Parnaso

Aristóteles e a física quântica (pt 2)

A distinção de dois domínios – o corpóreo ou empírico, que vivenciamentos diariamente, e o físico, representação matematizada do domínio corpóreo – só é possível graças à rejeição da premissa cartesiana segundo a qual a realidade é dividida em res cogitans, ou o sujeito que conhece, e res extensa ou mundo objetivo. Essa divisão implica necessariamente a redução do mundo objetivo a modalidades intelectivas (no caso da física, reduz o mundo objetivo à matematização do mundo objetivo). Não é de estranhar, portanto, que Einstein exaltasse a prodigiosa capacidade que a realidade tem de expressar-se matematicamente: realidade, para ele e muitos outros, é precisamente aquilo que pode ser matematizado, eliminando por definição a possibilidade de uma realidade não-matematizável.

Esse est percibi (‘ser é ser percebido’): é lembrando esse dito escolástico que Wolfgang Smith deixa evidente o abismo entre um objeto corpóreo e a sua representação matemática ou física. Em vez de o objeto corpóreo representar a simples soma de partículas sub-atômicas matematizáveis, sugere-se um salto ontológico entre os dois domínios. A relação entre eles é desconhecida porque para chegar de um a outro teríamos de somar, além das partículas sub-atômicas, a relação entre elas e todas as qualidades não quantizáveis do objeto resultante – por exemplo, a qualidade que todo ser vivo tem de não poder estar vivo e morto simultaneamente. Mas essa soma nós não sabemos fazer.

A mecânica quântica impõe a distinção dos dois domínios porque, nela, a redução do corpóreo ao físico (no sentido de Wolfgang Smith) passa de meramente esquisita a absurda. Antes tínhamos de ‘conviver’ com planos perfeitamente lisos, velocidades eternamente uniformes etc.; com a mecânica quântica, seria necessário aceitar também bolas de baseball com movimento ondulatório e gatos simultaneamente vivos e mortos. É nesse ponto que os físicos lost their grip on reality (nas palavras de um deles, Nick Herbert).

Smith se identifica com o princípio da incerteza de Heisenberg porque, apesar de ainda não haver a distinção entre o universo corpóreo e o físico, Heisenberg deixa claro que a incerteza está na medição que fazemos do sistema, não no sistema em si. A mecânica quântica, portanto, não abdica do determinismo; apenas não consegue explicar o processo de ‘atualização’ que se dá do domínio físico para o corpóreo.

Que há uma relação de potência unindo os dois domínios é, então, o máximo que se pode afirmar a princípio. Os objetos que percebemos normalmente são atualizações de potências presentes no universo físico (e quanto menos conhecemos o universo físico, ou seja, quanto mais livre de restrições ele é, maior e mais imprevisível é a amplitude de possíveis atualizações). A distinção aristotélica de potência e ato resolve um problema mas levanta uma outra pergunta: quem (ou o quê) seria o agente atualizador?

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Arquivado em:Física, Filosofia

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