Parnaso

Greed is good

Iludido pelo título desse artigo do Paul Krugman – America Isn’t a Corporation -, achei que leria algo sobre como a existência humana não se resume a economia etc. No fim das contas Krugman apenas argumenta que a existência humana se resume, sim, à economia, só que não à economia defendida pelos republicanos. O artigo é instrutivo porque resume em poucas linhas algumas das bobagens milenares que ouvimos sobre o assunto:

1) …and policy based on the notion that greed is good is a major reason why income has grown so much more rapidly for the richest 1 percent than for the middle class. Ou seja, pouco importa que a classe média tenha crescido ou que o número de pobres tenha sido reduzido, o que importa é que os ricos não fiquem mais ricos mais depressa que os demais. Em outras palavras, Krugman sugere a substituição do lema greed is good por envy is good.

2) And it turns out that there is at least a whiff of Gordon Gekko in his [Mitt Romney’s] time at Bain Capital, a private equity firm; he was a buyer and seller of businesses, often to the detriment of their employees, rather than someone who ran companies for the long haul. Fundos de private equity compram e vendem empresas em busca de um retorno positivo para o capital investido. O processo geralmente inclui substituição da alta gerência para melhoria de processos e reposicionamento estratégico – algo que idealmente qualquer empresa faria por conta própria. Dizer que tais melhorias acontecem em detrimento dos funcionários obsoletos é como dizer que a mecanização da agricultura acontece em detrimento de trabalhadores rurais obsoletos, ou que avanços tecnológicos acontecem em detrimento de todos. A observação do Krugman parte do pressuposto de que uma vez empregado o sujeito tem o direito de assim permanecer para sempre, algo que, ao que eu saiba, só existe em algumas esferas estatais. Esses fundos de fato não vão administrar as empresas para sempre, mas alguém o fará, e quem o fizer vai se beneficiar das melhorias implementadas pelos abomináveis compradores e vendedores de empresas.

Mais adiante Krugman questiona a idéia segundo a qual empresários não são as pessoas mais preparadas para administrar um país. Isso pode até ser verdade, mas não pelos motivos elencados por Krugman. Ele chega à brilhante conclusão de que the economy is vastly more complex than even the largest private company, o que, em termos lógicos, corresponde a dizer que correr é muito mais complexo que andar, então devemos pedir a ajuda dos que dormem e não a dos que caminham. O incremento de complexidade é só quantitativo ou também qualitativo? Se houvesse empresas do tamanho da economia americana os empresários passariam a ser aptos à tarefa?

O segundo motivo mencionado é que empresas vendem seus produtos para a população em geral e não para seus funcionários, enquanto países vendem a maior parte de sua produção para o mercado interno, ou seja, para seus ‘funcionários’. Assim sendo, redução de custos na empresa seria sempre benéfica porque aumenta o lucro dos donos e no governo sempre maléfica porque desestimula a economia.

Em primeiro lugar, vale observar que apenas alguém que realmente acredita na equivalência entre a administração de um país e uma empresa faria essa analogia – apenas uma minoria dos habitantes de um país são seus funcionários. E, no entanto, Krugman escreveu seu artigo para nos provar que o governo não é uma empresa! O que ele quer realmente dizer é que o governo é um tipo diferente de empresa, e que portanto o presidente precisa ser um tipo diferente de empresário – o tipo democrata, o tipo que não sabemos se seria um bom administrador de empresas, governamental ou não.

A administração de um país não é como a de uma empresa não pelos motivos listados por Krugman, mas porque nem sequer suas atribuições estão bem definidas – e defini-las é, aliás, uma das principais atribuições do governo. Enquanto a gerência de uma empresa privada procura remunerar seus acionistas dentro dos limites da lei, o governo precisa decidir se a pena de morte é aceitável, ou se imigrantes devem ser tratados como nativos, ou se professores de escolas públicas podem rezar o terço em sala de aula. Também precisam decidir se deveriam opinar sobre tudo isso.

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Guia de tresleitura

No mês de setembro, o caso mais exemplar de charlatanismo jornalístico que encontrei foi no blog da The Economist. Leiam o texto do “M.S.” aqui e o artigo do Dinesh D’Souza que gerou o comentário aqui. Como geralmente faço nessas ocasiões, li, por cortesia, a resposta antes de ler o artigo original. Assim eu deixo que o autor da resposta me mostre ele mesmo quais são os trechos do artigo original que ele considera dignos de serem citados sem que a minha leitura interfira no processo. Esse exercício me permite desconfiar que muita gente escreve respostas na esperança de que os leitores, já convencidos pela aparente razoabilidade da resposta, sintam-se desobrigados de ler o artigo original. De fato, na seção de comentários do blog da Economist há várias invectivas contra a simples necessidade de ler textos de ‘alguém’ como o D’Souza.

Logo no primeiro parágrafo, o M.S. conclui que o arrazoado de D’Souza não faz o menor sentido e cita uma conclusão a que este chega no vigésimo nono parágrafo de seu texto: If Obama shares his father’s anticolonial crusade, that would explain why he wants people who are already paying close to 50% of their income in overall taxes to pay even more. Qualquer pessoa que não tenha lido o artigo de D’Souza concordaria que a relação entre anticolonialismo e tributação parece meio maluca. A frase seguinte do texto original, porém, é essa: The anticolonialist believes that since the rich have prospered at the expense of others, their wealth doesn’t really belong to them; therefore whatever can be extracted from them is automatically just. Pode-se concordar ou discordar dessa visão do anticolonialismo, mas a essa altura não se pode mais alegar ignorância do nexo lógico da conclusão inicial. Antes de terminar o primeiro parágrafo de seu texto, M.S. dispara: Message to American billionaires and the people who write for them: many events and movements in world history did not revolve around marginal tax rates on rich people in the United States.

Como diria ele próprio, come again? Sugerir que a idéia de que qualquer acumulação de renda é injusta, e que portanto deve ser redistribuida, contribuiu para o crescimento desenfreado da tributação (especialmente sobre milionários) é então o mesmo que dizer que eventos da história mundial (provavelmente ele está se referindo ao anticolonialismo) giram em torno da tributação sobre milionários? Aqui o procedimento foi o seguinte: atribuir absurdidade, através da omissão de termos explicativos, a uma hipótese com que se pode discordar, mas que nada tem de absurda, e em seguida inverter sujeito e objeto da hipótese e atribuí-la novamente ao autor original. Só mesmo não tendo lido o artigo de D’Souza para não desistir dessa brincadeira após o primeiro parágrafo.

Mais adiante M.S. declara que entende perfeitamente como Barack Obama pensa, já que é assim que pensa a maioria dos que se dizem de centro-esquerda nos EUA. Isso nos leva a concluir que se qualquer grupo numeroso de americanos começar a morar em cima de bananeiras, M.S. entenderá perfeitamente como eles pensam.

No pouco espaço que lhe resta, M.S. ainda consegue (a) distorcer uma passagem do The Virtue of Prosperity, em que fica claro a qualquer leitor mediano que o D’Souza defende, sim, a igualdade de oportunidades — the government is obliged to treat all citizens equally — ao mesmo tempo em que enaltece as desigualdades de mérito e de inteligência; (b) tecer ilações levianas sobre a história da Índia e envolver a família de D’Souza na bagunça, apenas pra reconhecer mais tarde que era tudo brincadeirinha e que o conhecimento que D’Souza tem sobre o pai de Obama é comparável ao que ele mesmo tem sobre a história da Índia, isto é, nenhum; (c) perguntar aos céus por que, meu Deus, ainda lêem artigos como o de Dinesh D’Souza.

Já vi semelhante baixeza intelectual na mídia brasileira, mas não esperava coisa parecida na Economist. Por que, meu Deus, ainda lêem artigos como esse?

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A demonização da carne

 

Excetuando as peças oficiais protagonizadas pelo próprio presidente ou por colegas de partido, as que vão acima são as piores que já vi na vida. Elas primam, como é bem perceptível, pela sutileza.

A primeira pergunta a ser feita é: por que escolheram a carne? Não há indício de que a produção ilegal de carne bovina no Brasil seja um flagelo comparável a outros que existem indubitavelmente: economia informal, corrupção, sonegação de impostos etc. O terceiro vídeo inclusive fala em sonegação fiscal, mas haverá mais sonegação no campo ou na indústria? As grandes movimentações de dinheiro são mais ‘secretas’ nas grandes fazendas de gado de corte ou nas grandes estatais brasileiras? Num país em que há muitos problemas, exige-se certo senso de prioridades; o que levou o ministério público a priorizar o problema das carnes? A minha resposta a essa primeira pergunta fica para o fim.

Em segundo lugar, choca, ou deveria chocar, o fato de o MP denegrir justamente o setor da economia em que o Brasil se destaca. O Brasil é o segundo maior produtor de carne bovina do mundo; o maior exportador do mundo. Das 10 empresas que mais exportaram no Brasil em 2008, 4 são de bens de consumo. A JBS, que lida principalmente com carne bovina, aparece em 22o. lugar, com valor de exportação superior a 20% do valor de exportação da Embraer, produtora de aviões quase exclusivamente destinados ao exterior (apareceu aí a Azul, a linha aérea brasileira que paradoxalmente compra aviões brasileiros!). Resta alguma dúvida de por que a balança comercial brasileira ainda pára em pé? Nos setores da economia em que tropeçamos, damos um jeito de responsabilizar maldade, opressão e legado estrangeiros; naqueles em que nos destacamos, cometemos suicídio publicitário. Seria só burrice?

Vejam que no segundo vídeo o sujeito fala em trabalho escravo. Sobre esse assunto fala a senadora Kátria Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), nas páginas amarelas da Veja de algumas semanas atrás:

A Organização Internacional do Trabalho define o trabalho forçado como aquele feito sob armas, com proibição de ir e vir ou sem salário. Isso, sim, é trabalho escravo, e quem o pratica deve ir para a cadeia. O problema é que, pelas normas em vigor no Brasil, um beliche fora do padrão exigido pode levar o fazendeiro a responder por maus-tratos aos empregados. A NR-31 é uma punição à existência em si da propriedade privada no campo. (…) Imagine a seguinte situação: é hora do almoço, o trabalhador desce do trator, pega a marmita e decide comer sob uma árvore. Um fiscal pode enquadrar o fazendeiro por manter trabalho escravo simplesmente porque não providenciou uma tenda para o almoço do tratorista. Isso é bem diferente de chegar a uma fazenda e encontrar o pessoal todo comendo sob o sol inclemente. São duas situações diferentes. Mas elas provocam as mesmas punições. Isso confunde o pessoal do campo, que passa a se sentir sempre um fora da lei. 

Sempre desconfiei que as condições de trabalho nas fazendas brasileiras fossem tão desconhecidas pelos denunciadores de plantão quanto por mim mesmo, até então um completo desinteressado no assunto. Em outro artigo, publicado no Estadão, a mesma senadora continua:

Em quase todos os casos, os enquadrados como escravagistas não são processados. E por um motivo simples: não o são. As autuações trabalhistas que apontam prática de trabalho escravo são insuficientes para levar o Ministério Público a oferecer denúncias pela prática de infrações criminais. O resultado é que, enquanto isso não ocorre, o produtor tachado de escravagista fica impedido de prosseguir em seu negócio e acaba falido ou tendo de abrir mão de sua propriedade. A agressão, como se vê, não é somente contra o grande proprietário, mas também contra a agricultura familiar, cuja defesa é o pretexto de que se valem os invasores e difamadores. 

Então o MP, incapacitado de levar a cabo as denúncias contra colchões irregularmente fofos, faz o obséquio de espalhar em cadeia nacional que os grandes responsáveis pelo equilíbrio da balança comercial são em verdade ignominiosos senhores de escravos. Quem, afinal, terá melhores condições de descrever a real situação nas fazendas, o governo ou a CNA? Eis os números: “Os grupos móveis de fiscalização do MT percorreram, em sete anos – de 2003 até hoje -, 1.800 fazendas. A CNA, em 90 dias, percorreu mil fazendas e já está promovendo o circuito de retorno, para averiguar as providências tomadas.”

Além de completamente inúteis (por apenas promoverem uma transferência de responsabilidades preguiçosa e cínica, do tipo ‘já que não fazemos, faça você!, seja consciente!’, sem que haja a preocupaçao de fornecer meios para tanto, e sem que haja uma justificativa de por que essa responsabilidade deveria ser nossa), esses anúncios oficiais traem o preconceito brasileiro contra o agronegócio, que se acentua e chega às raias da loucura quando esse agronegócio inclui, como não poderia deixar de fazê-lo, a produção de carnes.

O único aspecto meritório das peças publicitárias é o visual; recomendo assistir no mudo, abstraindo as legendas. E bom almoço.

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Conservadorismo & Capitalismo

O fato de esquerdistas notórios serem avessos ao sistema capitalista (algo cada vez menos comum nos dias de hoje) criou a ilusão de uma parceria estratégica entre direita e capitalismo, ou, pior ainda, entre conservadorismo e capitalismo. É certo que direitistas devem ser capitalistas, mas também é certo que devem ser muito mais que isso. O capitalismo é um elemento necessário mas não suficiente, como diriam os matemáticos: é necessário porque não há alternativa; e, longe de ser suficiente, pode funcionar até como elemento destrutivo. Alguns dos elementos conservadores por excelência são muito comumente alienados na grande cidade; a dissolução de valores tradicionais é com frequência representada pela impessoalidade da megalópole e do burocrata dinheirista. Chega a surpreender que a Igreja, e que os críticos conservadores em geral, sejam ao menos levemente anti-capital? Não. Se é verdade que o capitalismo cria distinções úteis, é necessário algo que lhe dê sustentação, ou seremos vítimas de uma hierarquia que muda sempre. Russell Kirk a esse respeito:

This network of personal relationships and local decencies was brushed aside by steam, coal, the spinning jenny, the cotton gin, speedy transportation, and the other items in that catalogue of progress which school-children memorize. The Industrial Revolution seems to have been a response of mankind to the challenge of a swelling population: “Capitalism gave the world what it needed,” Ludwig von Mises writes sturdily in his Human Action, “a higher standard of living for a steadily increasing number of people.” But it turned the world inside out. Personal loyalties gave way to financial relationships. The wealthy man ceased to be magistrate and patron; he ceased to be neighbor to the poor man; he became a mass-man, very often, with no purpose in life but aggrandizement. He ceased to be conservative because he did not understand conservative norms, which cannot be instilled by mere logic — a man must be steeped in them. The poor man ceased to feel that he had a decent place in the community; he became a social atom, starved for most emotions except envy and ennui, severed from true family-life and reduced to mere household-life, his old landmarks buried, his old faiths dissipated. Industrialism was a harder knock to conservatism than the books of the French egalitarians.

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A mentalidade conservadora

Se tivéssemos de aceitar os critérios que o Russell Kirk, no The Conservative Mind, estabelece pra identificar o imaginário conservador, seríamos forçados a admitir que popular o conservador não pode ser; não hoje. É certo que já houve tempos mais propícios, mas o conservador não está tão em descompasso com a realidade atual quanto gostariam seus detratores. Alguns desses últimos acreditam piamente que:

(i) O conservador não tem senso de humor;
(ii) O conservador tem uma vida social subdesenvolvida;
(iii) O conservadorismo é mais reação que ação, mais inerte que criativo;
(iv) O conservador age por instinto e é intelectualmente despreparado.

Nem seria necessário chafurdar a biografia de conservadores notórios pra verificar que o primeiro item é falso. À medida que os adágios conservadores perdem popularidade, ganha importância a maneira com que são repetidos, e o humor parece ser o artificio mais eficiente nesse processo de reinvenção. Nelson Rodrigues conseguia lamentar o hábito feminino de usar biquinis em plena luz do dia sem parecer um velho recalcado; Chesterton exaltava a coerência de um conto de fadas sem parecer infantil. Isso pode não ser engraçado, mas é bom humor.

Quanto à vida social: essa sim é uma noção engraçada, e eu não saberia explicá-la de outra forma que não a tendência natural que pessoas que pensam de maneira semelhante têm de se unir. A maioria dos meus amigos tende à direita e nem por isso bebe ou se diverte menos que o estritamente recomendável. Se você é esquerdista e acha que só esquerdistas têm capacidade de pular feito um condenado na balada, fique sabendo que o mau gosto não é privilégio de uma banda do espectro político. Os de bom gosto tampouco são reclusos: sentam num bar e ponderam quantos anjos cabem num copo de cerveja.

A primeira metade do terceiro item até faz sentido: o conservador desconfia de mudanças abruptas, o que não significa dizer que não reconheça a necessidade de mudanças. Uma desvantagem prática disso é que grandes talentos e mentes impetuosas tendem a encontrar alguma resistência no corpo conservador. A vantagem é que as mudanças, quando indispensáveis, são bem menos destrutivas quando supervisionadas por um conservador criativo. Isso nada tem a ver com inércia, como queria F. J. C. Hearnshaw — It is commonly sufficient for practical purposes if conservatives, without saying anything, just sit and think, or even if they merely sit –, mas com conciliação de tempos incompatíveis.

O instinto, ou prejudice, realmente não costuma ser ignorado pelo bom conservador, mas daí a acreditá-lo intelectualmente pobre vai um grande salto. Um salto que, aliás, ignora as grandes inteligências que se tornaram, voluntariamente ou não, expoentes do conservadorismo: Edmund Burke, John Adams, S. T. Coleridge, J. H. Newman, Irving Babbitt, George Santayana, T. S. Eliot e o próprio Kirk. Há aqueles que enfatizam valores transcendentais (Burke, Kirk, Newman), outros que se concentram na esfera política (Adams), outros que valorizam a imaginação conservadora mais que tudo (Coleridge, Eliot) e outros que se ocupam principalmente da filosofia por trás da práxis política (Coleridge, Babbitt, Santayana). Já que parecem (e são) tão diferentes, o que os uniria a um núcluo comum? Kirk enumera alguns pontos:

(i) Belief in a transcendent order. Essa é uma condição com a qual Roger Scruton discordaria, e à qual Santayana e tantos outros expressamente não se adequam. Acontece muito de ela ser aceita numa versão adaptada, que consiste em admitir que a razão humana é insuficiente para abarcar toda a existência e que, se os mistérios não são explicáveis através de um plano divino, simplesmente não são explicáveis. Há aqui, porém, a convicção de que todo problema político é no fundo filosófico, e que todo problema filosófico é antes problema religioso.

(ii) Affection for the proliferating variety and mystery of human existence, as opposed to the narrowing uniformity, egalitarianism, and utilitarian aims of most radical systems. Aqui temos o que parece ser unanimidade entre conservadores: diferenças de mérito entre seres humanos existem e podem ser tão grandes quanto se queira imaginar. Num momento em que a tendência é uniformizar tudo (homens e mulheres, velhos e jovens, bons e maus), repetir esse truísmo conservador exige, e esse é o apelo de Kirk, a engenhosidade de uma criatividade conservadora, capaz de reabilitar obviedades rejeitadas.

(iii) Conviction that civilized society requires orders and classes, as against the notion of a “classless” society. Consequência direta de (ii): o nascimento, ou o mérito, ou o casamento, ou mais raramente a sorte, ou todos juntos, determinam que lugar na sociedade devemos ocupar. A supressão de qualquer tipo de ordem levaria — numa objeção que é mais de ordem prática que de princípio — ao predomínio de oligarquias, num regime em que todos são servos da igualdade.

(iv) Persuasion that freedom and property are closed link. Observação simples da realidade.

(v) Faith in prescription and distrust of “sophisters, calculators and economists”. Relendo os quatro itens anteriores, percebo que não poucos dos chamados liberais ou libertários assentiriam completamente, sendo o primeiro item com muita probabilidade o mais disputado. Essa quinta condição representa outro ponto de divergência: o conservador desconfia dos sofistas mesmo quando (ou principalmente quando) ele diz ser o estandarte da ciência e da racionalidade. Os números dos melhores economistas podem ser enganosos; as abstrações de filantropos podem levar a ruínas bem concretas.

(vi) Recognition that change may not be salutary reform: hasty innovation may be a devouring conflagration, rather than a torch of progress. Society must alter, for prudent change is the means of social preservation; but a statesman must take Providence into his calculations, and a statesman’s chief virtue, according to Plato and Burke, is prudence.

Se você simpatiza com os seis princípios enumerados acima e não usa tênis all-star, sinta-se bem-vindo ao clube.

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Eles merecem

Há uns anos, fui malhado em sala de aula por dizer que cada povo tem o governante que merece. Nem sei quem disse isso pela primeira vez; vai que é ditado popular em algum lugar, de tão antigo. Está claro que não se pode responsabilizar um bebê iraniano de poucos anos pelo enpossamento de Ahmadinejad, mas, creio, entende-se bem o que o aforisma quer dizer. Essa relação de responsabilidade pode por vezes ser bem complicada, como o crescendo de anti-semitismo europeu que deu a uma figura como Hitler taxas apreciáveis de popularidade.

Às vezes ela nada tem de complicada. Escrevo isso porque vi hoje mesmo evidência adicional para a minha declaração de há uns anos. Trata-se de exemplo único, um tijolo num muro que, porém, já vai alto. Vejam:

Hoy con alegría revolucionaria constatamos como se desarrollan en nuestra America Latina esfuerzos y cristalizan iniciativas tendientes a buscar la unidad, el progreso socio-económico y la integración Latinoamericana como: el Mercosur, ALBA, Petrocaribe, Telesur, Banco del Sur, satélite Simon Bolivar y otros proyectos de ayuda mutua, cooperación y solidaridad. América Latina despertó, está de pie y marchando por senderos libertarios y socialista después de décadas de sojuzgamiento y dominación imperialista. Las hermanas república de: Bolivia, Ecuador, Brazil, Uruguay, Cuba, Nicaragua. Paraguay y con reservas y dudas Chile, entre otros, así como algunos países del Caribe cuentan con gobiernos progresistas que han empezado el deslinde, distanciamiento e incluso ruptura respecto a las políticas neoliberales, adoptando políticas nacionalistas y populares de defensa y rescate de los recursos y riquezas naturales y de reafirmación de su soberanía, planteándose en nuestro caso particular por el comandante presidente Hugo Chávez como el denominado socialismo del siglo XXI, que comparte principios fundamentales con el socialismo clásico, en especial la idea de la supremacía del ser humano y de su trabajo sobre el capital.

O trecho acima foi escrito por um venezuelano que fez intercâmbio nos EUA junto comigo, em 2003. É meritório que tenha ao menos ido visitar a matriz do imperialismo opressor, mas é certo que não aprendeu nada. Se não me recordo mal, o sujeito não era de todo desagradável, apesar daquele entusiasmo meio bobo típico de latinos. Guardada a minha compaixão pelos venezuelanos da oposição, que obviamente não são poucos, apenas digo: eles merecem.

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Um velho conservador

A figura de António Sousa Homem é, de longe, a que mais me diverte dentre todas as figuras divertidas que a blogosfera nos proporciona. Segundo consta, acaba de completar seus oitenta e nove anos e habita calmamente o ‘eremitério’ de Moledo, no coração do Minho. É visitado por irmãos e sobrinhos e, por opção bem calculada, já não pode compreendê-los tão bem. O interlocutor usual de Sousa Homem são a própria memória e as sombras que daí retira: o velho doutor Homem, seu pai; seu avô; Tio Alberto; Tia Benedita. Maria Luisa, uma sobrinha, de vez em quando aparece como que para atestar a transitoriedade dos tempos.

Sousa Homem é um resignado (‘conheço esses caminhos por razões médicas, tentando aliviar os pulmões e despertar neles o desejo de continuarem a respirar’), e isso já seria suficiente pra fazer muita gente franzir o sobrolho. De fato,

Desiludi uns e diverti outros. Expliquei aos meus sobrinhos que não, que nunca tive uma adolescência revolucionária e barbuda. Há cinquenta anos eu esperava da vida o que ainda hoje acho decente esperar-se: um perfume de mimosas numa estrada do Minho. Era um conservador e sou um conservador, um hibisco que muda de folha na altura certa e que aceita a dádiva da fortuna e da metereologia.

Desiludiram-se os sobrinhos, ‘que preferiam ver-me como um velho anarquista que tivesse passado o melhor tempo da sua juventude colocando bombas à porta de bancos, ou assaltando a tradição da família para que me declarasse democrata e republicano’. Desiludiram-se as irmãs, que não viram as paixões do irmão mais velho, também elas transitórias, concretizarem-se em matrimônio. Mas restaram os livros, e os contemporâneos que já partiram.

Um desses livros é o The Anatomy of Melancholy, de Robert Burn, herdado do velho doutor Homem, seu pai. Sousa Homem parece saber muito sobre a melancolia, mas não vê nisso motivo para desespero (‘cada dia que acrescento à minha idade é um dia para agradecer à providência’); longe disso, entende, assim como seu pai, que os sacrifícios que somos forçados a fazer servem como bálsamo para a juventude. Eis aí a melhor resposta para bombas em portas de bancos: o encolher de ombros de quem tem uma família para cuidar.

Muitos devem achar, a exemplo de sua irmã mais nova, que Sousa Homem simplesmente se recusou a dobrar o século (‘ela tem a impressão de que eu pertenço, não a este mundo, mas aos calendários que vão passando de moda — gosto da imagem e não me ofendo), ou que, assim como o condenado de Nick Cave, he goes shuffling out of life, just to hide in death awhile. Mas Sousa Homem não se esconde em lugar nenhum, a menos que se considere o eremitério de Moledo, no coração do Minho, um esconderijo.

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Post sobre o jornalismo brasileiro

O conservador brasileiro, não sem certa razão, sempre se refere com um nojinho incontido às peripécias que enchem os jornais. Muito mais edificante falar sobre poesia, religião ou Monica Bellucci. Há aí um problema de prioridades: como disse o Pereira Coutinho numa entrevista recente, discutir detalhes teológicos no país do mensalão é como querer dançar valsa na tempestade, ou algo assim. Ouçamos o filósofo Paulo Betti: às vezes é preciso sujar as mãos.

A situação da Veja é particularmente irritante. Se existe uma revista que deve inspirar preocupação, essa revista é a Veja, que é a mais lida. E quem mais escreve nela, pelo menos nas últimas edições, é o Andre Petry: tem uma coluna e é responsável pelas matérias sobre as eleições nos EUA. Vejam as bobagens que o sujeito é capaz de escrever: O que mais provocou a simpatia mundial por Obama, conforme se lê nas pesquisas feitas em dezenas de países, é um conjunto de características para as quais Obama jamais chamou atenção porque espanta o voto do americano médio. A saber: sua negritude, sua urbanidade, seu traquejo político, sua formação acadêmica de elite.

Petry garante que formação acadêmica de elite espanta o voto do americano médio. Agora me ajudem com a contagem de presidentes americanos que frequentaram Harvard: John Adams e seu filho, John Quincy Adams; Theodore Roosevelt; Franklin Roosevelt; John Kennedy. Esses 5 são bem conhecidos; uma googlada rápida fornece o nome de mais dois, Rutherford Hayes e o próprio George W. Bush (master’s degree). Em Princeton formaram-se dois, James Madison e Woodrow Wilson. Em Stanford, o engenheiro Hoover. Em Yale, Bush pai, Bush filho e Taft. Um em Goergetown, um em Duke, quatro na William & Mary College, um em Columbia, um em Dickinson, um em Williams. Traquejo político também é impopular, segundo Petry. Não faço idéia de onde ele tirou isso. Então o povo americano prefere os mais burocráticos, os mais enrolados?

Petry repete religiosamente os lugares-comuns mais batidos — e mais desacreditados por quem se deu ao trabalho de estudar — sobre a história dos EUA, como afirmar que o New Deal salvou a economia americana pós-29, que a administração de Harding (1921-23) foi a mais corrupta, que Nixon abusou dos poderes de presidente mais que seus antecessores, que quem se opunha ao movimento aboliciosta era necessariamente racista e por aí vai. Ao fazer um balanço do governo de W Bush, lembra displicentemente que Bush chegou dizendo que faria um governo “para unir, não para dividir”, e agora entrega um país com duas guerras (Iraque e Afeganistão), um déficit monumental (já na casa do trilhão de dólares) e uma economia em frangalhos (a pior crise desde a II Guerra Mundial), como se a crise econômica fosse de responsabilidade dele e como se a decisão de entrar numa guerra não passasse de mero capricho pessoal (se perguntado, Petry provavelmente responderia que sim, que não passa de mero capricho pessoal).

Num quadro com as colunas ‘O mundo pensa que… / Mas os Estados Unidos pensam que…’, Petry mostra que não deveria se arriscar a falar por uma nação que ele desconhece, ou conhece apenas através do NY Times: … o eleito merece todo o entusiasmo de que é objeto, como é natural em qualquer eleitorado do mundo. Torcem para que Obama resolva os problemas (no kidding?), mas não há nenhum sinal (nem procissão, nem comoções públicas, nem pedidos de benção) de que o julguem portador de superpoderes… É de surpreender, então, que eleitores conservadores americanos tenham inventado os epítetos the Anointed One, the Chosen One etc. para Obama — certamente Petry não considera (mas sabe-se lá, né) desprezível a parcela conservadora do eleitorado americano.

É natural ver simplificações numa revista cujos artigos raramente ultrapassam as duas páginas; pode-se sempre falar em didatismo ou algo que o valha. Difícil de entender é que noções tão bobas — bobas até entre setores da esquerda americana, principalmente agora que já explodiram os primeiros escandândalos da era Obama — ocupem tanto espaço no semanário mais lido do país. Quando é na Veja o Reinaldo Azevedo não reclama…

O Papa Bento XVI é um “des-reformador” e como todos os conservadores, ele quer que tudo esteja igual, que não haja marolas, nem discordâncias, nem heresias. E aí comete gafes papais. O trecho é do Arnaldo Jabor. Segundo Jabor, melhor seria se o papa admitisse heresias; só assim pra evitar ‘gafes papais’. Um conselheiro assim é exatamente o que o Vaticano precisava.

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Marcha da Maconha

É, eu sei que estou bem um mês atrasado. Na verdade eu nem pretendia comentar o assunto não fosse uma série de pequenas coincidências. Por ocasião do fim do Wunderblogs, resolvi conhecer alguns dos blogs de lá, já que só conhecia o do Alexandre. Visitei primeiro o do FDR, talvez na esperança inconsciente de ver o Delano sendo malhado publicamente. Não encontrei nada do tipo, mas tem muita coisa interessante por lá. Esse post, porém, chamou minha atenção por afirmar que Reinaldão Azevedo acha que quem defende a legalização das drogas devia ser preso. Depois fui conhecer o blog do Filthy McNasty, de que também gostei, e que também traz um post sobre o assunto: esse aqui. McNasty está de acordo com FDR e ainda comenta a respeito da idéia de uma lei contra a apologia ao crime.

Fui atrás de ler os posts do Reinaldo Azevedo quase certo de que ele tinha exagerado mesmo (já tive a mesma impressão em outras ocasiões). Não vi exagero nenhum. O Azevedo não acha que quem defende a legalização das drogas deve ser preso; ele acha que quem vai às ruas incentivando o consumo de drogas deve ser preso. Eu também acho, e parece que a maioria das famílias brasileiras acha o mesmo. Tanto FDR quanto McNasty vêem nisso cerceamento da liberdade de expressão, mas quem disse que a liberdade de expressão não deve ser regulada? O sujeito que entra na C&A pelado pra protestar contra os altos preços das roupas deve ser tolerado? O maconheiro que passa na minha rua cantando as maravilhas da maconha deve ser tolerado? No meu entender, não.

Espero que isso não pareça um simples jogo de palavras: ser a favor da legalização das drogas é diferente de participar de uma passeata. Escrever um artigo expondo dados favoráveis à legalização (assim como fizeram Milton Friedman e inúmeros outros) é diferente de empunhar cartazes melodramáticos. Convenhamos, o ônus da prova está do lado de lá da cerca legal. Ninguém mais que os defensores da legalização tem o dever de informar com cuidado a população. No site da Marcha da Maconha, porém, não consigo encontrar uma única nota sobre os danos que a erva pode causar à saúde de quem fuma. Quando confrontam números, é de maneira leviana (no ritmo do post passado, fico sem saber se se trata de burrice ou de má-fé): por exemplo, ao lembrar que o álcool ou o tabaco matam mais que a maconha ou a cocaína. Ora, se o status legal de uma substância é tão irrelevante a ponto de não influir sobre o número de consumidores (é essa a resposta que recebemos ao lembrar que o tabaco mata mais porque é mais consumido), por que organizar uma passeata pela legalização?

McNasty declara finalmente que a lei [contra a apologia ao crime] essencialmente cerceia o direito de o cidadão dizer o que pensa. Na verdade ela cerceia o direito de o cidadão dizer o que pensa da maneira que ele bem entender. Não sei de onde surgiu essa idéia maluca segundo a qual a liberdade de expressão deve sobrepujar todo o resto. Isso corresponde a dizer que idéias, ou a maneira com que são apresentadas, não têm consequências, ou, se têm, devem ser desprezadas frente aos caprichos do opinador. Até os liberais mais exaltados estavam cientes do equilíbrio precário entre a liberdade individual e a ordem coletiva. Como diria Richard Weaver, ideas have consequences, e as consequências no caso da legalização das drogas estão longe de ser desprezíveis.

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Como e Por Que Discutir

Diferentemente do que pensava Schopenahuer, a maior motivação pra participar de um debate não é a perspectiva de vencê-lo, é a perspectiva de ver seu oponente derrotado. Pode parecer a mesma coisa, mas às vezes a necessidade de desacreditar a opinião do outro é bem mais premente que fazer prevalecer a sua própria. Se não me engano foi Oscar Wilde (discordo dele quase sempre, mas era um sujeito inteligente) quem disse que é a insipidez do argumento alheio que mantém a discussão viva.

É claro que Wilde queria dizer (ou ao menos é o que ele queria que entendêssemos) que uma opinião insípida, ainda que verdadeira, deve ser combatida. Isso, obviamente, é bobagem de quem quer soar bacaninha. É preciso ter disciplina de espírito até pra concordar com o ministro Eros Grau, ou com o ministro Ricardo Lewandowski. Ambos vêem o óbvio na questão da pesquisa com células-tronco: a arrogância da ciência. É pena que apontem uma origem tão esdrúxula pra essa arrogância (ela seria um véu para acobertar os interesses do, brr, Mercado). A burrice analítica, porém, não compromete a primeira impressão, essa sim completamente verdadeira.

A frase do Wilde é aproveitável quando é usada no sentido do Teorema da Autoridade Invertida, de que já falei aqui. A tacanhice da argumentação alheia é apenas indício de falsidade. Ufa, Fulano discorda de mim. Quem nunca teve esse tipo de alívio?

É por essas e outras que sempre senti falta de uma interpretação (brr) psicológica para o debate. Pode parecer ingenuidade, mas ainda acredito na esperança de aprendizado (aliás, se, como queria Schopenhauer, todo debate tem como objetivo a ‘vitória’, por que o dele seria uma exceção?). Minha experiência pessoal parece confirmar essa esperança: nunca mudei de idéia sobre questões fundamentais lendo livros; os livros só sedimentaram de vez a mudança. O ser humano está sempre seguindo indícios mais ou menos claros, e por algum motivo eles aparecem com mais frequência numa conversa com o vizinho do que num tratado de teologia. A única exceção que consigo pensar agora é o Orthodoxy, do Chesterton, mas bem que esse livro parece a cópia de um grande debate, não?

É graças a essa ingenuidade latente (de que me orgulho) que não posso fugir à pergunta: por que Fulano acredita nisso? Ignorância, má-fé ou eu que estou errado? Quando Sam Harris rejeita o argumento da contingência de Leibniz com um mero ‘isso é fugir do problema’, podemos pensar em ignorância e má-fé simultaneamente. Ignorância porque muita gente realmente acha que recorrer à única solução possível de um problema é fugir do problema. Isso corresponde a dizer que, sendo os catetos de um triângulo retângulo 3 e 4, concluir que a hipotenusa vale 5 representa uma fuga. E má-fé porque Harris lembra triunfante que o argumento não prova a existência do Deus cristão, quando é notório que essa nunca foi a intenção do argumento. Se bem que, pensando bem, talvez ele não saiba disso. Viram que complicado!

O problema dos comunistas não é menos intrigante. Na época de Hayek era mais plausível acreditar que os defensores do socialismo desistiriam da idéia assim que enxergassem suas consequências. O próprio Hayek sugere isso inúmeras vezes no Road to Serfdom. Mas e hoje? Como diferençar os meramente tapados dos genuinamente picaretas? Os casos extremos são de análise fácil, mas a banda intermediária, bem difusa, está longe de poder ser desprezada. Vai que há almas bem intencionadas lá por dentro. Eles precisam da nossa paciência.

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"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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