegada
E seu corpo já transparente,
e já dentro dele mais nada.
E os corcéis da Morte e da Guerra
a escumarem na sua escada.

Ei-la a estender pelas paredes
sua desvairada figura…
A que, embora piedosa e meiga,
pelo poder da desventura,
degredava e matava – longe –
com sua clara assinatura…
Ei-la aos gritos, à sombra verde
dos jardins de aquosa frescura.
Clama por ela Inconfidentes
que a funda masmorra tortura.
E ela clama aos ares esparsos…
E a Liberdade que procura
é por flutuantes horizontes,
no fusco império da loucura.

Ai, a neta de D. João Quinto,
filha de D. José Primeiro,
presa em muros de fúria brava,
mais do que qualquer prisioneiro!
– Terras de Angola e Moçambique,
mais doce é o vosso cativeiro!
– Transparentes, vossas paredes,
prisões do Rio de Janeiro!
Ai, que a filha da Marianinha
jaz em cárcere verdadeiro,
sem grade por onde se aviste
esperança, tempo, luzeiro…
Prisão perpétua, exílio estranho,
sem juiz, sentença ou carcereiro…

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Carta a Stalingrado

Segundo rezam os manuais de literatura, A Rosa do Povo, publicado, se não falha a memória, em 1945, é o livro de Carlos Drummond de Andrade mais explicitamente dedicado aos problemas sociais que abalavam o mundo à época. Não sem boa dose de curiosidade mórbida, resolvi ler o livro. Há muitos daqueles poemas ligeiros, engraçadinhos, que nos dizem pouco apesar do estardalhaço que faziam, e há também poemas mais cuidadosamente trabalhados, escritos por um Drummond que deveria ter sido mas não foi (meus preferidos são os narrativos, principalmente O Caso do Vestido e O Elefante). E, como todos já temíamos, encontramos algumas loas aos soviéticos, das quais escolhi a mais constrangedora pra postar aqui. Não conheço a biografia dele pra saber se chegou a se retratar em algum momento (o certo é que teve tempo mais que suficiente), mas isso é indiferente agora. O mal do artista brasileiro é errar até quando acerta.

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Arquivado em:História, Poesia

Vocação de escritor

Fico me perguntando com que frequência os aspirantes a escritor de hoje ouvem comentários do tipo ‘Não, filho, você realmente não leva jeito pra coisa’ ou simplesmente ‘Desista’. Vivemos numa época superficialmente suave: gostamos de evitar confrontos sempre que possível. Por imposição do dia-a-dia, os praticantes de outros ofícios inventam testes mais ou menos objetivos pra desqualificar os aspirantes menos talentosos; já o aspirante a escritor nunca pode ser desenganado; há sempre a possibilidade longínqua de ele ser um gênio incompreendido, um homem à frente de seu tempo. E, como não há humilhação maior do que ser aquele que não reconheceu um homem à frente de seu tempo (isso significa não ser você mesmo um homem à frente de seu tempo!), seguimos com as abstrações conciliadoras.

A desculpa do gênio incompreendido é infalível porque pode sempre ser postergada: se o gênio demora décadas pra aflorar, longe de significar que ele não existe, significa apenas que é mais sofisticado do que suspeitávamos. É a revolução do proletariado no contexto da criação literária: nunca chega e, por isso mesmo, subsiste no pensamento.

É um tanto frustrante ver bons leitores se obrigando a tentar ser bons escritores de ficção. Não seria frustrante se ainda houvesse quem lhes falasse sinceramente — penso logo na figura do professor que não está muito preocupado com a auto-estima do pupilo. Os exercícios juvenis são úteis pra desenvolver potencialidades, é claro, mas também são úteis pra fazê-lo perceber que essa não é a sua praia. Convenhamos: não se trata de grande calamidade. Muito ao contrário, se isso fizer com que seu filho troque a faculdade de Letras pela de Medicina, já temos um grande benefício…

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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