Parnaso

Fetiche acadêmico

Das possíveis vantagens que um curso superior não-técnico pode oferecer, a maioria depende de uma boa dose de sorte. É razoável esperar uma boa biblioteca; um professor que sirva de guia, nem que seja por apenas 4 anos (ou 1 ano), já nem tanto. Há quem se beneficie de certa regularidade e disciplina impostas desde fora. Se você for ao exterior, pode até se inspirar com a estátua de um alumni famoso ou com dizeres em latim. Especialmente no Brasil, a passagem pela universidade é uma concessão utilitária.

Ainda que utilitária, indispensável aos desprovidos de talentos acima da média. Mesmo a maioria dos que têm talentos acima da média também frequentou a universidade, seja por automatismo, por insistência familiar, ou só ‘pra garantir’. É notável a irrelevância que a experiência propriamente acadêmica tem na vida universitária (o que dizer da vida em geral?) do brasileiro que não resolveu seguir carreira na universidade; os que ainda lembram como formatar textos qua ABNT devem ser felicitados. Nem sequer o orgulho identitário típico de grupos fechados sobreviveu porque, bem, não há mais grupos fechados.

A maneira como os cursos de pós-graduação se desenvolveram reflete isso; eles ensinam a gerenciar empresas e a lidar com pessoas (!), não a estudar. Se o interesse último do curso de graduação passou aos poucos a ser o mercado de trabalho, o MBA nunca pretendeu ocupar-se de outra coisa. Isso não quer dizer que a carreira acadêmica seja um contraponto saudável à lógica utilitarista; o acadêmico desenvolveu um mercado à sua maneira, tão ou mais formal e burocrático que o dos administradores. O mestrado e o doutorado são agora o ritual iniciático de grupos que, diferentes dos antigos, nada têm a nos dizer mesmo sem ser secretos.

Apesar de os acadêmicos influírem cada vez menos na opinião pública, ainda apelamos nominalmente a eles, numa espécie de reverência hierárquica, em momentos de dúvida. O que o Prof. Fulano de Tal acha sobre a celeuma no Oriente Médio? Ouvimos e esquecemos, mas com muito respeito porque o sujeito tem um diploma pendurado na parede.

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Novo endereço

Bem-vindos ao WordPress.

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‘With or without you’ em cerimônia de casamento

Bola fora ou é só impressão minha?

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Na lavanderia

— Pra terça não dá, tem jogo do Brasil.

Não se usam calças em dia de jogo do Brasil?

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Depois de três meses em Santa Catarina…

Minha opinião sobre Santa Catarina ainda é, creio, ambígua.

Morei em Balneário Camboriú, então estive em contato direto com o frenesi juvenil do lugar, o que pode ser desvantajoso num domingo à noite. Conheci o lado mais tradicional do estado em Blumenau, num festival de chopp em que vovôs dançavam com os netos, e em Brusque, comprando toalhas e malhas de frio. Espero um dia tomar um chopp Eisenbahn com meu neto; espero que ele não precise ir a Brusque pra comprar toalhas.

Balneário, apesar de bem arrumada, não consegue escapar à sina das cidades litorâneas: péssimo atendimento em hotéis e restaurantes, comida sem graça, malandro de sunga no elevador etc. Uma desvantagem peculiar do local é a quantidade assombrosa de argentinos e uruguaios malcriados. Comparado com o Rio, temos ainda um paraíso: as praias são mais bonitas e as banhistas não fazem por menos.

Não estou voltando a São Paulo por opção própria, mas confesso que certas facilidades da cidade grande já estavam fazendo falta, como poder mandar o carro para a oficina depois das 18.00h e comer um hamburguer depois das 2.00h. Por algum motivo nada misterioso, praia não combina com trabalho depois do expediente.

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Testando o gerundismo na balada

– Eu gostaria de estar sabendo o que eu poderia estar fazendo para estar me aproximando de você.

– Hã?

– Oi, tudo bem?

– Oiii…

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The Larry David Syndrome

A síndrome de Larry David consiste em imitar o Larry David. Existem dois tipos de ídolos – os que queremos imitar e os que preferimos admirar contemplativamente, sem manifestações externas. Se não fosse pelo fato de ser milionário e poder pegar a mulher que quiser, não sei se muitos gostariam de ser o Larry David; então não sei dizer se a LDS, com essas enormes ressalvas, é patologia rara.

Uma coisa é certa: a satisfação de tratar as pessoas com a seriedade que elas merecem é impagável. Como estou de férias e vou me mudar em breve, sinto-me livre para imitar o Larry David nas mais diversas ocasiões – restaurantes, bares, consultórios médicos, reuniões familiares etc. Quando não julgam que sou louco, as mulheres adoram. Espero um dia conseguir voltar a levar as pessoas a sério.

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Depois de três meses no Rio…

Certas coisas passam de inaceitáveis a guilty pleasures e daí a completamente naturais numa velocidade que chega a surpreender. O funk é um caso sintomático: parece haver um acordo silencioso segundo o qual os homens não o ridicularizam para que as mulheres possam continuar dançando sem tanto peso na consciência. Assim sai todo mundo ganhando: as mulheres podem dançar sem ser consideradas alienígenas e os homens podem assistir a tudo sem o estigma da depravação. O entretenimento no Rio de Janeiro vive desse acordo.

A inserção dessas maluquices no que é considerado socialmente aceitável desafia a nossa criatividade. É como se um sujeito dissesse numa conversa informal que desertou do seu pelotão numa guerra e nós tivéssemos de rebater com um comentário conciliador, ‘ah, essas guerras são complicadas mesmo’. O sujeito dá uns tapas na mulher e nós observamos que a moça era realmente insuportável. Quando me perguntam o que acho do funk, observo que no estado do Rio de Janeiro não há nada mais natural, deixando por conta do interlocutor a associação entre a frequência de um evento e sua razoabilidade.

De todos os brasileiros que conheci até hoje, os fluminenses parecem ser os mais orgulhosos de sua terra (seguidos de perto por mineiros e cearenses). De fato há por lá muitas belezas naturais, humanas ou não, mas minha impressão geral foi a de que a desordem impera. Como diria uma atriz global aterrorizada com a capital, ‘a lei não funciona e os carros páram em cima das calçadas’. Eis aí mais um bom termômetro civilizacional: o respeito às vagas de estacionamento.

Depois de algum esforço consegui convencer meus amigos cariocas a reconhecer que o carioca é mais malandro. A amizade tem dessas coisas constrangedoras: cariocas sendo levados à sinceridade sobre si mesmos! O certo é que eles personificam como ninguém (à exceção talvez dos baianos, os cariocas do nordeste) o caráter brasileiro. Sobre o caráter brasileiro creio já ter falado até demais por aqui. Fica então minha despedida ao Rio, terra muito bonita para onde espero não ter de voltar tão cedo, a menos que de férias.

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Um post autobiográfico

Desde ontem sou engenheiro mecânico-aeronáutico, mas me atenho à primeira metade do termo por gosto e aptidão. A convicção nunca foi tanta que não me fizesse pensar em desistência algumas vezes nesses últimos 5 anos: talvez eu deva agradecer à minha inércia. Achei que seria razoável encerrar o ciclo sem implicar com o discurso prafrentex e bobinho que costuma acompanhar essas ocasiões. 

Fiz algumas boas amizades no período, e é por essa e outras que de nada me arrependo. É bem provável que a maioria desapareça em breve, mas fazer o quê: outras surgirão, só não sei se com a mesma inteligência. Também é pouco provável que eu volte a pisar em São José dos Campos.

Percebi que comecei esse blog quando terminei o primeiro ano da faculdade e que, felizmente, não retiro tudo o que disse à época.

Termino com um poema do João Cabral de Melo Neto que sempre me pareceu uma visão simpática e coerente do engenheiro:

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O dilema da inteligência

O sujeito, quando dá conta de si no mundo, pode cair em uma de quatro categorias:

(a) Eu sou inteligente e o resto do mundo também. Essa parece ser a situação mais estimulante; há espaço para competições saudáveis e a vida é um cenário constantemente surpreendente. O simples canto do pássaro trai uma inteligência superior; tudo parece ser de uma complexidade ilimitada ainda que inteligível. Por outro lado, se o sujeito não se podar aqui e ali, começa a surgir uma arrogância panteísta, a idéia de que todas as mentes somadas formam o deus infalível do intelecto.

(b) Eu sou inteligente e o resto do mundo é meio burro. Situação típica nos jovens e nos loucos, e nos jovens loucos. Cada giro que o planeta dá sem minha supervisão parece um desperdício; por não se saber ao certo por que o mundo não pára para ouvir minhas instruções, crescem o senso de injustiça e o ressentimento. O ressentimento, por sua vez, pode fazer com que o louco fique perigoso ou que o jovem nunca cresça.

(c) Eu sou meio burro e o resto do mundo é inteligente. Imagino que aqui predomine um complexo de inferioridade destrutivo ou uma vassalagem resignada, a depender da índole do sujeito. Os mais fleumáticos não devem deixar de se maravilhar, e de se beneficiar, com os prodígios dos outros; os mais agitados vão se valer de meios alternativos como a violência.

(d) Eu sou meio burro e o resto do mundo também. Aqui a aridez intelectual desanima a todos; boas idéias são ceifadas desde a origem por pura incredulidade. O tédio predomina e as perspectivas de melhoras são ridicularizadas: não há salvação e é contraproducente pensar em semelhante fantasia.

Daqueles que ao menos param pra pensar no que vai acima, a maioria parece estar inserida na quarta categoria. Nós só não nos julgamos completamente burros (daí o ‘meio’) porque reconhecemos que há algo de errado. Ninguém nega que a inteligência existe, mas ela parece estar perdida no passado ou pulverizada no presente. O tipo de inteligência que indubitavelmente existe hoje, o tipo científico, perde o calor da novidade depois de pouco tempo — a menos que o sujeito, geralmente um da primeira categoria, não consiga perceber seus limites. Os inteligentes de hoje estão enganados e os de ontem entediados.

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Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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