Parnaso

O país da sexta camada

Depois de uma série de aulas mais ou menos repetitivas, a aula 83 do curso de filosofia trata de um assunto que deveria interessar a nós todos, as 12 camadas da personalidade. Assim como em toda esquematização, corre-se o risco de pensar apenas segundo seus termos; eu mesmo, assim que terminei de ver a aula, mal pude refrear a vontade de descobrir em que camada está cada um dos meus conhecidos, eu incluso.

Por cortesia, falo só de mim mesmo ou de alguma coletividade anônima. O que pude perceber é que hoje sou particularmente intolerante com deficiências típicas de camadas que eu mesmo tive dificuldades em superar. Na quinta camada (ego, autoconsciência e individuação) somos chamados a nos reconhecer como agentes criadores, cuja interferência pode não trazer um resultado objetivo mas é pelo menos reconhecível e reconhecida. O brasileiro é ótimo nisso: ainda que não se saia tão bem nos assuntos práticos da vida, está sempre disposto a vangloriar-se e a superestimar os próprios poderes. Curiosamente, a timidez, a auto-comiseração e a insegurança me incomodam mais que o triunfalismo tipicamente brasileiro. Segundo consta, apenas ajuda psicológica funciona nesse caso; qualquer ajuda material pode fazer o sujeito aprofundar-se na desconfiança de que está perdido se deixado às suas próprias forças. Eu já sabia que não tinha vocação para a psicologia, agora posso explicar por quê.

Na passagem da quinta para a sexta camada, o que interessa são os resultados objetivos de nossas ações: resolver problemas cotidianos (pessoais e profissionais), pagar as contas etc. Se um dia me acusarem de exigir demais do brasileiro, poderei responder que não espero mais que proficiência na sexta camada: metade do espectro humano parece uma expectativa razoável. Antes de dar pela falta de bons escritores, filósofos, críticos de arte e músicos, talvez valha a pena exigir melhores garçons, gerentes de agências bancárias, caixas de supermercados etc. Se é possível ser o presidente mais popular da história do país apenas com isso, ainda há espaço para otimismo.

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