Parnaso

Reencarnação, uma invenção moderna

Só vim a me interessar um pouco mais pelo espiritismo quando pessoas próximas a mim declararam-se adeptas. Segundo fiquei sabendo neste capítulo do L’Erreur Spirite de René Guenón, porém, não é necessário acreditar em reencarnação para ser espírita. O motivo por que me interessei pelo tema da reencarnação em específico é que ele é usado pelos próprios espíritas como um forte elemento de persuasão em favor do espiritismo; e, se o próprio Allan Kardec elevou-o ao status de dogma, não há por que supor que não seja representativo, ao menos em suas modalidades atuais, do espiritismo como um todo.

É claro que evidências factuais da existência de espíritos são muito mais persuasivas que a idéia de reencarnação ou qualquer outra análoga. Que se tenha que apelar para um ideal forjado de ‘justiça’, em vez de se ater aos simples fatos à disposição, já parece indício de que a reencarnação é uma invenção moderna. E de fato, apesar de os adeptos procurarem origens remotas para o conceito (em doutrinas tradicionais ou no Evangelho mesmo), parece certo, a julgar pela racionalização que lhe imputaram, que o conceito surgiu com os socialistas franceses do início do séc. XIX. Daí que Guenón prefira tratá-lo como conceito social em vez de propriamente filosófico.

No terceiro parágrafo do capítulo mencionado acima são enumeradas algumas dessas racionalizações. Allan Kardec: ‘Ou as almas são iguais em seu nascimento ou não são. Se são iguais, como explicar aptidões tão diversas? Se são desiguais é porque Deus as criou assim, mas então, como justificar uma superioridade inata destinada a algumas? (…) Com a pluralidade de existências, a desigualdade que observamos em toda parte já não se opõe à mais rigorosa noção de equidade.’ Léon Denis: ‘Somente a pluralidade de existências pode explicar a diversidade de características, a variedade de aptidões, a desproporção entre qualidades morais; em suma, todas as desigualdades que saltam aos olhos. (…) Que pensar de um Deus que, outorgando-nos uma única existência temporal, tivesse nos feito tão desiguais e, desde o selvagem até o mais civilizado, reservado ao homem dons tão distintos e um nível moral tão diferente?’ Papus: ‘Sem a idéia de reencarnação, a vida social é uma iniquidade. Por que haveria seres ignorantes que ostentam glórias e riquezas, enquanto homens de valor se debatem na miséria e na luta cotidiana por alimentos físicos, morais e espirituais?’

Fica claro que a idéia da reencarnação representa antes de tudo uma revolta contra qualquer tipo de desigualdade. Como é claro e como Guenón não deixa de lembrar, a origem espúria de uma doutrina não implica necessariamente sua falsidade, e não parece de todo incomum que idéias importantes tenham sido percebidas pela primeira vez por filósofos menores. Não me interessa aqui, porém, repetir a demonstração que Guenón oferece para a impossibilidade (v. parágrafo 10) da reencarnação, que aliás é válida para qualquer repetição dentro da Possibilidade Universal, como a idéia do eterno retorno de Nietzsche. Interessa notar como a confusão gerada por fenômenos como a metempsicose e a transmigração (as quais, segundo Guenón, são velhas conhecidas das doutrinas tradicionais) tenha podido se transformar numa ode contra a desigualdade, a qual, ademais, sempre me pareceu um pressuposto do cristianismo. Não contentes com seus rebanhos de ovelhas, os socialistas querem também rebanhos de almas.

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Arquivado em:Filosofia, Religião

One Response

  1. Paulo Roberto disse:

    Texto confuso: é o que eu tenho a dizer.

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