Parnaso

Reencarnação, uma invenção moderna

Só vim a me interessar um pouco mais pelo espiritismo quando pessoas próximas a mim declararam-se adeptas. Segundo fiquei sabendo neste capítulo do L’Erreur Spirite de René Guenón, porém, não é necessário acreditar em reencarnação para ser espírita. O motivo por que me interessei pelo tema da reencarnação em específico é que ele é usado pelos próprios espíritas como um forte elemento de persuasão em favor do espiritismo; e, se o próprio Allan Kardec elevou-o ao status de dogma, não há por que supor que não seja representativo, ao menos em suas modalidades atuais, do espiritismo como um todo.

É claro que evidências factuais da existência de espíritos são muito mais persuasivas que a idéia de reencarnação ou qualquer outra análoga. Que se tenha que apelar para um ideal forjado de ‘justiça’, em vez de se ater aos simples fatos à disposição, já parece indício de que a reencarnação é uma invenção moderna. E de fato, apesar de os adeptos procurarem origens remotas para o conceito (em doutrinas tradicionais ou no Evangelho mesmo), parece certo, a julgar pela racionalização que lhe imputaram, que o conceito surgiu com os socialistas franceses do início do séc. XIX. Daí que Guenón prefira tratá-lo como conceito social em vez de propriamente filosófico.

No terceiro parágrafo do capítulo mencionado acima são enumeradas algumas dessas racionalizações. Allan Kardec: ‘Ou as almas são iguais em seu nascimento ou não são. Se são iguais, como explicar aptidões tão diversas? Se são desiguais é porque Deus as criou assim, mas então, como justificar uma superioridade inata destinada a algumas? (…) Com a pluralidade de existências, a desigualdade que observamos em toda parte já não se opõe à mais rigorosa noção de equidade.’ Léon Denis: ‘Somente a pluralidade de existências pode explicar a diversidade de características, a variedade de aptidões, a desproporção entre qualidades morais; em suma, todas as desigualdades que saltam aos olhos. (…) Que pensar de um Deus que, outorgando-nos uma única existência temporal, tivesse nos feito tão desiguais e, desde o selvagem até o mais civilizado, reservado ao homem dons tão distintos e um nível moral tão diferente?’ Papus: ‘Sem a idéia de reencarnação, a vida social é uma iniquidade. Por que haveria seres ignorantes que ostentam glórias e riquezas, enquanto homens de valor se debatem na miséria e na luta cotidiana por alimentos físicos, morais e espirituais?’

Fica claro que a idéia da reencarnação representa antes de tudo uma revolta contra qualquer tipo de desigualdade. Como é claro e como Guenón não deixa de lembrar, a origem espúria de uma doutrina não implica necessariamente sua falsidade, e não parece de todo incomum que idéias importantes tenham sido percebidas pela primeira vez por filósofos menores. Não me interessa aqui, porém, repetir a demonstração que Guenón oferece para a impossibilidade (v. parágrafo 10) da reencarnação, que aliás é válida para qualquer repetição dentro da Possibilidade Universal, como a idéia do eterno retorno de Nietzsche. Interessa notar como a confusão gerada por fenômenos como a metempsicose e a transmigração (as quais, segundo Guenón, são velhas conhecidas das doutrinas tradicionais) tenha podido se transformar numa ode contra a desigualdade, a qual, ademais, sempre me pareceu um pressuposto do cristianismo. Não contentes com seus rebanhos de ovelhas, os socialistas querem também rebanhos de almas.

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Deus no cinema

Pode vir como surpresa o fato de os maiores filmes de 2009 tratarem, essencialmente, de religião.

Avatar encena uma tribo que às vezes parece se aproximar do cristianismo, às vezes (ou quase sempre) do ambientalismo romântico tão caro aos Camerons da política. Whatever Works é mais uma diatribe (a lista vai crescendo) de Woody Allen contra a ingenuidade intelectual de quem nasceu fora de Nova York ou acredita em Deus. A Serious Man, dos irmãos Coen, ridiculariza a insistência com que o homem tenta interagir com o divino. Não vi The Invention of Lying, mas o título é eloquente. E por aí vai.

No primeiro caso a divindade é imponente e até visualmente fascinante, mas a ganância capitalista parece bastar para destruí-la. No segundo ela nem sequer existe, e qualquer pensamento nesse sentido é ridículo. No terceiro, aprendemos que na mais das vezes é mais sábio deixá-la em paz. O único filme recente em que criador se impõe sobre criatura, em generosa concessão à terminologia, é The Book of Eli. O Deus desse filme é sem dúvidas poderoso e misterioso, mas não há garantias de que seria um líder inspirado. Denzel Washington, guardião do livro num mundo pós-apocalíptico, raramente cita passagens escriturais e faz um resumo franzino de todo seu aprendizado: dar aos outros mais que a si mesmo.

Em artigo na First Things, Thomas Hibbs comenta que Perhaps the most instructive lesson to take away from the religious themes in recent films is the way our popular culture seems to vacillate between essentially empty conceptions of a transcendent God and increasingly fertile notions of divine immanence. O divino pulula no imaginário popular – seja em florestas ou em desertos futurísticos -, mas o Deus que lhe dá nome é cada vez mais banal. Dado esse cenário, faz até sentido ser ateu.

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Cristianismo para crianças

Everyone has warned me not to tell you what I am going to tell you in this last book. They all say ‘the ordinary reader does not want Theology; give him plain practical religion’. I have rejected their advice. I do not think the ordinary reader is such a fool. Theology means ‘the science of God’, and I think any man who wants to think about God at all would like to have the clearest and most accurate ideas about Him which are available. You are not children: why should you be treated like children?

É assim que C. S. Lewis começa o quarto e último livro do Mere Christianity, uma das mais populares introduções ao cristianismo de que se tem notícia. É fato que a última parte do livro vai além da ‘plain pratical religion’, mas só nesse sentido pode-se dizer que o leitor não é tratado como criança. A maneira como alguns pontos mais espinhosos da doutrina cristã são explicados apela, muitas vezes, ao infantil. A coisa é que se me dissessem que não poderia ser de outra forma eu seria forçado a concordar.

O comentador da Bíblia ou da doutrina cristã em geral enfrenta uma tarefa já em si impossível: reescrever, de maneira a tornar mais compreensível, algo que foi escrito com a melhor terminologia possível. Se a Bíblia é a própria palavra divina, certamente os termos que lá se encontram para descrever uma relação entre entes (por exemplo, Pai, Filho e Espírito Santo) são melhores que quaisquer termos que eu ou você possamos imaginar. Se acontece de essa relação permanecer obscura, outros artifícios (que por definição não são os melhores) devem ser utilizados.

Nesse processo o comentador cristão acaba cedendo ao gosto da época (C. S. Lewis faz isso ao chamar o ser humano de ‘human machine’ repetidas vezes) ou, com menos frequência, descobrindo alternativas geniais. Outras vezes o artifício é simplesmente pueril, como comparar a diferença entre Jesus e o homens com a diferença entre o homem e soldados de chumbo. Malabarismos assim, o próprio Lewis reconhece, servem para que a terminologia original seja melhor compreendida, nunca substituída. São muletas que, graças a nossa inteligência, não precisam ser reutilizadas.

Os símiles de Lewis funcionam muito bem no capítulo sobre a santíssima trindade. Mesmo os cristãos mais esforçados confessam sentir dificuldades para entender o que seria uma divindade que é, ‘ao mesmo tempo’, pai, filho e espírito santo. Em primeiro lugar é preciso lembrar que nem tudo é necessariamente compreensível: a noção de mistério nunca foi estranha ao cristão. Fazendo um paralelo com a geometria, porém, a coisa parece ficar menos cabeluda. Dois vetores linearmente independentes x e y geram um plano e qualquer outro vetor nesse plano pode ser escrito como combinação linear de x e y. Aos seres que habitam esse plano (isto é, os vetores do plano xy) a noção de profundidade é desconhecida: nem os vetores mais espertos seriam capazes de imaginar o que seria isso. Nós conseguimos imaginar um espaço tridimensional, mas não um quadridimensional, apesar de espaços multidimensionais serem matematicamente manipuláveis. Da mesma maneira, Deus seria um ente ‘tridimensional’: manipulável (no sentido que podemos falar sobre) teoricamente, mas fora do alcance de nossa imaginação. Deus é um cubo e nós somos as arestas.

Outra questão que gera muita dúvida é o porquê de a Fé ser, por si só, uma virtude. Não só é uma virtude como é uma das três virtudes teologais, juntamente com esperança e amor. A objeção mais comum é a de que acreditar em algo logicamente comprovável não passa de nossa obrigação, assim como é obrigação do estudante de cálculo ‘acreditar’ no Teorema do Valor Médio após ver sua demonstração. O sujeito que lê o argumento do primeiro motor e sai acreditando num ente que é só potência não necessariamente tem fé; a princípio ele é apenas um bom aluno de lógica. É muito comum, porém, deixarmos de acreditar em algo de que estamos perfeitamente convencidos do ponto de vista lógico: das pessoas que sentem medo de viajar de avião, arrisco dizer que a maioria sabe que esse meio de transporte é mais seguro que o carro. Eles não duvidam das estatísticas, apenas têm medo. Há cristãos que deixam de ser cristãos não por verem uma falha lógica na doutrina, mas porque perdem o interesse.

Finalmente, acho que vale mencionar a objeção, já bem batida, segundo a qual em verdade o livre-arbítrio não existe porque, se Deus sabe exatamente o que vou fazer amanhã ou em qualquer futuro mais afastado, não tenho liberdade para fazer diferente. Como resposta eu costumava dizer que, dada a nossa linha do tempo, Deus está fora dela: para ele não existe passado ou futuro. Lewis sugere um jeito melhor, ou, se quiserem, mais didático: Deus seria a folha de papel em que a linha está desenhada. Assim sendo, Deus não prevê, ele vê, mas vê o futuro e o passado assim como nós vemos o presente. Dito dessa maneira, nós, as crianças, entendemos.

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A mentalidade conservadora

Se tivéssemos de aceitar os critérios que o Russell Kirk, no The Conservative Mind, estabelece pra identificar o imaginário conservador, seríamos forçados a admitir que popular o conservador não pode ser; não hoje. É certo que já houve tempos mais propícios, mas o conservador não está tão em descompasso com a realidade atual quanto gostariam seus detratores. Alguns desses últimos acreditam piamente que:

(i) O conservador não tem senso de humor;
(ii) O conservador tem uma vida social subdesenvolvida;
(iii) O conservadorismo é mais reação que ação, mais inerte que criativo;
(iv) O conservador age por instinto e é intelectualmente despreparado.

Nem seria necessário chafurdar a biografia de conservadores notórios pra verificar que o primeiro item é falso. À medida que os adágios conservadores perdem popularidade, ganha importância a maneira com que são repetidos, e o humor parece ser o artificio mais eficiente nesse processo de reinvenção. Nelson Rodrigues conseguia lamentar o hábito feminino de usar biquinis em plena luz do dia sem parecer um velho recalcado; Chesterton exaltava a coerência de um conto de fadas sem parecer infantil. Isso pode não ser engraçado, mas é bom humor.

Quanto à vida social: essa sim é uma noção engraçada, e eu não saberia explicá-la de outra forma que não a tendência natural que pessoas que pensam de maneira semelhante têm de se unir. A maioria dos meus amigos tende à direita e nem por isso bebe ou se diverte menos que o estritamente recomendável. Se você é esquerdista e acha que só esquerdistas têm capacidade de pular feito um condenado na balada, fique sabendo que o mau gosto não é privilégio de uma banda do espectro político. Os de bom gosto tampouco são reclusos: sentam num bar e ponderam quantos anjos cabem num copo de cerveja.

A primeira metade do terceiro item até faz sentido: o conservador desconfia de mudanças abruptas, o que não significa dizer que não reconheça a necessidade de mudanças. Uma desvantagem prática disso é que grandes talentos e mentes impetuosas tendem a encontrar alguma resistência no corpo conservador. A vantagem é que as mudanças, quando indispensáveis, são bem menos destrutivas quando supervisionadas por um conservador criativo. Isso nada tem a ver com inércia, como queria F. J. C. Hearnshaw — It is commonly sufficient for practical purposes if conservatives, without saying anything, just sit and think, or even if they merely sit –, mas com conciliação de tempos incompatíveis.

O instinto, ou prejudice, realmente não costuma ser ignorado pelo bom conservador, mas daí a acreditá-lo intelectualmente pobre vai um grande salto. Um salto que, aliás, ignora as grandes inteligências que se tornaram, voluntariamente ou não, expoentes do conservadorismo: Edmund Burke, John Adams, S. T. Coleridge, J. H. Newman, Irving Babbitt, George Santayana, T. S. Eliot e o próprio Kirk. Há aqueles que enfatizam valores transcendentais (Burke, Kirk, Newman), outros que se concentram na esfera política (Adams), outros que valorizam a imaginação conservadora mais que tudo (Coleridge, Eliot) e outros que se ocupam principalmente da filosofia por trás da práxis política (Coleridge, Babbitt, Santayana). Já que parecem (e são) tão diferentes, o que os uniria a um núcluo comum? Kirk enumera alguns pontos:

(i) Belief in a transcendent order. Essa é uma condição com a qual Roger Scruton discordaria, e à qual Santayana e tantos outros expressamente não se adequam. Acontece muito de ela ser aceita numa versão adaptada, que consiste em admitir que a razão humana é insuficiente para abarcar toda a existência e que, se os mistérios não são explicáveis através de um plano divino, simplesmente não são explicáveis. Há aqui, porém, a convicção de que todo problema político é no fundo filosófico, e que todo problema filosófico é antes problema religioso.

(ii) Affection for the proliferating variety and mystery of human existence, as opposed to the narrowing uniformity, egalitarianism, and utilitarian aims of most radical systems. Aqui temos o que parece ser unanimidade entre conservadores: diferenças de mérito entre seres humanos existem e podem ser tão grandes quanto se queira imaginar. Num momento em que a tendência é uniformizar tudo (homens e mulheres, velhos e jovens, bons e maus), repetir esse truísmo conservador exige, e esse é o apelo de Kirk, a engenhosidade de uma criatividade conservadora, capaz de reabilitar obviedades rejeitadas.

(iii) Conviction that civilized society requires orders and classes, as against the notion of a “classless” society. Consequência direta de (ii): o nascimento, ou o mérito, ou o casamento, ou mais raramente a sorte, ou todos juntos, determinam que lugar na sociedade devemos ocupar. A supressão de qualquer tipo de ordem levaria — numa objeção que é mais de ordem prática que de princípio — ao predomínio de oligarquias, num regime em que todos são servos da igualdade.

(iv) Persuasion that freedom and property are closed link. Observação simples da realidade.

(v) Faith in prescription and distrust of “sophisters, calculators and economists”. Relendo os quatro itens anteriores, percebo que não poucos dos chamados liberais ou libertários assentiriam completamente, sendo o primeiro item com muita probabilidade o mais disputado. Essa quinta condição representa outro ponto de divergência: o conservador desconfia dos sofistas mesmo quando (ou principalmente quando) ele diz ser o estandarte da ciência e da racionalidade. Os números dos melhores economistas podem ser enganosos; as abstrações de filantropos podem levar a ruínas bem concretas.

(vi) Recognition that change may not be salutary reform: hasty innovation may be a devouring conflagration, rather than a torch of progress. Society must alter, for prudent change is the means of social preservation; but a statesman must take Providence into his calculations, and a statesman’s chief virtue, according to Plato and Burke, is prudence.

Se você simpatiza com os seis princípios enumerados acima e não usa tênis all-star, sinta-se bem-vindo ao clube.

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A autoridade das idéias ad hoc

Na era da informação, o simples fato de termos uma idéia, somado à constatação de que não somos completos idiotas (no nosso próprio julgamento), já confere à idéia em questão um caráter oficioso, passível de publicação em manual didático num futuro próximo. Como não há quem queira entrar em disputa, por cordialidade ou ignorância mútua, as idéias ad hoc só se diferenciam pela inventividade e pelos malabarismos retóricos de seus autores. Dou um exemplo recente:

E voltando ao Velho Testamento: Moisés anunciar para um bando de retirantes que não deveriam olhar para a mulher do próximo faz bastante sentido quando se quer diminuir o número de crimes passionais em suas hordes.

As idéias ad hoc geralmente se apresentam como acima: algo tido como verdadeiro séculos afora é repentinamente desacreditado graças a um detalhe circunstancial que, curiosamente, todos os que vieram antes de nós, esses bobinhos, não conseguiram perceber. Também geralmente, o detalhe circunstancial é de ordem administrativa. “É muito conveniente que a lei da gravidade funcione, ou não poderíamos erguer prédios” serve como prova de que não poderia existir um universo sem lei da gravidade. Se pressionados, os autores das idéias ad hoc lembrarão que não estão a fornecer provas, apenas sugestões ‘plausíveis’, apesar de no íntimo de suas almas acreditarem piamente que acabaram de desferir um golpe mortal contra o edifício da tradição.

Adicionalmente, essas idéias propõem soluções bem mais simples, uma espécie de massificação da navalha de Occam. É como se dissessem: “joguem fora todos os seus livros de História, o que se julga conveniente hoje deve ter sido conveniente para todos os homens em todos os tempos”. Se um dos mandamentos pode ser explicado circunstancialmente, por que não fazê-lo, ainda que ele seja válido independentemente das circunstâncias, inclusive quando elas se mostram adversas?

Dou outro exemplo, cuja fonte não consegui recuperar: o cristianismo tornou-se a religião oficial do império romano porque era muito ‘conveniente’ aos imperadores ter súditos que aceitavam dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Nunca antes vimos idéias tão ambiciosas, nem tão falsas.

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Post sobre o jornalismo brasileiro

O conservador brasileiro, não sem certa razão, sempre se refere com um nojinho incontido às peripécias que enchem os jornais. Muito mais edificante falar sobre poesia, religião ou Monica Bellucci. Há aí um problema de prioridades: como disse o Pereira Coutinho numa entrevista recente, discutir detalhes teológicos no país do mensalão é como querer dançar valsa na tempestade, ou algo assim. Ouçamos o filósofo Paulo Betti: às vezes é preciso sujar as mãos.

A situação da Veja é particularmente irritante. Se existe uma revista que deve inspirar preocupação, essa revista é a Veja, que é a mais lida. E quem mais escreve nela, pelo menos nas últimas edições, é o Andre Petry: tem uma coluna e é responsável pelas matérias sobre as eleições nos EUA. Vejam as bobagens que o sujeito é capaz de escrever: O que mais provocou a simpatia mundial por Obama, conforme se lê nas pesquisas feitas em dezenas de países, é um conjunto de características para as quais Obama jamais chamou atenção porque espanta o voto do americano médio. A saber: sua negritude, sua urbanidade, seu traquejo político, sua formação acadêmica de elite.

Petry garante que formação acadêmica de elite espanta o voto do americano médio. Agora me ajudem com a contagem de presidentes americanos que frequentaram Harvard: John Adams e seu filho, John Quincy Adams; Theodore Roosevelt; Franklin Roosevelt; John Kennedy. Esses 5 são bem conhecidos; uma googlada rápida fornece o nome de mais dois, Rutherford Hayes e o próprio George W. Bush (master’s degree). Em Princeton formaram-se dois, James Madison e Woodrow Wilson. Em Stanford, o engenheiro Hoover. Em Yale, Bush pai, Bush filho e Taft. Um em Goergetown, um em Duke, quatro na William & Mary College, um em Columbia, um em Dickinson, um em Williams. Traquejo político também é impopular, segundo Petry. Não faço idéia de onde ele tirou isso. Então o povo americano prefere os mais burocráticos, os mais enrolados?

Petry repete religiosamente os lugares-comuns mais batidos — e mais desacreditados por quem se deu ao trabalho de estudar — sobre a história dos EUA, como afirmar que o New Deal salvou a economia americana pós-29, que a administração de Harding (1921-23) foi a mais corrupta, que Nixon abusou dos poderes de presidente mais que seus antecessores, que quem se opunha ao movimento aboliciosta era necessariamente racista e por aí vai. Ao fazer um balanço do governo de W Bush, lembra displicentemente que Bush chegou dizendo que faria um governo “para unir, não para dividir”, e agora entrega um país com duas guerras (Iraque e Afeganistão), um déficit monumental (já na casa do trilhão de dólares) e uma economia em frangalhos (a pior crise desde a II Guerra Mundial), como se a crise econômica fosse de responsabilidade dele e como se a decisão de entrar numa guerra não passasse de mero capricho pessoal (se perguntado, Petry provavelmente responderia que sim, que não passa de mero capricho pessoal).

Num quadro com as colunas ‘O mundo pensa que… / Mas os Estados Unidos pensam que…’, Petry mostra que não deveria se arriscar a falar por uma nação que ele desconhece, ou conhece apenas através do NY Times: … o eleito merece todo o entusiasmo de que é objeto, como é natural em qualquer eleitorado do mundo. Torcem para que Obama resolva os problemas (no kidding?), mas não há nenhum sinal (nem procissão, nem comoções públicas, nem pedidos de benção) de que o julguem portador de superpoderes… É de surpreender, então, que eleitores conservadores americanos tenham inventado os epítetos the Anointed One, the Chosen One etc. para Obama — certamente Petry não considera (mas sabe-se lá, né) desprezível a parcela conservadora do eleitorado americano.

É natural ver simplificações numa revista cujos artigos raramente ultrapassam as duas páginas; pode-se sempre falar em didatismo ou algo que o valha. Difícil de entender é que noções tão bobas — bobas até entre setores da esquerda americana, principalmente agora que já explodiram os primeiros escandândalos da era Obama — ocupem tanto espaço no semanário mais lido do país. Quando é na Veja o Reinaldo Azevedo não reclama…

O Papa Bento XVI é um “des-reformador” e como todos os conservadores, ele quer que tudo esteja igual, que não haja marolas, nem discordâncias, nem heresias. E aí comete gafes papais. O trecho é do Arnaldo Jabor. Segundo Jabor, melhor seria se o papa admitisse heresias; só assim pra evitar ‘gafes papais’. Um conselheiro assim é exatamente o que o Vaticano precisava.

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Por um Natal sem direitos

Natal e os chamados direitos humanos aparecem com frequência na mesma frase: todos têm direito a um Natal feliz, sem fome, sem frio etc. Fiquei pensando: por quanto tempo a humanidade pôde passar o Natal sem ouvir falar em direitos humanos? A Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, é de 1948. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, dos facinorosos franceses, é de 1789. A Declaração de Independência dos EUA é de 1776 e a Carta de Direitos inglesa é de 1689. Acho que não seria exagero concluir, então, que por pelo menos 1500 anos (dC) a idéia de que o ser humano já nasce com direito a isso ou àquilo soaria estranha aos ouvidos mais benevolentes. E, nada obstante, foi nesse período que inventaram o hospital e a universidade pública.

Acho que poucas coisas comprometem mais a felicidade que o pretenso direito à felicidade. Se me aparecem com um papel garantindo o meu direito à felicidade irrestrita, qualquer existência aquém de um paraíso na Terra vai me parecer uma tremenda usurpação. Os americanos foram mais modestos (e mais felizes) ao garantir apenas o direito à procura da felicidade, que aliás pode ser tão medonha quanto se queira.

A mania de garantir direitos a torto e a direito cairia por terra se se dessem ao trabalho de analisar o problema pelo outro lado, o dos deveres. Se eu tenho direito à felicidade, alguem tem o dever de concretizá-la e, fora o meu anjo da guarda, nunca ouvi falar de semelhante cargo. Pior que a impraticabilidade da idéia são as doses cavalares de ressentimento que ela inspira, o ressentimento que Nietzsche quis imputar justamente àqueles que se opunham a ela, os que inventaram a caridade não por dever (no sentido legal), mas por princípio.

Desejo um bom Natal a todos: não que vocês tenham direito a um bom Natal, mas porque desejo que assim seja.

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Ainda o Cristaldo ou A compartimentalização da inteligência

O Janer Cristaldo chega a níveis de idiotia que eu mesmo julgava improváveis. Ele se refere ao Reinaldo Azevedo como ‘recórter tucanopapista hidrófobo’ desde a polêmica da tradução do texto papal sobre a condição do divorciado dentro da Igreja Católica. A birra dessa vez (procure os textos no blog, aqui) é com um texto que Azevedo escreveu, para a última Veja, ‘tecendo loas ao stalinista’ Graciliano Ramos.

Confundir vida e obra de um autor é suficientemente constrangedor até pra quem não se diz jornalista. Cristaldo não é burro a esse ponto, e quem já leu dois ou três de seus textos (os que não tratam de religião!) sabe disso. Mas, alas, quando ele deixa de tratar de política e passa a tratar de religião, é como se Pelé deixasse de jogar pra comentar futebol, ou como se Stephen Hawking deixasse a física de lado pra bater uma bola (não que Cristaldo seja tão bom cronista político assim; o que vale é o contraste). Até aí nada de muito estranho; poderíamos supor bloqueio mental ou algo do tipo. O problema é que, quando se trata de religião, o bloqueio mental é generalizado.

Mas e daí?, esses últimos posts são sobre Graciliano Ramos, não sobre religião. Ocorre que o Cristaldo não consegue mais deixar o Azevedo em paz depois que o Azevedo defendeu o papa. Reitero: não fosse o fatídico episódio papal, Cristaldo continuaria mantendo o silêncio de sempre em relação ao colunista de Veja.

A compartimentalização da inteligência (alguém já deve ter inventado um termo melhor pra isso) é a capacidade que alguns têm de alocar zero de inteligência pra algumas áreas do conhecimento. Especialização não é bem sinônimo porque o especialista não precisar ignorar o complementar de sua especialização. Também não se trata de inépcia congênita: ninguém ficaria irritado com um sujeito que nasceu com péssimo senso de orientação, péssima visão espacial ou dificuldade pra decorar regras de ortografia; lida-se com essas dificuldades desapaixonadamente, como quem fecha um buraco num muro ou uma cárie num dente.

Por outro lado, que fazer de alguém que discorre razoavelmente sobre história e/ou política e/ou economia e/ou filosofia e desata a repetir asneiras quando o assunto é religião? Não são áreas tão desconexas assim; o bloqueio mental é antes psicológico que congênito. Pode ser também um preconceito elevado a teoria, um grão de ignorância que se aloja desgraçadamente no cérebro do indivíduo e que é pouco a pouco recoberto por camadas de desinformação, obtusidade e arrogância até se tornar um tumor purulento e malcheiroso. A imagem é nojenta: a realidade retratada também.

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Paranoia Darwiniensis

Há alguns assuntos que são verdadeiros destruidores de reputações: penso principalmente em aquecimento global e darwinismo. A essa altura, dos textos escritos sobre esses assuntos, 90% são bobagens e 9,9% obviedades. Só de vislumbrar os termos num artigo já tenho vontade de bocejar (se você descobriu uma espécie de formiga africana que confirma espetacularmente a teoria darwiniana, ótimo; se descobriu outra que a refuta com espetáculo comparável, ótimo também). Foi assim que me arrastei pelas páginas do excelente Darwinian Fairytales — Selfish Genes, Errors of Heredity, and Other Fables of Evolution, do filósofo australiano David Stove. Em vários momentos o livro se aproxima perigosamente (e Stove é o primeiro a reconhecê-lo) dos 9,9% mencionados acima. A verdade é que, não fosse a condição patológica referida no título desse post, livros como o de Stove não precisariam ser escritos.

Mas isso é dizer pouco: não fossem os cacoetes mentais X e Y, os livros A, B, C etc. também não precisariam ter sido escritos. O fato, por mais melancólico que seja reconhecê-lo, é que os cacoetes existem e prosperam num ritmo nada menos que estupefaciente. Não vou nem comentar os mais famosos (e antigos), cuja origem remonta ao próprio Darwin (ou, antes dele, Malthus), como a idéia de que uma população cresce indefinidamente se não lhe são impostas restrições de alimentação, ou aquela outra, mais absurda ainda, segundo a qual qualquer traço que não contribui para a propagação da espécie será dizimado cedo ou tarde. Não se pode argumentar ‘contra’ isso, pode-se apenas observar que a realidade, a humana pelo menos, nem se aproxima do modelo proposto. Essas idéias são tão ridículas que se você resolver apresentá-las a algum darwinista (isto é, alguém que se julga darwinista), a resposta mais provável será ‘ah, Darwin não acreditava nisso realmente‘, ou ‘ah, ninguém realmente acredita nisso’, o que nos obriga a colher citações do tipo Every single (!) organic being around us may be said to be striving to the utmost to increase in numbers ou [W]e may feel sure that any (!) variation in the least degree (!) injurious would be rigidly destroyed, ambas do A Origem das Espécies. Deixei o erro mais grotesco para o final: segundo Darwin, a seleção natural e a luta pela sobrevivência são de tal maneira furiosas que of the many individuals of any species (!) which are periodically born, but a small number can survive (também do Origem). Darwin teria mudado de idéia se tivesse visitado a maternidade do hospital mais próximo.

Nosso puppet-darwinista, perturbado com a evidência textual, passaria então para a próxima resposta-padrão, que consiste em dizer que Darwin acertou no geral e errou nos detalhes, e que os darwinistas atuais corrigiram oportunamente os deslizes do barbudo. Não só isso não é verdade como é o oposto da verdade: neodarwinistas, sociobiólogos etc. não se contentam com ratificar a ortodoxia darwiniana; insistem em extrapolá-la. As diferenças estão basicamente no nível de detalhamento: com as contribuições mendelianas à genética foi possível colocar os genes na jogada. Se antes era a sobrevivência e a reprodução da espécie, ou de um indivíduo da espécie, que guiavam a seleção natural, agora é a sobrevivência e a ‘reprodução’ dos genes que levam a responsabilidade. Nasce aí o gene egoísta de Richard Dawkins (que na realidade, segundo nos informa Stove, é idéia original de G. C. Williams).

Emprestei o livro para um colega no intervalo da aula e, lidas 25 páginas, o sujeito me volta com um ‘o autor é ignorante demais’, ignorante na acepção de brutal. Realmente Stove é implacável, e parece ter um prazer especial em espedaçar as teorias de Dawkins. Quem quer que leia um esboço da teoria do gene egoísta reconhece de imediato que se trata de um símile, que Dawkins não poderia acreditar que um gene possa ser dotado de atributos como inteligência, egoísmo etc. Nosso senso comum funciona perfeitamente aí; de fato, Dawkins afirma expressamente que se trata apenas de uma terminologia mais prática. Mas, a menos que Stove tenha forjado as citações que pinçou do The Selfish Gene, não há como acreditar nisso. Nós nos esforçamos para emprestar alguma sanidade ao Dawkins, mas o danado não colabora. Vejam só o que ele nos diz: [W]e are… robot-vehicles blindly programed to preserve the selfish molecules known as genes; [W]e are manipulated to ensure the survival of [our] genes; [T]he fundamental truth [is] that an organism is a tool of DNA; [L]iving organisms exist for the benefit of DNA. Edward Wilson, que de tanto observar insetos ficou tão maluco quanto Dawkins, afirma que [T]he individual organism is only the vehicle [of genes], part of an elaborate device to preserve and spread them… The organism is only DNA’s way of making more DNA.

Pergunta simples: seria possível manipular seres humanos sem ser mais inteligentes que eles? Eu manipulo furadeiras, lápis, latinhas de Coca-Cola etc. e, apesar de minhas evidentes limitações, não hesitaria em dizer que sou mais inteligente que todas essas coisas. Parece claro que, se Wilson e Dawkins estão certos, os genes não só são egoístas (na acepção usual da palavra) como são mais inteligentes que seres humanos! E nós achando que macacos e golfinhos eram os que mais se aproximavam, hem?

Stove declara logo no prefácio que não é religioso (e que não é cristão por considerar o cristianismo incompreensível, o que é apenas parcialmente verdadeiro). Como bom polemista que era, deve ter cansado de debater o assunto com gente até bem mais inteligente que Dawkins; não admira, então, que saiba reconhecer uma natureza religiosa assim que a encontra. O nono capítulo, ou ensaio, de seu livro é chamado A New Religion, a religião de Richard Dawkins e dos sociobiólogos em geral (segundo consta, a teoria do gene egoísta é consenso entre eles). Não é monoteísta porque os genes são muitos, mas ao menos são invisíveis como o Deus cristão. O impulso de resposibilizar uma entidade de inteligência infinitamente superior pelo andamento das coisas terrenas, algo que imaginávamos só ocorrer em algumas religiões, é traço característico também desses novos darwinistas, sociobiólogos ou darwinistas aloprados. O capítulo seria com muita probabilidade o melhor do livro, não fosse o sugestão, ainda que velada, de que a absurdidade desses últimos atesta absurdidade nas religiões de fato. A única desvantagem de uma boa imagem é que ela pode nos levar longe demais.

O livro de Stove não é de filosofia, a despeito da tag Philosophy/Sciense em seu verso. Em vez de falar em precedência ontológica pra rejeitar a idéia de que o gene pode ser mais inteligente que o humano, Stove se limita a uma argumentação que não exige muito da imaginação do mais ávido materialista. Trata-se do já bem familiar exercício de confrontar teoria e realidade física. Menos divertido, mas mais que suficiente.

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Disk Sto. Agostinho

Você está pensando em prestar um concorridíssimo exame de teologia na faculdade mais próxima (de que diabos estou falando?) ou simplesmente não quer passar vergonha perante aqueles que ainda se importam com o assunto? Disk Sto. Agostinho.

Escalopilda dos Santos, de Teresina, Piauí, quer saber se Deus também tem braços e pernas, um nariz e dois olhos etc., já que leu em sua Bíblia (aquela edição para ‘estudos femininos’ (?)) que o homem foi criado à imagem de Deus. Sto. Agostinho responde:

Não sabia que Deus é espírito e que não possui membros com medidas de comprimento e largura; nem é matéria, porque a matéria é menor em sua parte que no seu todo. Ainda que a matéria fosse infinita, seria menor em alguma de suas partes, limitada por certo espaço, do que na sua infinitude; nem se concentra inteira em qualquer parte, como o espírito, como Deus. Ignorava totalmente que princípio havia em nós, segundo o qual existimos, e por que se diz na Sagrada Escritura que fomos feitos à imagem de Deus.

Romerito José, de Orós, Ceará, ouviu dizer que o último papa se desculpou por não sei que atitude de um papa antigo e quer saber como isso pode, já que aprendeu da avó que a justiça divina é imutável e eterna. Sto. Agostinho responde:

Assim fazem aqueles que se irritam ao ouvir dizer que noutros tempos se permitia aos justos o que agora lhes é vedado, e que Deus deu ordens diversas segundo as circunstâncias de tempo, estando todos sujeitos à mesma justiça. Esses tais não vêem como, no mesmo dia, na mesma casa, o que convém a um membro não convém a outro, o que há pouco era permitido já não é agora; certos atos que eram lícitos e até prescritos aqui, agora são lá proibidos e punidos. Por acaso a justiça é desigual e mutável? Não, os tempos que ela preside não caminham da mesma forma, e justamente por isso se denominam tempos. Os homens — cuja vida terrana é breve — são incapazes de harmonizar as razões válidas em séculos passados e de outros povos, que escapam à sua experiência, com os dados que a própria experiência lhes fornece. Eu não conhecia, não percebia todas essas coisas.

Regina Casé, repórter da Globo e especialista em favelas, quer saber de onde vem o mal. Segundo Regina, os moradores da periferia são particularmente virtuosos e criativos, de maneira que os crimes da região representam para ela um grande enigma. Sto. Agostinho responde:

Vi claramente que as coisas corruptíveis são boas. Não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou se não fossem boas. Se fossem absolutamente boas, não seriam corruptíveis. E se não fossem boas, nada haveria o que corromper. A corrupção de fato é um mal, porém não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou — e isto é certo — tudo aquilo que se corrompe sofre uma diminuição de bem. Mas privadas de todo bem, deixariam inteiramente de existir. Mas haverá maior absurdo do que afirmar que as coisas se tornariam melhores perdendo todo o bem? Portanto, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas. E aquele mal, cuja origem eu procurava, não é uma substância. Porque, se fosse, seria um bem.

Disk Sto. Agostinho.

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"All differences of opinion are at bottom theological." Cardinal Manning (1808 - 1892)
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