Parnaso

É natural ser selvagem

É comum usarem um ‘é natural’ para justificar desvios comportamentais, mas naturalidade não serve como desculpa quando se sabe que é natural ser selvagem, também. Eu mesmo, na tentativa de irritar amigos esquerdistas, gosto de apontar que tal ou qual atitude do povão, quando convenientemente contrária ao ideário esquerdista, é natural, sugerindo sub-repticiamente que o natural é um encaminhamento divino para o correto.

Respirar é natural e inevitável; espirrar com estardalhaço também é natural, mas esperamos com certa dose de razoabilidade que o estardalhaço não se dê em público. Fala-se muito em espontaneidade e suas vantagens, mas não há muitas vantagens se você acredita, como eu, que o ser humano precisa de muito treinamento para chegar a ficar tolerável. Cada gesto espontâneo é uma distração do pupilo humano, verdadeiro lapso na escola da vida.

A prova insofismável da tendência humana à selvageria é o bebê recém-nascido: sem a devida instrução, ele permanecerá um nojentinho por tempo indeterminado. Muitos responderiam que a verdadeira tendência humana é a organização, já que, como vemos, acabamos ficando razoavelmente organizados depois de alguns milhares de anos. Acontece que regras de higiene e conduta não são seguidas por convicção individual de todos, e sim porque aqueles poucos que de fato se preocupam com isso convenceram, sabe-se lá como, o resto da população mundial. A hipótese de que o bom e o verdadeiro se confundem é, vemos agora, essencial: se os bons começam a mentir, mentira torna-se verdade e continuamos a nos lambuzar em refeições para sempre.

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Duas dúvidas

1) Dos mitômanos. Como explicá-los? Começam a mentir quando crianças e não conseguem mais parar? Um colega meu já confessou que gosta de mentir para testar sua habilidade de enganar as pessoas. Esse é o tipo mais facilmente explicável e, por isso mesmo, menos interessante. Uma divisão importante é a que separa os que inventam episódios mirabolantes — os mitômanos na acepção original — dos exageradores. Esses últimos são capazes de jurar que naquela noite beberam 1 litro de cachaça e não 3 doses; cada conversa nada mais é que um intervalo entre dois eventos pitorescos de suas vidas. Dá vontade de acalmá-los: nós gostamos de vocês assim mesmo, 3 doses já são suficientes. Se confrontados, preferem insistir na mentira ou até aumentá-la, para provar que em verdade estavam sendo conservadores no início. Os mitômanos ao menos têm a chance de ser originais, mas seria decepcionante descobrir que tudo não passa de um esporte. Por hábito, eu acredito de imediato no que as pessoas me dizem a menos que isso me traga algum risco ou seja logicamente impossível. Se alguém se acha mais inteligente por me fazer acreditar numa história falsa, eu me acho mais inteligente por não me importar com isso. Prefiro acreditar que os mitômanos não se podem controlar; as lorotas vão surgindo em cadeia e quando o sujeito dá por si ele mesmo já está convencido da veracidade de suas fantasias. Se for assim, estão perdoados.

2) Do humor em sonhos. Humor é um dos assuntos mais complicados que existem; o humor masculino é totalmente diferente do feminino (esse eu sinceramente acredito que nem sequer existe, a não ser por imitação) e o humor divino permanece um grande mistério: Deus acha graça de alguma coisa? Outro dia sonhei que conversava com um amigo de infância que não vejo há alguns anos e, pedindo notícias de conhecidos em comum, perguntei por onde andava Fulano, sendo que Fulano era o meu interlocutor. ‘Ah, é você’, me desculpei, e a conversa presseguiu normalmente, sem que ele ou eu estranhássemos a confusão. Pensando bem, lembrei que nunca tive um sonho engraçado, ou melhor, um sonho que me parecesse engraçado no momento do sonho. O enigma estaria solucionado se eu descobrisse que a parte do cérebro responsável pelo humor, se é que isso existe, fica desativada enquanto dormimos, mas nem sequer me lembro de sonhos em que me limito a recordar situações engraçadas. E o episódio com meu amigo de infância, foi piada de quem? Ou isso nem foi uma piada?

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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