Parnaso

Fetiche acadêmico

Das possíveis vantagens que um curso superior não-técnico pode oferecer, a maioria depende de uma boa dose de sorte. É razoável esperar uma boa biblioteca; um professor que sirva de guia, nem que seja por apenas 4 anos (ou 1 ano), já nem tanto. Há quem se beneficie de certa regularidade e disciplina impostas desde fora. Se você for ao exterior, pode até se inspirar com a estátua de um alumni famoso ou com dizeres em latim. Especialmente no Brasil, a passagem pela universidade é uma concessão utilitária.

Ainda que utilitária, indispensável aos desprovidos de talentos acima da média. Mesmo a maioria dos que têm talentos acima da média também frequentou a universidade, seja por automatismo, por insistência familiar, ou só ‘pra garantir’. É notável a irrelevância que a experiência propriamente acadêmica tem na vida universitária (o que dizer da vida em geral?) do brasileiro que não resolveu seguir carreira na universidade; os que ainda lembram como formatar textos qua ABNT devem ser felicitados. Nem sequer o orgulho identitário típico de grupos fechados sobreviveu porque, bem, não há mais grupos fechados.

A maneira como os cursos de pós-graduação se desenvolveram reflete isso; eles ensinam a gerenciar empresas e a lidar com pessoas (!), não a estudar. Se o interesse último do curso de graduação passou aos poucos a ser o mercado de trabalho, o MBA nunca pretendeu ocupar-se de outra coisa. Isso não quer dizer que a carreira acadêmica seja um contraponto saudável à lógica utilitarista; o acadêmico desenvolveu um mercado à sua maneira, tão ou mais formal e burocrático que o dos administradores. O mestrado e o doutorado são agora o ritual iniciático de grupos que, diferentes dos antigos, nada têm a nos dizer mesmo sem ser secretos.

Apesar de os acadêmicos influírem cada vez menos na opinião pública, ainda apelamos nominalmente a eles, numa espécie de reverência hierárquica, em momentos de dúvida. O que o Prof. Fulano de Tal acha sobre a celeuma no Oriente Médio? Ouvimos e esquecemos, mas com muito respeito porque o sujeito tem um diploma pendurado na parede.

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"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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