Parnaso

Música para os pés

A música é de grande importância para os corredores, principalmente os de fim de semana, como eu. Outro dia tive de interromper inesperadamente uma corrida porque a bateria do iPod acabou. Um passatempo divertido consiste em antecipar que músicas se adaptam bem à ocasião, sem apelar, é claro, para as obviedades – música eletrônica ou com muitas repetições.

Percebi recentemente que músicas de tempo mais moderado às vezes funcionam bem, como Sympathy for the Devil e Jigsaw Puzzle dos Rolling Stones. Minha maior descoberta foi sem dúvidas a On Every Street do Dire Straits: se você conseguir sobreviver aos primeiros minutos, o ritmo final é recompensador. There There do Radiohead tem o mesmo efeito.

Em vez de medir a distância que faço num determinado tempo, ou em quanto tempo consigo percorrer certa distância, meço a distância que consigo vencer durante uma playlist. Como venho tentando melhorar meu desempenho, fiz uma mais ortodoxa dessa vez. Aí vai ela, para os curiosos:

1. Megadeth – Crush ‘Em
2. Office of Strategic Influence – Radiologue
3. Rory Gallagher – Moonchild
4. The Strokes – You Only Live Once
5. Wolfmother – Eyes Open
6. Arctic Monkeys – Crying Lightning
7. Chickenfoot – Oh Yeah

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The Larry David Syndrome

A síndrome de Larry David consiste em imitar o Larry David. Existem dois tipos de ídolos – os que queremos imitar e os que preferimos admirar contemplativamente, sem manifestações externas. Se não fosse pelo fato de ser milionário e poder pegar a mulher que quiser, não sei se muitos gostariam de ser o Larry David; então não sei dizer se a LDS, com essas enormes ressalvas, é patologia rara.

Uma coisa é certa: a satisfação de tratar as pessoas com a seriedade que elas merecem é impagável. Como estou de férias e vou me mudar em breve, sinto-me livre para imitar o Larry David nas mais diversas ocasiões – restaurantes, bares, consultórios médicos, reuniões familiares etc. Quando não julgam que sou louco, as mulheres adoram. Espero um dia conseguir voltar a levar as pessoas a sério.

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Há metafísica na matéria

Ideas have consequences, do norte-americano Richard M. Weaver, é um daqueles livros que, se fossem lidos e meditados por adolescentes entrando na faculdade mundo afora, melhorariam radicalmente a humanidade. Juntamente com o La rebelión de las masas do Ortega y Gasset e o Orthodoxy do Chesterton, ele deveria estar na cabeceira de todos os jovens. Assim como os outros dois, ele tem a capacidade, especialmente admirada por espíritos apressados, de concentrar em poucas páginas uma quantidade atordoante de comentários revolucionários (ainda que não necessariamente originais). Aproprio-me dos termos ‘radical’ e ‘revolucionário’ com gosto: por mais que o leitor discorde do autor, sai com a inarredável impressão de ter visitado terrenos inauditos.Veja-se como exemplo disso o que Weaver tem a dizer em seu sétimo capítulo, chamado the last metaphysical right. Depois de expor em seis capítulos o mundo que ele acredita decadente, chega a hora de sugerir um plano de ação. A que princípio devemos apelar num mundo que aprendeu a viver sem metafísica? Ao último princípio metafísico que nos resta: o da propriedade privada. Aqui há duas observações: (a) o respeito à propriedade privada é dito metafísico porque funciona independentemente de, ou até a despeito de, sua utilidade social, não se reduzindo a mero utilitarismo e (b) a longevidade desse princípio é nada menos que impressionante quando se considera a força que já tiveram alguns de seus adversários. Hoje, se queremos chegar a uma unanimidade numa democracia, o mais seguro a fazer é apelar ao direito à propriedade privada, talvez até mais que ao direito à vida(*).

Nas mãos das criaturas descritas nos seis primeiros capítulos do livro, o respeito pela propriedade privada pode se transformar, é certo, em mais um artifício para esmagar o pouco de metafísica que resta no mundo. Sob orientação mais saudável a coisa muda de figura por vários motivos:

– A propriedade privada está associada à dignidade pessoal porque o que possuimos também nos define. Por mais que seja danoso lembrar-se disso com muita frequência, minhas roupas e objetos pessoais também fazem parte do que se entende por Igor;

– O exercício da virtude só é possível num ambiente que encoraja a escolha sob responsabilidade individual; ninguem pode ser prudente ou generoso em relação a bens materiais sem haver antes uma relação direta de propriedade. Weaver observa que costumava ser motivo de orgulho para uma família dar o nome do clã ao produto por eles produzido; há aí um compromisso de qualidade e de responsabilidade que é pulverizado assim que as corporações se tornam impessoais ou, como a própria expressão em português traduz bem, ‘sociedades anônimas'(**).

– O princípio da propriedade privada é tão dogmático quanto qualquer dogma religioso. A maneira mais certa de encerrar uma discussão sobre o que fazer com meus pertences é simplesmente lembrar que eles são meus pertences. Quem se arriscaria a dizer de onde vem tanta autoridade?

Por mais doloroso que seja admiti-lo, partimos de princípios dogmáticos o tempo todo. Seria impossível viver de outra maneira, assim como seria impossível ao matemático provar que a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180 graus sem aceitar o quinto axioma de Euclides. Dizem que o esquerdista é quem leva adiante um raciocínio mesmo sem acreditar em seus pressupostos; eu diria que quem faz isso é maluco.

(*) Quando eu era criança, apenas duas coisas me afligiam no mundo das idéias – a primeira lei de Newton (princípio da inércia) e o direito que temos de dispor de nossos bens mesmo depois de mortos, isto é, o direito de deixar um testamento. No primeiro caso, vemos a fácil aceitação, por parte de uma população altamente empirista, de um princípio que pode ser tudo, menos empírico; no segundo, vemos o direito a dispor de propriedades persistir mesmo depois de suspenso o direito à vida.

(**) Crises financeiras como a que acabou de abater o mundo só poderiam existir num contexto de sociedades (e de indivíduos) anônimos. Longe de representar o princípio da propriedade privada na prática, a especulação financeira subtrai o elemento mais importante da aliança: o proprietário.

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O primogênito da modernidade

Em vez de tentar adivinhar o que quer dizer ‘cultura’ para Jacob Burckhardt no A cultura do renascimento na Itália, observo apenas que ele exclui desse ensaio quaisquer considerações mais demoradas sobre a economia e sobre as artes plásticas do período. As artes plásticas foram desconsideradas porque ele pretendia escrever um volume separado a respeito (aparentemente nunca concluído); quanto à economia, não sei o que dizer, mas o certo é que não se pode alegar que sua concepção de cultura não era suficientemente ampla – há um segmento inteiro sobre vestuário, língua, etiqueta, festividades sagradas e profanas etc. dos italianos do período.

Mesmo sem querer me perder em psicologismos baratos, é difícil não reparar no interesse que um suíço como Burckhardt (em seus últimos anos um catedrático conservador e circunspecto) tem pelas atrocidades da política italiana, interesse que Peter Burke atribui à ‘ênfase à percepção do Outro’ e à tradição germânica de fascinação pelo demoníaco. Afora a teoria central do livro, Burckhardt é muito moderado, talvez até demais – não sabemos se devemos atribuir a um relativismo bonachão ou à pura encheção de linguiça declarações como as que vão abaixo. A vantagem disso é que Burckhardt repudia as ditas filosofias da história, observando prudentemente que a história é a-filosófica e a filosofia a-histórica.

Em obras de história geral, há espaço para diferenças de opinião quanto aos objetivos e premissas ufndamentais, de modo que o mesmo fato pode, por exemplo, afigurar-se essencial e importante a um escritor, mas nada mais do que mero entulho sem qualquer interesse a outra;

(…) os mesmos estudos realizados para este trabalho poderiam, nas mãos de outrem, facilmente experimentar não apenas utilização e tratamento totalmente distintos como também ensejar conclusões substancialmente diversas,

Quanto à teoria central do livro, a de que o italiano do renascimento é o primogênito da Europa moderna (assim como Petrarca seria o primeiro homem moderno), há boa dose de convicção. Na realidade parece que os capítulos do livro foram escolhidos na medida em que são capazes de verificar essa hipótese. Antes de ir adiante reproduzo o trecho a que me refiro:

Na Idade Média, […] o homem reconhecia-se a si próprio apenas como raça, povo, partido, corporação, familia ou sob qualquer outra das demais formas do coletivo. Na Itália, pela primeira vez, tal véu dispersa-se ao vento; desperta ali uma contemplação e um tratamento objetivo do Estado e de todas as coisas deste mundo. Paralelamente a isso, no entanto, ergue-se também, na plenitude de seus poderes, o subjetivo: o homem torna-se um indivíduo espiritual e se reconhece como tal.

A princípio parece surpreendente que um período que entendia como glória intelectual máxima emular tão perfeitamente quanto possível um outro período, a Antiguidade, seja creditado com tantos pioneirismos – o da biografia moderna, da epistolografia moderna, da apreciação por paisagens em si mesmas, e não apenas como cenários, do escárnio e da espirituosidade modernos, da poesia moderna, das viagens de descobrimento, etc., etc. Explica esse fenômeno a proposição de que foi a união da antiguidade com o espírito italiano, e não a antiguidade sozinha, a responsável por tamanhas façanhas culturais. A questão do pioneirismo em si me parece ociosa – a atividade intelectual do período já permite que ele seja singularizado a despeito disso.

Sempre que se diz que o cristianismo ‘inventou’ isso ou aquilo aparece um espertinho lembrando que um monge budista ou um mendigo fez isso ou aquilo uma semana antes. De maneira análoga a existência de exceções parece impossibilitar a existência de qualquer tendência pra certas pessoas. Seria fácil apontar, como de fato se faz com frequência, que os modernos não poderiam ter ‘inventado’ a autobiografia porque já existem algumas bem notórias no século XII, ou que a busca incessante pela fama individual não é um fenômeno moderno porque era precisamente isso que inflamava os cavaleiros medievais. Quando se trata de preciosismo cronológico a discussão é, repito, ociosa.

O problema surge quando o evento mesmo a que se quer atribuir pioneirismo é confuso: entende-se bem o que queremos dizer com caridade cristã; ‘consciência individual’ e ‘modernidade’, por outro lado, merecem ser definidos com mais cuidado, algo que Burckhardt não tenta fazer nesse livro. Não é a existência (ou não só a existência) de autobiografias afamadas e de cavaleiros medievais orgulhosos que nos faz suspeitar de que a consciência individual teria surgido muito antes – é antes a existência de todo um período, a Idade Média, em que essas objeções são só manifestações pontuais.

O desprezo com que o período medieval era (e é) tratado por historiadores modernos é tão conspícuo que até os manuais de história brasileiros já ensaiam retratações, abandonando gradativamente – vejam quanta cortesia – o epíteto Idade das Trevas. Burckhardt refere-se ao período como infantil, adjetivo que ele mesmo, mais velho, viria a rejeitar, assim como sua noção de individualismo: “No que diz respeito ao individualismo, eu já não acredito nele”. Consta que Burckhardt, quando mais jovem, nutria o desejo de tornar-se um medievalista mas desistiu quando perdeu a fé.

Talvez o relativo desprezo de Burckhardt pela filosofia tenha contribuído para esse estado de coisas. Um período histórico que coroa Cícero – em detrimento de Platão e Aristóteles – como sua figura filosófica suprema deveria levantar suspeitas numa natureza mais dada a considerações desse tipo. Ao discutir a crise renascentista da noção de imortalidade da alma, ou a gradativa substituição, no imaginário da época, do paraíso cristão pelo céu pagão (com todas suas variantes), confesso não perceber qualquer tipo de juízo de valor.

Além de alguns pontos já citados aqui, Burckhardt costuma ser criticado por não dar conta das transformações históricas do período que descreve – uns bons 300 anos -, mas isso parece ser um preço baixo a se pagar quando o resultado é uma figura coerente do período como um todo. Em determinado ponto de sua carreira de professor Burckhardt decide dar menos importância aos ‘meros fatos’ (tendência perigosa quando levada ao extremo – veja-se a incapacidade dos estudantes de hoje de memorizar datas importantes) e concentrar-se no que ele passou a chamar de história cultural. Abriu-se aí um precedente que, apesar de muito criticado, conseguiu chegar até nós com boa vitalidade.

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Depois de três meses no Rio…

Certas coisas passam de inaceitáveis a guilty pleasures e daí a completamente naturais numa velocidade que chega a surpreender. O funk é um caso sintomático: parece haver um acordo silencioso segundo o qual os homens não o ridicularizam para que as mulheres possam continuar dançando sem tanto peso na consciência. Assim sai todo mundo ganhando: as mulheres podem dançar sem ser consideradas alienígenas e os homens podem assistir a tudo sem o estigma da depravação. O entretenimento no Rio de Janeiro vive desse acordo.

A inserção dessas maluquices no que é considerado socialmente aceitável desafia a nossa criatividade. É como se um sujeito dissesse numa conversa informal que desertou do seu pelotão numa guerra e nós tivéssemos de rebater com um comentário conciliador, ‘ah, essas guerras são complicadas mesmo’. O sujeito dá uns tapas na mulher e nós observamos que a moça era realmente insuportável. Quando me perguntam o que acho do funk, observo que no estado do Rio de Janeiro não há nada mais natural, deixando por conta do interlocutor a associação entre a frequência de um evento e sua razoabilidade.

De todos os brasileiros que conheci até hoje, os fluminenses parecem ser os mais orgulhosos de sua terra (seguidos de perto por mineiros e cearenses). De fato há por lá muitas belezas naturais, humanas ou não, mas minha impressão geral foi a de que a desordem impera. Como diria uma atriz global aterrorizada com a capital, ‘a lei não funciona e os carros páram em cima das calçadas’. Eis aí mais um bom termômetro civilizacional: o respeito às vagas de estacionamento.

Depois de algum esforço consegui convencer meus amigos cariocas a reconhecer que o carioca é mais malandro. A amizade tem dessas coisas constrangedoras: cariocas sendo levados à sinceridade sobre si mesmos! O certo é que eles personificam como ninguém (à exceção talvez dos baianos, os cariocas do nordeste) o caráter brasileiro. Sobre o caráter brasileiro creio já ter falado até demais por aqui. Fica então minha despedida ao Rio, terra muito bonita para onde espero não ter de voltar tão cedo, a menos que de férias.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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