Parnaso

Reencarnação, uma invenção moderna

Só vim a me interessar um pouco mais pelo espiritismo quando pessoas próximas a mim declararam-se adeptas. Segundo fiquei sabendo neste capítulo do L’Erreur Spirite de René Guenón, porém, não é necessário acreditar em reencarnação para ser espírita. O motivo por que me interessei pelo tema da reencarnação em específico é que ele é usado pelos próprios espíritas como um forte elemento de persuasão em favor do espiritismo; e, se o próprio Allan Kardec elevou-o ao status de dogma, não há por que supor que não seja representativo, ao menos em suas modalidades atuais, do espiritismo como um todo.

É claro que evidências factuais da existência de espíritos são muito mais persuasivas que a idéia de reencarnação ou qualquer outra análoga. Que se tenha que apelar para um ideal forjado de ‘justiça’, em vez de se ater aos simples fatos à disposição, já parece indício de que a reencarnação é uma invenção moderna. E de fato, apesar de os adeptos procurarem origens remotas para o conceito (em doutrinas tradicionais ou no Evangelho mesmo), parece certo, a julgar pela racionalização que lhe imputaram, que o conceito surgiu com os socialistas franceses do início do séc. XIX. Daí que Guenón prefira tratá-lo como conceito social em vez de propriamente filosófico.

No terceiro parágrafo do capítulo mencionado acima são enumeradas algumas dessas racionalizações. Allan Kardec: ‘Ou as almas são iguais em seu nascimento ou não são. Se são iguais, como explicar aptidões tão diversas? Se são desiguais é porque Deus as criou assim, mas então, como justificar uma superioridade inata destinada a algumas? (…) Com a pluralidade de existências, a desigualdade que observamos em toda parte já não se opõe à mais rigorosa noção de equidade.’ Léon Denis: ‘Somente a pluralidade de existências pode explicar a diversidade de características, a variedade de aptidões, a desproporção entre qualidades morais; em suma, todas as desigualdades que saltam aos olhos. (…) Que pensar de um Deus que, outorgando-nos uma única existência temporal, tivesse nos feito tão desiguais e, desde o selvagem até o mais civilizado, reservado ao homem dons tão distintos e um nível moral tão diferente?’ Papus: ‘Sem a idéia de reencarnação, a vida social é uma iniquidade. Por que haveria seres ignorantes que ostentam glórias e riquezas, enquanto homens de valor se debatem na miséria e na luta cotidiana por alimentos físicos, morais e espirituais?’

Fica claro que a idéia da reencarnação representa antes de tudo uma revolta contra qualquer tipo de desigualdade. Como é claro e como Guenón não deixa de lembrar, a origem espúria de uma doutrina não implica necessariamente sua falsidade, e não parece de todo incomum que idéias importantes tenham sido percebidas pela primeira vez por filósofos menores. Não me interessa aqui, porém, repetir a demonstração que Guenón oferece para a impossibilidade (v. parágrafo 10) da reencarnação, que aliás é válida para qualquer repetição dentro da Possibilidade Universal, como a idéia do eterno retorno de Nietzsche. Interessa notar como a confusão gerada por fenômenos como a metempsicose e a transmigração (as quais, segundo Guenón, são velhas conhecidas das doutrinas tradicionais) tenha podido se transformar numa ode contra a desigualdade, a qual, ademais, sempre me pareceu um pressuposto do cristianismo. Não contentes com seus rebanhos de ovelhas, os socialistas querem também rebanhos de almas.

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Aristóteles e a física quântica (pt 2)

A distinção de dois domínios – o corpóreo ou empírico, que vivenciamentos diariamente, e o físico, representação matematizada do domínio corpóreo – só é possível graças à rejeição da premissa cartesiana segundo a qual a realidade é dividida em res cogitans, ou o sujeito que conhece, e res extensa ou mundo objetivo. Essa divisão implica necessariamente a redução do mundo objetivo a modalidades intelectivas (no caso da física, reduz o mundo objetivo à matematização do mundo objetivo). Não é de estranhar, portanto, que Einstein exaltasse a prodigiosa capacidade que a realidade tem de expressar-se matematicamente: realidade, para ele e muitos outros, é precisamente aquilo que pode ser matematizado, eliminando por definição a possibilidade de uma realidade não-matematizável.

Esse est percibi (‘ser é ser percebido’): é lembrando esse dito escolástico que Wolfgang Smith deixa evidente o abismo entre um objeto corpóreo e a sua representação matemática ou física. Em vez de o objeto corpóreo representar a simples soma de partículas sub-atômicas matematizáveis, sugere-se um salto ontológico entre os dois domínios. A relação entre eles é desconhecida porque para chegar de um a outro teríamos de somar, além das partículas sub-atômicas, a relação entre elas e todas as qualidades não quantizáveis do objeto resultante – por exemplo, a qualidade que todo ser vivo tem de não poder estar vivo e morto simultaneamente. Mas essa soma nós não sabemos fazer.

A mecânica quântica impõe a distinção dos dois domínios porque, nela, a redução do corpóreo ao físico (no sentido de Wolfgang Smith) passa de meramente esquisita a absurda. Antes tínhamos de ‘conviver’ com planos perfeitamente lisos, velocidades eternamente uniformes etc.; com a mecânica quântica, seria necessário aceitar também bolas de baseball com movimento ondulatório e gatos simultaneamente vivos e mortos. É nesse ponto que os físicos lost their grip on reality (nas palavras de um deles, Nick Herbert).

Smith se identifica com o princípio da incerteza de Heisenberg porque, apesar de ainda não haver a distinção entre o universo corpóreo e o físico, Heisenberg deixa claro que a incerteza está na medição que fazemos do sistema, não no sistema em si. A mecânica quântica, portanto, não abdica do determinismo; apenas não consegue explicar o processo de ‘atualização’ que se dá do domínio físico para o corpóreo.

Que há uma relação de potência unindo os dois domínios é, então, o máximo que se pode afirmar a princípio. Os objetos que percebemos normalmente são atualizações de potências presentes no universo físico (e quanto menos conhecemos o universo físico, ou seja, quanto mais livre de restrições ele é, maior e mais imprevisível é a amplitude de possíveis atualizações). A distinção aristotélica de potência e ato resolve um problema mas levanta uma outra pergunta: quem (ou o quê) seria o agente atualizador?

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Aristóteles e a física quântica (pt 1)

Frederick Copleston, no primeiro volume do A History of Philosophy, alerta contra a tentação de considerar Parmênides o primeiro idealista, já que, apesar de Parmênides ressaltar a diferença entre objetos da razão e objetos sensoriais, e afirmar a precedência dos objetos da razão, parece claro que o Uno de que falava (completo, indivisível e imutável) era material. Ao falar que o Uno não poderia ser maior ou menor em determinado lugar em relação a outros, Parmênides chegou à conclusão inevitável de que o Uno deveria ser esférico e, concluimos nós, material. Parmênides seria então um materialista, não um idealista.

Apesar de materialista na prática, Parmênides enfatiza mais que qualquer outro até então a diferença, central para o idealismo, entre o mundo percebido pelos órgãos do sentido e o mundo refletido intelectualmente. Alguém que postula a inexistência da mudança e do movimento não poderia, convenhamos, deixar de fazê-lo. Ainda que outros antes dele tenham postulado realidades não exatamente perceptíveis a qualquer transeunte desinteressado (Tales com seu princípio da água, ou Heráclito com seu princípio do fogo e a ênfase na mudança), é Parmênides o primeiro a realmente insistir na cisão entre verdade e aparência, entre percepção racional e percepção sensorial.

Para Parmênides, o Uno (ou o Ser) é indivisível porque, se não o fosse, teria de ser divisível por algo que está fora do Ser. Se está fora do Ser, é nada, e o nada nada faz, muito menos dividir o Ser. O Ser também é completo porque nada lhe podemos acrescentar (o que acrescentássemos ao Ser seria também Ser). E, finalmente, o Ser é imutável porque qualquer transformação só poderia concebivelmente vir do Ser ou do não-Ser; não poderia vir, porém, do não-Ser porque do nada nada vem, e se vem do Ser não há transformação porque o Ser já é. Fica assim negada qualquer possibilidade de transformação e/ou movimento.

Aristóteles destrói a imutabilidade do Ser de Parmênides com, nas palavras de Wolfgang Smith, ‘one of the great master-strokes in the history of philosophy’: a noção de potência. X, sendo X atualmente, pode ser Y em potência, isto é, pode chegar a ser Y num momento futuro. A transformação do Ser, então, não vem nem do não-Ser nem do Ser atual, mas do Ser considerado como uma matriz de possibilidades.

A aparente banalidade dessa descoberta não resiste à inspeção de algumas de suas aplicações mais ilustres (S. Tomás de Aquino), muito menos à aplicação que o próprio Wolfgang Smith tem para ela: resolver paradoxos da física quântica (leia o texto aqui)! A existência de dois mundos ao que tudo indica paralelos, o das partículas quânticas e o dos corpos macroscópicos vem incomodando a consciência de muitos físicos desde 1925. Se podemos até medir comprimento de onda do movimento de uma partícula sub-atômica, por que não teria uma bola de baseball um movimento também ondulatório? O que acontece de tão misterioso na passagem de um domínio para o outro?

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O país da sexta camada

Depois de uma série de aulas mais ou menos repetitivas, a aula 83 do curso de filosofia trata de um assunto que deveria interessar a nós todos, as 12 camadas da personalidade. Assim como em toda esquematização, corre-se o risco de pensar apenas segundo seus termos; eu mesmo, assim que terminei de ver a aula, mal pude refrear a vontade de descobrir em que camada está cada um dos meus conhecidos, eu incluso.

Por cortesia, falo só de mim mesmo ou de alguma coletividade anônima. O que pude perceber é que hoje sou particularmente intolerante com deficiências típicas de camadas que eu mesmo tive dificuldades em superar. Na quinta camada (ego, autoconsciência e individuação) somos chamados a nos reconhecer como agentes criadores, cuja interferência pode não trazer um resultado objetivo mas é pelo menos reconhecível e reconhecida. O brasileiro é ótimo nisso: ainda que não se saia tão bem nos assuntos práticos da vida, está sempre disposto a vangloriar-se e a superestimar os próprios poderes. Curiosamente, a timidez, a auto-comiseração e a insegurança me incomodam mais que o triunfalismo tipicamente brasileiro. Segundo consta, apenas ajuda psicológica funciona nesse caso; qualquer ajuda material pode fazer o sujeito aprofundar-se na desconfiança de que está perdido se deixado às suas próprias forças. Eu já sabia que não tinha vocação para a psicologia, agora posso explicar por quê.

Na passagem da quinta para a sexta camada, o que interessa são os resultados objetivos de nossas ações: resolver problemas cotidianos (pessoais e profissionais), pagar as contas etc. Se um dia me acusarem de exigir demais do brasileiro, poderei responder que não espero mais que proficiência na sexta camada: metade do espectro humano parece uma expectativa razoável. Antes de dar pela falta de bons escritores, filósofos, críticos de arte e músicos, talvez valha a pena exigir melhores garçons, gerentes de agências bancárias, caixas de supermercados etc. Se é possível ser o presidente mais popular da história do país apenas com isso, ainda há espaço para otimismo.

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Eu, substantivo

Nota: neste post há spoilers do Inception.

Na aula 64 do curso online, o Olavo faz um resumo de aulas anteriores com ênfase no tema mais importante, o ‘eu substantivo’ ou ‘eu profundo’ ou ‘alma imortal’, aquilo que realmente somos. O que somos, segundo esse conceito, transcende corpo e mente abrangendo-os: quando digo ‘eu’, certamente não me refiro somente a meu corpo e à minha mente, mas também a eles. Na realidade a ‘alma imortal’, sendo perene, é maior que qualquer universo físico imaginável.

A maneira mais fácil de perceber isso é, acho, lembrar que quando pensamos em uma pessoa, pensamos sobre ela, não pensamos ela própria. Se não fosse assim, ela deixaria de ter existência autônoma e seria apenas um objeto do meu pensamento. Da mesma maneira a idéia que faço de mim é apenas um pensamento, não sou eu mesmo; eu, porém, não deixo de existir por isso. Sendo assim, o ‘eu substantivo’ (o meu e o de qualquer outra pessoa) não pode ser conhecido por pensamento; só pode ser conhecido por intuição ou por ‘conhecimento por presença’.

Já vi o Inception, último filme do Cristopher Nolan, sendo criticado por brincar com a noção de realidade, por dissolvê-la na atmosfera do sonho etc. Na realidade o que ele faz é o contrário: no final das contas, Cobb desiste do sonho porque Mal, sua finada esposa e, no sonho, uma projeção de seu subconsciente, é uma ‘sombra’ quando comparada à Mal real, a Mal-substantiva. Sendo apenas um pensamento, não poderia ser mais que sombra; quando gostamos de alguém, gostamos do ‘eu substantivo’, não dos pensamentos que ele suscita. Se esse último caso fosse verdadeiro, não precisaríamos lamentar a morte de ninguém.

Outro ponto é que o filme jamais questiona a precedência do estado de vigília sobre o de sono; todos os personagens (exceto as vítimas dos golpes, que apenas de maneira precária são enganadas) parecem estar cientes da distinção entre os dois. Perto do questionamento radical de Descartes, um sonho em que nos basta girar um totem para sabê-lo sonho é brincadeira de criança. Ainda que todo o primeiro plano da ação do filme seja também um sonho, como a tomada final sugere, por que teríamos motivos para nos alarmar se o percebemos tão facilmente? Basta que Cobb preste atenção ao seu totem para percebê-lo também.

Diferentemente do pesadelo de Descartes, aqui o trânsito entre sonho e realidade é até bem previsível: há relação de proporcionalidade entre o tempo transcorrido em ambos; sabe-se o que acontece após a morte em sonho etc. Mais importante que tudo isso, todos os sonhos, não importando em que nível estejam, só fazem sentido quando confrontados com a realidade, e esta nunca deixa de ser reconhecida como tal. De certa maneira, Inception é o mais realista dos filmes.

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Sir Isaac não andava de ônibus

Ainda no tema da percepção direta da realidade, vejam que o John Derbyshire, nesse artigo, praticamente declara a total inépcia do que ele chama ‘folk metaphysics’ para lidar com os cada vez mais complexos problemas da ciência moderna. A mente humana individual não vai ser de muita serventia ao investigar a estrutura profunda da realidade, devendo ser substituída, suponho eu, pelo miraculoso ‘método científico’. Não me perguntem quem estaria a guiar o tal método científico; logicamente falando, se não é a mente humana individual, só pode ser a mente humana coletiva, isto é, o consenso científico ou algo que o valha.

Derbyshire sugere que a metafísica folk começa a falhar por volta de 1870, citando como exemplo disso a surpresa (surpresa de quem?) ao constatarmos que a reação de sódio com cloro, em circunstâncias propícias, gera o cloreto de sódio ou sal de cozinha, substância radicalmente diferente de seus componentes (um gás venenoso e um metal bastante reativo). Provavelmente Derbyshire também se surpreenderia se lhe constassem que íons de cloro em solução aquosa tampouco têm muita coisa a ver com um gás venenoso, assim como cátions de sódio não são em si metálicos ou sequer palpáveis… ginasianos de química estudam essa e outras reações parecidas com muito mais tédio que assombro, num tópico vestibulando chamado química inorgânica.

Assim ficamos sem saber se a metafísica folk é tão-somente percepções intuitivas e individuais da realidade ou se é a tentativa desastrada de aplicar princípios metafísicos daí extraídos (como o ‘like can only come from like’) a ordens eminentemente não-metafísicas, como a de uma simples reação química. Se estamos no segundo caso, é preciso reconhecer que ela não servia nem em 1870 nem nos séculos anteriores, que já conheciam a bombástica reação do sal de cozinha.

É ao falar das leis de movimento de Newton, porém, que o artigo de Derbyshire cai de uma vez no ridículo. Aí vai o resuminho que ele faz:

Sir Isaac: An object in uniform motion stays that way until a force is applied.

Folk Metaphysician: No it doesn’t. Objects set moving on the level always roll or slide to a stop. Things moving through the air fall to the ground, unless they’re flying. On water, things get carried every which way by currents, and sometimes sink.

Sir Isaac: Apply a constant force to a constant mass, you’ll get steady acceleration.

Folk Metaphysician: A horse pulling a wagon is applying constant force to constant mass, isn’t it? So if your so-called “law” is true, why wasn’t 19th-century America full of horses and wagons zipping around at hundreds of miles an hour? Huh?

Sir Isaac: Every action generates an equal and opposite reaction.

Folk Metaphysician: So when I push on this wall with my hand. the wall pushes back? What, there’s a little hand in the wall pushing back at mine? Hoo hoo hoo! How’s it know when to stop pushing? Ha ha ha ha!

No primeiro caso, a objeção do folk metaphysician está totalmente correta: não seria possível construir uma ponte ou uma estrada ou qualquer coisa sem levar em conta o efeito do atrito, o mesmo que impede que os objetos continuem se movendo indefinidamente. No segundo caso a objeção poderia ser feita por um aluno de 12 anos que leu sobre força de Newton pela primeira vez, sendo suficiente para acabar com a confusão um professor que lhe explicasse que uma força de atrito dinâmico, de mesma magnitude e em sentido contrário, atua sobre a carroça zerando a força resultante e fazendo com que ela se mova em velocidade aproximadamente constante. No terceiro caso a objeção, creio eu, só existe na cabeça de Derbyshire. Nunca vi semelhante disparate sendo formulado, e vejam que estudei no Brasil. É claro que a parede atua sobre nossas mãos, ou não sentiríamos dor ao socá-la.

Uma objeção mais inteligente à lei da ação-e-reação de Newton seria observar que, quando estamos num ônibus em processo de frenagem, somos empurrados para frente sem que exerçamos força de reação em quem quer que seja. Temos aí um exemplo de folk metaphysics, e de folk que anda em ônibus, fazendo frente aos desafios da ciência moderna. Hoo hoo hoo! Ha ha ha ha!

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Razão espontânea

Na aula 20 do curso de filosofia, Olavo de Carvalho fala da diferença entre razão espontânea e razão refletida. Dá como exemplo de razão espontânea a percepção pré-analítica de um esquema probabilístico, como o resultado em um jogo de cartas. Digo pré-analítica porque o sujeito parece perceber quais são as alternativas mais vantajosas antes mesmo de considerar detidamente a formulação matemática do problema (os jogadores ficam com as palmas das mãos suadas sempre que optam pela alternativa mais arriscada). Apesar de a conclusão mais comum ser atribuir esse conhecimento à inconsciência, o Olavo objeta que esse tipo de conhecimento é tão consciente quanto as considerações matemáticas posteriores, sendo que estas últimas nos dão mais segurança apenas porque são criações dirigidas por nós mesmos, e não algo que nos chega diretamente da realidade.

O ponto que mais me interessa nessa discussão toda é, claro, como aperfeiçoar a razão espontânea. Alguém fez essa pergunta durante a aula e o Olavo aconselhou a simples abertura intelectual à realidade, a rejeição do senso-comum pré-fabricado etc. Parece mesmo difícil conceber uma maneira de treinar esse tipo de razão, tanto que, na faculdade, quando deparávamos com um exemplo de razão espontânea prodigiosa, atribuíamos o ocorrido à ‘inteligência’ do sujeito. Só posso dar exemplos da engenharia porque tenho muito pouca experiência com temas filosóficos.

Na faculdade de engenharia, a minha impressão era a de que todos os alunos tinham a faculdade de razão refletida mais ou menos equivalente; qualquer discrepância pontual era facilmente explicada por falta de estudo do assunto específico. Já a razão espontânea variava muito, especialmente em problemas de visualização geométrica. Enquanto alguns sofriam para projetar interseções de planos ou desenhar sólidos a partir de suas projeções, outros faziam-no automaticamente e sem precisar seguir o procedimento canônico (o procedimento na mais das vezes os atrapalhava).

Outro aspecto curioso da razão espontânea é que, além de distribuída desigualmente entre os seres humanos, ela parece ser heterogênea também dentro de cada um deles: enquanto alguns tinham-na desenvolvidíssima para a geometria descritiva e pífia para a álgebra linear, outros, que não podiam desenhar uma pirâmide a partir de suas projeções, intuíam a diagonalização de matrizes sem conhecimento prévio do procedimento.

Um dos meus melhores amigos da época era quase infalível em estimações aleatórias, como acertar a área superficial do continente africano ou do corpo humano, o peso dos livros em uma biblioteca ou o número de bolas de tênis necessárias para encher uma sala. Numa das vezes em que tentou melhorar a estimativa com cálculos, acabou piorando o número.

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O coeficiente de desconhecimento

Entrei um pouco atrasado no curso de filosofia do Olavo de Carvalho, mas acho que ainda consigo alcançar o bonde. Nas primeiras aulas ele fala muito da dificuldade de suprimir o hiato entre discurso filosófico, conceitos universais etc. e a experiência real. Parece que as pessoas desdenham uma apreensão exata da experiência real porque (a) ela seria banal, sendo portanto mais interessante ir direto às fantasias mirabolantes, ou (b) ela seria impossível. No item b incluem-se relativistas, desconstrucionistas etc. que dizem, entre outras coisas, que o que vemos não são os objetos em si, mas uma manifestação fenomênica particular. Por exemplo, podemos ver um elefante pelo lado direito e a 10m de distância, ou a 20m de distância, mas nunca o elefante global, o elefante em si. 

Assim como há os que acham que podemos saber tudo (e se empolgam), há os que acham que não podemos saber nada (e se desesperam). Essa observação do elefante é o tipo da coisa boba que acaba sendo aceita quando expressa em linguagem acadêmica, e simplesmente porque ninguém está treinado pra negar o que é obviamente falso. O Olavo observa que a limitação (se vamos considerar isso uma limitação…) de não podermos observar o elefante dos dois lados simultaneamente corresponde à ‘limitação’ do elefante de não poder se mostrar da mesma forma.

O coeficiente de desconhecimento, então, é a medida do que não é potencialmente conhecível: não sabemos não por falha nossa, mas porque tem de ser assim. Acho engraçado quando esses conceitos encontram correspondentes científicos: ninguém sai por aí dizendo que a física está acabada porque não podemos conhecer, exata e simultaneamente, a posição e o momento linear de uma partícula. Pois é precisamente isso que enuncia o princípio da incerteza de Heisenberg: o produto das incertezas de cada grandeza é sempre maior que uma dada constante (no caso, a constante de Planck reduzida dividida por 2), isto é, se conhecemos com precisão a posição da partícula, pouco sabemos sobre seu momento linear.

Mais uma vez, há quem ache que se trata de uma limitação do observador (como o próprio Heisenberg), e há quem acredite que se trata da natureza mesma do sistema, assim como descrita pelas equações da mecânica quântica. O elefante fica mais complexo e nós ficamos mais calmos.

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Há metafísica na matéria

Ideas have consequences, do norte-americano Richard M. Weaver, é um daqueles livros que, se fossem lidos e meditados por adolescentes entrando na faculdade mundo afora, melhorariam radicalmente a humanidade. Juntamente com o La rebelión de las masas do Ortega y Gasset e o Orthodoxy do Chesterton, ele deveria estar na cabeceira de todos os jovens. Assim como os outros dois, ele tem a capacidade, especialmente admirada por espíritos apressados, de concentrar em poucas páginas uma quantidade atordoante de comentários revolucionários (ainda que não necessariamente originais). Aproprio-me dos termos ‘radical’ e ‘revolucionário’ com gosto: por mais que o leitor discorde do autor, sai com a inarredável impressão de ter visitado terrenos inauditos.Veja-se como exemplo disso o que Weaver tem a dizer em seu sétimo capítulo, chamado the last metaphysical right. Depois de expor em seis capítulos o mundo que ele acredita decadente, chega a hora de sugerir um plano de ação. A que princípio devemos apelar num mundo que aprendeu a viver sem metafísica? Ao último princípio metafísico que nos resta: o da propriedade privada. Aqui há duas observações: (a) o respeito à propriedade privada é dito metafísico porque funciona independentemente de, ou até a despeito de, sua utilidade social, não se reduzindo a mero utilitarismo e (b) a longevidade desse princípio é nada menos que impressionante quando se considera a força que já tiveram alguns de seus adversários. Hoje, se queremos chegar a uma unanimidade numa democracia, o mais seguro a fazer é apelar ao direito à propriedade privada, talvez até mais que ao direito à vida(*).

Nas mãos das criaturas descritas nos seis primeiros capítulos do livro, o respeito pela propriedade privada pode se transformar, é certo, em mais um artifício para esmagar o pouco de metafísica que resta no mundo. Sob orientação mais saudável a coisa muda de figura por vários motivos:

– A propriedade privada está associada à dignidade pessoal porque o que possuimos também nos define. Por mais que seja danoso lembrar-se disso com muita frequência, minhas roupas e objetos pessoais também fazem parte do que se entende por Igor;

– O exercício da virtude só é possível num ambiente que encoraja a escolha sob responsabilidade individual; ninguem pode ser prudente ou generoso em relação a bens materiais sem haver antes uma relação direta de propriedade. Weaver observa que costumava ser motivo de orgulho para uma família dar o nome do clã ao produto por eles produzido; há aí um compromisso de qualidade e de responsabilidade que é pulverizado assim que as corporações se tornam impessoais ou, como a própria expressão em português traduz bem, ‘sociedades anônimas'(**).

– O princípio da propriedade privada é tão dogmático quanto qualquer dogma religioso. A maneira mais certa de encerrar uma discussão sobre o que fazer com meus pertences é simplesmente lembrar que eles são meus pertences. Quem se arriscaria a dizer de onde vem tanta autoridade?

Por mais doloroso que seja admiti-lo, partimos de princípios dogmáticos o tempo todo. Seria impossível viver de outra maneira, assim como seria impossível ao matemático provar que a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180 graus sem aceitar o quinto axioma de Euclides. Dizem que o esquerdista é quem leva adiante um raciocínio mesmo sem acreditar em seus pressupostos; eu diria que quem faz isso é maluco.

(*) Quando eu era criança, apenas duas coisas me afligiam no mundo das idéias – a primeira lei de Newton (princípio da inércia) e o direito que temos de dispor de nossos bens mesmo depois de mortos, isto é, o direito de deixar um testamento. No primeiro caso, vemos a fácil aceitação, por parte de uma população altamente empirista, de um princípio que pode ser tudo, menos empírico; no segundo, vemos o direito a dispor de propriedades persistir mesmo depois de suspenso o direito à vida.

(**) Crises financeiras como a que acabou de abater o mundo só poderiam existir num contexto de sociedades (e de indivíduos) anônimos. Longe de representar o princípio da propriedade privada na prática, a especulação financeira subtrai o elemento mais importante da aliança: o proprietário.

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Nietzsche, um filósofo visceral

É sempre uma satisfação resgatar expressões em desuso ou em mau uso: Nietzsche foi, principalmente no Ecce Homo, espécie de introdução geral para sua própria obra escrita poucos meses antes de ele enlouquecer, um filósofo visceral. Segundo consta, esse livrinho teria sido, em 1908, tema de uma das reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, na casa de Freud. Freud teria dito que o livro não poderia ser desconsiderado como produto da insânia porque ainda há nele o domínio da forma, e acrescento que, em verdade, o conteúdo também é coerente com o que Nietzsche vinha escrevendo até então. O mais curioso é que Freud se limitava a discutir o ‘caso Nietzsche’, e não suas idéias, porque, dada a semelhança entre as invenstigações psicanalíticas e as do filósofo, seria interessante preservar a ‘independência de espírito’. Freud chegou a dizer que a riqueza das obras de Nietzsche era tamanha que o impedia de ler mais de meia página (!?) de seus livros, mas cumpre advertir que o artifício de evitar leituras para preservar a pureza de espírito foi, até onde eu saiba, enunciado pela primeira vez pelo próprio Nietzsche. No Ecce Homo já lemos:

Apenas meus olhos puseram fim à bibliofagia, leia-se “filologia”: estava salvo dos livros, nada mais li durante anos — o maior benefício que me concedi! — Aquele Eu mais ao fundo, quase enterrado, quase emudecido sob a constante imposição de ouvir outros Eus (– isto significa ler!), despertou lentamente, tímida e hesitantemente — mas enfim voltou a falar.

Os indícios de loucura são perceptíveis não em incoerências de forma ou de conteúdo, mas nos arroubos de imodéstia e na obsessão pela saúde, digamos, intestinal. Justiça seja feita mais uma vez: não há nada aqui que já não tenha sido anunciado em obras anteriores, apenas agora os ânimos estão exacerbados. Os conselhos dietéticos são, diga-se, uma diversão à parte:

Uma refeição forte é mais fácil de digerir do que uma demasiado ligeira. Que o estômago entre inteiro em atividade, primeira condição para uma boa digestão. Deve-se conhecer o tamanho do próprio estômago. (…) Nada entre as refeições, nenhum café: café obscurece. Chá, somente de manhã benéfico. Pouco, porém vigoroso: é prejudicial e debilitante por todo o dia quando fraco demais, mesmo que por um mínimo. (…) Ficar sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras.

Devo confessar que simpatizo bastante com a hipótese de uma relação estreita entre dieta (e clima) e disposição intelectual (“o clima alemão em si já é suficiente para desencorajar vísceras fortes, de disposição heróica inclusive (…) Paris, a Provença, Florença, Jerusalém, Atenas — esses nomes provam algo: o gênio é condicionado pelo ar seco, pelo céu puro”), apesar de não ir tão longe quando Nietzsche gostaria. Se Nietzsche já tinha deixado claro que noções como ‘pecado’, ‘alma’, ‘compaixão’ etc. são invenções perniciosas de espíritos ressentidos, de espíritos que dizem ‘Não’, ficamos sabendo no Ecce Homo que a dieta e o clima substituem-nas como as únicas coisas que de fato importam em nossas vidas.

Quem já leu o The Abolition of Man, do C. S. Lewis, deve achar esse detalhe bem sugestivo. Nele, Lewis argumenta que a tentativa de produzir juízos de valor sem o auxílio de um código absoluto, inquestionável etc., isto é, amparado apenas no Instinto, ou na Utilidade, ou em algo que o valha, é um exercício fútil porque, cedo ou tarde, o sujeito acaba tendo de se amparar em algo que ele negava de início, a saber, um princípio inquestionável. Por exemplo, quem acredita que preservar a espécie não passa de um instinto, tem de explicar porque devemos obedecer a esse instinto e não ao seu antípoda, o de destruir a espécie. Se dizemos que um instinto é melhor, ou superior, ou mais profundo, ou mais urgente, que outro, já partimos para um juízo de valor que não é em si instintivo. Nietzsche não comete esse erro porque ele não deseja estabelecer uma nova valoração; ele gostaria de suspender toda noção prévia de valor. Devemos admitir que essa proposta ao menos não é auto-contraditória.

Lewis lida com essa proposta, apesar de não se referir explicitamente a Nietzsche, ao falar da suspenção total de valores. Se não podemos apelar a princípios absolutos, conhecidos de todos (princípios que não admitem dedução lógica), só nos resta apelar à vontade arbitrária de quem quer que esteja em posição de arbitrar, os quais formam o grupo que Lewis chama the Conditioners. O conditioner de Lewis é o super-homem de Nietzsche: o sujeito para quem noções clássicas como bem e mal perderam o significado porque ele mesmo tem liberdade de definir o que é bom e mau. O que está sob julgamento não pode ser também juiz. Apesar de isso ser aparentemente a liberdade suprema, resta a pergunta: o que condiciona os condicionadores? Lewis responde:

By the logic of their position they must just take their impulses as they come, from chance. And Chance here means Nature. It is from heredity, digestion, the weather, and the association of ideas, that the motives of the Conditioners will spring.

Arquivado em:Filosofia, Psicologia

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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