Parnaso

Greed is good

Iludido pelo título desse artigo do Paul Krugman – America Isn’t a Corporation -, achei que leria algo sobre como a existência humana não se resume a economia etc. No fim das contas Krugman apenas argumenta que a existência humana se resume, sim, à economia, só que não à economia defendida pelos republicanos. O artigo é instrutivo porque resume em poucas linhas algumas das bobagens milenares que ouvimos sobre o assunto:

1) …and policy based on the notion that greed is good is a major reason why income has grown so much more rapidly for the richest 1 percent than for the middle class. Ou seja, pouco importa que a classe média tenha crescido ou que o número de pobres tenha sido reduzido, o que importa é que os ricos não fiquem mais ricos mais depressa que os demais. Em outras palavras, Krugman sugere a substituição do lema greed is good por envy is good.

2) And it turns out that there is at least a whiff of Gordon Gekko in his [Mitt Romney’s] time at Bain Capital, a private equity firm; he was a buyer and seller of businesses, often to the detriment of their employees, rather than someone who ran companies for the long haul. Fundos de private equity compram e vendem empresas em busca de um retorno positivo para o capital investido. O processo geralmente inclui substituição da alta gerência para melhoria de processos e reposicionamento estratégico – algo que idealmente qualquer empresa faria por conta própria. Dizer que tais melhorias acontecem em detrimento dos funcionários obsoletos é como dizer que a mecanização da agricultura acontece em detrimento de trabalhadores rurais obsoletos, ou que avanços tecnológicos acontecem em detrimento de todos. A observação do Krugman parte do pressuposto de que uma vez empregado o sujeito tem o direito de assim permanecer para sempre, algo que, ao que eu saiba, só existe em algumas esferas estatais. Esses fundos de fato não vão administrar as empresas para sempre, mas alguém o fará, e quem o fizer vai se beneficiar das melhorias implementadas pelos abomináveis compradores e vendedores de empresas.

Mais adiante Krugman questiona a idéia segundo a qual empresários não são as pessoas mais preparadas para administrar um país. Isso pode até ser verdade, mas não pelos motivos elencados por Krugman. Ele chega à brilhante conclusão de que the economy is vastly more complex than even the largest private company, o que, em termos lógicos, corresponde a dizer que correr é muito mais complexo que andar, então devemos pedir a ajuda dos que dormem e não a dos que caminham. O incremento de complexidade é só quantitativo ou também qualitativo? Se houvesse empresas do tamanho da economia americana os empresários passariam a ser aptos à tarefa?

O segundo motivo mencionado é que empresas vendem seus produtos para a população em geral e não para seus funcionários, enquanto países vendem a maior parte de sua produção para o mercado interno, ou seja, para seus ‘funcionários’. Assim sendo, redução de custos na empresa seria sempre benéfica porque aumenta o lucro dos donos e no governo sempre maléfica porque desestimula a economia.

Em primeiro lugar, vale observar que apenas alguém que realmente acredita na equivalência entre a administração de um país e uma empresa faria essa analogia – apenas uma minoria dos habitantes de um país são seus funcionários. E, no entanto, Krugman escreveu seu artigo para nos provar que o governo não é uma empresa! O que ele quer realmente dizer é que o governo é um tipo diferente de empresa, e que portanto o presidente precisa ser um tipo diferente de empresário – o tipo democrata, o tipo que não sabemos se seria um bom administrador de empresas, governamental ou não.

A administração de um país não é como a de uma empresa não pelos motivos listados por Krugman, mas porque nem sequer suas atribuições estão bem definidas – e defini-las é, aliás, uma das principais atribuições do governo. Enquanto a gerência de uma empresa privada procura remunerar seus acionistas dentro dos limites da lei, o governo precisa decidir se a pena de morte é aceitável, ou se imigrantes devem ser tratados como nativos, ou se professores de escolas públicas podem rezar o terço em sala de aula. Também precisam decidir se deveriam opinar sobre tudo isso.

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Arquivado em:Economia, Política

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"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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