Parnaso

Dom Quixote sub specie aeternitatis

Foi com grande alívio que aprendi por que certas mazelas humanas não me afetam tão diretamente. Em suma, por que nunca fui acometido por acessos de culpa (coletivos ou não) como os descritos por Wilfred McClay neste artigo. Além da percepção óbvia de que não sou responsável por elas, parece válido o que diz Adam Smith no The Theory of Moral Sentiments:

We may even inwardly reproach ourselves with our own want of sensibility, and perhaps, on that account, work ourselves up into the artificial sympathy, which, however, when it is raised, is always the slightest and most transitory imaginable; and generally, as soon as we have left the room, vanishes, and is gone for ever. Nature, it seems, when she loaded us with our own sorrows, thought that they were enough, and therefore did not command us to take any further share in those of others, than what was necessary to prompt us to relive them.

Pior que isso, a empatia artificial (artificial sympathy) que vemos tão abundante por todos os lados funciona como um golpe de psicologia reversa e dificulta o surgimento da verdadeira empatia, aquela capaz de trabalhar alguma diferença palpável. Smith nem sequer menciona a absurdidade da idéia de nossa co-participação em males tão remotos como a fome na África (hoje seria necessário gastar mais algum tempo nisso) e atribui a escassez de empatia a uma espécie de equilíbrio natural de preocupações. Se a idéia do equilíbrio natural for ignorada, que motivo (além da psicologia reversa que acabo de mencionar) me impediria de ser afetado por males remotos, ainda que os diretamente afetados façam a gentileza de admitir que não sou responsável por eles? Sem poder encontrar resposta a essa pergunta, felizmente percebi que a pergunta em si é absurda. Não sou afetado por males remotos porque não é possível ser afetado por males remotos. Adam Smith explica:

Take the whole earth at an average, for one man who suffers pain or misery, you will find twenty in prosperity and joy, or at least in tolerable circumstances. No reason, surely, can be assigned why we should rather weep with the one than rejoice with the twenty. This artificial commiseration, besides, is not only absurd, but seems altogether unattainable; and those who affect this character have commonly nothing but a certain affected and sentimental sadness, which, without reaching the heart, serves only to render the countenance and conversation impertinently dismal and disagreeable. And last of all, this disposition of mind, though it could be attained, would be perfectly useless, and could serve no other purpose than to render miserable the person who possessed it.

Grifei a última parte porque em vez de discutir se é realmente possível sofrer por males remotos (é sempre desagradável sugerir que as pessoas não são tão boas quanto elas acreditam ser), acho preferível supor que é possível e perceber que, nesse caso, os males remotos seriam amplificados, gerando uma série infinita de almas mutuamente mortificadas. Genuinamente mortificadas na opinião dos que acreditam ser isso possível e artificialmente mortificadas na opinião dos demais; de uma ou outra maneira, o saldo é negativo e diametralmente oposto ao desejado pelo filantropo de plantão.

Contente com a explicação acima, passei alguns anos sem pensar no assunto até que resolvi ler o Dom Quixote. Ao encontrar pela primeira vez Cardenio, um nobre desesperado pela perda da noiva amada, Quixote diz:

– Los [deseos] que yo tengo son de serviros, tanto, que tenía determinado de no salir de estas sierras hasta hallaros y saber de vos si el dolor que en la extrañeza de vuestra vida mostráis tener se podía hallar algún género de remedio, y si fuera menester buscarle, buscarle con la diligencia posible. Y cuando vuestra desventura fuera de aquellas que tienen cerradas las puertas a todo género de consuelo, pensaba ayudaros a llorarla y plañirla como mejor pudiera, que todavía es consuelo en las desgracias hallar quien se duela de ellas.

Pode-se objetar que o infortúnio de Cardenio não é estranho ao Quixote, cavaleiro andante e portanto sensível a desventuras amorosas. Ocorre que a profissão do cavaleiro é ajudar a todos os menesterosos, independentemente do mal que lhes acomete. A empatia do Quixote, infinita e pronta para ser distribuída a quem quer que a solicite, eleva ao patamar de herói um hidalgo sem juízo. Aos olhos de Deus, isto é, sub specie aeternitatis, a empatia de Dom Quixote é heroísmo e não loucura.

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Nietzsche, um filósofo visceral

É sempre uma satisfação resgatar expressões em desuso ou em mau uso: Nietzsche foi, principalmente no Ecce Homo, espécie de introdução geral para sua própria obra escrita poucos meses antes de ele enlouquecer, um filósofo visceral. Segundo consta, esse livrinho teria sido, em 1908, tema de uma das reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, na casa de Freud. Freud teria dito que o livro não poderia ser desconsiderado como produto da insânia porque ainda há nele o domínio da forma, e acrescento que, em verdade, o conteúdo também é coerente com o que Nietzsche vinha escrevendo até então. O mais curioso é que Freud se limitava a discutir o ‘caso Nietzsche’, e não suas idéias, porque, dada a semelhança entre as invenstigações psicanalíticas e as do filósofo, seria interessante preservar a ‘independência de espírito’. Freud chegou a dizer que a riqueza das obras de Nietzsche era tamanha que o impedia de ler mais de meia página (!?) de seus livros, mas cumpre advertir que o artifício de evitar leituras para preservar a pureza de espírito foi, até onde eu saiba, enunciado pela primeira vez pelo próprio Nietzsche. No Ecce Homo já lemos:

Apenas meus olhos puseram fim à bibliofagia, leia-se “filologia”: estava salvo dos livros, nada mais li durante anos — o maior benefício que me concedi! — Aquele Eu mais ao fundo, quase enterrado, quase emudecido sob a constante imposição de ouvir outros Eus (– isto significa ler!), despertou lentamente, tímida e hesitantemente — mas enfim voltou a falar.

Os indícios de loucura são perceptíveis não em incoerências de forma ou de conteúdo, mas nos arroubos de imodéstia e na obsessão pela saúde, digamos, intestinal. Justiça seja feita mais uma vez: não há nada aqui que já não tenha sido anunciado em obras anteriores, apenas agora os ânimos estão exacerbados. Os conselhos dietéticos são, diga-se, uma diversão à parte:

Uma refeição forte é mais fácil de digerir do que uma demasiado ligeira. Que o estômago entre inteiro em atividade, primeira condição para uma boa digestão. Deve-se conhecer o tamanho do próprio estômago. (…) Nada entre as refeições, nenhum café: café obscurece. Chá, somente de manhã benéfico. Pouco, porém vigoroso: é prejudicial e debilitante por todo o dia quando fraco demais, mesmo que por um mínimo. (…) Ficar sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras.

Devo confessar que simpatizo bastante com a hipótese de uma relação estreita entre dieta (e clima) e disposição intelectual (“o clima alemão em si já é suficiente para desencorajar vísceras fortes, de disposição heróica inclusive (…) Paris, a Provença, Florença, Jerusalém, Atenas — esses nomes provam algo: o gênio é condicionado pelo ar seco, pelo céu puro”), apesar de não ir tão longe quando Nietzsche gostaria. Se Nietzsche já tinha deixado claro que noções como ‘pecado’, ‘alma’, ‘compaixão’ etc. são invenções perniciosas de espíritos ressentidos, de espíritos que dizem ‘Não’, ficamos sabendo no Ecce Homo que a dieta e o clima substituem-nas como as únicas coisas que de fato importam em nossas vidas.

Quem já leu o The Abolition of Man, do C. S. Lewis, deve achar esse detalhe bem sugestivo. Nele, Lewis argumenta que a tentativa de produzir juízos de valor sem o auxílio de um código absoluto, inquestionável etc., isto é, amparado apenas no Instinto, ou na Utilidade, ou em algo que o valha, é um exercício fútil porque, cedo ou tarde, o sujeito acaba tendo de se amparar em algo que ele negava de início, a saber, um princípio inquestionável. Por exemplo, quem acredita que preservar a espécie não passa de um instinto, tem de explicar porque devemos obedecer a esse instinto e não ao seu antípoda, o de destruir a espécie. Se dizemos que um instinto é melhor, ou superior, ou mais profundo, ou mais urgente, que outro, já partimos para um juízo de valor que não é em si instintivo. Nietzsche não comete esse erro porque ele não deseja estabelecer uma nova valoração; ele gostaria de suspender toda noção prévia de valor. Devemos admitir que essa proposta ao menos não é auto-contraditória.

Lewis lida com essa proposta, apesar de não se referir explicitamente a Nietzsche, ao falar da suspenção total de valores. Se não podemos apelar a princípios absolutos, conhecidos de todos (princípios que não admitem dedução lógica), só nos resta apelar à vontade arbitrária de quem quer que esteja em posição de arbitrar, os quais formam o grupo que Lewis chama the Conditioners. O conditioner de Lewis é o super-homem de Nietzsche: o sujeito para quem noções clássicas como bem e mal perderam o significado porque ele mesmo tem liberdade de definir o que é bom e mau. O que está sob julgamento não pode ser também juiz. Apesar de isso ser aparentemente a liberdade suprema, resta a pergunta: o que condiciona os condicionadores? Lewis responde:

By the logic of their position they must just take their impulses as they come, from chance. And Chance here means Nature. It is from heredity, digestion, the weather, and the association of ideas, that the motives of the Conditioners will spring.

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Em Busca de Sentido

He who has a why to live can bear with almost any how.
– Nietzsche

Viktor E. Frankl (1905-1997) é mundialmente conhecido como o fundador da chamada Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (teve como predecessores Freud e Adler), em que propugna sua principal criação intelectual, a logoterapia (do grego logos, conhecimento). A logoterapia se opõe à psicanálise de Freud na medida em que esta última se concentra em acontecimentos passados e em fenômenos inconscientes para explicar eventuais distúrbios psicológicos, enquanto que a teoria de Frankl se preocupa principalmente com o futuro; ela reconhece na ausência de uma significação ulterior para nossa existência (que, a rigor, jamais chegará a ser-nos conhecido) a explicação para o chamado “vácuo existencial”, o existential vacuum a que se refere com tanta frequência.

Daí o título de seu livro mais famoso, Man’s Search for Meaning, em que relata, na primeira parte, Experiences in a Concentration Camp, algumas de suas experiências durante o período de três anos em que foi interno de alguns campos, principalmente o de Auschwitz. Frankl acredita piamente que o ser humano, quando submetido a situações extremas de sofrimento e privação, revelar-se-á “um porco ou um santo”, a depender de sua maturidade espiritual. Ora, isso entra em conflito direto com a famosa declaração de Freud:

Let one attempt to expose a number of the most diverse people uniformly to hunger. With the increase of the imperative urge of hunger all individual differences will blur, and in their stead will appear the uniform expression of the one unstilled urge.

A essa asserção, Frankl responde placidamente:

Thank heaven, Sigmund Freud was spared knowing the concentration camps from the inside. His subjects lay on a couch designed in the plush style of Victorian culture, not in the filth of Auschwitz. There, the “individual differences” did not “blur” but, on the contrary, people became more different; people unmasked themselves, both the swine and the saints.

Que dizer? Freud teve a infelicidade de descrever uma situação cuja melhor ilustração prática é o campo de concentração, precisamente a realidade conhecida tão bem por Frankl. Cabe aqui uma observação importante, que apesar de óbvia é esquecida por muitos: a experiência pessoal não é imprescindível para que se faça esse tipo de julgamento. Apenas é necessário que alguém tenha tido a experiência pessoal. A arrogância de certos ‘pensadores engajados’ é tal que, a depender deles, só está qualificado para opinar quem passa seus dias na rua, acompanhando de perto a ‘realidade cruel dos fatos’. Acompanham a realidade tão de perto que, não raro, têm verdadeira aversão aos livros.

Segundo a logoterapia, podemos conferir sentido à nossa existência de três maneiras distintas: (a) através dos resultados de nossos esforços (trabalho), (b) através de uma intensa experiência com algo (beleza, bondade, verdade) ou com alguém (amor) e (c) através do sofrimento. Essas definições exigem algum esclarecimento: o fenômeno indicado no item (b), em sua primeira parte, é exclusivamente introspectivo; ele prescinde de qualquer realização palpável e/ou concreta. Trata-se de uma conquista inteiramente espiritual e pessoal, e por isso mesmo tende a ter uma importância insubstituível. O item (c) diz respeito à postura com que enfrentamos qualquer tipo de sofrimento; se chegamos à conclusão de que o sofrimento, assim como a morte, é parte indossolúvel da vida, convém estar preparado para recebê-lo com dignidade. E isso só será possível se formos capazes de consignar significado a ele. O que não significa dizer, claro está, que o sofrimento seja uma necessidade; sucumbir a um estado de penúria que pode ser evitado não é heroísmo: é preguiça.

A segunda parte do livro, Logotherapy in a Nutshell é uma tentativa de, em poucas páginas, expor os princípios básicos da logoterapia. Apesar de bastante prática, não me parece ter sido boa idéia: ao final das quarenta e poucas páginas, nas quais Frankl inclusive relata alguns casos clínicos, tem-se a impressão de que sua teoria é uma panacéia aplicável a todos os males (a impressão é tão forte que o próprio Frankl nos adverte quanto a ela, quando já é tarde demais). A narrativa da experiência nos campos de concentração, entremeada pelos comentários de cunho psiquiátrico, já é mais que suficiente para esse esforço introdutório. Não deixa de ser curioso que seja ninguém menos que Nietzsche o autor do motto de sua filosofia: aquele que tem um porquê em sua vida pode suportar quase qualquer como.

Arquivado em:Psicologia

Quote of the day

"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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