Parnaso

Eu, substantivo

Nota: neste post há spoilers do Inception.

Na aula 64 do curso online, o Olavo faz um resumo de aulas anteriores com ênfase no tema mais importante, o ‘eu substantivo’ ou ‘eu profundo’ ou ‘alma imortal’, aquilo que realmente somos. O que somos, segundo esse conceito, transcende corpo e mente abrangendo-os: quando digo ‘eu’, certamente não me refiro somente a meu corpo e à minha mente, mas também a eles. Na realidade a ‘alma imortal’, sendo perene, é maior que qualquer universo físico imaginável.

A maneira mais fácil de perceber isso é, acho, lembrar que quando pensamos em uma pessoa, pensamos sobre ela, não pensamos ela própria. Se não fosse assim, ela deixaria de ter existência autônoma e seria apenas um objeto do meu pensamento. Da mesma maneira a idéia que faço de mim é apenas um pensamento, não sou eu mesmo; eu, porém, não deixo de existir por isso. Sendo assim, o ‘eu substantivo’ (o meu e o de qualquer outra pessoa) não pode ser conhecido por pensamento; só pode ser conhecido por intuição ou por ‘conhecimento por presença’.

Já vi o Inception, último filme do Cristopher Nolan, sendo criticado por brincar com a noção de realidade, por dissolvê-la na atmosfera do sonho etc. Na realidade o que ele faz é o contrário: no final das contas, Cobb desiste do sonho porque Mal, sua finada esposa e, no sonho, uma projeção de seu subconsciente, é uma ‘sombra’ quando comparada à Mal real, a Mal-substantiva. Sendo apenas um pensamento, não poderia ser mais que sombra; quando gostamos de alguém, gostamos do ‘eu substantivo’, não dos pensamentos que ele suscita. Se esse último caso fosse verdadeiro, não precisaríamos lamentar a morte de ninguém.

Outro ponto é que o filme jamais questiona a precedência do estado de vigília sobre o de sono; todos os personagens (exceto as vítimas dos golpes, que apenas de maneira precária são enganadas) parecem estar cientes da distinção entre os dois. Perto do questionamento radical de Descartes, um sonho em que nos basta girar um totem para sabê-lo sonho é brincadeira de criança. Ainda que todo o primeiro plano da ação do filme seja também um sonho, como a tomada final sugere, por que teríamos motivos para nos alarmar se o percebemos tão facilmente? Basta que Cobb preste atenção ao seu totem para percebê-lo também.

Diferentemente do pesadelo de Descartes, aqui o trânsito entre sonho e realidade é até bem previsível: há relação de proporcionalidade entre o tempo transcorrido em ambos; sabe-se o que acontece após a morte em sonho etc. Mais importante que tudo isso, todos os sonhos, não importando em que nível estejam, só fazem sentido quando confrontados com a realidade, e esta nunca deixa de ser reconhecida como tal. De certa maneira, Inception é o mais realista dos filmes.

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Deus no cinema

Pode vir como surpresa o fato de os maiores filmes de 2009 tratarem, essencialmente, de religião.

Avatar encena uma tribo que às vezes parece se aproximar do cristianismo, às vezes (ou quase sempre) do ambientalismo romântico tão caro aos Camerons da política. Whatever Works é mais uma diatribe (a lista vai crescendo) de Woody Allen contra a ingenuidade intelectual de quem nasceu fora de Nova York ou acredita em Deus. A Serious Man, dos irmãos Coen, ridiculariza a insistência com que o homem tenta interagir com o divino. Não vi The Invention of Lying, mas o título é eloquente. E por aí vai.

No primeiro caso a divindade é imponente e até visualmente fascinante, mas a ganância capitalista parece bastar para destruí-la. No segundo ela nem sequer existe, e qualquer pensamento nesse sentido é ridículo. No terceiro, aprendemos que na mais das vezes é mais sábio deixá-la em paz. O único filme recente em que criador se impõe sobre criatura, em generosa concessão à terminologia, é The Book of Eli. O Deus desse filme é sem dúvidas poderoso e misterioso, mas não há garantias de que seria um líder inspirado. Denzel Washington, guardião do livro num mundo pós-apocalíptico, raramente cita passagens escriturais e faz um resumo franzino de todo seu aprendizado: dar aos outros mais que a si mesmo.

Em artigo na First Things, Thomas Hibbs comenta que Perhaps the most instructive lesson to take away from the religious themes in recent films is the way our popular culture seems to vacillate between essentially empty conceptions of a transcendent God and increasingly fertile notions of divine immanence. O divino pulula no imaginário popular – seja em florestas ou em desertos futurísticos -, mas o Deus que lhe dá nome é cada vez mais banal. Dado esse cenário, faz até sentido ser ateu.

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Muito canibalismo para um só dia

Acabo de ver o The Silence of the Lambs pela primeira vez. Confesso que há cenas bem perturbadoras, tão perturbadoras que podem até comprometer o churrasco do almoço de amanhã. Se eu por acaso vislumbrar Clarice Starling tentando salvar um cordeiro (ou tentando roubar minha carne), terei como consolo o fato de estar, bem, vendo Clarice Starling. Quando já me supunha livre de canibalismos, começa a tocar Cannibal’s Hymn, cujo refrão acredito ter sido escrito para a Starling:

But if you’re gonna dine with them cannibals
Sooner or later, darling, you’re gonna get eaten
But I’m glad you’ve come around
here with your animals
And your heart that is bruised but bleating
And bleeding like a lamb

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Sailing to Byzantium

THAT is no country for old men. The young
In one another’s arms, birds in the trees
– Those dying generations – at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God’s holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre*,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.

Minha intenção original era falar do filme dos Cohen (que a essa altura já popularizou, ou algo perto disso, o poema acima) mas, como geralmente ocorre, resolvi desviar o tema. Revendo o post em que colei poemas do Yeats (aqui), percebi que não colei esse, não sei bem por quê. Detesto ter que admitir, mas só fui reparar que ele tinha algo de especial depois de ver o filme. Um pretexto possível é que a temática se repete em vários outros poemas; outro, mais plausível, é que sou um leitor distraído de poesia. Mas vá lá.

Também é estranho eu não ter reparado nele porque o tema da velhice me interessa (nós não entendemos os mais velhos e o mais velhos, ao menos os que têm algo na cabeça, se envergonham pelos jovens). O velho-narrador, tanto no poema quanto no filme, prefere não passar julgamento sobre o mundo atual e simplesmente se declara incompatível com ele. Bom ou ruim, o certo é que our country não tolera mais a velhice, ou os velhos modos. A única passagem do poema em que o narrador ensaia uma objeção é o final da primeira estrofe: caught in that sensual music, all neglect monuments of unaging intellect. Todo o espetáculo da vida e da corruptibilidade da vida (whatever is begotten, born, and dies), apesar de muito bacaninha, pode nos levar a esquecer o que há de incorruptível, eterno, espiritual etc.

Nesse contexto o velho é coisa insignificante, mero declínio de algo que deve por força recomeçar. A menos, é claro, que um grande esforço (espiritual, já que a essa altura não se pode mais depender do corpo pra nada) seja empreendido no sentido de superar a decadência da matéria: unless soul clap its hand and sing, and louder sing. O problema é que a juventude, a mesma que tendia a negligenciar os monumentos do eterno, está fadada a falhar pois, segundo o narrador, não há escola para semelhante matéria que não o estudo das coisas mesmas que eles negligenciam: nor is there singing school but studying monuments of its own magnificence. É por isso que o velho decide ir para Bizâncio, espécie de monte Parnaso aos que têm sede do eterno. Bizâncio aparece em vários outros poemas do Yeats como símbolo de fertilidade cultural, mas nesse em particular (não lembro se é o único) há que considerar também seu aspecto sagrado: the holy city of Bizantium.

Na terceira estrofe começa a oração do narrador, que vai até o final do poema. Aqui a intenção é livrar-se de vez das vestes mortais (this dying animal) com o auxílio dos sábios da cidade. Na última estrofe o distanciamento é completo, não só do que é humano mas de tudo que é mortal: I shall never take my bodily form from any natural thing. Graças a um esclarecimento do próprio Yeats ficamos sabendo a que se refere a alusão a um imperador sonolento: “I have read somewhere that in the Emperor’s palace at Byzantium was a tree made of gold and silver, and artificial birds that sang.” Parece claro que o objetivo final do narrador é sair da esfera de influência do tempo, a ponto de ele mesmo poder passar a vida a falar das desventuras daqueles que não tiveram a mesma sorte: to sing… of what is past, or passing, or to come.

E o filme? O filme (ou melhor, o livro de Cormac McCarthy em que ele é baseado) serve como reconhecimento do fato de que a preocupação dos ‘bons’, hoje, é antes de tudo sobreviver. Queixar-se de falta de sofisticação cultural ou de falta de consideração pelos mais antigos ja é coisa bem pueril nesse contexto. Tommy Lee Jones, o ‘velho’ do filme, diz não saber o que pensar de tanta violência, mas já não são só os velhos que não sabem. É engraçado observar como qualquer preocupação, para se dizer moderna, transforma-se numa questão de sobrevivência. Pelo menos em termos de imaginação os primitivos somos nós.

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Fight Club

Inventei de rever esse filme ontem porque me asseguraram que ele seria mais que simples diversão (como se isso fosse ruim). Cheguei à mórbida conclusão de que ou ele é tomado como simples diversão ou estamos danados.

Quando nos informamos sobre a impressão que o filme deixou nas pessoas, em adolescentes principalmente, percebemos que ela é quase sempre de concordância irrestrita. O próprio narrador (Edward Norton) diz que é ‘dificil discordar’ da lógica de Tyler Durden quando este ameaça a vida de um balconista que não seguiu seu sonho de ser veterinário. Quando a seita passa a arquitetar pequenos atentados terroristas, a sensação de ‘ops, fomos longe demais’ só aparece quando um membro do grupo (Bob) é baleado.

Não li o livro de Chuck Palahniuk que deu origem ao filme e por isso não sei até que ponto vai a ‘redenção’ final do narrador. No filme, ela é meramente instintiva: destruir prédios corporativos, depredar patrimônio público e vandalizar a cidade é ‘demais’, devemos parar. O filme consegue o prodígio de fazer com que a audiência simultaneamente concorde com Tyler Durden até o final e simpatize com o ‘basta’ do narrador. Quem está errado, afinal?

Mais ou menos como quem lê Crime e Castigo e se esquece da segunda parte (o castigo), quem vê esse filme tende a só lembrar a revolta de Durden. Se nos pedissem uma citação que define o filme:

Man, I see in Fight Club the strongest and smartest men who’ve ever lived. I see all this potential, and I see it squandered. God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don’t need. We’re the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War’s a spiritual war…our Great Depression is our lives. We’ve all been raised on television to believe that one day we’d all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won’t. And we’re slowly learning that fact. And we’re very, very pissed off.

Não digo que essa memória fragmentária não faz justiça ao filme: a revolta de Durden é realmente a parte mais atraente do filme (assim como o crime de Raskolnikov é a parte mais atraente do livro), ou, como eu dizia no início, boa diversão. A partir do momento em que se quer tratá-la como algo mais, surge uma série de perguntas meio enfadonhas e totalmente óbvias, do tipo: ‘por que os membros do Fight Club são the smartest men who ever lived?’ ‘O que impede homens tão inteligentes de deixarem de ser frentistas ou garçons?’ ‘Qual seria uma ocupação digna no entender de alguém cujo maior feito é coordenar uma seita terrorista?’

A guerra deles (membros do Fight Club) não é bem espiritual, ou melhor, eles apenas gostariam que ela fosse. O culto à resistência à dor tenta, creio eu, emprestar algum elemento de ascetismo oriental, mas a pancadaria funciona muito mais como válvula de escape do que como princípio disciplinador. Isso fica claro quando lembramos que o narrador passou a dormir como um bebê depois que criou o clube.

A impressão final é a de que todo o desenrolar do filme é consequência de uma maciça crise de ennui do narrador. A negação do material (a princípio a crítica ao materialismo cego é simpática aos olhos de qualquer pessoa normal) não os leva à afirmação do espiritual, mas à negação de tudo. Como pode alguém ser avesso ao materialismo ao mesmo tempo em que confessa que o mundo se resume à matéria? É a teologia do nada, vulgo niilismo. O pior é que esse tipo de coisa ainda nos impressiona.

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Com Humor

Estava lendo um artigo sobre aborto e o sujeito mencionou o filme Juno por algum motivo. Resolvi ver. O filme é engraçadinho, e ainda não sei se isso é bom ou ruim.

Confesso que nunca conheci uma menina que tenha ficado grávida aos 16 anos; provavelmente não conheço ninguém que conheça. Convivi por um ano com adolescentes americanos de 17, 18 anos mas era um grupo bem restrito. No filme, o que mais me espantou foi a reação da Juno ao descobrir que estava grávida. Ligou pra uma amiga e a amiga já foi perguntando se queria que ela ligasse pra clínica de aborto. Tudo mais ou menos natural e automático.

Resolvi ver o filme porque ouvi dizer que Juno desistia do aborto quando lhe diziam que um feto de 2/3 meses já deve ter unhas. Imaginei logo algum tipo de crise de consciência, uma exegesezinha moral ainda que em nível infanto-juvenil (parece que a roteirista ganhou o Oscar — estaria eu exigindo muita coisa?). Haja burrice! É claro que não se sabe ao certo por que Juno desistiu da idéia (o filme não está interessado nisso), mas ela explica a decisão pra amiga lembrando que a clínica cheira a consultório odontológico e que a recepcionista é pervertida.

Posso estar errado, mas esse é mais um daqueles filmes cuja mensagem principal se reduz a ‘sejamos doidinhos e divertidos, mas com limites’. A idéia é que, por mais irresponsável que a pessoa seja, tudo vai dar certo no final se ela for do ‘bem’, tiver boas intenções etc. Juno é bem simpática, tem umas tiradas engraçadas; está claro que ela é do bem.

O problema com esse tipo de raciocínio é que, quanto mais ele avança, mais se perde a capacidade de definir critérios para o que é certo e errado, bom e ruim etc (ou, o que é pior, os critérios passam a ser de uma puerilidade assustadora, podendo ser substituídos sem muita cerimônia). Isso é visível no filme inteiro: o pai adotivo que Juno arranja pro seu filho é legal porque toca guitarra, gosta de filmes de terror e é simpático. A mãe adotiva, que é quem está realmente interessada na adoção e lê a torto e a direito sobre parenting, aparece como um incômodo, uma esquisitona. Num momento emblemático do filme, em que Juno vai visitar o Mark, o pai adotivo, esse último declara aliviado: ‘we’re free’, isto é, Vanessa, a mulher dele, não se encontra em casa. Já consigo perceber os olhares acusatórios: é exagero, paranóia, teoria da conspiração; Mark só quis dizer que estavam livres pra conversar bobagens. Pode até ser. Mas o restante do filme me permite essa extrapolação de picuinhas.

A essa altura é natural perguntar: onde estão os pais de Juno, o que eles acham disso tudo? Juno fica ansiosa antes de contar tudo a eles; chega a implorar clemência! Não sei se isso foi a sério ou apenas uma genuflexão aos tempos em que esse medo todo realmente faria sentido. Depois de poucos segundos e alguns suspiros o pai de Juno já fazia piada com o pai do pequeno indesejado (‘não imaginava que ele seria capaz…’). É isso aí: com humor a gente se ajeita.

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A Profundidade de Ingmar Bergman

Ingmar Bergman (1918-2007) morreu há alguns meses e ninguém parece tentado a negar sua mestria enquanto filmmaker. Realmente seria difícil encontrar um cineasta capaz de criar com tanta frequência cenas memoráveis como a que é mostrada acima, d’O Sétimo Selo (1957), em que Antonius Block desafia a Morte para um jogo de xadrez, ou a sequência inicial de Morangos Silvestres (1957), em que o ancião Dr. Borg se vê sendo puxado pelo próprio cadáver, ou a rápida passagem de tanques de guerra peja janela do trem em O Silêncio (1963), ou os últimos momentos de Gritos e Sussuros (1972), quando toda a pesada melancolia que permeia o filme se dissipa com a serenidade do rosto de Agnes.

Mas e a tão alardeada ‘profundidade’ de Bergman, seria ela real? Que querem dizer com profundidade, afinal? Certamente se referem à temática tão recorrente em Bergman: a religião, o sentido da vida, a perspectiva privilegiada da velhice, o desencanto com a vida terrena, a incomunicabilidade das angústias modernas etc. Citam-se duas ou três figuras de renome (os preferidos são Kierkegaard e Kafka) e já temos aí todos os ingredientes para uma obra ‘profunda’. A criação de atmosferas sombrias e coerentes com a temática abordada é, quem poderia negá-lo?, nada menos que genial: em O Silêncio os personagens, provavelmente fugindo da guerra, vão parar num país cuja língua é completamente desconhecida (trata-se de uma invenção do próprio Bergman). A sensação é de completa incomunicabilidade, a despeito de Ester ser, muito caracteristicamente, uma afamada tradutora de literatura. O silêncio familiar, atípico por si só, chega a um paroxismo com o afastamento do mundo exterior. Em Morangos Silvestres Dr. Isak é examinado por um inspetor que parece ter acabado de sair dum livro de Kafka: o primeiro teste consiste em ler ler uma inscrição em língua desconhecida no quadro-negro.

Se é mesmo verdade (como eu acredito que seja) que Bergman tem um talento aparentemente insuperável para a evocação imagética, resta saber o que ele tem a nos dizer sobre as questões levantadas com certa recorrência em seus filmes. Infelizmente, não muito. Isso já fica claro nesse que é considerado seu melhor filme, O Sétimo Selo. O cavaleiro medieval Antonius Block, confrontado com a Morte em pessoa, parece mais do que nunca interessado em conhecer a natureza divina, se é que ela existe. Pressiona a própria Morte, coitada, a contar seus segredos, se é que há segredos. Questiona inclusive uma menina que será queimada por alegar ter visto o diabo — Deus existe (certamente o demônio saberá informar)? poderei vê-lo? para onde vamos? A impressão que dá é que Block seria uma pessoa completamente diferente caso lhe entregassem, mui candidamente, uma fotografia de Deus. É claro que Bergman já sabe, ou acredita saber, a resposta a todas essas perguntas. Em suas próprias palavras (The Magic Lantern – An Autobiography): ”You were born without purpose, you live without meaning… When you die, you are extinguished.”

Todo o dilema religioso da obra de Bergman (da pequena parte que eu conheço, é claro) é de uma ingenuidade tal que ele se nos afigura mais verdadeiro quando é expresso por uma criança — o Alexander de Fanny e Alexander (1983), um garoto de 12 anos inconformado com o fato de Deus ainda não ter mandado matar seu padrasto assassino. “Se Deus existir, eu gostaria de dar-lhe um chute na bunda. Ninguém pensa!”, diz o jovenzinho incrédulo. Quem nunca passou por semelhante dilema existencial durante a primeira adolescência? Esse poderia ser um dos casos mais fantásticos de ironia involuntária da história do cinema.

Mas e se Deus não é uma realidade confiável, se o máximo que conseguimos ao procurar esse tipo de segurança é frustração, o que resta? Uma infância traumatizada por uma religiosidade opressiva, é claro. Janer Cristaldo que o diga. Mais uma vez citando de sua autobiografia (retiro os trechos da hagiografia publicada por Woody Allen no NY Times por ocasião da morte de Bergman; clique aqui para ler): ”Most of our upbringing was based on such concepts as sin, confession, punishment, forgiveness and grace… This fact may well have contributed to our astonishing acceptance of Nazism.” Quem souber conciliar confissão, perdão e graça ao nazismo que me avise, fazendo favor. Restaria algo mais? Há tambem o carpe diem, último refúgio dos ateus. Ele está presente em todos os filmes de Bergman que vi até agora: na anamnese da infância de Dr. Borg, na serena resignação de Agnes, na satisfação com que Antonius Block se delicia com morangos silvestres e leite fresco junto aos amigos e no discurso prafrentex do tio beberrão e mulherengo de Fanny e Alexander.

O vazio existencial de Bergman é provavelmente o mais atraente que já vi no cinema. Isso não significa que deva ser rejeitado com menos veemência.

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Mais Cinema, Menos Hitchcock

Três outras recomendações:

1. Sunset Blvd. (Crepúsculo dos Deuses) – 1950, Dir. Billy Wilder

O roteirista Joe Gillis (William Holden) foi tentar a sorte em Hollywood e está prestes a perder o carro e o apartamento por causa das dívidas acumuladas. Fugindo de seus credores, acaba furando o pneu e entrando inadvertidamente na driveway de uma musa do cinema mudo, hoje esquecida: Norma Desmond (Gloria Swanson). Gillis descobre que a ex-estrela, além de meio maluca (e milionária), pretende voltar às telas com um roteiro de Salomé escrito e interpretado por ela mesma. O roteiro, claro está, é um desastre, mas Gillis, precisando do dinheiro, promete editá-lo e tentar a sorte em algum estúdio. Norma se apaixona por Gillis e Gillis se apaixona pelo dinheiro de Norma, situação que os mantém juntos por algum tempo. A obsessão de Norma por si mesma (há fotos dela espalhadas por toda a casa, e o novo casal assiste sempre aos mesmos filmes — os filmes dela, é claro) a impede de enxergar que, em verdade, já foi esquecida pelos fãs desde há muito. As cartas que ainda recebia eram escritas por ninguém menos que seu fiel mordomo, o sinistro Max von Mayerling (Erich von Stroheim). Max, com seus cuidados igualmente obsessivos, é o verdadeiro responsável pela sobrevivência da ilusão de grandeza de Norma.

O crescendo obsessivo de Norma é uma das sequências mais geniais que já vi no cinema. Quando descobre que Gillis tem encontros periódicos com Betty (Nancy Olson), resolve confrontá-lo e Gillis, ciente da patifaria que anda fazendo (Betty era também comprometida), decide voltar para sua pequena cidade em Ohio. Norma, desesperada, dispara três vezes e Gillis mergulha, já morto, na piscina que sempre quis ter por mérito próprio. Na imagem que vai acima, policiais e jornalistas já chegaram à sua mansão para apurar o assassínio. Norma, com a ajuda do sempre fiel Max e das luzes e câmeras, acredita estar num estúdio outra vez, interpretando a famigerada Salomé. Desce a escadaria convicta de que a cena é real, a despeito dos muitos que estão recostados na balaustrada. Se não pôde pedir a cabeça do amante é porque ele já estava morto na piscina.

2. A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) – 1951, Dir. Elia Kazan

Baseado na peça homônima de Tennessee Williams, esse é um dos primeiros filmes do Marlon Brando, que aqui interpreta o embrutecido Stanley Kowalski. O filme começa com a chegada de Blanche (Vivien Leigh) — irmã de Stella (Kim Hunter), mulher de Stanley — à casa dos Kowalski. Desde muito cedo Stanley desconfia que há algo de estranho por trás da pose de dondoca da quase quarentona Blanche. Afetando pureza e old-fashioned ideals, descobrimos em tempo que ela era dada às mais escandalosas libertinagens em sua cidade, de onde teve de ‘fugir’ por já estar mal falada. Quando Stanley descobre tudo e destrói a possibilidade de Blanche casar-se com seu amigo Mitch (Karl Malden), a coitada perde de vez o juízo: acaba acreditando nas próprias mentiras e fica à espera de um milionário imaginário, antigo admirador seu, quando em realidade quem chega é a enfermeira do hospício.

Não se sabe ao certo por que Blanche tomou o caminho da vadiagem. No filme, menciona sempre a morte de um grande amor da juventude — refere-se a ele simplesmente por the boy –, que teria se suicidado por conta de uma ‘fraqueza’ não explicada. Informam-que, na peça de Williams, há a sugestão de que o amorzinho de Blanche estava mais pra girl que pra boy: seria homossexual. Esse detalhe teria sido barrado do filme por conta da censura. Com ou sem censura, o fato é que a origem das perturbações de Blanche parece ser muito mais de ordem moral que afetiva.

3. The Good, The Bad & The Ugly (Três Homens em Conflito) – 1966, Dir. Sergio Leone

O que há de mais admirável em westerns (além da capacidade que todos parecem ter de acender fósforos nos locais mais inusitados, como sola do sapato, na própria mão ou em árvores) é a impressão de que, por mais longe que estejamos da ‘civilização’, há sempre uma espécie de lei a que se pode recorrer. Coloquemos três bandidos sanguinários — Blondie, the Good (Clint Eastwood); Angel Eyes (Lee Van Cleef), the Bad e Tuco (Eli Wallach), the Ugly — em busca de um tesouro enterrado — US$ 200 mil, uma fortuna incalculável pra época da guerra civil americana — e ainda assim podemos esperar aquele cavalheirismo de uma época em que até a morte exigia certa cortesia. As cenas finais do filme devem seu ar de solenidade precisamente a isso. Se a lei não pode chegar até eles, eles carregam consigo a lei que criaram.

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Cine Hitchcock

Depois de assistir a três filmes do Hitchcock quase em sequência, preciso me desintoxicar um pouco falando deles:

1. Rope (Festim Diabólico) – 1948

Que eu tenha visto, esse é o único filme do Hitchcock em que se procura dar alguma justificativa ideológica ao assassinato. Os jovens Brendan e Philip (John Dall e Farley Granger), inspirados pelo velho professor Rupert Cadell (James Stewart), resolvem matar o colega David por se acreditarem intelectualmente superiores e, portanto, parte integrante do grupo seleto de luminares para quem o assassínio não é crime, mas um ‘privilégio’. Pra se certificarem de sua inteligência superior, resolvem dar uma festa (os pais e a namorada de David são convidados) no apartamento onde o crime foi cometido — o corpo se encontra no baú sobre o qual o jantar é servido. O pedantismo exultante de Brendan é de tal maneira pronunciado que Rubert começa a desconfiar, e as expressões faciais de Stewart, nesses momentos de desconfiança, são aproveitadas como de costume, numa espécie de dress rehearsal para o Rear Window de 1954. A reação de Rubert ao descobrir tudo é a do intelectual minimamente honesto que finalmente tem de enfrentar o horror de suas crias ideológicas: uma espécie de epifania que jamais aconteceria não fosse a insistência com que o mundo real interfere no mundo das idéias. É pena que, como sói acontecer, foi preciso que uma desgraça abrisse o caminho em direção à verdade.

2. Dial M For Murder (?) – 1954

Aqui já estamos de volta ao tipo de crime mais comum em Hitchcock: o passional. Como diria o Chief Inspector Hubbard (John Williams), may God protect us from the gifted amateur! Ao descobrir que sua mulher Margot (Grace Kelly) tinha encontros amorosos com Mark Halliday (Robert Cummings), Tony Wendice (Ray Milland) resolve arquitetar, com a ajuda — forçada — de seu ex-colega de faculdade Swann (Anthony Dawson), o ‘assassinato perfeito’. Esse filme foi claramente ressuscitado no A Perfect Murder, versão moderninha com Michael Douglas e Gwyneth Paltrow. Diferentemente do personagem de Douglas, a engenhosidade de Wendice é tamanha que fica difícil não bancar o advogado do diabo, ainda que isso signifique sacrificar o pescocinho da Grace Kelly. Principalmente porque os assassinos de Hitchcock costumavam aceitar como verdadeiros gentlemen a derrota quando a percebiam inevitável: geralmente com um gole de uísque. Oferecendo um trago para os seus algozes, é claro.

3. Vertigo (Um Corpo que Cai) – 1958

Stewart (Det. ‘Scottie’ Ferguson) está de volta, dessa vez ao lado de Kim Novak (no papel da possuída Madeleine Elster), para interpretar um detetive com acrofobia graças a uma perseguição que acabou com um seu colega caindo de um prédio de vários andares. Scottie resolve se aposentar depois do acidente, mas um antigo conhecido (Gavin Elster, por Tom Helmore) lhe pede que siga sua esposa Madeleine em suas estranhas peregrinações. Segundo Gavin, Madeleine ‘recebia’ periodicamente o espírito de uma misteriosa tataravó que cometera suicídio ao ser abandonada pelo marido. Scottie, ora vejam, acaba se apaixonando por Madaleine, que em verdade não era Madaleine: Scottie se envolveu com uma moça fisicamente idêntica a ela, contratada por Gavin para que ele pudesse assassinar sua mulher e dar ao caso aparências de suicídio — inclusive com o testemunho de Scottie, que não pôde subir a torre (de onde Madeleine teria se jogado, quando em realidade foi empurrada) em função de sua acrofobia. Após a morte de Madeleine, Scottie encontra casualmente Judy Barton, comparsa de Gavin e sósia da finada, a mulher que ele de fato tinha perseguido nos últimos dias. A temática de espelhos, já recorrente no filme, ganha um aspecto ao sinistro quando Scottie insiste em que Judy se vista exatamente como Madeleine. A obsessão de Scottie em recriar eventos chega a tal ponto que, ao descobrir tudo, força Judy a subir a mesma torre de onde Madeleine teria se jogado, apenas pra perceber, contra a própria vontade, que tudo se repetiria com perfeição: inclusive a queda. E o ciclo se fecha outra vez.

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A Oeste Daqui

Oeste para nós não significa muito mais que um dos pontos cardeais (ou a civilização ocidental, se o termo estiver em inglês). Para europeus e principalmente para americanos, a coisa é bem diferente. É curiosa a naturalidade com que eles associam idéias de aventura, recomeço e descoberta psicológica ao termo. Não à toa o brasileiro tende a receber com certa indiferença o formato western, enquanto Jorge Luis Borges dizia, se me não engano numa entrevista, que se quisermos encontrar qualquer resquício de heroísmo no cinema moderno devemos recorrer ao bom e velho western.

A noção de heroísmo tal como a entendiam os colonizadores da recém-fundada república norte-americana, ou, mais tarde, os forty-niners do gold rush na California (1849), já nos é pouco compreensível. Já é pouco compreensível até para os próprios americanos, apesar de a terminologia ter permanecido com os anos. Escrevendo pouco depois de 1831, Alexis de Tocqueville listou o ímpeto americano pelo novo e ainda intocado como um dos fatores que ajudariam a manter e a fazer crescer uma república democrática num território tão vasto. No primeiro volume do Democracy in America:

It would be difficult to depict the eagerness with which an American launches himself at this huge booty offered him by fortune. In order to pursue it, he fearlessly braves the Indian arrow and the diseases of the wilds; the silence of the woods holds no surprise for him, nor is he disturbed by the presence of wild beasts; he is constantly spurred on by a passion stronger than the love of life. Before him stretches an almost boundless continent and it is as though, already afraid of losing his place, he is in such a hurry not to arrive late.

É claro que essa urgência toda pode ser interpretada como uma simples ganância por terras, riquezas etc., mas o que Tocqueville deixa transparecer ao longo do texto é que esse aspecto aventureiro do homem (tão caro a ele próprio, um aristocrata francês!, assim como para Borges e a maioria dos chamados críticos da modernidade) foi reduzido a cinzas por todos nós. Em outras palavras, o homem deixou de arriscar sua vida por um ideal (por mais condenável que esse ideal seja) para usufruir da parafernália modernosa.

Como eu dizia, restou a terminologia. Isso ainda é facil de encontrar, principalmente em filmes e músicas. Um trecho da Stairway to Heaven, do Led Zeppelin:

There’s a feeling I get when I look to the west,
And my spirit is crying for leaving.
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees,
And the voices of those who stand looking.
Ooh, it makes me wonder,
Ooh, it really makes me wonder.

Na Budapest, do Jethro Tull, uma das melhores músicas da história do rock:

I thought I saw her at the late night restaurant.
She would have sent blue shivers down the wall.
But she didn’t grace our table.
In fact, she wasn’t there at all.
Yes, and her legs went on forever.
Like staring up at infinity.
Her heart was spinning to the west-lands
and she didn’t care to be
that night in Budapest.
Hot night in Budapest.

O Once Upon a Time in the West, western do Sergio Leone, acabou virando título de uma música do Dire Straits, que de resto já tinha lançado uma Wild West End um ano antes. Para o homem moderno o oeste voltou a ser apenas um ponto cardeal: no mínimo corremos o risco de perder uma boa metáfora.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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