Parnaso

Aristóteles e a física quântica (pt 1)

Frederick Copleston, no primeiro volume do A History of Philosophy, alerta contra a tentação de considerar Parmênides o primeiro idealista, já que, apesar de Parmênides ressaltar a diferença entre objetos da razão e objetos sensoriais, e afirmar a precedência dos objetos da razão, parece claro que o Uno de que falava (completo, indivisível e imutável) era material. Ao falar que o Uno não poderia ser maior ou menor em determinado lugar em relação a outros, Parmênides chegou à conclusão inevitável de que o Uno deveria ser esférico e, concluimos nós, material. Parmênides seria então um materialista, não um idealista.

Apesar de materialista na prática, Parmênides enfatiza mais que qualquer outro até então a diferença, central para o idealismo, entre o mundo percebido pelos órgãos do sentido e o mundo refletido intelectualmente. Alguém que postula a inexistência da mudança e do movimento não poderia, convenhamos, deixar de fazê-lo. Ainda que outros antes dele tenham postulado realidades não exatamente perceptíveis a qualquer transeunte desinteressado (Tales com seu princípio da água, ou Heráclito com seu princípio do fogo e a ênfase na mudança), é Parmênides o primeiro a realmente insistir na cisão entre verdade e aparência, entre percepção racional e percepção sensorial.

Para Parmênides, o Uno (ou o Ser) é indivisível porque, se não o fosse, teria de ser divisível por algo que está fora do Ser. Se está fora do Ser, é nada, e o nada nada faz, muito menos dividir o Ser. O Ser também é completo porque nada lhe podemos acrescentar (o que acrescentássemos ao Ser seria também Ser). E, finalmente, o Ser é imutável porque qualquer transformação só poderia concebivelmente vir do Ser ou do não-Ser; não poderia vir, porém, do não-Ser porque do nada nada vem, e se vem do Ser não há transformação porque o Ser já é. Fica assim negada qualquer possibilidade de transformação e/ou movimento.

Aristóteles destrói a imutabilidade do Ser de Parmênides com, nas palavras de Wolfgang Smith, ‘one of the great master-strokes in the history of philosophy’: a noção de potência. X, sendo X atualmente, pode ser Y em potência, isto é, pode chegar a ser Y num momento futuro. A transformação do Ser, então, não vem nem do não-Ser nem do Ser atual, mas do Ser considerado como uma matriz de possibilidades.

A aparente banalidade dessa descoberta não resiste à inspeção de algumas de suas aplicações mais ilustres (S. Tomás de Aquino), muito menos à aplicação que o próprio Wolfgang Smith tem para ela: resolver paradoxos da física quântica (leia o texto aqui)! A existência de dois mundos ao que tudo indica paralelos, o das partículas quânticas e o dos corpos macroscópicos vem incomodando a consciência de muitos físicos desde 1925. Se podemos até medir comprimento de onda do movimento de uma partícula sub-atômica, por que não teria uma bola de baseball um movimento também ondulatório? O que acontece de tão misterioso na passagem de um domínio para o outro?

Arquivado em:Física, Filosofia

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"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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